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Category — Cinema

Três filmes: o capitão, o lutador, a garota

Mais três filmes. O primeiro visto em DVD (relançado em 2009 em uma edição comemorativa de 30 anos), os outros dois no cinema…

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“Sem Destino” (“Easy Rider”, 1969)
Peter Biskind, no obrigatório “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock and Roll Salvou Hollywood”, diz que Dennis Hopper jogou a última pá de cal sobre o cinema dos anos de ouro de Hollywood com esta obra prima de sexo, drogas e rock and roll. “Sem Destino” não é só o filme que ensinou a América a fumar maconha, tomar LSD e cheirar cocaína. “Sem Destino”, nas palavras de Biskind, “mostrava os rebeldes, os fora da lei e, por extensão, a contracultura como um todo, como vítimas: estavam sendo exterminados por um mundo careta”. Jack Nicholson, o advogado cachaceiro, é o responsável pelo momento que explica o filme, e praticamente a história da humanidade. No final, após uma orgia psicodélica em túmulos de cemitério, Capitão América sentencia: “Nós estragamos tudo”. Estragamos. E não conseguimos consertar. O resultado é um filme absolutamente sensacional.

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“O Vencedor” (“The Fighter, 2010”)
Você já assistiu essa história antes. Jovem com problemas com drogas transforma a vida da família em um caos, mas o irmão mais novo (auxiliado por uma namorada determinada) segue em frente atrás de um sonho. O drogado se torna ex-drogado, apóia o irmão e tudo termina bem. “O Vencedor”, de David O. Russell, representa “Um Sonho Possível” na cerimônia do Oscar deste ano. Assim como Sandra Bullock saiu com seu Oscar (merecido), desta vez a Academia deverá coroar a atuação de Christian Bale, ótimo no papel (embora seja válida a questão: papéis com cacoetes são mais fáceis de interpretar e arrebatar um estatuazinha dourada? Acho que sim, e os exemplos são muitos). “O Vencedor”, assim como “Um Sonho Possível” (e “Ray”, e “Walk The Line” e tantos outros) é (mais) uma história verídica de redenção pessoal. Apesar de soar batido, tem lá seus bons momentos, e vale a meia entrada do cinema.

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Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pillgrim vs The World, 2010)
Ou o amor e a adolescência encontram o mundo dos games. A idéia é bem simples: transportar o universo de uma comédia romântica adolescente para o mundo virtual, e o diretor Edgar Wright alcança o seu objetivo. Não confunda simplicidade com falta de personalidade: um rapaz (Scott Pilgrim) se apaixona pela garota (quase) impossível (Ramona V. Flowers) e precisa enfrentar uma série de desafios para conquistar o coração de sua amada. Como se estivesse passando de fases em um game, Scott enfrenta os sete ex-namorados da moça, a sua própria ex-namorada que não quer largar do seu pé, os amigos de sua banda indie que querem assinar um contrato com uma major, e sua própria timidez. O resultado é uma deliciosa comédia romântica repleta de citações de games, algumas passagens impagáveis, cabelos cor-de-rosa e paixonites adolescentes. Nada de novo, mas é possível sonhar com Ramona Flowers durante semanas…

fevereiro 15, 2011   No Comments

Três filmes: o amor, o rei e o cisne

Uma das minhas metas pessoais para 2011 era a de ver ao menos um filme no cinema por semana. Já vi mais, mas para não acumular os pequenos textinhos, lá vão três…

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“O Amor e Outras Drogas” (“Love & Other Drugs”, 2010)
Imagine a cena: três roteiristas sentados na mesa de um bar tentando, cada um, puxar a sardinha do roteiro do filme que estão fazendo em conjunto para o seu lado. É mais ou menos isso que Edward Zwick (que também assina a direção), Charles Randolph e Marshall Herskovitz deixam transparecer com “O Amor e Outras Drogas”, um filme que no papel deveria ser bem bacana, mas que nas telas se transformou em um dardo de tiro ao alvo voando pra todo lado. Há drama (uma garota com mal de Parkinson), sensualidade (a mesma garota andando nua boa parte do filme – a propósito, Anne Hathaway), comédia (o começo divertido com Jake Gyllenhaal bastante inspirado) e pastelão. Em nenhum momento do filme, o roteiro decide pra que lado quer ir. No final deixa uma impressão de comédia romântica dramática, mas não convence.

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“O Discurso do Rei” (“The King’s Speech”, 2010)
Pra você ver como as coisas são, caro leitor: o mundo deu voltas e voltas, e o cinema independente agora posa de cinema clássico, sem arriscar, sem ousar, apenas usando a tela para contar uma história. Ok, nem tão independente assim (com a The Weinstein Company metida no meio), mas é interessante ver como Hollywood se afundou na megalomania e um filmezinho bacana de 15 milhões de dólares ameaça arrebatar várias estatuetas douradas na festa do Oscar. “O Discurso do Rei” é corretíssimo, mas esquecível. Em cinco anos ninguém vai lembrar dele (alguém lembra de “Shakespeare Apaixonado” por exemplo?). Isso não desmerece as belíssimas atuações do trio de fource (hehe) de atores (Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter), mas o cinema pode mais, bem mais do que isso. Serve como antítese e passatempo. E só.

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“Cisne Negro” (“Black Swan”, 2010)
Um dos grandes filmes do ano passado, “Cisne Negro” soa como se Darren Aronofsky tivesse recuperado a confiança com o ótimo (e extremamente básico) “O Lutador” após ter dado com os burros n’agua em “A Fonte da Vida” (que até tem fãs, mas continua sendo uma porcaria). Aronofsky volta a filmar com o tesão que mostrou nos excelentes “Pi” e “Réquiem Por um Sonho”, o que garante a mesma dose de exagero deste dois em “Cisne Negro” (“O Lutador”, por sua vez, é bem mais econômico). Os exageros (visuais e ficcionais) às vezes tiram um pouco da força da história, mas não arranham o status de grande filme de “Cisne Negro”, não só devido à ótima atuação de Natalie Portman, que é bacana e tal, mas é hiper-dimensionada pelo excelente roteiro (esse sim deveria ganhar o Oscar). O grande nome do filme não é Natalie Portman, mas sim Darren Aronofsky. Ele sabe o que faz (na maioria das vezes)… 😛

fevereiro 15, 2011   No Comments

De Stanley Kubrick para Luis Buñuel

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Seis dias. Fazia tempo que eu não devorava um livro tão ferozmente como este “Kubrick, De Olhos Bem Abertos”, de Frederic Raphael, um senhor que ganhou o Oscar de Melhor Roteirista por “Darling, a Que Amou Demais” (1965), e em que em 1994 foi procurado por Stanley Kubrick para adaptar um trecho de um livro do escritor austríaco Arthur Schnitzler (“Breve Romance de Sonho”).

O que se segue é a rotina de um roteirista contratado por um grande diretor em um trabalho (quase) conjunto de um grande filme. “O roteirista nunca tem o mesmo poder de um diretor. No entanto, ás vezes, pode ter a ilusão de tê-lo”, escreve Frederic em certo momento, enquanto relembra uma vez em que Diane Keaton, impressionada com um roteiro seu, fez apenas uma reclamação: “Por que eu não podia escrever seu personagem com peitos maiores?”.

Frederic brinca com analogias clássicas para explicar a função de um roteirista em um filme: “Nenhum homem é herói sem seu mordomo, mas o mordomo, por essa mesma razão, nunca é um herói”. O roteirista é o mordomo, e em boa parte do livro, Frederic imagina o momento em que, trabalho entregue, será dispensado. “Stanley não quer um colaborador”, reflete em certo momento. No fim, justifica para si mesmo: “Tenho o consolo da prostituta: o que quer que seja, ele me escolheu”.

O livro alterna três formas de escrita, que facilitam bastante a leitura, partindo do roteiro clássico (com posições de cenário – “Externa, portão da casa de Stanley Kubrick”… – e conversas diretas entre F.R. e S.K.), passando pelo diário do escritor (que destaca vários trechos em que o autor tenta entender o mito Kubrick) e por trechos a la romance, que invariavelmente refletem o processo de feitura de “De Olhos Bem Fechados” enquanto o roteirista conta histórias com Audrey Hepburn, Marcello Mastroianni, Billy Wilder…

Cinema é o tema de alguns telefonemas que Kubrick faz para Raphael, discussões curtas como: “Você viu Pulp Fiction?”, pergunta Kubrick. “É um filme que precisamos levar em consideração, eu acho”, continua o diretor. “O ritmo, observe o ritmo”, finaliza. Envia o “Decálogo”, de Kieslowski, ao roteirista, diz que Woody Allen fez uma casa muito grande para o personagem de “Maridos e Esposas” (“Ele – o personagem – não ganha tanto para ter uma casa daquele tamanho”, justifica, alertando: “Não podemos cometer o mesmo erro”) e fala sobre seus filmes.

Valeu o esforço? Com a palavra, Frederic Raphael, após finalizar a segunda versão do roteiro:

– Ele acha melhor tentar acertar para que o filme seja feito. É a primeira vez que diz alguma coisa sobre fazer o filme.
– Espero que tenha valido a pena – comenta a esposa.
– Deus queira que em meu epitáfio não conste apenas “Ele trabalhou com Stanley Kubrick. Uma vez”.
– E queira Deus que não sejam duas vezes – diz ela.
– Ele é o melhor.
– É bom mesmo que seja.
– O que acha de sairmos para jantar? Hora de comemorar. Mesmo sem saber o quê, exatamente.
– Ter sobrevivido, talvez?

Fica a dica. Na Estante Virtual, site que reúne centenas de sebos do país inteiro, o livro de Frederic, lançado pela Geração Editorial, custa entre R$ 12 e R$ 25. Vale.

“Ele é, começo a suspeitar, um diretor de cinema que por acaso é um gênio e não um gênio que por acaso é um diretor de cinema. Minha dificuldade será adivinhar o que ele realmente quer de mim. E a dele será a mesma. Vou acabar descobrindo que, como sempre acontece com os bons diretores, ele quer apenas as habilidades que não consegue obter por si só. Uma vez que eu as fornecer, elas lhe parecerão tão banais que ele facilmente se convencerá de que é menos um caso de não possuí-las do que o de estar muito ocupado para poder aplicá-las. Fui contratado para preparar a festa, mas a festa com certeza será dele”…

Agora… Luis Buñuel…

fevereiro 9, 2011   No Comments

Top 20 Filmes entre 2001 e 2010

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Me pediram uma lista dos 10 melhores filmes da década 2001/2010. Na correria, listei uns 40 e fui cortando, cortando, cortando até chegar a 20. Fiz correndo agora… será que tinha esquecido algo? Dai, nos comentários, vários amigos acrescentaram coisas. A minha lista final é a de cima. A debaixo é a lista com a “repescagem”…

01) Sangue Negro, Paul Thomas Anderson (2007) (texto)
02) Match Point, Woody Allen (2005) (texto)
03) Onde os Fracos Não Tem Vez, Irmãos Coen (2007) (texto)
04) Fale com Ela, Pedro Almodóvar (2002)
05) Katyn, Andrzej Wajda (2007) (texto)
06) Cidade de Deus, Fernando Meirelles (2002) (texto)
07) Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino (2009) (texto)
08) A Vida dos Outros, Florian H. von Donnersmarck (2006) (texto)
09) A Fita Branca, Michael Haneke (2009) (texto)
10) Dogville, Lars von Trier (2003)
11) Menina de Ouro, Clint Eastwood (2004)
12) Brilho Eterno, Michel Gondry (2004) (texto)
13) Os Excêntricos Tenenbaums, Wes Anderson (2001)
14) Closer, Mike Nichols (2004) (texto)
15) 2046, Wong Kar Wai (2004) (texto)
16) A Rede Social, David Fincher (2010)
17) Toy Story 3, Lee Unkrich (2010) (texto)
18) Antes do Pôr-do-Sol, Richard Linklater (2004) (texto)
19) Batman Begins, Christopher Nolan (2005) (texto)
20) Adaptação, Spike Jonze (2002) (texto)

Ps. Caiu “21 Gramas”, do Alejandro González Iñárritu, que estava em 20ª, para a entrada de “A Fita Branca”, do Haneke, em nono. Será que “O Segredo dos Seus Olhos” merecia uma posição? Dúvida…

Ps 2. Caiu “O Segredo de Brokeback Mountain”, Ang Lee (2005) (texto) da 17ª posição para a entrada de “Toy Story 3”, que tinha que entrar.

Agora, a lista com as cobranças feitas pelos amigos nos comentários:

01) Sangue Negro, Paul Thomas Anderson (2007) (texto)
02) Onde os Fracos Não Tem Vez, Irmãos Coen (2007) (texto)
03) Fale com Ela, Pedro Almodóvar (2002)
04) Katyn, Andrzej Wajda (2007) (texto)
05) Cidade de Deus, Fernando Meirelles (2002) (texto)
06) Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino (2009) (texto)
07) A Vida dos Outros, Florian H. von Donnersmarck (2006) (texto)
08) Cidade dos Sonhos, David Lynch (2001) (texto)
09) Os Excêntricos Tenenbaums, Wes Anderson (2001)
10) Caché, Michael Haneke (2005)
11) Dogville, Lars von Trier (2003)
12) Brilho Eterno, Michel Gondry (2004) (texto)
13) Closer, Mike Nichols (2004) (texto)
14) 2046, Wong Kar Wai (2004) (texto)
15) O Segredo dos Seus Olhos, Campanella  (2009) (texto)
16) Elephant, Gus Van Sant (2003)
17) The Dark Knight, Christopher Nolan (2008)
18) Old Boy, Chan-wook Park (2003)
19) Whatever Works, Woody Allen (2009) (texto)
20) O Lutador – Darren Aronofsky (2009) (texto)

Algumas mudanças pontuais da primeira lista pra segunda. Woody Allen trocado (embora eu não concorde – risos): sai “Match Point” e entra “Whatever Works”. Caíram “Menina de Ouro”, “A Rede Social”, “Toy Story 3”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Adaptação”. “Batman Begins” foi trocado por “The Dark Knight”. “A Fita Branca” deu lugar para “Caché”. E entraram “Cidade dos Sonhos”, “O Segredo dos Seus Olhos”, “Elephant”, “Old Boy” e “O Lutador”. Ainda foram citados todos estes filmes abaixo (alguns eu concordo que mereciam, outros não). E quando me pediram era só um Top 10. Estiquei para um Top 20 (e por pouco não fiz um Top 21 para encaixar o David Lynch, que entrou na segunda lista). Ainda fico com a primeira… e quem quiser arriscar, deixa o seu Top 20 nos comments. Pensa que é fácil? (risos)

Outros filmes citados
– Extermínio, Danny Boyle (2002)
– Encontros e Desencontros, Sofia Coppola (2003)
– O Labirinto do Fauno, Guillermo del Toro (2006)
– O Filho da Noiva, Juan José Campanella (2001)
– Gran Torino, Clint Eastwood (2008) (texto)
– Casa Vazia, do Kim Ki-Duk (2005)
– O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Jean-Pierre Jeunet (2001)
– Irreversível, Gaspar Noé (2002)
– Into The Wild, Sean Penn (2007) (texto)
– À Prova da Morte, Quentin Tarantino (2007) (texto)
– Zodiaco, David Fincher (2007)
– Vanilla Sky, Cameron Crowe (2001) (texto)
– Paranoid Park, Gus Van Sant (2007) (texto)
– Sinédoque Nova York, Charlie Kaufman (2008) (texto)

Antes de 2000
– Memento, Christopher Nolan (2000)
– Clube da Luta, David Fincher (1999)
– Alta Fidelidade, Stephen Frears (2000)

dezembro 20, 2010   No Comments

A Mostra SP 2010 e eu

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Trailer de “Um Garoto de Liverpool”

Estava quase certo que a Mostra SP iria passar em branco para mim, mas do último domingo pra cá conseguir aproveitar os horários vagos e consegui ver umas coisas bem legais. Primeiro foi o “Nowhere Boy” (“Um Garoto de Liverpool”), que foca na relação de John Lennon com sua mãe Julia e com a Tia Mimi. Sam Taylor-Wood pesa a mão na direção, mas o filme vale por várias passagens.

Na segunda consegui ver o bom argentino “O Olho Invisível”, de Diego Lerman. Lembrou-me muito Haneke (notadamente “A Professora de Piano” com uma possível pincelada de “A Fita Branca”), mas valeu. A meia-noite teve a primeira exibição do preguiçoso novo filme de Woody Allen, “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”. Ou faltou verba, ou ele desistiu de terminar o filme. Mas é Woody Allen, né.

O filme separado para a terça foi “Um Lugar Qualquer”, novo olhar de Sofia Coppola sobre a solidão e o vazio humano. É um dos filmes que mais gostei de ver nos últimos tempos. Trilha caprichada (tem até uma demo dos Strokes que funciona lindamente – está no trailer linkado no fim deste post também) e muito, mas muitos silêncios. Sofia está fazendo aquilo que seu pai Francis sempre sonhou: cinema autoral. Merece aplausos.

Para hoje tem “Uma Carta Para Elia”, documentário de Martin Scorsese e Kent Jones sobre Elia Kazan, um dos lendários e polêmicos diretores de Hollywood (“Sindicato de Ladrões”, “Vidas Amargas”, “A Luz é Para Todos”), que como ex-membro do Partido Comunista dos Estados Unidos, denunciou colegas do antigo partido ao Comitê de Investigações de Atividades Anti-Americanas.

Para amanhã, optei por “Gainsbourg – Vida Heróica” no lugar de “Rede Social”, o filme sobre o Facebbok que fecha a Mostra SP deste ano. Melhor ir atrás de um que pouco provavelmente estréie no lugar de outro que já está com estréia prevista. Preciso, por fim, encontrar um filme para o lugar de “Howl”, de Rob Epstein, cuja exibição de hoje foi cancelada. E tentar pegar alguns na repescagem. Pelo jeito vou manter a média de seis ou sete filmes…

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Trailer de “Um Lugar Qualquer”

novembro 3, 2010   No Comments

A menina, o mamute e o liquidificador

“A Menina Santa”, Lucrecia Martel (2004)

Considerada por muitos o grande nome do cinema argentino nos últimos dez anos, Lucrecia Martel mostra (por a + c) com “A Menina Santa” o motivo de tanta admiração. Todos os elementos de um filme são tratados com extremo cuidado e personalidade. O roteiro, por exemplo, conduz o espectador na trama delicada sem o tornar cúmplice (o público idealiza mais do que o filme realmente entrega). A fotografia, por sua vez, procura os ângulos pouco comuns, o que passa certo aspecto de voyeurismo e também de intimidade sem, no entanto, desvendar a história através das imagens. Na verdade, nada é desvendado. E este é o grande mérito de “A Menina Santa” (e do cinema de Martel): deixar a idéia flutuando na mente do espectador. O que não se mostra é o que interessa. Uma pequena aula de cinema.

“Soy Cuba, O Mamute Siberiano”, Vicente Ferraz (2004)

Vicente Ferraz estudou cinema na Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de Los Baños, em Cuba, e foi lá que conheceu a obra que o cineasta russo Mikhail Kalatozov filmou no início da revolução cubana, em 1960 (logo após ter conquistado uma Palma de Ouro em Cannes, em 1958). “Soy Cuba” necessitou de quase três anos para ficar pronto, e não agradou ao povo cubano (que não aprovou o olhar dos russos sobre o país) nem tampouco teve sobrevida no Velho Mundo. Foi engavetado logo após a estréia e redescoberto 30 anos depois por Martin Scorsese e Francis Coppola, que o relançaram nos EUA. Ferraz conta a história da produção de “Soy Cuba” e conversa com atores e pessoas que trabalharam na realização do filme – algumas passagens são comoventes. Nos extras ele explica o mais belo plano seqüência do filme (quiça da história do cinema), obra do fotógrafo Serguey Urusevsky.

“Reflexões de um Liquidificador”, André Klotzel (2010)

Eis um dos filmes nacionais mais bacanas deste ano. Não que seja perfeito, mas a originalidade do tema e a esperteza do roteiro transformam o drama de um velho liquidificador em uma história interessante. E Selton Mello agora pode dizer que é um ator pau (ops) pra toda obra. É ele quem dá voz e alma para o liquidificador que, de uma hora para outra, começa a ter sentimentos e conversar com Dona Elvira, uma dona de casa que passa apuros com o sumiço repentino do marido. Klotzel brinca muito bem com os clichês (o policial, a gostosona, o thriller), mas apesar de sua curta duração (80 minutos), “Reflexões” cansa um bocadinho no meio, quando o eletrodoméstico começa a pensar em sua própria vida. Faltou uma história secundária forte para tirar o liquidificador da tomada. Mesmo assim, um filme a ser visto e admirado.

outubro 18, 2010   No Comments

A Hollywood dos anos 70

– “Quem serrrr esse merrrda? O que ele fez em seu última filme?”, berrou Charlie, um imigrante austríaco.

– “O último filme dele foi ‘O Caminho dao Arco-Iris'”, respondeu Evans.

– “Como você tem corrrragem de me mandar a porrrrra do Caminhas da merrrrrda do Arrrrco- Iris? O filme foi uma bhosta completo!”

Francis foi para Nova York, conversou com Charlie. Dois dias depois, Evans recebeu um telefonema. “O garrroto ser brrrrrilhante, fala bem, mas sabe dirrrrrrrigir?”, Charlie perguntou.

– “Acredite em mim, Charlie, ele sabe dirigir”.

Ps. os personagens:

* Charlie Bludhorn era presidente da produtora Gulf + Western
* Robert Evans era produtor da Paramount
* Francis Ford Coppola era um jovem diretor em Hollywood

O diálogo acima foi travado após Evans convencer Francis a dirigir “O Poderoso Chefão” (Coppola só aceitou dirigir porque estava bastante individado, mas o projeto não o havia seduzido). Agora Evans precisava convencer o presidente da Gulf e o presidente da Paramount a investir uma grana em um projeto ambicioso que contava com um diretor novato (Coppola) que tinha feito três filmes, abre aspas: “Agora Você é um Homem”, uma bobagem pretenciosa, zero de bilheteria, “O Caminho do Arco-Iris”, um grande musical da Broadway que Coppola transformou num desastre, e “Caminhos Mal Traçados”, que todo mundo malhou”. Fecha aspas

“O Poderoso Chefão” faturou 150 milhões de dólares numa época que os filmes faturavam 40 milhões…

Trecho de “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock and Roll salvou Hollywood”, de Peter Biskind. Resenhas aqui.

setembro 6, 2010   No Comments

Um naturalista, um poeta e dois assassinos

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“Criação”, Jon Amiel (2009)

Incrível como os ingleses acreditam que toda a História da humanidade está amplamente relacionada a casos amorosos. “Sylvia”, a adaptação de Christine Jeffs para a história da poetisa Sylvia Platt (com Gwyneth Paltrow no papel principal) é um exemplo (escrevi na época aqui). Existem outros, como este “Criação”, que freqüentou os cinemas meses atrás e agora chega às locadoras pretendendo contar a história de Charles Darwin em um período de sua vida que iria revolucionar o modo de olhar o mundo. Darwin está afundado nos trabalhos de escrita de “Origem das Espécies”, o livro que revolucionou a biologia e desafiou dogmas da igreja. Na visão dos ingleses, esse ato de criação se transforma em um romanção em que o homem dividido entre a família e o trabalho quase enlouquece, visão besta e clichê que atrapalha as atuações de um bom elenco encabeçado por Paul Bethany e Jennifer Connelly. Ignore.

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“Brilho de Uma Paixão”, Jane Campion (2009)

Ela é uma jovem garota que está ganhando fama na cidade com seus moldes e roupas. Ele é um jovem pobre que está tentando a sorte no mundo das letras. O encontro destas duas almas perdidas no mundo move está belíssimo “Bright Star”, filme assinado com estilo pela diretora neozelandesa que já ganhou a Palma de Ouro em Cannes por “O Piano”, em 1993. Ele é (ou viria a ser) o poeta inglês John Keats (interpretado pelo ótimo Ben Whishaw). Ela é Fanny Brawne (com a convincente Abbie Cornish encantando corações). Os dois vivem um romance impossível bem típico do século 19. Eles se amam, mas o jovem poeta não tem dinheiro para bancar o dote da moça. O platonismo domina a tela e o texto rebuscado (aliado à fotografia encantadora) conquista o espectador logo nos primeiros minutos, e o enleva numa história sem final feliz. Cuidado: você corre o risco de sair tuberculoso da sessão. E apaixonado.

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“Na Mira do Chefe”, Martin McDonagh (2008)

Releve o título nacional besta. “In Bruges” toma uma das paisagens mais belas da Europa (da cidade de Bruges, na Bélgica) como pano de fundo para contar uma história de assassinos que começa tolinha como imagens de cartões postais, mas que cresce vertiginosamente rumo a um final épico e grandioso.  O apelo do humor negro lembra muito os primeiros filmes de Danny Boyle (notadamente “Cova Rasa” e “Trainspotting”). A história gira em torno de dois assassinos de aluguel (Colin Farrell e Brendan Gleeson, ótimos), que após um serviço mal feito, acabam se escondendo na cidadezinha belga que tem o centro histórico mais bem preservado da Europa – e muitas cervejas boas. Ray (Farrell) é o típico britânico tosco que não vê graça nenhuma em ficar olhando prédios velhos enquanto Ken (Gleeson) quer aproveitar o refúgio forçado para passear na cidade encantadora. Os diálogos são hilários e o final assustador. Uma bela surpresa.

Leia também sobre outros filmes na categoria Cinema deste blog

setembro 6, 2010   No Comments

Joan Crawford, Mia Farrow e Forest Whitaker

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“Grand Hotel”, Edmund Goulding (1932)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme de 1932, aliás, única categoria que concorreu (por uma provável pressão de seu estúdio, o poderoso MGM), “Grande Hotel” faz parte de uma época em que os diretores iam aos estúdios para seguir a risca as anotações dos produtores, neste caso, Irving Thalberg, que cuidou do roteiro e escalou a seleção de estrelas (e egos) que dá um baile no filme (tanto Joan Crawford quanto John Barrymore mereciam, no mínimo, uma indicação ao prêmio da Academia). A história gira em torno do cotidiano de um grande hotel – no caso, em Berlim, centro cultural e nervoso do mundo entre guerras. Greta Garbo está ok como uma bailarina decadente, mas Joan a devora mostrando charme e sensualidade no papel de uma datilografa que acaba tendo que dormir com o patrão por dinheiro. Há discussões aqui que são atuais ainda hoje.

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“O Grande Gatsby”, Jack Clayton (1974)

Não li o livro, o que é uma grande falha de caráter (eu sei), mas ninguém é perfeito (como diria uma música do Fellini: “Eu quis ser”… – risos). Mesmo assim, pela fama universal do livro, eu esperava mais dessa adaptação que tem o senhor Francis Ford Coppola assinando o roteiro e Robert Redford e Mia Farrow nos papéis principais. Como filme, “O Grande Gatsby” é extremamente óbvio e pouco inspirado. Falta ritmo e desde o começo o espectador já sabe o que vai acontecer. Amores não correspondidos da juventude que a gente sempre vai carregar como uma cicatriz na alma rendem boas tramas, mas o diretor Jack Clayton e seu amigo Coppola não souberam usar o material que tinha nas mãos e o filme ficou capenga, arrastado, chato. Nem li o livro, mas arrisco sem medo de errar: fique com ele.

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“O Último Rei da Escócia”, Kevin Mcdonald (2006)

Perdi de ver no cinema, o que é uma pena, pois a história de Idi Amin Dada – o ditador cujo regime é acusado de ter matado entre 300 e 500 mil pessoas em Uganda – é impressionante (e devia impressionar ainda mais na telona). Forest Whitaker está ótimo no papel do ditador, e o roteiro tenta mostrar o lado humano do homem, e consegue até certo ponto, mas não adianta: no final o que prevalece é um forte gosto amargo cujo cerne é aterrorizante: histórias de canibalismo e de assassinatos brutais. O ator James McAvoy, que sempre decora bons papéis secundários (“Desejo e Reparação”, “Coisas Belas e Sujas”, “Wimbledon”), está muito bem no papel romanceado do médico que se torna braço direito do ditador. Para ver e pensar na África.

agosto 9, 2010   No Comments

Você conhece Roma? E a Roma de Fellini?

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Na primeira cena, a morte (uma garota segurando uma foice) caminha em uma estrada devastada. Close na placa: Roma, 340 quilômetros. A declaração de amor do cineasta Federico Fellini à cidade eterna é simplesmente devastadora e emocionante. O cineasta caçoa da cidade que o abrigou ao mesmo tempo em que faz belíssimas declarações de amor. “Devemos ser leais a nossa natureza”. A frase justificativa é do próprio Fellini no meio do filme, após ser pressionado por alguns estudantes que não querem a Roma de todos os filmes: “simpática, confusa e maternal”. Eles querem ver nas telas os problemas dos trabalhadores, da educação.

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Um produtor, no entanto, se preocupa: “Este filme será exibido no estrangeiro. O que vão pensar da nossa querida Roma? Que Roma é essa cheia de vadios, drogados, hippies nojentos, travestis e estudantes que não querem estudar? As pessoas são más”, diz o senhor grisalho com olhos de quem já viu dias melhores na cidade eterna. A saída de Fellini é voltar ao passado, direto para um velho teatro pré-guerra, em que artistas desafiam o público em números de comédia, música e dança.

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No entanto, o alarme soa e todos são levados para um abrigo antiaéreo. Bombas caem sobra cidade do Papa enquanto geringonças perfuram o subterrâneo tentando expandir as linhas de metrô da cidade. “A cada 100 metros encontramos uma obra histórica”, diz em tom de pesar o dono da companhia. “Chamamos os arqueólogos e as obras param por quase um ano. Sabe desde quando existem planos de metrô em Roma? 1880. Sempre paramos na burocracia e nas obras históricas”, diz o senhor.

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Fellini, no entanto, não desiste de ser leal a Roma que ele vê. Ele destrói a cidade, e a acaricia. Dezenas de pessoas almoçam no meio da rua, ao lado dos trilhos dos bondes. Uma criança grita palavrões. O pai ri. A câmera então leva o espectador para um pedágio de carros, e uma voz em off diz: “Que impressão a Roma dos dias de hoje pode dar aos turistas? Vamos entrar pela cidade de carro pela auto-estrada”. O cenário que se vê é de caos completo. Prostitutas e travestis acenam dos acostamentos, animais invadem a estrada, acidentes param o trânsito, buracos aparecem por todos os lados, a chuva alaga as ruas e o congestionamento é assustador parando no…  Coliseu. Isso é Roma. Ao menos é a Roma de Fellini. Quer mais lealdade do que expor a cidade que você ama com todos os defeitos e qualidades de forma tão… visceral?

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Porém, o diretor não para por ai. Ele desanca o papado em um sensacional e corrosivo desfile de moda eclesiástica. Há muito mais. A câmera passeia pelo bairro do Trastevere e flagra um escritor norte-americano que vive em Roma. Assim que vê a câmera, ele começa o monólogo arrasador: “Você quer saber por que vivo em Roma? Eu poderia dizer que vivo em Roma porque é uma cidade central, mas na verdade Roma é a cidade das ilusões. É uma cidade, antes de tudo, da Igreja, do governo e do cinema. Todos fabricantes de ilusões. Eu também fabrico ilusões, assim como você. E quer lugar melhor do que esta cidade, que já morreu tantas vezes, e ressuscitou outras tantas, para ver o verdadeiro final da humanidade através da superpopulação e da poluição? Me parece o local perfeito para ver se acabamos de vez ou não”.

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A cena termina com um brinde ao final da humanidade. E de Roma. Os restos da cidade, que também podem ser chamados de fontes, são iluminados em um passeio de moto na madrugada que é pura poesia cinematográfica. Simplesmente sensacional. Sensacional. Sensacional.

julho 7, 2010   No Comments