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Category — Música

Dylan com café, dia 77: Basement Complete

Sempre pairou uma magia mística sobre as “Basement Tapes”, as fitas gravadas das sessões de Bob Dylan na companhia da The Band tocando no porão de uma casa rosa entre junho e outubro de 1967, um ano após Bob sofrer um acidente de moto e tirar férias das turnês até 1974. O primeiro a desdizer essa mística foi o próprio Robbie Robertson: “As sessões foram feitas com bom humor. Era algo entre o ultrajante e o cômico. Foi um tanto irritante quando as músicas começaram a ser pirateadas. Lançamos o disco (em 1975) na base do ‘já que estão documentando isso, que seja em boa qualidade’”. Do outro lado, o crítico Greil Marcus dizia que “certas linhagens fundamentais da linguagem cultural americana foram resgatadas e reinventadas” naquelas sessões. Hummm.

Veja bem, o material era de qualidade tão duvidosa que ao selecionar canções para o álbum duplo lançado em 1975, Robbie incluiu oito canções da The Band entre as 24 faixas, quatro delas nem gravadas no porão da Big Pink, para tentar levantar a qualidade do álbum. Em seu texto na The New Yorker em 1999, Alex Ross dava a real: “Dylan estava farto do papel de messias e produziu dezenas de números dolorosos da velha escola (no porão da Big Pink)”. Dúvidas? Em novembro de 2014, dentro das Bootleg Series, a Columbia Records enfim liberou a integra das sessões totalizando 138 músicas divididas em seis CDs, e como bem definiu a crítica de Sasha Frere-Jones na The New Yorker, “para cada momento de revelação há cinco descartáveis”.

Ou seja, é possível dizer que existem no máximo uns 25 números que realmente interessam neste compêndio, o que lança luz muito mais sobre os exageros da crítica da época do que, necessariamente, sobre o próprio material, já que Dylan & The Band não o estavam gravando com a finalidade de lança-lo, e sim de registrar demos para serem oferecidas a outros artistas e se divertirem destroçando clássicos do rock e do folk (de John Lee Hooker a Johnny Cash, de Hank Williams e Pete Seeger a Curtis Mayfield). Observado e ouvido com distanciamento, “The Bootleg Series Vol. 11: The Basement Tapes Complete” é um passatempo interessante (principalmente para Dylan e a The Band). Criticamente não deve nem ser levado em consideração, pois não exibe um milésimo da genialidade pré (“Bringing It All Back Home”, “Highway 61 Revisited” e “Blonde on Blonde”) e pós (“Blood on The Tracks”) “Basement Tapes”. São alguns grandes músicos se divertindo num porão. E só. Divirta-se também, mas sem exageros (de preferência seguindo esse faixa a faixa esclarecedor publicado no site oficial de Dylan em 2014).

Especial Bob Dylan com Café

agosto 20, 2018   No Comments

10 discos favoritos em 10 dias: Dia 8

Quando o Scream & Yell surgiu online, no segundo semestre de 2000, eu ouvia alt country no café da manhã, no almoço e no jantar, muito por “Being There” (1996) e “Summerteeth” (1999), que eu tinha “descoberto” juntos no final do século. Comecei a ir atrás de outras coisas, e logo cheguei primeiro ao bonito “Strangers Almanac” (1997) e depois a “Faithless Street” (1995), os dois discos de estúdio do Whiskeytown, e consequentemente ao maravilhoso “Heartbreaker” (2000), estreia solo de Ryan Adams, que seria um dos grandes nomes de 2001 com o álbum “Gold”. Quando “Love is Hell” (2004) voltou a me fazer prestar atenção em Ryan Adams, junto a ele veio este “Pneumonia”, e fiquei “doente” novamente. Gravado em uma antiga igreja em Woodstock convertida em estúdio (o Dreamland) em 1999 por Ethan Johns (filho da lenda Glyn Johns, que ainda produziria os dois primeiros solos de Ryan), “Pneumonia” foi engavetado assim que a gravadora Outpost Records deixou de existir em meio à fusão das majors Polygram e Universal. Após dois discos elogiados, mas de vendagem tímida, o Whiskeytown queria fugir do gueto alt country produzindo um disco duplo de pop songs clássicas que os distanciasse da combinação Uncle Tupelo + Replacements (principalmente do disco de estreia). Com Ryan Adams no piano, a entrada do multi-instrumentista Mike Daly na banda (que divide 7 das 15 canções do álbum com Ryan) e participações de James Iha (Smashing Pumpkins) e Tommy Stinson (Replacements), “Pneumonia” flagra um Whiskeytown já despedaçado (só dois integrantes da formação original permaneceram após a malfadada turnê de divulgação de “Strangers Almanac”: Ryan e Caitlin Cary) que começava a abrir caminho para a carreira solo de Adams num disco pungente e melancólico cujo titulo buscava algo que simbolizasse se apaixonar e sucumbir ao amor. Lançado em 2001 (a banda havia terminado em 1999) como uma esquenta (que passou meio batido) para o segundo solo de Ryan, o platinado “Gold”, este “Pneumonia” merecia sorte melhor, mas resiste brilhantemente à passagem do tempo com faixas bonitas como “Don’t Be Sad”, “Crazy About You”, “Mirror Mirror”, “Don’t Wanna Know Why”, a havaiana “Paper Moon” e a baladaça “What the Devil Wanted” partindo corações.

10 discos favoritos

 

agosto 19, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 76: World Tours

O mundo das biografias não autorizadas populares é, na maioria dos casos, um ambiente de extrema pilantragem e canalhice em que um determinado autor reúne algumas entrevistas “bombásticas” de dois tipos de pessoas: gente que no máximo cruzou a mesma rua que o biografado, quando muito, e familiares e amigos que entram nessa pelo dinheiro, afinal, se o biografado é rico e famoso, qual o problema de se ganhar alguns trocados nas costas dele, não é mesmo.

Este “Bob Dylan – World Tours 1966/1974” (2005) também é pilantragem, mas é diferente das outras porque parece feito de coração. É sério. O diretor Joel Gilbert se vangloria de ter a melhor banda cover de Bob Dylan do mundo, a Highway 61 Revisited, e centrou o foco de seu documentário no fotógrafo Barry Feinstein, que acompanhou Dylan em seu início de carreira e em suas duas maiores turnês mundiais, além de ser responsável por fotos clássicas tais como todas deste post além das capas dos álbuns “Freewheelin” (1962), “The Times They Are A Changin‘” (1963) e “No Direction Home”, trilha sonora do documentário de Martin Scorsese.

Como já comentando por aqui, a famosa turnê de Bob Dylan em 1966 (que culminou no grito de “Judas” vindo da plateia durante um show em Manchester, na Inglaterra, flagrado no álbum “The Bootleg Series – Volume 4: Live 1966 The Royal Albert Hall Concert”, lançado em 1998) o trazia pela primeira vez alternando um set acústico, para deleite dos antigos fãs, com um barulhento set elétrico (acompanhado pela futura The Band), uma heresia que deixava algumas pessoas tão transtornadas que princípios de confusão sempre aconteciam nessa parte da apresentação. A turnê terminou abruptamente após um acidente de moto de Dylan, e, traumatizado, ele aproveitou para tirar 8 anos de férias das turnês, só retornando em 1974.

Buscando mapear esse período, “Bob Dylan – World Tours 1966/1974” traz entrevistas com o cineasta D. A. Pennebaker (diretor do obrigatório “Don’t Look Back”, documentário oficial da turnê de 1966), do jornalista Al Aronowitz (que apresentou Dylan aos Beatles), e de A. J. Weberman, o cara que remexia o lixo de Dylan nos anos 70, foi processado pelo músico, e está criando um dicionário para se entender Bob Dylan. No fim das contas, vale pelas excelentes fotos de Barry Feinstein, pela cara-de-pau de Joel Gilbert e por trechos impagáveis, como a reconstituição do (suposto) acidente de moto que afastou Dylan das turnês e da mídia em 1966.

Especial Bob Dylan com Café

agosto 16, 2018   No Comments

10 discos favoritos em 10 dias: Dia 7

Acho que os portugueses do Deolinda foram a minha última paixão musical avassaladora. A primeira vez que ouvir falar deles foi quando o amigo e jornalista lisboeta Pedro Salgado resenhou o show que o grupo fez em 2011 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para o Scream & Yell. Ler a emoção do Pedro presenciando este concerto de 25 canções, que seria lançado numa versão luxuosa em CD duplo e DVD (no centro da foto), me fez ir atrás do som desses tugas. Comecei a pesquisar mais e quanto mais lia, mais me apaixonava por essa banda que havia surgido nos intensos anos de crise econômica portuguesa, e que tinha algumas de suas músicas entoadas por manifestantes em passeatas contra o governo (notadamente os hinos “Um Contra o Outro” com seu refrão instigante – “Sai de casa e vem comigo para a rua” – e, principalmente, “Movimento Perpetuo Associativo” além de “Parva Que Sou”, inédita presente no disco ao vivo).

A popissima “Mal por Mal”, que abre o disco de estreia (“Canção ao Lado”, de 2008) virou o primeiro hit deles em casa, e depois vieram “Fon Fon Fon”, “Movimento” e a maravilhosa “Garçonete na Casa de Fado” (um dos grandes momentos das duas passagens deles pelo Brasil, São Paulo em 2013, Rio em 2016) mais algumas pérolas do segundo disco, “Dois Selos e Um Carimbo” (2010), notadamente mais “português” (e basta ouvir a hilária “A Problemática Colocação de um Mastro” para entender). Por volta dessa época (2011/2012) eu já tinha criado um elo de ligação pessoal entre uma das bandas que mais amo no Brasil, o Pato Fu, com o Deolinda, duas bandas com compositores letristas brilhantes (Pedro da Silva Martins e John Ulhoa) que escrevem letras com sacadas humoradas geniais que encontraram em duas mulheres poderosas a melhor maneira de passar a mensagem (Ana Bacalhau e Fernanda Takai).

Os discos seguintes do Deolinda, aguardados da mesma maneira que eu aguardava um disco novo da Legião nos anos 80, apenas corroboraram a genialidade do quarteto: “Mundo Pequenino” (2013) é um disco menos tuga e mais mundial, e traz consigo talvez as melhores letras da banda: “Concordância” (“Sou um sujeito, procuro um verbo e um bom complemento direto / Quero frases afirmativas e não viver em voz passiva”, crava Ana no refrão), “Gente Torta”, as brilhantes “Há de Passar” (“Tenho vontade de dizer aquilo que penso, mas tenho medo / Tenho vontade de exigir o que mereço, mas nem me atrevo”), os hits “Musiquinha” e “Seja Agora”, as divertidas “Doidos” (se Lou Reed tivesse gravado “Goodnight Ladies” em Sintra ela soaria assim) e “Semáforo da João XXI” (que narra o romance inevitável entre uma garota que ouvia Bach e um garoto que ouvia The Clash) e, minha favorita, “Pois Foi” (e vale assistir ao vídeo que o Bruno Capelas fez do show em São Paulo para sacar a beleza da letra e da interpretação de Ana – assim como ler a entrevista que ele fez com a banda em 2013).

No disco seguinte, a banda pisou no freio, e lançou o seu “Daqui pro Futuro” (o disco de 2007 do Pato Fu, e não impressiona a coincidência das duas vocalistas estarem gestando um bebê durante as gravações), o delicado “Outras Histórias” (2016), que me cativou ainda mais (e ganhou uma posterior edição deluxe dupla) tornando-os um dos cinco artistas que mais ouvi nos últimos cinco anos, segundo minha LastFM (à frente deles apenas Manics, Bruce Springsteen, Wilco e Dylan) e meu disco favorito deles hoje em dia. Em 2017, após 10 anos de atividades, o grupo anunciou uma pausa na carreira. Ana Bacalhau saiu em carreira solo e os outros músicos se envolveram em outros projetos. E enquanto eles não voltam, você tem tempo de se apaixonar por estes quatro discos… como eu me apaixonei sete anos atrás. Arrisque.

10 discos favoritos

agosto 16, 2018   No Comments

25 discos 2018 da APCA e 10 meus

O jornalista Pedro Antunes divulgou em sua coluna no Estadão, hoje, a lista dos 25 discos do primeiro semestre de 2018 para os votantes da cadeira de música popular da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Assim como no ano passado, a votação da APCA em Música será dividida em duas fases: na primeira, os votantes Alexandre MatiasJosé Norberto FleschLucas BrêdaMarcelo Costa e Roberta Martinelli debatem e apontam os 25 discos do primeiro semestre. Em novembro, o juri aponta os 25 discos do segundo semestre, e estes 50 vão para a reunião final que apontará o disco do ano na opinião dos críticos de música da associação – além de outras categorias como artista do ano, revelação, show e projeto especial, entre outros (confira os vencedores do ano passado).

Para a lista deste primeiro semestre foram selecionados pelos cinco votantes 109 álbuns relevantes na opinião dos jurados. Cada um dos cinco votou em 25 discos, e o primeiro corte da lista caiu para 40 álbuns. Dai em diante, através de muito debate, o juri chegou ao consenso dos 25 discos escolhidos pelo grupo no primeiro semestre (apresentados abaixo em ordem alfabética!). No total são 8 discos independentes (bancados pelos próprios artistas, e ai se inclui Cordel e Rashid, que são selos deles mesmos), dois de majors (um da Universal, outro da Warner), três de selos médios (Deck, SLAP e Som Livre) e vários selos independentes, com destaque para dois discos do Selo Risco, dois da EAEO e dois da YB. Confira!

TOP 25 – PRIMEIRO SEMESTRE 2018
01. Almir Sater & Renato Teixeira – + AR (Universal Music)
02. André Abujamra – Omindá (Independente)
03. Anelis Assumpção – Taurina (Pomm_elo / Scubidu)
04. Autoramas – Libido (Hearts Bleed Blue)
05. Ava Rocha – Trança (Circus)
06. Cólera – Acorde! Acorde! Acorde! (EAEO Records)
07. Cordel do Fogo Encantado – Viagem ao Coração do Sol (Fogo Encantado)
08. Craca e Dani Nega – O Desmanche (Independente)
09. Dingo Bells – Todo Mundo Vai Mudar (Dingo Bells / Natura Musical)
10. Djonga – O Menino Que Queria Ser Deus (CEIA Ent.)
11. Elza Soares – Deus É Mulher (DeckDisc)
12. Erasmo Carlos – Amor É Isso (Som Livre)
13. Gui Amabis – Miopia (Independente)
14. Iza – Dona de Mim (Warner)
15. Jonas Sá – Puber (Selo Risco)
16. Juliano Gauche – Afastamento (EAEO Records)
17. Kassin – Relax (LAB 344)
18. Malu Maria – Diamantes na Pista (Independente)
19. Marcelo Cabral – Motor (YB Music)
20. Maria Beraldo – Cavala (Selo Risco)
21. Maurício Pereira – Outono No Sudeste (Independente)
22. Rashid – Crise (Foco na Missão)
23. Romulo Fróes – O Disco das Horas (YB Music)
24. Silva – Brasileiro (SLAP)
25. Wado – Precariado (Independente)

E como a produção musical do primeiro semestre foi excelente, deixo abaixo 10 discos favoritos pessoais meus que merecem atenção (mesmo não estando na lista acima):

MAIS 10 DO PRIMEIRO SEMESTRE (MAC)
01. Arnaldo Antunes – RSTUVXZ (Rosa Celeste)
02. Duda Beat – Sinto Muito (Independente)
03. Lestics – Breu (Independente)
04. Manoel Magalhães – Consertos em Geral (Independente)
05. Marcelo Perdido – Brasa (Independente)
06. Maria Bacana – A vida boa… (Independente)
07. Moons – Thinking Out Loud (Balaclava Records)
08. Poty – Percepção (Independente)
09. Ronei Jorge – Entrevista (Independente)
10. Titãs – Doze Flores Amarelas (Universal)

agosto 10, 2018   2 Comments

10 álbuns favoritos em 10 dias: Dia 6

Capa da segunda edição do fanzine em papel Scream & Yell de 1999, quando Chris Isaak chegou a este “Baja Sessions” (1996) ele já contava com cinco discos elogiados na carreira, um big hit mundial (o single “Wicked Game”, presente no álbum “Heart Shaped World”, de 1989), músicas em filmes de David Lynch (“Gone Ridin’” e “Livin’ for Your Lover” foram inclusas em “Veludo Azul” enquanto uma versão instrumental de “Wicked Game” aparece em “Coração Selvagem”) e uma hilária e rápida participação em “Friends” (Phoebe sacaneando seu falsete a lá Roy Orbison é demais) quando a série estava no topo do topo (não à toa, um dos episódios, que além de Isaak contou ainda com Julia Roberts e Jean-Claude Van Damme, leva o nome de “The One After the Superbowl” e passou exatamente após o evento de maior audiência no ano da TV norte-americana).

Ou seja, Isaak estava de bem com a vida, se dedicando ao surf e a sua paixão pela música antiga, e esse clima delicado e ensolarado paira sobre as 13 canções deste emocional “Baja Sessions”, um disco que reúne covers de artistas que Isaak admira além de regravações distintas de material próprio. Roy Orbison, claro, está representado por “Only The Lonely” enquanto dos filmes “Amor Havaiano” (1937) e “South Of The Border” (1939) foram retiradas, respectivamente, a singela “Sweet Leilani” e a mariachi “South Of The Border (Down Mexico Way)”. Já “Yellow Bird” é uma versão da versão em inglês de 1957 de um clássico haitiano de 1893, “Choucoune”. Fechando em alta a sessão de covers dos outros, “Return To Me”, gravada em 1958 por Dean Martin.

Da própria lavra marcam presença as maravilhosas versões de “Pretty Girls Don’t Cry”, “Back on Your Side” e “Dancin’”, três canções de seu álbum de estreia, “Silvertone”, recriadas com leveza, falsete e emoção 11 anos depois; do platinado “Heart Shaped World” é pescada “Wrong to Love You” enquanto o quarto álbum, “San Francisco Days” (1993) cede “Two Hearts” (que havia sido usada para fechar o grande filme indie “Amor à Queima Roupa”, de Tony Scott com roteiro de Tarantino) e “Waiting” além das inéditas “Waiting for a Lucky Day” e “I Wonder” – a segunda iria embalar o romance de Kevin Costner e Rene Russo em “Jogo da Paixão” (1996). Bonito, romântico e delicado, “Baja Sessions” é daqueles discos para ficar ouvindo o dia todo no repeat e lembrando que, sim, a vida pode ser boa.

Ps. Sim, a cena inicial de Nicole Kidman e Tom Cruise em “De Olhos Bem Fechados” é embalada por uma música de Chris Isaak, “Baby Did a Bad, Bad Thing”…

10 discos favoritos

 

agosto 9, 2018   No Comments

10 álbuns favoritos em 10 dias: Dia 5

Dentre tudo que ouço e gosto, algumas bandas rendem alguns momentos de bullying de amigos que, por exemplo, dizem que “é fácil ter 10 mil discos quando se tem a coleção completa do Biquíni Cavadão e do Nenhum de Nós” – aliás, me falta o “Cardume” (1989) em CD, e descobri dia desses que está sendo vendido a R$ 999,99 no Mercado Livre e por R$ 2.174,25 no Discogs (assustou? “Tomate”, do Kid Abelha, em CD tá R$ 160 o mais barato, R$ 300 o mais caro; e “Lulu”, do Lulu Santos, variando de R$ 185 a R$ 450). Bem, aproveitando essa onda de discos favoritos decidi recuperar a primeira fase da discografia do Biquíni, uma improvável banda pop carioca, para eleger um favorito e, assim, lançar milhos aos pombos do bullying.

Apesar da masterização precária do vinil da época, “Cidades em Torrente” (1985) traz três baita big hits (“No Mundo da Lua”, “Timidez” e “Tédio”, com a batidinha deliciosamente safada da guitarra de Herbert Vianna, três canções que são a cara dos anos 80, e que são ótimas) e uma faixa que passou batido na época (a ótima “Múmias”, com Renato Russo no dueto vocal com Bruno Gouveia), mas que foi abusada e virada do avesso pós morte do legionário. Uma pena. Minha favorita: a divertidíssima “Inseguro da Vida”, mas gosto também de “Hotel”, “Caso” e “Reco”. No disco seguinte, “A Era da Incerteza” (1987), a banda começou um processo de amadurecimento, que não rendeu tantos hits (“Ida e Volta” tocou, mas nem tanto), mas ouvi esse disco quase até furar, principalmente o lado A do vinil (com “1/4”, “Tormenta”, “Inocências” e mais a faixa 1 do lado B, “Catedral”, que iria incomodar muita gente hoje em dia). Ainda tenho ele em vinil aqui…

Dai veio o terceiro disco, “Zé” (1989), meu favorito, porque soa um rompimento com os sonhos de sucesso ainda que “Teoria” tenha tocado nas rádios e tanto “Meu Reino” quanto “Bem-Vindo ao Mundo Adulto” ganhado sobrevida no quarto álbum, “Descivilização” (de 1991, que traz as bonitas faixa título, “Arcos” e “Vesúvio” além dos mega-hits “Impossível” e “Vento Ventania”). O tédio que era tema dos discos anteriores aqui se transforma em raiva e turbina canções como “Brincando com Fogo” e “Certas Pessoas”, ganha força irônica em “Samba de Branco” e na rancheira “Meus Dois Amores” e pinta de clássico torto no bluezaço “Direto Pro Inferno” (que, inclusive, já inclui em mixtape).

Dai em diante, perdi conexão com a banda. O disco de covers “80” é terrível (conforme resenha no Scream & Yell em 2001), “Escuta Aqui” (2000) é bacaninha, mas não me lembro de nada dos discos “Agora” (1994) e “biquini.com.br” (1998) – na verdade, eu já estava em outra, e o rock nacional havia ficado nos anos 80. A banda segue na ativa com público cativo e discos novos, mas mesmo esses quatro primeiros, que saíram num box com edições caprichadas em 2001, pouco retornam ao meu som (como pouco retornam os quatro primeiros da Legião), ainda que façam parte da minha história com a música. Bora aproveitar e mandar um #nowplaying para matar saudade.

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agosto 8, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 75: Alex Ross

Em 1998, ou seja, quase 10 anos antes de publicar sua obra prima finalista do Pulitzer Prize, “O Resto é Ruído – Escutando o Século XX” (2007), o jornalista Alex Ross assistiu a 10 shows de Bob Dylan, que havia renascido (mais uma vez) das trevas com “Time Out of Mind” um ano antes. A maratona (entre setembro e novembro de 1998) serviu de base para um longo ensaio publicado na revista The New Yorker em maio de 1999 com o título “The Wanderer” e recuperado nessa coletânea de textos, “Escuta Só”, lançada em 2011. Talvez um dos melhores textos já escritos sobre Bob Dylan, “The Wanderer” tenta entender a magia deste pobre homem destruindo quase tudo o que já foi falado sobre ele. De forma delirante e divertida, Alex Ross abre seu ensaio mostrando os dentes: “Os Estados Unidos não são um país para homens velhos. A cultura pop é o deleite dos pedófilos. O que fazer com um compositor de meia-idade, muito rodado, que tende para a melancolia e o absurdo? Se examinarmos o que foi escrito sobre Bob Dylan em décadas recentes, notaremos um desejo persistente de que o sujeito morra, para que seu eu mais jovem possa assumir seu lugar mítico”. Dai pra frente, Alex enumera exemplos do “desejo persistente”, e conta cômicas passagens nos shows que presenciou: “Estou na Feira de Puyallup, 1998, neste subúrbio agrícola de Tacoma, e entre outras atrações estão presentes a vaca de uma tonelada Elmer, uma casa assombrada em miniatura montada engenhosamente na carroceria de um caminhão, bingo com aspiradores como prêmio e Bob Dylan. (…) Quando eu disse que iria seguir Dylan na estrada, obtive várias reações divertidas. (…) Alguns ficaram surpresos ao saber que ele ainda tocava em público (e ele faz mais de 100 shows por ano). As plateias foram mais diversificadas do que eu esperava: jovens urbanos do tipo que coleciona discos, pirados grisalhos, ex-hippies bem-vestidos, garotada do colégio com camisetas do Grateful Dead”.

As entrevistas com o público são divertidas, mas a análise é bem mais profunda. Pelo caminho da turnê, Alex visita Greil Marcus para depois questionar a defesa do velho jornalista sobre o exagerado elogio ao material qualquer nota das Basement Tapes (de maneira correta, mas falaremos disso no próximo café) e sua leitura “exagerada” do show de Manchester, ou o show do “Judas” (discordo de Alex). Ele sacaneia o trabalho do biógrafo Clinton Heylin (“Um documento que se anula astutamente no sentido de que cada item de informação aponta para uma falta maior de informação”), recupera uma baita citação de Lester Bangs em 1981 (“Se as pessoas vão rejeitar, ou, na melhor das hipóteses, rir de Dylan agora do mesmo modo como outrora se ajoelhavam automaticamente diante dele, então ninguém vai saber se ele fizer um bom disco de novo. Elas não estão ouvindo agora, o que talvez possa significar que também não estavam realmente ouvindo antes”), analisa letras, estruturas de canções e opina: “Desde Wagner, nenhum músico havia sido submetido a pressões contraditórias e irracionais desse tipo (na fase em que Bob eletrificou seu som e foi criticado pelos fãs). Não surpreende que Dylan tenha caído fora depois do acidente de moto”. Uma das conclusões de Alex é de que as respostas, as emoções e tudo mais está… nas canções. “Ele sempre retira sua personalidade de cena… e deixa a música emergir”. Ou seja, esqueça o homem, concentre-se na arte. E Alex escreve isso logo depois de se arrepiar com a oportunidade de um encontro não planejado com Dylan num estacionamento. Como separar? Eis a questão. Um texto genial presente no livro, mas que traz um apêndice no site de Alex (aqui) e que você pode ser lido na integra, em inglês, por assinantes da The New Yorker aqui.

Especial Bob Dylan com Café

agosto 7, 2018   No Comments

10 álbuns favoritos em 10 dias: Dia 4

um texto de 12 anos atrás

Qual o prazer em ainda ouvir um disco novo? O prazer é esbarrar com uma pequena obra prima de delicadeza e lirismo como este “My Secret Is My Silence”, estreia solo de Roddy Woomble, vocalista e guitarrista da banda escocesa Idlewild. Formado na segunda metade dos anos 90, o Idlewild soava – nos primeiros discos – como um Smiths passado pelo furacão grunge, nada que chamasse tanta atenção até o quarteto parir o terceiro disco, “The Remote Part”, sinal de maturidade dos escoceses. O single “American English” dava o recado: “The good songs weren’t written for you, they’ll never be about you”.

Então o peso da idade bateu. Roddy chegou aos 30 anos, achou que era hora de ser pessoal e pariu um conjunto de canções que não caberiam no Idlewild, mas são parte dele. O resultado é um que versa sobre “os espaços entre as palavras, a língua do silêncio, que é algo que se vê muito na Escócia, particularmente com os povos mais velhos nas montanhas”, explica Roddy. É sobre o que nós não dizemos. Sonoridades celtas, melodias de fazendeiros, o country que se junta ao alternativo. Para quem não se lembra, um dos grandes discos deste século, “Yankee Hotel Foxtrot” do Wilco, também versava sobre a comunicação entre as pessoas. Saudável coincidência.

“I Came From The Mountain” abre o álbum escorrendo lirismo. A acelerada “As Still As I Watch Your Grave” é comandada por flauta, acordeom e violino. A belíssima faixa título fala de prédios que foram construídos com sangue e chuva além de tristeza com gosto de uísque enquanto “If I Could Name Any Name” praticamente resume todo o pensamento de Roddy transformado num maravilhoso dueto com a cantora folk Kate Rusby. Em “Waverley Steps” quem brilha é Karine Polwart, outra folk singer. Um dos motivos deste álbum soar mágico é a boa companhia de que se cercou o líder do Idlewild, gravando o disco em duas semanas acompanhado dos conterrâneos do Sons and Daughters (o baterista David Gow e a baixista Ailidh Lennon, sua esposa) e do violino de John McCusker (produtor do álbum, e marido de Kate Rusby), entre outros. O resultado: um disco atemporal para ser ouvido… eternamente.

10 discos favoritos

agosto 6, 2018   No Comments

10 álbuns favoritos em 10 dias: Dia 3

Entre outras coisas (sequestro da liberdade, tortura, assassinatos, corrupção), a Ditadura Militar Brasileira enfraqueceu a MPB com censura, extradições e ameaças. No fim do regime, já nos anos 80, a MPB não tinha forças nem para jogar uma pá de cal numa Ditadura moribunda, e coube ao rock, notadamente anglo-saxão (e “inspirado” em Smiths, U2, Gang of Four, The Jam, The Police, Buzzcocks), cantar que a gente era inútil para escolher presidente (e parece que ainda somos), mandar coelhinhos peludos se foderem enquanto a questão central permanecia sem resposta: que país é este? Em 1988, porém, um disco reconectou o Brasil com seu passado mirando um futuro carnavalesco e psicodélico ao juntar Jimi Hendrix e Noel Rosa, o Gil de “Pega a Voga, Cabeludo” (1968), o Led Zeppelin de “Whole Lotta Love” e a batida suingante de Jorge Ben, estandartes em plena avenida, pierrots apaixonados, Wolverine e navegantes aflitos, tudo isso de uma maneira… “Supercarioca”.

Uma obra prima daqueles anos em que “enquanto perdíamos tudo, a tragédia vira festa de um calor quente e tropical”, o segundo disco dos Picassos Falsos soava muito, mas muito à frente de seu tempo ao tentar reconectar um Brasil que os anos de chumbo haviam soterrado utilizando o mantra de um pós punk que encontra um samba torto perto do Cristo Redentor e o entorpece de riffs de guitarra, batidas nervosas de violão e microfonia decorando-o com a mais bela poesia das ruas. Ouvindo hoje, “Supercarioca” é praticamente um retrato de um Rio, em primeiro plano, e de um novo Brasil que desembocaria, anos depois, nos saques a supermercados do triste final do governo de Fernando Collor, e no Brasil que vemos hoje. “Chamam de pátria nossa miséria, tanta folia”, canta Humberto Effe em “Fevereiro 2”. Já em “Fevereiro 1”, ele avisa: “Um navegante pronunciou aflito com seus escritos e só / Que uma cidade julgada a mais bela em poucos dias viraria pó”.

Um clássico subestimado, “Supercarioca” é um disco de hinos carnavalescos roqueiros. Mais do que “Bora Bora” (apesar de “Sanfona” <3), mais do que Mauro e Quitéria em “Miséria”, mais do que “O Estrangeiro”, esse é o disco que me reconectou com o Brasil numa época em que todo mundo queria soar inglês para, talvez, esquecer um país que, durante anos, havia nos maltratado, com paus de arara, choques elétricos e afogamentos, um Brasil que havia nos traído. “Estou feliz por quem já não existe”, define a letra de “Bolero”, uma das grandes canções de um álbum repleto de grandes canções. Pode parecer estranho que um paulistano morador da Moóca e nascido no bairro do Belenzinho, que viveu quase duas décadas no interior paulista tenha sido tão tocado por um disco supercarioca, mas aconteceu. Felizmente.

10 discos favoritos

agosto 5, 2018   No Comments