Category — Cinema
Truman
Em 99% das vezes que vou ver um filme, tento saber o mínimo sobre ele. Gosto da sensação de não saber absolutamente nada da história (ainda que o cartaz adiante pequenas coisas) e, mesmo que isso tenha quase me causado um leve trauma (ver “Katyn“, do Andrzej Wajda, num dia depressivo não foi uma boa escolha – fiquei, inclusive, tremendo algumas horas num show que fui ver no Studio SP, logo depois, mas que filme, que filme), continuo tentando ir ao cinema sem saber nada da história. Hoje não estava sendo um dia bom. Um pouco de tristeza aqui, um pouco de depressão acolá. Mas dai que a esposa chegou em casa e eu consegui faze-la sorrir algumas vezes, o que já serviu para deixar tudo mais leve, para colocar as coisas um pouco nos eixos. E depois fomos ver “Truman” (2015), grande vencedor do Oscar espanhol, o Goya, arrematando cinco estatuetas das seis a que fora indicado – melhor filme, diretor (Cesc Gay), ator (Ricardo Darín), ator coadjuvante (Javier Cámara) e roteiro. Na minha mania de não ler sinopses nem nada, eu acreditava que “Truman” se tratava de uma comédia bestinha, mas, feliz engano, é daqueles dramas levemente cômicos e contidos, que lavam a alma com silêncio. Bonito e triste. Como a vida.
julho 12, 2016 No Comments
Download: 99 catálogos do CCBB

Responsável por diversas mostras bacanas, o Centro Cultural Banco do Brasil também produz excelentes catálogos para essas mostras, que muitas vezes vão além do material apresentado na instituição, e servem como guia para a obra do artista em questão, mesmo que você não tenha acompanhado a mostra. 99 destes catálogos estão disponíveis para download gratuito e trazem um vasto material imperdível de artes, cinema, arquitetura e muito mais.
Entre os volumes disponibilizados pelo CCBB estão catálogos sobre a mostra Alfred Hitchcock, um calhamaço de 416 páginas que pode funcionar como um excelente guia para neófitos na obra do mestre do suspense. O mesmo pode ser dito dos volumes sobre Quentin Tarantino (com textos e análises de cada filme do diretor), Escher, Kandinski, Jean Luc Godard, Ingmar Bergman, Impressionismo, Iberê Camargo, Castelo Ra-Tim-Bum, Francis Ford Coppola, o movimento Dogama 95 e muito mais. Divirta-se:
http://culturabancodobrasil.com.br/portal/categoria/catalogos

abril 24, 2016 No Comments
King Lear na versão de Jean-Luc Godard

Titulo: King Lear (1987)
Para encerrar sua trilogia de personagens míticos – após “Carmen” (de 1983, que abordava o terrorismo inspirado em Bizet) e “Je Vous Salue Marie” (de 1985, que questionava a fé cristã com foco na Bíblia), Jean-Luc Godard escolheu Shakespeare. Iniciada em 1985, a produção se arrastou até o fim de 1987. Não à toa, os primeiros diálogos da obra são do produtor cobrando o diretor: “As pessoas não acreditam que o filme jamais será feito”. No corte surge Norman Mailer, que deveria assinar o roteiro e participar da trama, mas desistiu quando Godard insinuou que seu personagem iria praticar incesto com a própria filha (Kate Mailer). O filme dentro do filme dentro do filme segue com William Shakespeare Jr. V (Peter Sellars), que explica: após o desastre nuclear de Chernobyl, todo tipo de arte existente foi destruído e sua função é recriar as obras do ente famoso. William então se envolve com os personagens da peça que está reescrevendo, Cordelia (Molly Ringwald logo após “Clube dos Cinco” e “A Garota de Rosa Shocking”) e seu pai, o mafioso Don Learo (Burgess Meredith). Ainda vão surgir em cena Julie Delpy (com meros 16 anos) e o próprio Godard como o Professor Pluggy (um “gênio” maluco) numa trama que questiona a arte de forma niilista sem muita fé no subproduto (feito nas costas) que irá resultar “do filme”. Quem deverá juntar as peças insanas desta loucura pós-apocalíptica na sala de edição e salvar o cinema? Sim, ele mesmo, Mr. Alien (Woody) – citando “Meetin’ WA” ao inverso. Há consenso que “King Lear” é um dos filmes mais fracos de Godard (o texto de Robert Koehler no Los Angeles Times, em 1988, é ótimo), mas há críticos, como Richard Brody, da New Yorker (autor do livro “Everything is Cinema: The Working Life of Jean-Luc Godard”, 2008), que o acham “o melhor filme de todos os tempos” (ele colocou “King Lear” no número 1 em sua votação na Sight & Sound, 2012). Na dúvida, assista (e tente imaginar se estilhaços desta experiência irão afetar os próximos filmes de Woody).
maio 7, 2015 No Comments
Jean-Luc Godard entrevista Woody Allen

Titulo: Meetin’ WA (1986)
Logo após finalizar “Hannah E Suas Irmãs”, Woody Allen se envolveu em dois projetos com o cineasta Jean-Luc Godard: o primeiro, “Rei Lear”, acabou atrasando (devido a um bloqueio criativo do francês) e sendo lançado apenas no ano seguinte. No meio do processo, porém, surgiu a ideia de fazer um curta-metragem sobre o próprio Woody para ser apresentado na tradicional conferência de imprensa com o diretor após a estreia de “Hannah e Suas Irmãs” em Cannes (já que Woody não iria ao festival). Desta forma, “Meetin’ WA” é uma entrevista com Woody Allen conduzida (e tolamente editada) por Godard, que manipula imagens, sobrepõe fotos e é um repórter fraco, mas consegue tirar de Woody algumas opiniões interessantes e exteriorizar suas diferenças. Woody acredita que o momento mágico do cinema é a ideia, e que depois (com roteiro, escalação de atores, filmagem, edição, mixagem) a obra vai perdendo força a ponto de, no final, ter ficado muito pouco daquela brilhante ideia original. Godard opina: “Ainda há salvação na sala de edição”, mas para Woody o filme já está condenado, “e nunca mais vou revê-lo porque vou me decepcionar”. Em outro trecho, Woody explica a inspiração dos intertítulos (literários) em “Hannah”, fala sobre as diferenças da fotografia de Gordon Willis e Carlo Di Palma, e ambos reclamam do poder da TV: “É um crime para mim alguém assistir ‘Cidadão Kane, ‘2001’ ou ‘Diabo a Quatro’ pela primeira vez na televisão”, desabafa Woody num bate papo repleto de momentos interessantes. Abaixo na integra.
maio 5, 2015 No Comments
Obrigatório: Trabalho Interno, 2010

“Trabalho Interno” (“Inside Job”, 2010)
por Marcelo Costa
“Se existe um único filme obrigatório de 2010 a ser visto imediatamente, o filme é este. “Inside Job” vasculha a podridão de Wall Street que resultou na crise financeira mundial de 2008. Narrado por Matt Damon, “Trabalho Interno” começa de forma didática analisando a quebra de três bancos islandeses, e depois mira a câmera para grandes corporações norte-americanas, desde empresas de crédito, de capital de risco, agências de avaliação, universidades famosas (com professores de economia compactuados em não mudar a lei para não perderem dinheiro) e, claro, o governo norte-americano (começando com Reagan, piorando com Clinton e encontrando o inferno na gestão Bush), local que (ainda) abriga a maioria dos envolvidos no escândalo que ferrou a vida de milhões de pessoas (enquanto integrantes do grupo ganhavam bônus milionários de suas empresas). Cinema político de altíssima qualidade. Assista legendado abaixo ou baixe aqui.
abril 9, 2015 No Comments
Ida. Ou Agata Trzebuchowska, 23 anos

“Não fiz nenhuma audição para o papel. Eu estava em uma cafeteria em Varsóvia, e uma diretora, amiga do Pawel (diretor de “Ida”), me viu e fez uma foto. Pawel me ligou depois, conversamos e ele pediu para que eu fizesse um teste de tela. As coisas começaram assim. Eu estava um pouco com medo, não vou negar. Pawel me pediu que eu fosse natural. Ele sabia que não estava trabalhando com uma atriz profissional e tinha noção das consequências disso. Não estou segura de seguir a carreira de atriz. As vezes acho que esse mundo não é pra mim. Tive que parar meus estudos por um tempo. Faço especialização em Antropologia Cultural na Faculdade de Ciências Humanas de Varsóvia”.
Leia a entrevista do jornal argentino La Nacion na integra aqui

fevereiro 18, 2015 No Comments
Roteiros: Birdman, Boyhood, Whiplash
Leia online ou baixe os roteiros originais clicando no nome dos filmes: “Birdman“, “Boyhood“, “Whiplash” e “O Grande Hotel Budapeste”. Os demais filmes da safra 2014 do Oscar (”Garota Exemplar”, “Grandes Olhos”, O Jogo da Imitação”, “O Abutre”…) podem ser conferidos no mesmo esquema aqui.
janeiro 31, 2015 No Comments
Conheça os cigarros Novo Testamento
“Bananas”, de Woody Allen, foi lançado em 1971 nos EUA, e, vetado pela ditadura e pela Igreja no Brasil, estreou aqui apenas em 1975, mas com uma cena/piada cortada pela censura, a dos cigarros New Testament…
janeiro 13, 2015 No Comments
Boyhood no Jornal Opção, de Goiânia

Leia esse texto aqui
dezembro 6, 2014 No Comments
Stanley Kubrick por Martin Scorsese

Em 1999, alguns meses após a morte de Stanley Kubrick, não foi surpresa, no momento da estreia de “De Olhos Bem Fechados”, o fato de o filme ser tão mal compreendido. Quando olhamos para o passado e nos interessamos pelas reações, na época, aos filmes de Kubrick (com exceção dos mais recentes), percebemos que, a princípio, todos foram mal compreendidos. Somente depois de cinco ou dez anos acabávamos nos dando conta de que “2001: Uma Odisseia no Espaço” ou “Barry Lyndon” ou “O Iluminado” não eram parecidos com nada do que os havia precedido ou seguido.
Se Kubrick tivesse vivido o bastante para assistir ao lançamento de seu último filme, sem dúvida alguma teria ficado decepcionado com as reações hostis que ele provocou. Mas, certamente, no final das contas, teria relativizado esse fato e passado a outra coisa. É a sina de todos os verdadeiros visionários que não tomam caminhos repisados. Artistas do calibre de Kubrick têm mentes brilhantes e dinâmicas para imaginar o mundo em movimento, para compreender não apenas de onde vem, mas para onde vai.
Consideremos “De Olhos Bem Fechados”. Muitas pessoas foram desestimuladas pelo lado irreal do filme: as ruas largas demais de Nova York, a cena pouco crível da orgia, o desenrolar propositalmente lento da ação. Tudo isso é verdade, e, se o filme tivesse a pretensão de ser realista, essas críticas seriam perfeitamente aceitáveis. Mas “De Olhos Bem Fechados” inspira-se numa novela de Arthur Schnitzler intitulada “Breve Romance de Sonho”, a história da ruptura de um casamento contada com a lógica de um sonho. E como em todo sonho, você não sabe realmente quando entrou nele. Tudo parece verdadeiro, como na vida, mas diferente, um pouco exagerado, um pouco defasado; as coisas parecem acontecer como se tivessem sido programadas, às vezes em um ritmo estranho, do qual é impossível escapar.
O público não estava nem um pouco preparado para um filme onírico que não se apresentava como tal, não dava os sinais habituais – névoa, pessoas aparecendo ou desaparecendo à vontade, ou levitando. Como “Viagem à Itália”, de Rosselini, um filme também completamente incompreendido em sua época, “De Olhos Bem Fechados” conta a dolorosa jornada de um homem e de uma mulher que, no fim, agarram-se um ao outro. Os dois filmes são de uma aterradora autoexposição. Ambos perguntam: até que ponto pode se confiar em outro ser humano? E acabam de modo hesitante, mas também esperançoso, honesto.
Assistir a um filme de Kubrick é como ver o cume de uma montanha a partir do vale. Nós nos perguntamos como alguém pôde subir tão alto. Há em seus filmes trechos, imagens e espaços carregados de emoção que têm uma potência inexplicável, uma força magnética que nos aspira lenta e misteriosamente: o itinerário do menino percorrendo os intermináveis corredores do hotel em seu velocípede em “O Iluminado”; o silencio monumental do espaço sideral em “2001, Uma Odisseia no Espaço”; o ritmo inumano da primeira metade de “Nascido Para Matar”, que vai num crescendo até sua resolução lógica e sangrenta; a espetacular sala de guerra de “Dr. Fantástico”, a um só tempo aterrorizante e cômica; o futuro brutalmente pop de “Laranja Mecânica”; a intimidade crua dos diálogos entre Tom Cruise e Nicole Kidman em “De Olhos Bem Fechados”.
Eu não poderia dizer se há um filme de Kubrick que eu prefira, mas o fato é que “Barry Lyndon” exerce sobre mim um fascínio particular. Acho que isso se deve à emoção que caracteriza esse filme. A emoção é veiculada pelo movimento da câmera, a lentidão do ritmo, a maneira como os personagens evoluem em relação ao seu entorno. Ninguém entendeu isso quando o filme foi lançado. Ainda hoje, alguns não o compreendem. Assistimos, um plano cativante atrás do outro, à metamorfose de um homem que passa da mais pura inocência ao refinamento mais glacial, e, para terminar, à amargura mais fúnebre – pois sua sobrevivência depende disso, simplesmente. É um filme terrível, pois toda aquela beleza iluminada por velas é apenas um véu dissimulando a crueldade mais abjeta. Mas uma crueldade verdadeira, daquelas cujos estragos podemos constatar todos os dias na boa sociedade.
Stanley Kubrick era um dos únicos mestres modernos que tínhamos, e esta última edição do livro definitivo de Michel Ciment, “Conversas com Kubrick”, é uma contribuição inestimável. Acompanhei e estudei regularmente a obra de Kubrick durante anos. Ele era único, na medida em que, a cada novo filme, redefinia esse meio de expressão e suas possibilidades. Mas era mais que um simples inovador técnico. Como todos os visionários, ele dizia a verdade. E, por mais que fiquemos à vontade com a verdade, ela sempre provoca um choque profundo quando somos obrigados a encara-la.
Martin Scorsese, junho de 2002. Prefácio de “Conversas com Kubrick“.

Leia também:
– “Laranja Mecânica”, o filme, é filosofia pura (aqui)
– “De Olhos Bem Fechados”: provocativo e genial (aqui)
– “Inteligência Artificial”: saber a hora de parar é virtude (aqui)
– Frederic Raphael fala sobre “De Olhos Bem Fechados” (aqui)
– Sobre Scorsese e filmes que salvam almas (aqui)
agosto 26, 2014 No Comments


