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Dylan com café, dia 32: Oh Mercy

Bob Dylan com café, dia 32: Os anos 80 foram cruéis com muita gente, e Dylan deve estar numa posição de destaque na fila de desastres. A década estava enfim acabando, era 1989, e seu último disco digno havia saído seis anos antes, em 1983 (“Infidels”). Sua carreira tinha seguido até então no piloto automático, sem grandes novidades, mas muitos senões. “Eu estivera numa turnê de 18 meses com Tom Petty e os Heartbreakers. Tom estava no auge do lance dele, e eu no fundo do meu”, escreveu Bob no livro “Crônicas” sobre a virada de 1986 para 1987. Ele sabia que algo estava errado. Seu resumo do período é crítico: “Sempre prolifica, mas nunca exata, minha trilha musical se transformara numa selva de trepadeiras por causa do excesso de distrações. (…) Eu me sentia acabado, um traste vazio completamente consumido. Onde quer que eu vá, sou um trovador dos anos 60, uma relíquia do folk rock, um artesão da palavra de tempos passados, um chefe de Estado fictício de um lugar que ninguém conhece. Estou no inferno do esquecimento cultural”. Era isso e algo precisava ser feito. Mas o que?

Bem, a inspiração. A narrativa de como “Oh Mercy”, o grande disco que Bob lançaria em setembro de 1989, surgiu é extremamente lírica, e merece a leitura completa do capítulo 4 do livro “Crônicas”. Resumindo, Bob rasgou a mão até os ossos num acidente, e precisou ficar de molho. Seu plano inicial era… aposentadoria, mas os anjos malditos da inspiração começaram a fazer brotar canções, que ele escrevia e jogava numa gaveta. Certo dia, Bono (U2) apareceu para jantar com uma caixa de Guinness. O papo se estendeu madrugada adentro e Bono perguntou a Bob se ele não tinha nada novo, inédito, alguma canção que estivesse trabalhando. Bob mostrou o material que estava na gaveta e Bono ligou para Daniel Lanois dali mesmo, e colocou os dois em contato. “Ele falou que discos de sucesso não lhe interessavam”, lembra Bob. “Miles Davis nunca fez nenhum”, justificou Lanois. “Para mim estava ótimo”, concordou Dylan.

A gravação posterior em New Orleans (“Existem muitos lugares de que gosto, mas New Orleans é o que mais gosto. É uma cidade que mantém a magia”, descreveria Bob) passou por momentos tensos até Lanois e Dylan se conectarem, mas o resultado foi grandioso: a distópica “Political World” (“um rockabilly do inferno”, descreve Brian Hinton), “Everything Is Broken” (que ganhou clipe dirigido por Jesse Dylan), “Most of the Time” (que Lanois definiu como “o som dos pântanos da Louisiana”), a transcendental “Shooting Star” e o relato da tentação em “Man In The Long Black Coat” estão, facilmente, entre as melhores coisas que ele gravou nesta década. E as outras não ficam atrás (Deus, até as canções dispensadas – que apareceriam em The Bootleg Series Vol. 8 – são de alto nível, como é o caso de “Dignity” – piratas variados como “Mercy on Us“, “Oh, Merci, I’m Lucky” e “Ring Them Bells” trazem as sessões completas de New Orleans) .

Apesar de Dylan dizer que o disco recebeu boas críticas, mas “críticas não vendem discos”, “Oh Mercy” (cuja arte da capa é uma foto de um grafite localizado na 53rd com a  9ª avenida, em Hell’s Kitchen, Nova York) bateu no número 30 da Billboard ficando atrás apenas de “Infidels” (que alcançou a 20ª posição) e “Saved” (que chegou ao número 24). Ainda assim, a importância maior de “Oh Mercy” é reconectar Dylan com sua arte no momento em que ele duvidava do futuro. Foi um passo decisivo para coloca-lo no mapa novamente, e permiti-lo seguir em frente para encontrar o sucesso nos anos 2000 (futuramente, dois discos de Dylan irão chegar ao topo das paradas, outro baterá na 3ª posição, um quarto álbum chegará ao 5º lugar e outro alcançara o Top 10. Mas tudo isso é assunto para outros cafés)…

Especial Bob Dylan com Café

março 27, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 31: Grateful Dead

Bob Dylan com café, dia 31: Entre fevereiro e agosto de 1986, Bob Dylan saiu escudado por Tom Petty and The Heartbreakes na turnê “mundial” True Confessions, e ainda que os álbuns do período estivessem sendo achincalhados pela crítica, Bob ficou bastante feliz com o resultado na estrada – que pode ser conferido no DVD “Hard To Handle”, registro da passagem da turnê pela Austrália. Após se juntar ao U2 no lendário Sun Studios, em Memphis, para gravar “Love Rescue Me” no começo de 1987, Bob Dylan achou uma boa ideia aceitar o convite do Grateful Dead para reinventar algumas músicas antigas em uma mini turnê de verão.

O que Jerry Garcia não esperava era que quem daria as cartas seria Bob, e que qualquer desvio da visão dele quanto a como tocar uma música não seria tolerado. Ou seja, o Grateful Dead, uma banda apaixonada por jams sessions, estava amarrada com rédeas curtas à grosseria e a insensatez de Bob Dylan no palco. “Você precisa prestar atenção para não cometer erros à medida que ele faz o que quer e todos tentam tocar a canção”, resumiu Jerry, completando: “Ele é engraçado. Tem uma personalidade camaleônica. Não é que estávamos brigando com ele, mas ele não tem uma concepção clara sobre duas coisas importantes na música: como começar e terminar uma canção”. Ainda assim, o resultado de “Dylan & The Dead”, com sete canções retiradas de quatro shows em julho de 1987, e lançadas oficialmente apenas em fevereiro de 1989, poderia ter sido melhor, defendem os fãs exibindo o álbum triplo pirata “The French Girl” (de sessões de Dylan com os Dead em estúdio em San Rafael, na Califórnia) como testemunho (além do álbum “Garcia Plays Dylan”, lançado postumamente em 2005).

David Fricke, na Rolling Stone, reforça a ideia: “Dois destaques da turnê, a transformação elétrica de ‘It’s All Over Now, Baby Blue’ e o rejuvenescimento de ‘Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again’, não estão incluídos no álbum” e segue impiedoso: “Apesar da presença do Grateful Dead, esse é um típico álbum oitentista de Bob Dylan: fascinante pela expectativa que cria, frustrante na maneira com que erra o alvo”. Entre as faixas escolhidas, duas músicas da fase cristã de Dylan, “Slow Train” e “Gotta Serve Somebody”, crescem bastante nesse registro, ainda que a voz de Bob soe preguiçosa. Já “I Want You”, que havia sido convertida em drama num dos raros bons momentos de “At Budokan”, soa um countryzinho vagabundo aqui. A voz também fica devendo em uma das melhores versões instrumentais (com arranjo sugado de Jimi Hendrix) de “All Along the Watchtower”. Na mesma trilha estão “Knockin’ On Heaven’s Door” e “Joey”, mas “Queen Jane Approximately” surpreende. A sensação final que fica é de que a banda soa presa a Dylan tanto quanto Dylan soa preso a banda, e, impossibilitados de voarem juntos, Dylan & The Dead devem fracassar juntos. E eles conseguiram. No All Music, Stephen Thomas Erlewine arrematou: “Possivelmente o pior álbum de Bob Dylan. E o pior do Grateful Dead”.

Especial Bob Dylan com Café

março 26, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 30: Groove

Bob Dylan com café, dia 30: Só pra dar ideia do nível de perdição de Dylan na segunda metade dos anos 80, certo dia Steve Jones (Sex Pistols) recebe um telefonema: “Eu não o conhecia pessoalmente e nunca tinha falado com ele, mas ele me liga e diz: ‘Você conseguiria montar uma banda para fazermos umas sessões de estúdio?”. Jones escalou Paul Simonon (Clash) pro baixo e mais uns pistoleiros de aluguel, e o grupo sofreu por uma noite tentando acompanhar Dylan. Eric Clapton disse certa vez: “No estúdio, você precisa estar atento à mão dele, sempre, senão você irá se perder”. Ron Wood e Sly Dunbar reforçam: “Ele muda o tom da mesma música quatro, cinco vezes, a banda fica confusa”. Uma música dessas sessões com Jones e Simonon, “Sally Sue Brown”, sobreviveu ao disco que Dylan lançou em maio de 1988, “Down in The Groove”, um álbum cuja produção tenta capturar a banda ao vivo, e consegue soar melhor do que em “Empire Burlesque” (1985) e, principalmente, “Knocked Out Loaded” (1986), mas ainda assim o resultado é mediano.

Ainda em crise criativa, Bob assina apenas duas canções entre as 10 do álbum, sendo que a melhor, “Had a Dream About You, Baby”, traz Clapton na guitarra, Ron Wood no baixo e foi feita para a trilha do filme “Corações de Fogo” (1987). Outra duas, Dylan divide com Robert Hunter, letrista do Grateful Dead, e ambas são bem honestas, ainda que Brian Hilton se aborreça com o fato de Bob ter três membros do Grateful Dead em estúdio e usa-los em vocais: “Parece certo desperdício”. De resto, standarts no piloto automático para tapar o buraco da insegurança com material próprio: “Let’s Stick Together” diverte, “When Did You Leave Heaven?” constrange, “Ninety Miles an Hour (Down a Dead End Street)” fica no meio do caminho e “Rank Strangers To Me”, voz, violão e baixo, não compromete, mas também não encanta. O fantasma das sobras de “Empire Burlesque” também marca presença em “Down in The Groove”, mas aqui com uma grande canção num arranjo simplista demais, por isso ouça “Death Is Not the End” na versão do álbum “Murder Ballads” (1996), com Nick Cave acompanhado por PJ Harvey, Shane MacGowan (The Pogues) e Kylie Minogue.

Um Ps. “Down in The Groove” foi lançado em maio de 1988. Um mês antes, em abril, Bob Dylan cedeu sua garagem em Malibu para que George Harrison trabalhasse em um b-side a pedido da Warner Brothers. George convidou Jeff Lynne para ajudar na canção e Roy Orbison para participar da gravação. Necessitado de uma boa guitarra emprestada, George bateu à porta de Tom Petty, e além de levar o instrumento, levou o líder dos Heartbreakers consigo para a sessão. Quando Harrison apresentou a música à gravadora, os executivos a acharam tão boa que era um desperdício lançarem-na como um b-side. George e Lynne então decidiram montar uma banda, um papo que já estava rolando entre eles há algum tempo. Convidaram primeiro Tom Petty e depois telefonaram para Bob, que topou participar. Naquela noite, George Harrison, Jeff Lynne e Tom Petty partiram atrás de Roy Orbison, que iria se apresentar no Celebrity Theater, em Anaheim. O convite foi feito um pouco antes de Roy subir ao palco, e ele aceitou. Na descrição de Tom Petty, Orbison fez um “show inacreditável”, durante o qual “nós socávamos um ao outro e dizíamos: ‘Ele também está na nossa banda'”. Nascia o Traveling Wilburys. O disco sairia em outubro de 1988.

Especial Bob Dylan com Café

março 23, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 29: Loaded

Bob Dylan com café, dia 29: Mantendo o mesmo modus operandi (que não deu lá muito certo) de “Empire Burlesque” (1985), Bob Dylan saiu novamente peregrinando por estúdios com uma gama diversa de músicos diferentes atrás de alguma fonte de inspiração. Desta vez, mais de 40 nomes engrossam a ficha técnica do álbum (desastroso), que viria a ser lançado em agosto de 1986 com o título de “Knocked Out Loaded”. Se em “Empire Burlesque” ele havia percebido que não havia nenhuma liga entre as canções, e chamou Arthur Baker para tentar dar um jeito na bagunça, em “Knocked Out Loaded” nem isso ele fez. Vivendo um momento agitado em sua vida pessoal, recém-casado com a backing vocal de sua banda Carolyn Dennis após o nascimento da filha Desiree, pensar num disco deveria ser a última coisa que passava na cabeça de Bob Dylan em 1986, e o repertório de “Knocked Out Loaded” reflete esse desleixo. O disco soa como deveria ter sido “Empire Burlesque” sem a mão de Arthur Baker, e acho que precisamos agradecê-lo por ao menos ter dado um som padrão ao álbum. Aqui, no entanto, reina o caos.

É neste disco também que Dylan começa a dar sinais de crise criativa: das oito canções do álbum, ele interpreta três de material alheio, divide a autoria com outra pessoa em outras três e só assina sozinho duas sobras de “Empire Burlesque” (sem a mão do Arthur). Se a safra de canções do disco anterior não era tão boa, imagina as que ficaram de fora dele: “Maybe Someday” é um bagunça. Já “Driftin’ Too Far from Shore” (com Ron Wood na guitarra) não faria tão feio no disco anterior, mas aqui soa deslocada. O disco é aberto com um cover de 1955 de Little Junior Parker, “You Wanna Ramble”, um rockabilly cafajeste com bateria datada. Na sequencia, uma bobagem de Kris Kristofferson (“They Killed Him”), e uma canção gospel dos anos 20, “Precious Memories”, numa levadinha reggae. O que vale prestar atenção nesse disco (que renderia um bom compacto): a quilométrica “Brownsville Girl”, parceria com Sam Shepard cuja narrativa fantástica sobrevive ao arranjo sofrível de teclado emulando “Patches” (versionada no Brasil para “Marvin”, pelos Titãs) e “Got My Mind Made Up”, com Bob sendo escutado por Tom Petty & The Heartbreakers (que deveriam ter gravado o álbum todo), o que não salva um álbum sofrível. Até aqui, o pior disco de Bob Dylan lançado com o aval de Bob Dylan. Disparado.

Especial Bob Dylan com Café

março 22, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 28: Biograph

Bob Dylan com café, dia 28: “Ele está tentando soar contemporâneo”, provocou um crítico sobre “Empire Burlesque” (o café de ontem), e Bob respondeu: “Não conheço nada de música nova. Ainda continuo ouvindo Charlie Patton”. Porém, quem sentia saudades do trovador “das antigas” teve uma grande surpresa no final de 1985: apenas quatro meses após “Empire Burlesque” chegar às lojas, um box quíntuplo em vinil surgia para saciar os baby boomers. Com 53 faixas, 21 delas raras (entre singles, b-sides, sobras de estúdio e takes inéditos), livreto de 42 páginas com texto de Cameron Crowe, fotos e comentários de Bob sobre cada canção, “Biograph” bateu no número 33 da Billboard, um sucesso que pode ter motivado tanto a criação das “Bootleg Series” (em 1991) quanto o lançamento (também via Columbia) do box quíntuplo “Live 1975–85”, de Bruce Springsteen, em 1986.

Pirateado toda vida, Dylan abre o baú, mas faz pouco caso: “A maioria dessas canções já saiu em discos piratas. Não há nada que não se conheça. É só uma nova embalagem que irá custar caro”. Bobagem, “Biograph” é um tesouro, mas é necessário se transportar a 1985 para entender o valor desta caixinha (editada também em três CDs), já que lançamentos posteriores (como a série de shows de 1966) ampliaram o alcance do material raro encontrado primeiramente aqui. Na temporada em que serviu de babá para o filho de Nico (do Velvet Underground) com Alain Delon, Dylan terminou “I’ll Keep It with Mine”, que ele havia escrito na Grécia para ela, e a versão definitiva está no clássico (dela) “Chelsea Girl” (1967), mas essa versão encontrada aqui, ao piano, soa delicada (uma segunda versão sairá em “Bootleg Series 1-3”, outra no “9” e diversas no “12”).

“Mixed-Up Confusion” foi a primeira tentativa de Dylan eletrificar seu folk, em 1962 – a versão acústica que saiu em single está em “Side Tracks” (2013) – e soa curiosa. O nível aqui é tão alto que se você juntar 10 sobras presentes em “Biograph” num vinil você terá um forte concorrente a disco do ano (de qualquer ano). Façamos o teste: a arrebatadora “Percy’s Song” e “Lay Down Your Weary Tune” (ambas de sessões em 1963) mais “Quinn The Eskimo” (das sessões de “Basement Tapes”, de 67) “Up To Me” (sobra de “Blood on The Tracks” gravada em 73), “Abandoned Love” (uma pérola das sessões de “Desire”, em 75), “Caribbean Wind” (grande faixa das sessões de “Shot of Love”, de 81), a demo acústica de “Forever Young” (74), uma ainda mais cigana versão alternativa e endemoniada de “Romance in Durango” (75), uma religiosa e linda “Heart of Mine” (1981) ao vivo em New Orleans e a versão acústica ao vivo de “Visions of Johana” registrada no Royal Albert Hall, Londres (66). Uou!

Especial Bob Dylan com Café

março 21, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 27: Empire Burlesque

Bob Dylan com café, dia 27: Você já deve ter lido a frase “Bob Dylan estava perdido” uma dezena de vezes nestes cafés, mas agora é sérião: é 1984 (e 1985… e 1986…) e Bob Dylan está perdidaço. Assim que a turnê “Real Live” terminou, Bob começou uma peregrinação doida pelos estúdios mais variados testando canções inacabadas com todo o tipo de músicos (a ficha técnica soma mais de 30 nomes) atirando para todos os lados, sem concisão nem direção. A saída então foi pegar um grupo dessas canções quase sem nenhum parentesco (um terço delas gravadas com os Heartbreakers de Tom Petty, outro com Sly & Robbie mais o guitarrista que estivesse por perto – podendo ser Ron Wood ou Al Kooper – e um terceiro com quem tivesse paciência para adentrar o mundo bizarro da cabeça de Bob Dylan, algo que faltou aos músicos da banda de Al Green) e jogar nas mãos do produtor de dance music Arthur Baker com um pedido: “Dá um jeito de transformar isso num disco, por favor” (tipo Phil Spector, Beatles e “Let It Be”, ainda que as canções de Bob neste momento não estejam neste mesmo alto nível).

O resultado é “Empire Burlesque”, lançado em junho de 1985, um disco cuja produção atropela as gravações originais com um trator, tecladeira e bateria eletrônica (datadíssima) tirando o viço das canções em prol de um brilho e padrão sonoro de época. Dai tu pensa: o culpado é Arthur Baker? Sim e não. Tire a prova: os bootlegs “Naked Empire” ou “Clean Cuts” (abaixo) trazem as gravações originais, e ao mesmo tempo em que Baker salva “Tight Connection To My Heart” (o original era um sub-Bruce Springsteen cara de pau pelo qual Bob iria ser muito sacaneado se tivesse lançado enquanto a primeira versão, uma sobra de “Infidels”, carregava um sotaque velvetiano que faria Lou Reed sorrir e seria oficializada no box “The Bootleg Series – Volumes 1/3”, de 1991, com o nome de “Someone’s Got a Hold of My Heart”) e “When The Night Comes Falling From The Sky” (que soava como uma versão popero mequetrefe de “All Along The Watchtower” fase “At Budokan”), ele assassina a alma rock n’ roll de “Trust Yourself” e “Clean Cut Kid” transformando vinho em sangue.

Arthur Baker fez o possível mas, ainda assim, “Empire Burlesque” não é um disco tão ruim quanto dizem. Só é… datado. E pesadamente triste. Três canções do disco ganharam clipes (todos disponíveis no post). Nas letras, Bob finge estar feliz por um relacionamento terminado (“Seeing The Real You At Last”), é flagrado trágico numa prisão observando apaixonados morrerem na escuridão (“When the Night Comes Falling from the Sky”) e também vê seu amor morrer (“Never Gonna Be The Same Again”). A bonita “I’ll Remember You” ganhou sobrevida no filme “Masked and Anonymous”, de 2003, e foi salva. Já “Dark Eyes”, único momento voz, violão e gaita do disco, serve para aumentar a sensação de abismo entre o Dylan “das antigas” e este Dylan yuppie oitentista.

Especial Bob Dylan com Café

março 20, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 26: Real Live

Bob Dylan com café, dia 26: “Infidels”, o café de ontem, é um belo disco que envelheceu de maneira ainda melhor, mas que a crítica da época, ainda descrente de Dylan devido à fase cristã, fez pouco esforço para entender. “É um disco tão empolgante quanto passar a noite numa lavanderia”, descreveu a Melody Maker. “Há muito que dizer sobre aposentadoria precoce”, provocou a Record Mirror. Com um grande disco incompreendido nas mãos, Dylan saiu em turnê sem Sly, Dunbar e Knopher, mas com Mick Taylor roubando a cena com solos em diversas noites.

Detonado amplamente desde o momento de seu lançamento, o registro da tour “Real Live” (que chegou às lojas em novembro de 1984) não é tão ruim quanto pintam, porém traz uma seleção de repertório tão equivocada que faz ter vontade de pegar quem decidiu a lista final de canções e lhe dar umas bifas. Cavalos de batalha óbvios (“Maggie’s Farm” cada vez mais metalizada; “Tangled Up In Blue” com letra alterada; a pior de todas as versões de “Ballad Of a Thin Man”; uma pálida “Tombstone Blues” que conta com a participação inaudível de Carlos Santana), apenas duas músicas de “Infidels” (“I and I” em excelente forma e uma boa revisão de “License To Kill”) e nada de curiosidade.

Para isso, a solução é ir atrás do excelente bootleg “Les Temps Changent – Bob Dylan Live in Paris 1984.07.01”, que traz o concerto completo na capital francesa. Através dele é possível confirmar que é nessa turnê que o Pato Donald substitui Bob Dylan na voz, que “Jokerman” (deixada de fora de “Real Live” sabiamente) não funcionou ao vivo (ainda que a versão no programa de David Letterman seja boa), que o arranjo de “Simple Twist of Fate” soa totalmente equivocado, mas que a inédita “Enough Enough” (nunca lançada posteriormente) merecia um espaço no álbum por sua raridade tanto quanto a cover de “Just My Imagination”, dos Temptations, e, principalmente, a linda “Every Grain of Sand”, único momento da fase cristã no show, e uma pérola emocional. “Dificilmente seria possível lançar um álbum ao vivo da turnê europeia de Dylan pior do que ‘Real Live’. A escolha das músicas é infeliz e das performances é ofensiva”, avalia Michael Gray, com razão. E é só o começo do fundo do poço para Bob. Calma que vem coisa pior pela frente…

Especial Bob Dylan com Café

março 18, 2018   No Comments

Dylan com café, dia 25: Infidels

Bob Dylan com café, dia 25: A turnê de “Shot of Love” terminou em novembro de 1981 e Bob tirou 1982 para descansar (re)interessado em suas raízes judaicas. A melhor definição: “Ele é um judeu confuso”, disse um rabino. O bar mitzvah de seu filho Jesse aconteceu em Israel e a ex-Sara bateu lá a foto que estampa a capa (na parte interna original, Dylan visita o Monte das Oliveiras). Para o disco, buscando uma mudança radical, Bob tentou Frank Zappa para produtor e, diante da recusa, sondou David Bowie e Elvis Costello antes de efetivar Mark Knopfler na função ao lado dele e na banda que tinha “apenas” Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo) na cozinha, e o ex-Stones Mick Taylor voando nos riffs.

O resultado é “Infidels” (lançado em novembro de 1983), um dos dois discos definitivos de Dylan nos anos 80 (o outro será lançado em 1989). Uma polêmica cerca a versão final do álbum: Bob gravou tudo com Mark Knopfler, que fez uma pré-mixagem e precisou sair em tour com o Dire Straits, prometendo voltar para encerrar o trabalho. Bob não só não o esperou como regravou alguns vocais e mudou o tracking list final, deixando de fora canções que, a posteriori, se transformariam em ícones de bootlegs (o duplo “Outfidel Intakes (Power and Greed and Corruptable Seed” é o mais famoso – e facinho de achar). Com o mea-culpa, Bob Dylan: “Muitas das canções de ‘Infidels’ eram melhores antes de serem mexidas, e, é claro, foi eu quem mexeu nelas”.

Prejudicou o disco? Um pouco, mas nem taaaanto assim, ainda que seja um imenso pecado “Foot of Pride” (que Lou Reed recuperou no “The 30th Anniversary Concert Celebration Bob Dylan”) e “Blind Willie McTell” terem ficado de fora de um álbum que versa sobre um mundo à beira de uma catástrofe e como cada pessoa lidaria com o final dos tempos. O messias charlatão “Jokerman”, a obra-prima do disco, abre o álbum versando sobre como tolos (e o próprio Dylan) podem ser manipulados pela religião e por políticos populistas (no clipe repleto de referências, o então presidente Ronald Reagan encarna o personagem calhorda). “Neighborhood Bully” soa Velvet Underground enquanto a acusatória “License To Kill” questiona a arrogância dos homens através do imperialismo e sua predileção pela violência.

Certo dia, Bob encontrou Leonard Cohen para um café. “Quanto tempo você demorou para fazer ‘Hallelujah’?”, perguntou. “Alguns anos”, respondeu Cohen, que emendou: “E você fez ‘I and I’ em quanto?”. Dylan respondeu: “15 minutos”. E que baita canção. Mick Taylor sola lindamente em “Sweetheart Like You”, segundo clipe do disco, outro grande momento ao lado de “Don’t Fall Apart On Me Tonight”, ou o amor em tempos de cólera. Saca a cena de “Casablanca” em que Ilsa abandona Rick devido ao avanço do exército nazista e eles prometem “nós sempre teremos Paris”? É esse momento transformado numa balada com a gaita de Dylan fatiando o coração em pedacinhos bem pequenos e, na dúvida, deixando o bottleneck de Knopher refazer o mesmo serviço só para garantir. “Ontem é apenas uma lembrança. Amanhã nunca é o que deveria ser”, encerra Dylan.

Especial Bob Dylan com Café

março 17, 2018   No Comments

Dylan com Café, dia 24: Shot of Love

Bob Dylan com café, dia 24 – “Slow Train Coming” fez sucesso; “Saved” fracassou; “Shot of Love” (lançado em agosto de 1981) teve um desempenho ainda pior do que “Saved”, o que soa bastante injusto. Para gravar seu terceiro disco evangélico, Dylan trocou de estúdio e produtores, além de mexer na banda (entram o guitarrista Danny Kortchmar e o tecladista de Tom Petty, Benmont Tench) e “Shot of Love” mantém a massa bruta gospel soul rock de “Saved” (em detrimento da elegância r&b de “Slow Train”), mas com uma produção mais acertada – dos três da fase cristã, talvez seja o que tenha envelhecido melhor. A faixa título abre o disco de forma bombástica e consegue cumprir o papel que “Solid Rock”, de “Saved”, apenas rascunhou em estúdio. Na letra raivosa, Dylan diz que “não precisa de um shot de heroína, não precisa de um shot de uísque” e sinaliza que a próxima mudança está próxima: “Minha consciência está começando a me incomodar”. PJ Harvey fez um bela versão no British Music of the Millennium Awards, em 1999.

Ringo Starr aparece tocando tom-tom e Ron Wood dá um show na guitarra do boogiezinho tex-mex “Heart of Mine”, uma deliciosa faixa menor que não fala em Deus, mas encanta. Já “Property Of Jesus” traz Dylan louvando o ato admirável da autonegação das religiões, um fato que não crentes não entendem (Por que deixar de consumir álcool? Por que deixar de usar roupas curtas? Por que deixar de praticar sexo casual?) e que Bob defende (e admira) como a força de um compromisso. Ele acusa zombadores e haters de terem um coração de pedra. Uma grande canção! Sinead O’Connor, fã dessa fase cristã, tomou para si essa canção e sempre a canta em shows. Chrissie Hynde também.

O álbum ainda traz o ótimo gospel “Watered-Down Love”, que fala sobre amor (e só isso!), o bluezaço “The Groom’s Still Waiting at the Altar” (que entrou no álbum posteriormente, numa segunda edição do disco), o reggae “Dead Man, Dead Man” (sobre Lázaro), o adeus comovente travestido de pedido de desculpas para Sara em “In The Summertime” e a obra-prima “Every Grain of Sand”, que Bruce Springsteen citou quando introduziu Dylan no Hall da Fama do Rock, em 1986, e que Sheryl Crow cantou no velório de Johnny Cash (“Sua família me escreveu dizendo o quão importante essa música havia sido para ele”, diz Sheryl. “Para mim, foi a primeira música religiosa a transcender todas as religiões”). Emmylou Harris gravou uma versão famosa, mas George Harrison a cantou, Norah Jones e Bon Iver também. Com um hino, Bob se despedia de sua fase cristã. Ele já começava a reclamar “da hipocrisia nas pessoas com as quais estava envolvido” e tinha voltado a cantar suas músicas pré-conversão nos shows. Os ventos da mudança estavam se aproximando.

Especial Bob Dylan com Café

março 16, 2018   No Comments

Dylan com Café, dia 23: Saved

Bob Dylan com café, dia 23 – Apesar do sucesso de vendas e do Grammy conquistado com “Slow Train Coming” (o café de ontem), grande parte da crítica, John Lennon e a maioria dos antigos fãs não recebeu muito bem a fase cristã de Dylan. E, como um bom provocador, o que ele fez? Foi lá e gravou um disco ainda mais evangélico! Resultado: fracasso imenso de vendas e o ódio ainda maior dos fãs antigos, que renegam “Saved” (lançado em junho de 1980) tal qual o demonho renega a cruz dizendo ser este o pior disco do homem. Amém, mas não é para tanto.

Ok, Deus continuou ao lado de Bob, porém o guitarrista Mark Knopfler e o baterista Pick Withers precisavam “cuidar” do Dire Straits, e a saída deles bastou para mudar o rumo do disco gravado no mesmo mítico Muscle Shoals Sound Studio com a mesma dupla de produtores do disco anterior, mas com Jim Keltner nas baquetas (o grande problema do álbum: ela soa gravada dentro de uma caixinha de fósforos!) e dois guitarristas que juntos não conseguiram fazer o que Knopfler havia feito sozinho (coitado do Spooner Oldham, organista que tocou “apenas” nos hits “Mustang Sally” e “I Never Loved a Man”, e aqui teve de assumir a guitarra junto a Fred Tackett). A banda saiu de uma intensa turnê tocando por quase três meses seguidos direto para o estúdio e parece ter sentido falta do clima de guerra dos shows já que Bob tentava catequizar a audiência nos intervalos das canções, não tocava NENHUMA MÚSICA dos seus discos judeus (ou seja, pré 1978; ou seja, nenhuma das músicas pelas quais ele ficou conhecido) e, claro, era constantemente vaiado (saudades de 66).

A capa é indefensável (único ponto para o “Dylan” 73), mas o repertório traz ótimas gospel songs que se não renderam no estúdio e soam apenas honestas, ao vivo ganham corpo e intensidade. Faça o teste: coloque-as ao lado das versões do recém-lançado “Bootleg Series 13 – Trouble No More” (há uma versão com 10 CDs – e três shows diferentes completos da época). “Saved” é um bom disco sim, mas padece de má-produção. Será Mark Knopfler um Deus? “He got the action / He got the motion / Oh yeah, the boy can play / Dedication, devotion”. Bem, Jokerman, isso é assunto para o café de depois de amanhã…

Especial Bob Dylan com Café

março 15, 2018   No Comments