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Category — Música

Wado e o “Terceiro Mundo Festivo”

Meu primeiro contato com “Terceiro Mundo Festivo”, quarto álbum do cantor e compositor Wado, se deu no final de agosto de 2006. Ainda acompanhado pelo grupo Realismo Fantástico, Wado se apresentou ao vivo no Studio SP, em São Paulo, tocando algumas canções novas e, principalmente, entortando as velhas com alfinetas de eletrônica que marcavam seu retorno aos samplers e beats via mpc. Em um bate papo na época ele avisava: “‘Terceiro Mundo Festivo’ trata do uso da eletrônica pelo terceiro mundo, de como as adversidades formularam uns métodos e sonoridades específicas”.

Após um longo período de gestação, mudanças de capitais – Wado saiu de São Paulo, foi para o Rio, montou o Fino Coletivo com um galera estilosa, deixou o grupo após o lançamento do bom CD homônimo e voltou para Maceió, onde reside novamente – e experimentações sonoras, “Terceiro Mundo Festivo” finalmente chega em formato MP3 com download gratuito no site do artista. “O disco é independente e poderá ser downloadeado sem restrições. Fora isso prensei (uma tiragem) em SMD, mídia que tem o preço final pro consumidor a R$ 5?, contou em papo com Lucas Santtana, que lançou um álbum também livre para download.

O download livre é algo que Wado vem defendendo já faz um bom tempo. Seus três álbuns anteriores (”Manifesto da Arte Periférica”, “Cinema Auditivo” e “A Farsa do Samba Nublado”) já estão liberados faz mais de dois anos. “Terceiro Mundo Festivo” se junta à esta discografia particular acrescentando ainda mais flagrantes do modo totalmente peculiar do compositor enxergar a música composta longe demais das capitais, manifesto das periferias de um imenso Brasil sem nome, lenço e nem documento, mas que respira música que, antigamente, nascia de batidinhas em caixinhas de fósforo, e agora surge em estúdios caseiros, com microfones baratos e pouco conhecimento técnico, mas com muita urgência, energia e gana.

Para adentrar ao território deste “Terceiro Mundo Festivo” é preciso se desamarrar de expectativas. “A Farsa do Samba Nublado”, álbum anterior, arranhava a perfeição amparado em sambas tortos, violão encharcado de wah-wah e muita melancolia. Quase não há violões presentes em “Terceiro Mundo Festivo” (o instrumento está lá no fundo, distante, escondido na mixagem). A estética sonora que Wado começara a apresentar desde aquele no show no Studio SP, em agosto de 2006, e que foi se adaptando e fortalecendo durante um ano e meio, é centrada em uma nova formação de banda com baixo, bateria, programações e teclados, mais um cello aqui, uma flauta transversal ali, para dar um charme.

O disco abre com “Pendurado”, faixa que fala sobre liberdade, destino e morte: “Olha ali sou eu, pendurado no fio desencapado do poste de alta tensão”, canta Wado sobre uma base de bateria seca, vocalizações femininas (Cris Braun, Jan Aline e Mirian Abs) e clima ensolarado. A liberdade volta a ser citada no delicioso samba eletrônico “Fortalece Aí”, que se ampara em Martinho da Vila e Rui Monteiro enquanto o refrão pede de forma urgente: “Fortalece Aí, meu coração, daquela força, meu coração”. Um cello pontua o final da canção de forma comovente.

Duas canções já vinham se destacando nas apresentações ao vivo de Wado de dois anos pra cá: a pornográfica “Teta” e a politizada “Reforma Agrária do Ar”. A primeira – do irresistível refrão: “Está guardado pra você amor… aceite, aceite / Está guardado pra você amor… o leite” – permanece sinuosa e dançante, com um q de funk carioca. Já “Reforma Agrária do Ar”, que versa sobre a concessão das rádios públicas, abre com uma voz atolada em efeitos, recupera o vocoder, tem clima de reggaeton no refrão empolgante e crava: “Grita pra acontecer, urge de urgência, assim irá prevalecer a reforma agrária do ar / É contra o artista mudo / é contra o ouvinte surdo / é contra o latifúndio das ondas do rádio”.

O samba torto – com inflexões afoxé e reggaeton – ainda inspira o romantismo de “Leva” (diz o refrão: “Eu canto e peço a todo santo: me leva onde você espera”), da ótima “Recado” (que abre provocando: “Ela adora me fazer chorar / Que palavras eu devo usar? / Uma que encaixe em seu quadril”) e a empolgante “Faz Me Rir”, uma das canções do álbum que mais remetem a coisas que Wado já fez anteriormente (e que soa como um híbrido da urgência de “Manifesto da Arte Periférica” com pitadas da melancolia de “A Farsa do Samba Nublado”).

Duas canções saltam aos ouvidos e batem forte no lado esquerdo do peito. “Melhor” traz um violoncelo jogando confetes sobre um mantra eletrônico de baixo, bateria e teclado. Na letra, o personagem tenta formar um novo eu que agrade ao seu par. “Eu quis mudar pra você ver / Que nem sempre é tão difícil a gente perceber / Se estou melhor, quem vai saber? / Se o que eu fiz foi para agradar você”. O refrão é algo que gruda na primeira audição e vai te acompanhar por dias a fio: “Olha meu novo sapato / Estou de fato tentando me adequar / ao seu cabelo, ao seu modelo”. Uma pérola pop.

Já “Fita Bruta” é uma daquelas canções que já nascem clássicas. Versa sobre os mecanismos da indústria (como se fosse uma “Cadê Teu Suin?”, do Los Hermanos, vista por outro ângulo) e aprofunda a crítica – de forma genérica – ao próprio autor, que se censura na hora da criação. Não à toa, usa palavrões e explicita formas de sedução necessárias para se sobreviver no showbusiness: “Ficamos na fita bruta que algum filho da puta decupou / Não entramos na comédia e é preciso fazer média com o maldito diretor / (…) Não entramos na novela, nem precisa acender vela que o roteiro já fechou / Me disseram que é uma bosta, mas que todo mundo gosta do mocinho sofredor / E esta é a maior censura, essa que não tem cura, que nasce dentro do autor”.

Quem vem acompanhando a carreira deste catarinense (de nascimento, alagoano de coração) não irá ficar surpreso com a qualidade de “Terceiro Mundo Festivo”. O disco soa como uma continuação de “Manifesto da Arte Periférica” – sem negar olhares para “Cinema Auditivo” e “A Farsa do Samba Nublado”, este último, principalmente, nas letras – e abre muitas possibilidades para a música brasileira, desde sua sonoridade bem resolvida (o disco foi todo gravado em Maceió) até sua forma de distribuição gratuita. Neste momento de transição pelo qual a indústria da música está passando, Wado resume de forma perfeita a situação: “Perdemos os talheres e voltamos a comer com as mãos. Temos de nos educar, pois assim fica feio. Acho que todo trabalho deve ser remunerado, e acredito que aos poucos isso vai se restabelecer” (aspas do papo do compositor com Lucas Santtana).

“Terceiro Mundo Festivo” – assim como os três álbuns anteriores do compositor – está liberado para download no endereço oficial de Wado e surge com o primeiro grande lançamento da música nacional em 2008. A Internet apagou as fronteiras existentes em mapas entre as grandes capitais mundiais, está derrubando a toda poderosa indústria da música (a tendência é que mais e mais discos cheguem ao público sem passar por grandes conglomerados de entretenimento) e, apesar dos poucos recursos, as novas tecnologias estão permitindo o lançamento de álbuns de qualidade fora dos grandes centros. Periferia, você sabe, é periferia em qualquer lugar. “Terceiro Mundo Festivo” respira o sol de Maceió, namora os blocos africanos de Salvador, seduz São Paulo e Rio de Janeiro e faz festa no coração de todas as capitanias hereditárias para além (e avante) do meridiano de Tordesilhas. É um disco de inspiração terceiro-mundista e vocação cosmopolita, como são os de M.I.A., Timbaland, De Leve, Ali e Vieux Farka Toure, entre muitos outros. A inteligência a favor da arte derrubando fronteiras. Desde já, um dos grandes discos nacionais de 2008.

fevereiro 11, 2008   No Comments

Fernanda Takai ao vivo em São Paulo

Estou sentado na primeira fila do charmoso teatro do Sesc Pinheiros. Ao meu lado, uma senhora que aparenta ter mais de 60 anos. Já passou da metade do show, e ela não abriu a boca para cantar nenhuma das canções, muitas delas hits do cancioneiro nacional. Ao final de “Insensatez”, porém, ela se vira para mim e lança a pergunta: “Todas essas músicas estão no CD?”. Respondo que sim, explicando que apenas as versões em inglês não entraram. “São muito boas”, diz ela encerrando o papo e voltando-se para o palco.

No palco, Fernanda Takai, a vocalista do Pato Fu (que fez questão de frisar que a banda é sua prioridade, é onde ela quer estar), apresenta as canções de seu excelente primeiro disco solo, “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, que reúne um repertório de canções interpretadas por Nara Leão. É a noite de estréia, e Fernanda está radiante e falante, saltitando entre o nervosismo do debute de uma turnê e a felicidade da recepção do público, que esgotou os ingressos para as duas apresentações. “A gente nunca sabe como será a noite de estréia, mas eu fiquei muito feliz quando soube que os ingressos estavam sendo bem vendidos… e bem esgotados”, comentou em certo momento.

A banda que a acompanha traz os Pato Fus Lulu Camargo (teclados) e John Ulhoa (”violão, guitarra, marido, bom pai”), mais Thiago Braga (baixista do LAB) e Mariá Portugal (bateria e zabumba, integrante das bandas Trash Pour 4 e Dona Zica). Mariá, por sinal, é um dos grandes destaques da formação. Baterista de “mão pesada”, a garota ataca seu kit mostrando versatilidade, indo dos extremos da delicadeza até as marcações mais pesadas (e são essas últimas que dão o tom de grande parte da apresentação).

O repertório apresenta as treze canções do álbum, mais algumas surpresas, “já que o disco é curtinho, tem pouco mais de 30 minutos”, explica a cantora. A produção é magnífica. A iluminação é extremamente delicada e as luzes flutuam dando charme ao espetáculo. Projeções estampam fotos de Fernanda na decoração do fundo de palco. E se levarmos em conta que o projeto tomou fôlego após Fernanda interpretar Nara em um desfile da grife de Ronaldo Fraga no SPFW, natural que ela esteja deslumbrante na noite de estréia (de preto, vestido, meias e sapatilhas).

Todo esse cuidado com a produção aconchega o repertório, que funciona a perfeição no palco. O show começa com de “Ta-Hi”, samba de Joubert de Carvalho (1930) gravado primeiramente por Carmen Miranda. Seguem-se “Luz Negra”, “Lindonéia” e “Diz Que Fui Por Aí” (uma das melhores do álbum e do show). A primeira canção “extra” foi “There Must Be an Angel (Playing with My Heart)”, do Eurythmics, totalmente no clima da noite. Após “Estrada do Sol”, Fernanda arremata: “Como apresentamos uma música do Tom Jobim com a Dolores Duran, agora a gente vai tocar uma música do Duran Duran”. Segue-se “Ordinary World” em versão fofa, fofa.

No show, Fernanda Takai amplia os acertos do álbum. O repertório junta muitas canções quase que de “domínio público”, cujas versões mais famosas já fizeram casa no imaginário popular. Porém, os ótimos arranjos de John e Lulu, somados a interpretação delicada e particular de Fernanda (e, no show, acrescidos da pontuação marcante da bateria de Mariá e do baixo estiloso de Thiago) conseguem transcender o passado, que ao invés de se transformar em obstáculo, acaba por servir como trampolim para o presente, explorando a musicalidade do quinteto.

“Com Açúcar, Com Afeto”, “Trevo de Quatro Folhas”, “Seja o Meu Céu” e “Odeon” rendem belos momentos na noite, que ainda traz versões para “Ben”, de Michael Jackson, “Esconda o Pranto Num Sorriso”, de Evaldo Braga, “O Divã”, de Roberto Carlos (excelente) e a contagiante “A Dança do Carimbó”, de Eliana Pittman. Ao final desta última, empolgada, a senhora que assiste ao show ao meu lado intima: “Ninguém levanta? Levanta e aplaude!”. Seguem-se mais de dois minutos de aplausos incessantes com todos de pé no teatro do Sesc Pinheiros coroando a estréia. Com grande parte do público dançando na frente do palco, “Kobune”, versão em japonês estilo Pizzicato Five de “O Barquinho”, fecha a noite em clima descontraído, e deixa a certeza que Fernanda Takai tem uma bela carreira solo pela frente.

fevereiro 9, 2008   No Comments

Ficamos na fita bruta…

“Terceiro Mundo Festivo”, quarto álbum de Wado, já pode ser baixado gratuitamente no endereço oficial do músico. Eu tenho muito o que falar sobre esse disco, mas enquanto eu tento me desamarrar das loucuras do dia-a-dia e ficar livre para escrever, que tal você ir lá e pegar “Terceiro Mundo Festivo”, que necessitou de uma audição e meia para tornar-se querido por aqui. Faixas como “Melhor”, “Fortalece Aí”, “Reforma Agrária do Ar” e a sensacional “Fita Bruta” estão no repeat aqui.

http://wado.com.br/

fevereiro 7, 2008   No Comments

Grito Rock 2008 amplia território

Enquanto Ivete Sangalo, Ana Carolina, Kid Abelha e Jota Quest lideram as paradas de sucesso em todo o país, uma geração de novos artistas batalha fora da grande mídia apostando em trabalhos autorais. A grande diferença de outros tempos é que, agora, não há uma região especifica fomentando esse cenário, mas sim todo o Brasil, do Acre até Porto Alegre, passando por Goiânia, Cuiabá, Porto Velho e dezenas de outras cidades que, juntas, vão integrar o segundo Grito Rock Nacional. Ou melhor: o primeiro Grito Rock América do Sul, já que Argentina, Uruguai e Bolívia integram a versão 2008 do projeto.

Exatamente no meio de carnaval, um exército de bandas estará empunhando instrumentos em 44 cidades brasileiras e três estrangeiras (Montevidéu, Buenos Aires e Santa Cruz de La Sierra) exibindo uma organização que impressiona e, sobretudo, abre novas possibilidades para a música brasileira. Foi se o tempo em que as bandas surgiam imaginando vender milhões de discos, sonhavam em aparecer no Faustão e pensavam em tocar nas rádios AM e FM. O cenário mudou radicalmente, e as perspectivas precisaram ser revistas.

“Esse mercado médio já esqueceu do Faustão faz tempo”, diz Pablo Capilé, responsável pela área de planejamento do Espaço Cubo, produtora que organiza o Festival Calango, em Cuiabá, e que apostou na articulação nacional dos festivais independentes. “Esse novo modelo de negócio na música está formando os circuitos médios, que dão autonomia para as bandas e a possibilidade de investir em um novo modelo de carreira”, explica em conversa por MSN. Para Capilé, um novo cenário está se formando fortalecido por festivais, associações, casas de shows e, claro, boas bandas.

De certa forma, essa visão é avalizada pela votação de Melhores do Ano do site independente Scream and Yell, que reuniu 91 pessoas que lidam com cultura (prioritariamente música) no país e apontou nomes como Vanguart (Cuiabá), Terminal Guadalupe (Curitiba), Hurtmold (São Paulo), Violins (Goiânia) e Superguidis (Porto Alegre) entre os nomes de maior destaque em 2007. O fato – interessante – é que nenhum destes cinco nomes frequenta o Top 100 das paradas de sucesso que abre esse texto.

Isso poderia ser um problema alguns anos atrás, quando o cenário independente não se sustentava, quando as bandas não conseguiam espaço para tocar, quando alguns festivais lutavam bravamente (e isoladamente) em lugares longínquos como Goiânia e Recife. Agora a história é outra e o Grito Rock 2008 tem um papel fundamental nessa movimentação. No meio do carnaval, 44 cidades brasileiras vão abrigar festivais independentes de música. A lista completa pode ser conferida no site oficial do evento. Abaixo, Pablo Capilé conta mais novidades sobre o projeto, fala da movimentação no circuito independente e afirma: “A tendência é que tudo isso cresça cada vez mais”.

Grito Rock 2008. Esse já é o segundo ou o terceiro? Ou perdi os outros?

Na verdade este é o sexto em Cuiabá, e o segundo realizado em parceria com o Circuito Fora do Eixo, cuja ação inclui dezenas de cidades.

Como se deu esse contato e formou-se essa rede que engloba praticamente o país inteiro?

Na verdade, começamos o Grito aqui em Cuiabá em 2003, e nos anos seguintes demos continuidade a ação sempre a ampliando. Em 2003 foi um dia somente; 2004 dois dias; 2005 três dias; 2006 quatro dias, e 2007 e 2008 cinco dias. Em 2005 começou a surgir uma movimentação bem bacana na cena independente nacional, pautada principalmente no associativismo, e como conseqüência disso nasceram o Circuito Fora do Eixo e a Abrafin, Associação Brasileira dos Festivais Independentes. O Circuito Fora do Eixo consistia em integrar cidades distantes do eixo tradicional de produção fonográfica, potencializando assim a circulação de bandas e produtores, a distribuição de produtos e a produção de conteúdo. Com isso, em 2006 fizemos a primeira reunião do Circuito Fora do Eixo, justamente no Grito Rock Cuiabá, e nesta reunião foi elaborado o planejamento estratégico do circuito e definidas as primeiras ações. Para começar trabalhamos para que as bandas e os produtores circulassem mais, fazendo com que bandas do Acre tocassem em outros estados, bandas cuiabanas, rondonienses, belenenses, goianas, uberlandenses e etc… E durante o ano fizemos várias delas circularem, dai surgem bandas como o Vanguart, o Los Porongas, o Madame Saatan, o Macaco Bong, o Porcas Borboletas, bandas que começaram a despontar após o surgimento do Circuito e da premissa de circulação.

E isso resultou em um Grito Rock nacional no ano passado. Quais foram os números de 2007 e como está indo a coisa toda pra esse ano?

A união de tudo isso resultou no Grito do ano passado, onde 20 cidades que já participavam do circuito organizaram em conjunto o Grito Rock Brasil 2007. Em 2007, 20 cidades realizaram a ação, 300 bandas se apresentaram, 150 mil panfletos foram distribuídos, 20 equipes de sonorização contratadas, 500 seguranças, 130 vídeos produzidos, turnês realizadas, e mais de 50 mil pessoas acompanharam o evento. Além disso, o evento gerou quase R$ 2 milhões de mídia espontânea, já que além das mídias independentes, as mídias tradicionais também publicaram bastante, revistas de grande circulação. Todas as cidades conseguiram grandes matérias em jornais locais. Tudo isso chancelou o evento a tal ponto que conseguimos dobrar o numero de cidades para 2008, e incluir também outros países da América do Sul.

Quantas cidades já confirmaram para este ano?

47. 44 brasileiras e 3 gringas, sendo que no sul, norte, sudeste e centro oeste todos os estados estarão participando. No nordeste saímos de um estado em 2007 para 4 em 2008. O nordeste, devido a distância, está sendo o mais difícil de se consolidar a integração.

Três gringas? Estamos ultrapassando fronteiras?

Sim, estamos. Grito Rock Montevidéu, Grito Rock Buenos Aires e Grito Rock Santa Cruz de la Sierra. Seguindo também uma das premissas do Circuito e da Abrafin de articulação com os paises sul-americanos.

O legal é que isso abre portas para as bandas brasileiras nestes países…

Sem dúvida, e duas delas estarão se apresentando, Autoramas em Montevidéu e Macaco Bong em Buenos Aires.

Como alguém faz para colocar a sua cidade no Grito Rock? Quais os passos?

O Grito Rock funciona como um software livre: temos um código fonte em Cuiabá e esse código é readaptado por outras cidades conforme as realidades locais. O primeiro passo é a participação no Circuito Fora do Eixo, e depois disso cada cidade apresenta uma proposta de organização do evento que passa pelo conselho gestor do circuito e em dois dias a resposta é dada.

De um cara que tem experiência no negócio, como é montar um festival?

Festivais são o topo da cadeia produtiva das cenas locais, então precisamos nos ater sempre a diversos fatores, a começar por um bom planejamento, baseado em uma planilha de custos muito bem amarrada e interligada ao conceito do evento, sem falar na inter-relação com a iniciativa privada e com o poder publico, sempre na busca de alcançar a excelência de produção. Além das questões estruturais é sempre muito prazeroso trabalhar e montar a grade de programações e acompanhar a interface com o publico, que é a grande força motriz dessa história toda. E hoje, com a Abrafin, os festivais ganham ainda mais força, ampliando seu leque de atuação, e se estabelecendo definitivamente como a nova cara da música brasileira.

Como você analisa essa movimentação toda no cenário independente?

Estamos vivendo um momento muitíssimo promissor no cenário independente nacional, com festivais se consolidando, casas de shows surgindo, mídias independentes cada vez mais acessadas, bandas rodando o país e consolidando uma carreira, lançando CDs, recebendo cachês honestos, etc… Visualizando assim a efetivação de um mercado médio, onde o sucesso é pagar as contas e o artista é igual pedreiro, auto-produtor, gerente da sua carreira. A iniciativa privada tem investido cada vez mais, o poder público idem, e os produtores tem trocado tecnologia e se qualificado cada vez mais nesse mercado.

O fortalecimento dessa cena (e o Grito Rock é vital nisso) abre novas possibilidades para a música independente nacional. Olhamos a parada de sucessos e não vemos nada interessante. Você não acha que está na hora de esquecermos a ilusão das grandes gravadoras, de aparecer no Domingão no Faustão, de vender milhões de discos, e nos voltarmos para a nossa realidade, trabalharmos na construção de um circuito?

Cara, mas esse é o x da questão. Esse mercado médio já esqueceu do Faustão faz tempo. Ninguém mais tem como meta vender esses milhões e estourar nas paradas de sucesso das rádios jabás. Esse é o grande diferencial. Esse novo modelo de negócio na música está formando os circuitos médios, que dão autonomia para as bandas e a possibilidade de investir em um novo modelo de carreira. Lançando CDs todos os anos, tocando em festivais, e depois voltando para tocar nas casas de shows e em eventos menores. Tocando em web-radios, se divulgando nas mídias independentes. Tudo isso já é um mercado em franca ascensão e não dá mais pra não ser notado. Alguns festivais já tem orçamentos de mais de um milhão de reais. Só na Abrafin somos 30 festivais que fazem girar alguns milhões de reais por ano, sem falar nos outros elos desse mercado. Esta sendo lançada agora também uma associação brasileira de casas de shows, que já conta inicialmente com 10 casas, e que pretende incluir mais uma dezena de casas ate o fim do ano.

Muito boa essa notícia das casas de shows!

Temos também uma série de sites e blogs muito acessados, o Scream & Yell é um bom exemplo, o Senhor F, o Futuro da Música, e mais um montão que acessamos diariamente e que tem formado opinião de produtores, bandas e também do público. Além disso temos uma série de bandas despontando: Vanguart, Macaco Bong, Los Porongas, Superguidis, Trilobit, Madame Saatan, Porcas Borboletas, entre outras. Elas surgem dessa nova lógica e ocupam cada vez mais espaços no cenário. Não está vendendo milhões porque a lógica da grande indústria já esta falida, e os caras estão perdidinhos, sem saber como reverter esse quadro. Então veja bem: Associação brasileira de festivais, associação brasileira de casas de shows, mídias independentes, selos independentes, isso tudo vai formando a coluna dorsal desse circuito, e isso é um fato.

Exatamente!

Não tem ninguém aqui com discurso pseudo-socialista nem nada. Estamos apenas trabalhando por um mercado que é mais compatível com a nova realidade da música no país, e que se baseie em suportes construídos localmente, que quando integrados nacionalmente se transformam em uma cadeia produtiva muito promissora. Que se baseia na economia solidária, nas trocas solidárias, na democratização do acesso, na relação com o poder público e com a iniciativa privada, com a desmistificação do mito do artista em prol da autogestão de uma carreira, algo que já acontece em outros países e que cada vez mais toma forma no Brasil. Há algum tempo atrás a cena de Cuiabá não existia no mapa. Hoje tem produzido algumas das boas idéias e de boas bandas do país, o Acre a mesma coisa, Belém a mesma coisa, Goiânia nem se fala, Londrina, Uberlândia, estados do nordeste, e tudo isso proporcionado pelo estimulo que a organização de um mercado médio traz para todos os envolvidos. Para você ter uma idéia, todas as capitais do país hoje em dia possuem coletivos altamente produtivos que organizam dezenas de eventos anuais além dos grandes festivais, e que também tem seus selos, suas casas de shows, seus blogs e sites, se relacionam com o poder público, organizam turnês e etc…

Então é possível vislumbrar que uma banda consiga sobreviver de música sem estar na grande mídia. Caminhamos pra isso, não?

Sem sombra de dúvida: é possível. Algumas já conseguem sobreviver nessa lógica, e o Autoramas é um belo exemplo, o Vanguart outro, o Los Porongas outro. Já tem uma galera sobrevivendo única e exclusivamente da música, e a tendência é que isso cresça cada vez mais. Das centenas de bandas que estão no circuito poucas já sobrevivem só da música, mas isso é normal, o crescimento tem sido gradativo. E esse número vai aumentar cada vez mais. Tomemos os festivais como exemplo: alguns deles já são organizados faz mais de 10 anos, e com a criação da Abrafin, todos tem conseguido parcerias que auxiliam na estruturação destes eventos, tem cervejarias bancando todo o calendário, e a Petrobras acaba de lançar um edital para apoio aos festivais. Isso faz com que novos festivais comecem a surgir também estimulados pelo case de sucesso dos anteriores. E com as bandas não está sendo diferente. Muitas delas tem se dedicado cada vez mais a carreira e isso é o passo fundamental para sobreviver da música, entender a nova realidade e saber investir estrategicamente em todos os elos da cadeia produtiva. A mesma coisa com as casas de shows, o sucesso de uma estimula o surgimento de outra e só esse ano várias cidades já estão planejando o lançamento de suas casas. A tendência é que tudo isso cresça cada vez mais.

janeiro 30, 2008   No Comments

Jonas Sá e a nova música pop brasileira

Arnaldo Antunes e Jorge Mautner escreveram textos elogiosos a seu respeito. Toda a jovem galera que anda batalhando para transformar a nova MPB em algo maior está envolvida neste projeto, gente da Orquestra Imperial (inclua-se os ex-Los Hermanos Rodrigo Amarante e Bubu), do trio +2 (Domenico e Moreno), do novíssimo e já badalado DoAmor (formado por dois terços da banda que acompanhou Caetano Veloso no elogiado “Cê”), e nomes respeitados como Lucas Santtana, Rubinho Jacobina e Thalma de Freitas. Como diria um amigo, Jonas Sá não é bolinho não.

“Anormal”, seu álbum de estréia, chega cercado de expectativas, seja pela longa lista de amigos que participa do álbum, pelos elogios de famosos ou por estar sendo bancado por um novo projeto de uma gravadora com portas abertas na TV Globo. Tudo isso poderia não servir para nada se Jonas Sá não tivesse jeito pra coisa toda, mas “Anormal”, um álbum feito ao longo de seis anos, necessita apenas de uma audição para exibir seu frescor pop que pode contaminar milhares de pessoas ao redor desse imenso Brasil.

No entanto, vários parênteses precisam ser abertos para explicar algumas coisas que ficaram semi-explicitas nos dois parágrafos anteriores, e que podem levar a conclusões apressadas e confusas. O primeiro ponto é que esta nova MPB chega cheia de novas idéias que ousam ultrapassar fronteiras. Desta forma, “Anormal” é tão Jorge Ben quanto é Beck; é tão Cassiano quanto Talking Heads; é tão Lulu Santos quanto Of Montreal. É Brasil, mas é internacional. E ao juntar MPB com rock e outros suingues e barulhos, “Anormal” soa pop da melhor qualidade, um disco para agradar ao Zé da esquina e ao DJ antenado da balada mais bacana.

O apuro técnico da produção e da mixagem impressionam. Todos os sons do disco transbordam pelas caixas de som com uma clareza raramente vista do lado debaixo do Equador, o que torna imprescindível sua audição via fones de ouvido. Teclados, metais, cordas, vozes, bateria, percussões, baixo, guitarras, muitas guitarras (acústica, slide, noise, aquática, fuzz, pica pau, etc…), banjo, barulhinhos: todos os sons – embaralhados de forma coesa nos bons arranjos – são jogados no colo do ouvinte, para seu deleite. Em poucos discos no Brasil o som soa tão cristalino – e tão bem gravado/mixado – quanto em “Anormal”.

A faixa título, que abre o CD, é um bom exemplo. A linha de baixo disputa a atenção do ouvinte com a voz. O violão preenche o ambiente enquanto mais de seis guitarras diferentes pontuam o arranjo durante os três minutos e meio da canção. Isso sem falar no banjo, na viola, nos violinos, nos violoncellos, nos teclados Rhodes e no moog. Essa proliferação de instrumentos e sons pode parecer grandiloqüente, mas, acredite, resulta numa mistura perfeita que gruda na cabeça, impressiona e serve como excelente entrada para o mundo de Jonas Sá. Ele canta: “Todo mundo pensa que ele é anormal / Com as suas plumas e seu chapéu fenomenal”. Para o final da canção, uma tempestade de barulho que pode derrubar paredes.

Há em Jonas Sá uma paixão pela esquisitice. Apesar de soar pop, suas canções não trazem versos fáceis como, por exemplo, os de Lulu Santos. A parte final de “Tenha Um Bom Dia” é puro chiclete, mas antes Jonas dispara: “Vá viver sua vida, vá à merda”. A próxima, “Sayonara” é sensacional, muito por mérito do diálogo perfeito das guitarras com o baixo e de seu refrão totalmente excêntrico: “Então… você não vai tentar fazer essa ginástica diária de loucura, não”. A baladinha com sotaque soul “Real Love, Real Player”, apesar do título em inglês, é toda cantada em português. Mas duas canções do álbum são apresentadas na língua de Stevie Wonder: “Looking For Joy” (com a voz à frente e batidinha de samba) e “Behind My Mind”. A estranheza de “Melhor Assim” é uma vozinha distorcida ali pelo meio. “Vs (Versus)” ultrapassa os cinco minutos. “Comunicação” lembra Blur. “Mega” e “Entre Nós 2? tem trechos que navegam nas águas de Tim Maia. E todas elas poderiam tocar na novela das oito, no Domingão do Faustão e serem sucessos em rádio.

É aqui que entra o Som Livre Apresenta, projeto criado pelo atual presidente da Som Livre, Leo Ganem, que pretende apostar em artistas novos com trabalhos autorais, aproximando-os da caixinha que diverte enquanto emburrece. A notícia é boa. Como o mercado nacional está completamente falido, como as paradas de sucesso não abrem espaço para o novo e o diferente, como as rádios estão viciadas em uma programação repetitiva e desinspiradora/desesperadora (se você ligar o rádio agora irá ouvir em alguma estação “Sweet Child O´Mine”), um espaço como o Som Livre Apresenta é bem-vindo e pode significar uma guinada na história da música popular brasileira.

Porém, você sabe, de boas idéias o inferno está cheio. A vitalidade da cena abarcada no primeiro parágrafo deste texto (e também do novo rock nacional encabeçado por Superguidis, Violins, Vanguart e Terminal Guadalupe, entre outros) não deve ficar refém da tentativa de alcançar as paradas de sucesso. A alternativa, talvez, seja optar pelo contrário: mostrar o quão irrelevante é o Top Ten brasileiro. Sinais disso já podem ser percebidos aqui e ali. Seja nos festivais independentes que reúnem centenas de bandas por todo o país. Seja a Orquestra Imperial lotando shows sem um décimo da exposição na mídia que ganha uma Ivete Sangalo. Seja o Vanguart tendo seu hit independente, “Semáforo”, sendo reconhecido em uma casa lotada nos primeiros segundos da bateria.

Jonas Sá chega para reforçar o time (como um centroavante com sede de bola) de jovens talentos fora da grande mídia. “Anormal” é um golaço que pode significar o começo de uma grande virada na música popular brasileira. Agora, a bola está com você, caro leitor. Divirta-se e chute com força. Ok, ok, sem futebolismos: ouça no volume máximo. E danem-se as paradas de sucesso.

janeiro 28, 2008   No Comments

Um rastro de sambas antigos

“Na flauta, Maionese”, aplausos ecoam no teatro. “Maionese, me empresta aquela flauta, a menor. Então, quando eu era menino, eu subia na laje e tocava uma flauta do tamanho dessa”. O público gargalha com a metáfora ilícita. “É sério. Eu ficava lá horas tocando flauta e tal, não tinha tantas teclas como essa, mas era uma flautona. A mãe gritava, ‘Luiz, desce da laje’. Eu descia e já escrevia umas quatro músicas. Hoje em dia eu não faço mais isso. No máximo, uma cervejinha. E olhe lá”.

Nada mais perfeito para começar a verbalizar o show “Estação Melodia” do que a história contada pelo próprio músico durante o show que encerrou sua temporada no Sesc Pompéia. “Estação Melodia”, o disco, quebra um hiato de dez anos de Luiz Melodia em estúdio. Seu álbum anterior, “14 Quilates”, data de 1997. De lá pra cá, apenas um disco acústico (1999) e um ao vivo com convidados (2003).

Para esta volta ao estúdio, Luiz Melodia (sem tocar flauta) deixou seu dom de bom compositor de lado e investiu em um repertório de sambas antigos (coisas dos anos 30, 40 e 50). “Estação Melodia”, o show, como não poderia deixar de ser, é uma verdadeira roda de samba: cercado por oito músicos, Melodia interpreta canções de Noel Rosa, Jamelão, Geraldo Pereira e Cartola, entre outros. E amplia o leque enxertando Chico Buarque, Vinicius, Zé Kéti e, claro, Luiz Melodia.

Assim, sambas empolgantes como “Eu Agora Sou Feliz”, de Jamelão e Mestre Gato, e “O Neguinho e a Senhorita”, de Noel Rosa e Abelardo da Silva, caem como uma luva na voz encharcada de malandragem de Melodia. Na segunda, inclusive, ele faz questão de abrir os botões da camisa e acariciar a pele enquanto canta: “A Madame tem preconceito de cor / Mas não pôde evitar esse amor / Senhorita foi morar lá na Colina / Com o Neguinho que é compósito”.

“Gente Humilde”, com o octeto reduzido a um trio com violão, viola e cavaquinho, soa ainda mais arrepiante do que já é. “Diz Que Fui Por Ai” (que ficou de fora de “Estação Melodia” assim como a parceria de Vinicius, Chico e Garoto) e “Tive Sim” (de Cartola) reluziam a ouro em versões impecáveis, e só ficaram atrás da dobradinha “Estácio, Holly Estácio” e “Estácio, Eu e Você”, que surgiram simplesmente acachapantes. O solo de cavaquinho na última teve o dom de marejar os olhos.

Para o final, Luiz Melodia reservou um samba de seu pai, Oswaldo Melodia. “Linda Tereza” transforma o show em um grande baile de samba. O trio de metais abandona os instrumentos e assume repique, reco e reco e pandeiro. Aos poucos, os violões são abandonados e tudo vira uma grande batucada com Luiz Melodia comandando a farra. Ele chama pessoas para o palco, que lota, e só para de cantar quando já está dentro do camarim, deixando para trás um rastro de sambas antigos e a felicidade estampada na face do público.

janeiro 28, 2008   No Comments

Come, let me sing into your ear

“Those Dancing Days Are Gone”, de Carla Bruni
Poem: William Butler Yeats – Music: Carla Bruni

Featuring Lou Reed version

Come, let me sing into your ear;
Those dancing days are gone,
All that silk and satin gear;
Crouch upon a stone,
Wrapping that foul body up
In as foul a rag:
I carry the sun in a golden cup.
The moon in a silver bag.

Curse as you may I sing it through;
What matter if the knave
That the most could pleasure you,
The children that he gave,
Are somewhere sleeping like a top
Under a marble flag?
I carry the sun in a golden cup.
The moon in a silver bag.

I thought it out this very day.
Noon upon the clock,
A man may put pretence away
Who leans upon a stick,
May sing, and sing until he drop,
Whether to maid or hag:
I carry the sun in a golden cup,
The moon in a silver bag.

janeiro 24, 2008   No Comments

A melhor “scottish band” do momento

O ano de 2008 começa a toda e a melhor notícia pop vem da Escócia (e não é a volta aos estúdios do Jesus and Mary Chain). “This Gift”, segundo álbum dos Sons and Daughters, consegue o que parecia ser impossível: soar melhor que a brilhante estréia com “The Repulsion Box”, lançado em 2005 (que ganhou edição nacional pela Trama). O nível alcançado pelo quarteto (comandado pela voz forte e cativante de Adele Bethel) surge da exploração de extremos. “This Gift” é mais visceral e, ao mesmo tempo, mais pop que “The Repulsion Box”. Da contradição surge um álbum poderoso.

A primeira grande mudança entre o primeiro e o segundo álbum surge no modus operandi do quarteto. No verão de 2006, Adele Bethel (vocais, guitarra e piano), David Gow (bateria e percussão), Ailidh Lennon (baixo e piano) e Scott Paterson (vocais e guitarra) se mudaram para a vila de Adfern, na costa oeste da Escócia, e se desligaram de tudo. Sem televisão, sem telefones, mas com filmes antigos e discos idem, o quarteto começou a trabalhar nas canções que iriam compor “This Gift”. Após inúmeras audições de Smiths, a banda decidiu tomar um rumo diferente da estréia a partir do produtor: sai Victor Van Vugt (que havia produzido o álbum de estréia e trabalhado com PJ Harvey e Nick Cave) e entra Bernard Butler, ex-guitarrista do Suede.

A troca de produtor foi fundamental na formação do som que o quarteto buscava, mas isso não quer dizer que “This Gift” rompe com “The Repulsion Box”. Há, ainda, melancolia, drama, uma nuvem negra que parece pairar sobre o horizonte de cada canção. Esse pseudo darkismo natural caminha de mãos dadas com a paixão do grupo pelas girl groups dos anos sessenta, e o resultado é um som mais forte, focado e condensado que, por exemplo, o do Raveonettes, que parte da mesma premissa, mas se vê encurralado em uma reverência assustadora (ao Jesus and Mary Chain e a Phil Spector).

Se “The Repulsion Box” e, principalmente, o EP “Love The Cup” (2004) soavam como folk-punk-blues, “This Gift” é folk-punk-pop para as massas. “Gilt Complex”, primeiro single, traz uma guitarra empolgante na abertura, um riff de baixo acachapante e Adele cantando uma letra inspirada em “A Bela Adormecida” e na obsessão pela vida das celebridades. É uma daquelas porradas que salvam a pista em uma noite em que tudo está dando errado. “Split Lips” traz um violão Gibson de 12 cordas na abertura, e não precisa de mais de 30 segundos para conquistar o seu coração. Na letra, um cara perde sua garota, e tenta encontra-la.

“The Nest” serve-se de uma batida de bateria lenta, cheia e sincopada para imaginar o que poderia ter acontecido com o personagem principal do curta-metragem “Cathy Come Home” (1966), de Ken Loach. “Rebel With The Ghost” é uma das grandes surpresas do álbum e lembra… Cardigans. É pop para dançar com os braços levantados. “Chains” segue na linha da faixa anterior, praticamente mantendo a melodia do refrão, mas com um intervalo cantado por Scott Paterson que lembra algo que pode ser Smiths, Blur ou Soup Dragons. “This Gift”, a música, retorna ao território demente de “The Repulsion Box” inspirada em Sylvia Plath e Ted Hughes.

O segundo single de “This Gift” é “Darling”, uma faixa que traz Adele testando novas modulações vocais sobre uma batida empolgante cuja letra procura fazer uma conexão entre a personagem de Julie Christie no filme homônimo e as esposas de jogadores de futebol de hoje em dia que querem a fama a qualquer preço. “Flags” é punk e direta com o baixo tomando o espaço da guitarra. “Iodine” é dolorida, fala sobre alguém que quer morrer, e seu título é inspirado no iodo, remédio usado para limpar feridas de auto-mutilação. “The Bell” joga o ouvinte dentro de um relacionamento sufocante enquanto a poderosa “House In My Head” surge inspirada em um poema de Emily Dickinson e “Goodbye Service”, faixa derradeira, reflete o filme “O Mundo Fabuloso de Billy Liar” (1963), de John Schlesinger (que também dirigiu “Darling”) e tudo que fica após a morte de um relacionamento.

Enquanto os integrantes do Franz Ferdinand compõe calmamente o terceiro álbum e o Jesus and Mary Chain se prepara para uma turnê de reunião que deve render um álbum de inéditas, as duas garotas e os dois garotos do Sons and Daughters pedem a sua atenção e podem ser encarados como os escoceses mais badalados do momento. Apesar de ganhar às lojas oficialmente apenas no dia 28 de janeiro, “This Gift” já caiu na Internet e tem como termômetro a boa recepção de seus dois singles: “Gilt Complex” bateu na terceira posição e “Darling” estreou nesta semana na quarta posição do chart indie da parada britânica. Pelo que mostram neste álbum, o Sons and Daughters merece estar entre as grandes bandas escocesas. Se alguma delas bobear (tipo o Franz Ferdinand, já que da cartola do Belle and Sebastian não devem sair mais coelhos), Adele e seus comparsas podem ser alçados a bola da vez e tomados como a principal scottish band da atualidade. “This Gift” pode conseguer isso. Fácil.

janeiro 21, 2008   No Comments

José González: entre o psycho e o candy

Num quarto de hotel em Santo Antonio, Texas, um rapaz negro dedilha seu violão. Na sala, dois homens brancos de mais idade preparam-se para gravar o som que vem do quarto através de um fio. Assim que a sessão começa, eles se olham e confabulam: “Tem mais alguém no quarto com ele? Como é que ele consegue fazer o acompanhamento e o solo ao mesmo tempo?” O rapaz se chamava Robert Johnson, e como ele conseguia fazer isso, bem, ele conseguia.

É em Robert Johnson que penso quando vejo José González tocar suas canções que falam de amor e religião. Não, José González não toca blues, mas está muito próximo de Robert Johnson pela extrema destreza que exibe ao tocar um simples violão de seis cordas. González é muito mais Nick Drake, João Gilberto e Ellioth Smith em conceito, mas na prática ele faz ressurgir, a cada apresentação, a aura mágica do som que aquele rapaz de 25 anos tirou de seu violão em um quarto de um hotel de segunda categoria no Texas, em 1936.

Essa proximidade acontece, principalmente, quando José apresenta canções como “Crosses”, do álbum de estréia, “Veneer” (2003), e, principalmente “Down the Line”, do recém-lançado “In Our Nature”. Você fecha os olhos e ouve duas, até três linhas harmônicas, e fica pensando em como ele consegue tirar esse som, como ele consegue fazer acompanhamento e solo ao mesmo tempo. É uma experiência e tanto ver José González ao vivo.

Em sua segunda passagem pelo Brasil em seis meses, o músico sueco (pero, de família argentina) fez uma apresentação igualzinha a primeira. Sim, havia músicas diferentes no repertório. No primeiro show, em julho, a base foi seu debute além de algumas músicas inéditas e as famosas covers. Agora, aquelas faixas inéditas já são um álbum, mas mesmo engordando o repertório, as covers continuam lá, para felicidade do público. E as novas canções mantém a poesia, o silêncio, a reverência pela melodia que leva o violonista a estender a canção pelo simples prazer de continuar ouvindo o som.

Há, também, um avanço na perda da timidez. Na passagem anterior, José fez um pocket show na Livraria da Vila, em São Paulo. Antes do show começar, o músico podia ser visto circulando pelo recinto, olhando CDs, folheando livros, sempre cabisbaixo, fugindo de um confronto. Agora, José se dá ao luxo de entrar para o bis, com grande parte do público em pé no teatro do Sesc Vila Mariana, brincando com seu português canhestro: “Agorah, sóóh as pupuzudas”.

O show permanece impecável como um todo. “Hints”, com seu arpejo sublime, é avassaladora. A cover de “Heartbeats”, original The Knife, virou marca registrada José González: a melodia das notas do violão se misturando na atmosfera com as sílabas soltas pela boca, todas na mesma altura disputando a atenção da audiência. “Cycling Triviliaties”, em uma versão mais enxuta que a do álbum “In Our Nature”, ganhou um bonito sampler de um trompete.

Em “Abram”, José lembrou a temática central do novo álbum, com canções inspiradas no livro “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins: “Dizem que existem um, dois, vários deuses. Essa canção fala sobre isso”, explicou. A arrebatadora versão de “Teardrop” encerrou a apresentação de forma digna: sozinho, González consegue manter intocável a beleza do original do Massive Attack (com Liz Fraser, do Cocteau Twins, nos vocais).

No bis, “Deadweight On Velveteen”, com sua modulação arrastada, seu dedilhado crescente e o formato “acompanhamento e solo” que tanto impressiona. Para fechar, “Love Will Tear Us Apart”, clássico do Joy Division cantado no limite extremo entre a doçura e a violência, entre o psycho e o candy, entre a delicadeza da voz e o barulho arranhado do violão. Uma grande versão, um belo show.

janeiro 20, 2008   No Comments

Pink Floyd, Classic Albums Collection

O do Nirvava (”Nevermind”) é bem mezzo; o do Metallica (”Black Album”) é um pouquinho melhor, mas nada espetacular; já o do Sex Pistols (”Nevermind The Bollocks”) é muuuuito divertido; eu esperava mais do Classic Albums do The Who (””Who’s Next”), mas ainda assim tem bons momentos; o do Elton John (”Goodbye Yellow Brick Road”) é bem bacana; o do U2 (”The Joshua Tree”) é excelente, porém, no nível hors-concours estão Lou Reed (”Transformer”, sensacional) e The Band (”The Band”, uma aula).

O Pink Floyd, com “Dark Side Of The Moon”, no entanto, é inigualável. Fiquei chapado com o DVD que conta a história do álbum (e não foi de marijuana). É impressionante o nível de detalhismos e a grandiosidade da produção deste álbum. Eu só queria saber onde é que estão as fitas demos pré-gravações (”Money” e “Time” aparecem em versões da época apenas em voz e violão) e quando eles vão liberar os excelentes áudios dos shows de 1972 e 1973 que aparecem no DVD. São sensacionais.

Ps. Ainda, pela frente, tenho o Queen (”A Night At The Opera”) e Iron Maiden (The Number of The Beast”) para ver…

janeiro 20, 2008   No Comments