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Dylan com café, dia 43: Masked

Bob Dylan com café, dia 43: um ano após “Love and Theft”, Bob juntou a banda da Never Ending Tour para gravar uma série de canções que ele pretendia usar na trilha sonora de um filme que estava fazendo com o cineasta Larry Charles, um dos famosos roteiristas das primeiras cinco temporadas da série Seinfeld. Sob codinomes (Dylan como Sergei Petrov e Charles como René Fontaine), a dupla assina o roteiro do confuso, fraco e bagunçado “A Máscara do Anonimato” (“Masked and Anonymous”), filme lançado em 2003 que conta com um elenco estelar que trabalhou com os salários mínimos do sindicato apenas para ter a oportunidade de estar com Bob. Entre as estrelas estão nomes Jeff Bridges, Penélope Cruz, John Goodman, Jessica Lange, Luke Wilson, Bruce Dern, Ed Harris, Val Kilmer, Giovanni Ribisi, Mickey Rourke, Christian Slater e Susan Tyrrell. Há clássicos na história do cinema feito com apenas dois grandes atores, mas essa constelação, infelizmente, não consegue consertar um roteiro ruim.
“Masked and Anonymous” conta a história de Jack Fate (Bob Dylan), um músico outrora famoso, filho de um ditador (que aterroriza um pobre país terceiro-mundista da América) convocado por rebeldes para se apresentar num concerto beneficente contra seu pai. Surrealista e autobiográfico, “A Máscara do Anonimato” padece de tosquice, mas as músicas ao vivo da trilha foram um bom resultado do equivoco do filme. Acompanhado de sua banda (“atuando” no filme), Bob gravou cerca de uma dúzia de canções no primeiro registro oficial ao vivo da nova formação da Never Ending Band (com Charlie Sexton na guitarra) sendo que nove delas aparecem no filme e quatro (“Down In The Flood”, “Diamond Joe”, “Dixie” e “Cold Irons Bound”) foram lançadas no CD da surreal trilha sonora, que junta covers de Dylan cantadas por diferentes artistas de diferentes nacionalidades: os japoneses Magokoro Brothers recriam “My Back Pages”, o italiano Francesco De Gregori interpreta “Non Dirle Che Non E’ Cosi’ (If You See Her, Say Hello)” e o grupo de rap italiano Articolo 31 improvisa sobre a base de “Like a Rolling Stone” numa trilha que ainda conta com Grateful Dead, Shirley Caesar, Jerry Garcia (solo) e Los Lobos. Uma trilha curiosa para um filme desastroso.
abril 15, 2018 No Comments
News: Frank Turner, QOTSA, Gruff Rhys

Frank Turner, uma das cabeças mais fodas da “nova geração” de músicos idealistas, parou pessoas aleatórias em ruas dos Texas para que elas mandassem seu recado no clipe de “Make America Great Again”, seu novo single. “Esta é, obviamente, uma das músicas com título mais provocativo que lancei nos últimos anos, mas, de certa forma, não estou brincando. A América é muito boa, um dos meus países favoritos no mundo. Assim como está acontecendo lá em casa (na Inglaterra), eles estão passando por um momento politicamente difícil, e eu queria dizer algo sobre isso. E para o vídeo, pensei em fazer novos amigos (no Texas!)”. Assista abaixo (e leia a entrevista que a Ana Clara fez com ele em 2015 para o Scream & Yell):
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“Babelsberg” é o nome do quinto álbum de Gruff Rhys (eterno Super Furry Animals), seu primeiro disco para a Rough Trade desde “Candylion” (2007). A banda que ele reuniu para gravar incluiu seu baterista regular Kliph Scurlock (ex-Flaming Lips) e os multi-instrumentistas Stephen Black (Sweet Baboo) e Osian Gwynedd. As 10 faixas então hibernaram por 18 meses aguardando partituras orquestrais do compositor Stephen McNeff, de Swansea, e o trabalho da 72ª BBC National Orchestra of Wales. Abaixo você confere o clipe de “Frontier Man”.
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De Austin, no Texas, o duo The Division Men surge com seu terceiro álbum, “Niños Del Sol”, com convidados que adiantam um pouco do que você encontrará no disco: Rafael Gayol (Leonard Cohen Band), Jake Garcia (The Black Angels), Steven Hufsteter (Tito and Tarantula, Del Shannon), Jay Reynolds (Asleep at the Wheel) e Javier Escovedo (The Zeros). Abaixo, o primeiro clipe do disco!
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De Londres surge a singer songwriter Bella Barton, jovem cantora que acaba de debutar com “Ten Songs” (2018), seu disco de estreia produzido pelo seu pai, Tim Barton. Fique de olho na garota. O single promete (ainda que o release exagere: “Bella’s lazy Bossa Nova inflected songs are romantic visions of Townshend’s dystopian ‘teenage wasteland’ and invoke a deceiving mix of Corrine Bailey Rae, Lily Allen and early eighties Tracey Thorn”). Ok, ok.
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Perdi um pouco a paciência com o QOTSA depois do episódio da fotógrafa e do show meia bomba abrindo pro Foo Fighters em São Paulo além, claro, do disco meia boca recente. Mas curti essa música mesmo sabendo que eles podem mais, muito mais.
abril 11, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 42: Rolling Thunder Revue

Bob Dylan com café, dia 42: em 1969, o jornalista Greil Marcus escreveu um longo texto na Rolling Stone lamentando que Bob Dylan, nos anos 60, tenha lançado “apenas” 9 discos em 8 anos. Corte para os anos 2000, que vão ver apenas três discos inéditos de Dylan na primeira década. Porém, se o material novo não será tão farto (ou melhor, estará adaptado às necessidades do mundo moderno), o baú de raridades trará surpresas maravilhosas aos fãs do homem. Após encantar o público com a reedição imperdível do show no Royal Albert Hall, em Manchester, 1966 (o show do “Judas!”), no volume 4 das Bootleg Series em 1998, a Columbia voltou a produzir ouro no formato de compact disc a laser em 2002 quando compilou em dois CDs (e um DVD extra bônus) alguns dos momentos mais brilhantes da mais brilhante turnê de Bob Dylan, a The Rolling Thunder Revue 1975 – ou como compara o biógrafo Brian Hilton, uma turnê que se equivale a mítica turnê de 1966, mas se lá havia uma batalha entre banda e público toda noite, aqui os shows são pura celebração de amor.

Lançado em novembro de 2002, “The Bootleg Series Vol. 5: Bob Dylan Live 1975, The Rolling Thunder Revue” é uma volta a um tempo que não existe mais. Bob vislumbrou a ideia da turnê quando estava em férias na Córsega e a inspiração surgiu das trupes italianas de “commedia dell-arte”, uma forma de teatro popular que aparece no século XV, na Itália, e se desenvolveu posteriormente na França, e cujo intuito era opor-se (muitas vezes por necessidade) a comédia erudita com apresentações realizadas em ruas e praças, companhias itinerantes de estrutura e esquema familiar e atores que seguiam apenas um roteiro simplificado e tinham total liberdade para improvisar e interagir com o público. Ao chegarem a cada cidade, pediam permissão para se apresentar nas suas carroças ou em pequenos palcos improvisados. Com exatamente esse mesmo mote, quando voltou à Nova York, Bob Dylan juntou um grupo de músicos do Greenwich Village, convidou alguns amigos e caiu na estrada (com dois álbuns matadores fresquinhos de base de repertório: “Blood on The Tracks” e o ainda não lançado – mas já gravado e tocado na tour – “Desire”) no mesmo modelo italiano: as casas de shows, pequenas e intimas, eram reservadas sob pseudônimo, e a banda aparecia disfarçadamente e começava seu “teatro”: Bob Neuwirth fazia seu set, T-Bone Burnett dava um pitaco, Dennis Hopper declamava um poema, Mick Ronson (que havia deixado a banda de David Bowie para acompanhar Dylan) tocava “Life On Mars” e Bob Dylan então surgia para um set acústico. Meia hora depois, Roger McGuinn assumia o lugar de Dylan, tocava algumas coisas do Byrds e passava a função para Joan Baez, que tocava durante cerca de 40 minutos. Dylan então voltava para encerrar a noite em formato banda com mais uma hora de show! No total, mais de 3 horas de espetáculo noite após noite.

Na teoria apaixonada dos hippies, lindo. No papel, porém, as contas não estavam fechando, o que tornou esses primeiros 30 shows (de outubro a dezembro de 1975) únicos. Bob queria que essa turnê durasse para sempre, mas ela não resistiu nem até o natal de 1975, e quando a trupe retornou a estrada em 1976, num modelo de shows em estádios e grandes ginásios, a magia já tinha se perdido (e sido registrada no canto de cisne da turnê, o álbum “Hard Rain”). A inocência, as máscaras pintadas fellinianas, os duetos imperdíveis, a voz de Dylan em seu auge (“Ele nunca cantou dessa forma, nem antes, nem depois”, escreveu o jornalista Peter Doggett), a emoção genuína da The Rolling Thunder Revue 1975 surge compilada nas 22 canções (retiradas de quatros shows) destes dois CDs (uma pena não ser um lançamento quádruplo ou quíntuplo, afinal o CD duplo não faz justiça ao espetáculo de três horas), todas da primeira perna da tour, quando sonhar ainda era possível. Assim como o show de 66 em Manchester, esse é outro momento mágico da música moderna digitalizado para a posteridade. Deleite-se.
Ps. Muitas imagens dessa turnê aparecem no filme “Renaldo & Clara” (1978), escrito por Dylan e Sam Shepard, e dirigido por Bob. São quase quatro horas de projeção com cenas de shows, entrevistas documentais e vinhetas dramáticas de ficção que refletem as letras e a vida de Dylan à época.
abril 11, 2018 No Comments
Sobre a biografia de Bruce Dickinson

A convite da Intrínseca, escrevi sobre a autobiografia de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden (entre muitas outras coisas), para o blog da editora:
“Um dos caras mais gente boa do metal, Bruce Dickinson consegue fisgar o leitor tanto com histórias escabrosas (tipo urinar na sopa dos professores do colégio — e ser pego depois) quanto por momentos emocionantes (como uma visita a uma creche em Sarajevo no meio da guerra ou outra a Auschwitz: “Chorei muito depois da visita. Senti raiva e ?quei em silêncio”, conta). Sua autobiografia vai além da história de uma celebridade relembrando momentos de sua vida”. (Texto completo aqui)
abril 11, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 41: “Love and Theft”

Bob Dylan com café, dia 41: Nem a enorme quantidade de críticas elogiosas, nem os três Grammy’s e muito menos o número 10 na Billboard (o primeiro Top 10 de Dylan desde “Slow Train Coming”, de 1979) conquistado por “Time Out of Mind” (1997) satisfizeram Bob em relação à produção de Daniel Lanois, que ele resume no livro “Crônicas” como “turbulenta”. Ele também havia ganhado um Oscar em 2000 pela canção “Things Have Changed”, do filme “Garotos Incríveis”, e mesmo chegando aos 60 anos (em 24 de maio de 2001), não estava pensando em desacelerar. Muito pelo contrário: em seu novo disco, Dylan assumiria os riscos da produção (assinada com o codinome Jack Frost), que contaria com sua banda da Never Ending Tour e a busca sonora por algo mais leve e animado, mas como com Dylan nada é tão simples, “Love and Theft” foi lançado no fatídico 11 de setembro de 2001.
O crítico da Village Voice foi certeiro: “Se ‘Time Out of Mind’ era seu álbum sobre morte – não era, mas você sabe como as pessoas dizem que é – este é sobre imortalidade”. Fazia muito, muito tempo, que Dylan não soava tão à vontade em um disco cantando novas canções com ecos de jazz, blues, rockabilly e New Orleans, como na acelerada faixa de abertura, que desloca os personagens “Tweedle Dee & Tweedle Dum” de “Alice Através do Espelho”, de Lewis Carrol, para uma festa de Mardi Gras: “Eles estão pegando um bonde numa rua chamada desejo”, sarreia na ideia “Amor e Roubo” do disco (utilizada em diversas faixas). O clima muda totalmente na segunda canção (algo que se seguirá metodicamente até o fim do disco), “Mississipi”, uma suave recriação de uma sobra de “Time Out of Mind” que Dylan dizia que Lanois insistia em lotear de percussão, mas Bob a queria mais simples (antes de chegar aqui, inclusive, ela foi lançada num disco de Sheryl Crow). Já o rockabilly “Summer Days” provoca: “Não se pode repetir o passado… é claro que se pode!”. O clima volta a arrefecer elegantemente em “Bye and Bye”, se torna grandioso no blues de Chicago “Lonesome Day Blues”, baixa a guarda novamente no swingzinho de “Floater” até abrir as portas para uma das grandes canções do disco, a caipiríssima “High Water (For Charley Patton)”. Dylan segue batendo suavemente (“Honest With Me”, “Cry A While”) e assoprando (“Moonlight”, “Po’ Boy”, “Sugar Baby) num álbum elegante, primeiro volume de uma trilogia que se seguirá com “Modern Times” (2006) e “Together Through Life” (2009), mas isso já é assunto para outros cafés.
Ps 1: uma versão deluxe do álbum ganhou um segundo CD com duas então raridades: “I Was Young When I Left Home”, gravada em Minneapolis em dezembro de 1961, surgia pela primeira vez, mas será oficializada também no volume 7 das Bootleg Series. Já o take alternativo de “The Times They Are a-Changin'”, datado de 23 de outubro de 1963, nunca havia sido editado, e só consta deste lançamento. É uma versão mais lenta, menos militante e mais introspectiva do hino que deu nome ao terceiro álbum de Bob.
Ps. 2: O box triplo “The Bootleg Series Vol. 8 – Tell Tale Signs” exibe três versões diferentes de “Mississipi”, todas das sessões “Time Out of Mind”. Adoro a versão 3, para mim, a com melhor vocal de Dylan, mas a 2 também é bem interessante, e as três soam bem diferentes do floreio que Bob acrescentou à versão final presente em “Love and Theft”. Esse box ainda traz versões ao vivo de “High Water (For Charley Patton)” (bem guitarreira e muito próxima da versão mostrada no Brasil em 2008) e “Lonesome Day Blues”.
Ps. 3: “Love and Theft” foi ainda mais longe do que “Time Out of Mind” nas paradas batendo na 5ª posição do ranking da Billboard. O álbum também ganhou um Grammy na categoria de Melhor Álbum Folk de 2001.

abril 10, 2018 No Comments
News: Morrissey, Belle and Sebastian, Knifey

As polêmicas que cercaram o lançamento de “Low In High School”, o disco mais recente de Morrissey, parecem ter deixado o álbum em segundo plano, construindo um muro entre ele e parte de seu público. Agora o bardo corre atrás de atenção com o vídeo de “Home Is a Question Mark” gravado ao vivo em Berlim. Confira.
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“Quando criamos um conceito em vídeo para a canção ‘Serf’, queríamos criar algo que fosse divertido e nos lembrasse daqueles vídeos de música pop punk quase no final dos anos 90 e início de 2000 que todos nós amamos”, avisam os canadenses do Knifey em e-mail que chega de Toronto. Indie rock bem bacana! “Beached”, o disco que eles lançaram em setembro de 2017, pode ser ouvido e baixado gratuitamente aqui.
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De Santa Bárbara, na Califórnia, The DTEASE faz uma festa em seu vídeo para a canção “Slapshot”, primeiro single do vindouro álbum “Shake”, que baixa nas plataformas dia 20 de abril. “Letras poéticas que consistem em sexo, política e, bem, rock ‘n’ roll, são geniosamente combinadas com um arsenal de riffs de guitarra destrutivos”, avisa o release. Confira se cumprem abaixo.
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União de três EPs lançados primeiramente separadamente pelo Belle & Sebastian, o álbum “How To Solve Our Human Problems” destaca agora o vídeo para a canção o r&B “Poor Boy”, que acompanha os vários acontecimentos nos apartamentos de prédio. O disco não me pegou, mas o clipe é bacaninha.
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O Panic! At The Disco anunciou o seu sexto álbum de estúdio, “Pray For The Wicked”, que será lançado 22 de Junho. O anuncio surgiu acompanhado do vídeo para o single “Say Amen (Saturday Night)”, que fecha a trilogia aberta com “This is Gospel” (2013) e “Emperor’s New Clothes”. Assista aos três abaixo!
abril 9, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 40: Royal Albert Hall

Bob Dylan com café, dia 40: A boa recepção e o sucesso do lançamento das “The Bootleg Series – Volumes 1/3” em 1991 abriu os olhos da Columbia Records para algo que pirateiros sabiam desde os anos 60: além de artisticamente revolucionário, o extenso material raro de Dylan era altamente vendável. Criou-se então uma divisão na gravadora para, arqueologicamente, pesquisar o acervo, e o primeiro lançamento que viria a tona seria a oficialização de um dos álbuns piratas mais famosos de todos os tempos, que começou a circular em vinil já no começo dos anos 70 com os nomes mais variados: “In 1966 There Was” (1970), “Royal Albert Hall Concert 1966” (1970), “Royal Albert Hall” (1971), entre dezenas de outros. A Columbia iria lança-lo pela primeira vez completo, e chegou a remasteriza-lo e a anunciar o projeto em 1995, mas decidiu engaveta-lo.

Como tudo que cerca a música de Dylan, a remasterização caiu nas mãos dos pirateiros, e novamente a festa se fez. A Columbia então retomou o projeto e, finalmente, em outubro de 1998 chegava às lojas num invólucro de luxo “The Bootleg Series – Volume 4: Live 1966 The Royal Albert Hall Concert”. Com um som muito melhorado e um livreto com fotos incríveis de época, um dos álbuns piratas mais desejados por fãs de Dylan em todo o mundo (Jimmy Page incluso) enfim via a luz do laser e a agulha do vinil de maneira oficial além de corrigir um equivoco: durante muito tempo pensou-se que o áudio desse show fosse o da apresentação no Royal Albert Hall em Londres, diante de toda realeza britânica, dos Beatles e dos Rolling Stones, mas, na verdade, era o áudio do show que ocorreu em Manchester, no Free Trade Hall, vulgo Royal Albert Hall, 10 dias antes. Vivendo no limite, constantemente chapado e parindo obras primas a cada minuto, Dylan passava por uma rotina traumática em seus shows da turnê de 1966.
A primeira parte da apresentação o trazia num set acústico, folk, solo. Já na segunda, Dylan subia ao palco eletrificado acompanhado pelos barulhentos Hawks, e era constantemente vaiado. O clima era tão tenso que havia boatos de gente armada no público pronta para alveja-lo durante o set elétrico. Extremamente simbólico, “The Bootleg Series – Volume 4: Live 1966 The Royal Albert Hall Concert” capta tudo isso em detalhes. Do silêncio respeitoso com que o público ouve na primeira parte versões absolutamente sublimes de “Visions of Johanna”, “Desolation Row”, “It’s All Over Now, Baby Blue” e “Just Like a Woman” ao início de caos assim que os Hawks disparam uma canção nunca gravada em estúdio por Dylan, “Tell Me, Momma”, que, segundo Jon Spencer, “isso é punk rock, cara”. Em “I Don’t Believe You”, Bob Dylan provoca: “A coisa costumava ser daquele jeito, mas agora é assim”. O público ri, nervosamente. A tensão só aumenta. Seguem-se, entre gritos da plateia, “Just Like Tom Thumb’s Blues” (“É possível sentir o gosto do suor e o cheiro do medo”, observa o biógrafo Brian Hinton), “Leopard-Skin Pill-Box Hat”, “One Too Many Mornings” (“Que soa como o mais violento clássico local entre United e City”, compara Hinton) e uma raivosa “Ballad of a Thin Man” (“Há um monte de Mr. Jones na plateia, um deles provavelmente com uma faca. Ou com algo ainda mais perigoso”, suspeita o biógrafo).
O gesto final desta apresentação caótica e histórica não poderia ter sido mais simbólico: a banda está afinando os instrumentos, preparando-se para alçar voo no último número da noite sob o barulho de uma plateia inquieta, que berra coisas desconexas até que, enfim, uma voz se sobressai na multidão: “Judas!”, alguém claramente grita. Aplausos efusivos irrompem no teatro. “Não acredito em você”, diz Dylan ao microfone. “Você é um mentiroso”, completa. Ele então se vira para a banda e ordena: “Play fucking loud!!!”. E “Like a Rolling Stone” surge como o Apocalipse em oito minutos vorazes. O show termina entre vaias e aplausos. Não há pedidos de bis. Não haverá bis. De maneira surrealista, “Deus Salve a Rainha” ecoa no ambiente. Este show termina e, após ele, Dylan faria apenas mais cinco apresentações (as duas últimas no Royal Albert Hall londrino) e interromperia a turnê de maneira abrupta, devido a um acidente de moto. Traumatizado, ele só voltaria a fazer uma turnê 8 anos depois, em 1974. Primeiro registro oficial em áudio desse ano doido (o histórico registro em vídeo – acima – foi feito por D.A Pennebaker, que havia filmado a turnê europeia de Dylan em 65 para o documentário “Don’t Look Back”, lançado em 1967, e acompanhado Dylan na turnê de 66 com as filmagens permanecendo inéditas até 2004, quando foram encontradas numa pilha de filmes danificados pela água recuperados do cofre de Dylan e inclusas no documentário “No Direction Home”, de Martin Scorsese), este show, posteriormente, ganhou relançamento no box completista “The 1966 Live Recordings”, lançado em 2016, com 36 CDs compilando 23 shows desta turnê que sacudiu a música moderna. Um clássico. Vá atrás!
abril 8, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 39: Time Out of Mind

Bob Dylan com café, dia 39: Após o lançamento de seu “Unplugged MTv”, Dylan seguiu estrada afora com sua banda na Never Ending Tour. Foram 115 shows em 1995 e 84 em 1996, com uma pausa entre novembro e fevereiro de 1997. Naquele inverno nevado em sua fazenda no Minnesota, Bob escreveu uma série de novas canções que, segundo ele, partilhavam de um mesmo ceticismo: “São canções mais preocupadas com as realidades duras da vida do que com o idealismo cor-de-rosa e cintilante tão popular nos dias de hoje”. Após sete anos sem material inédito, Bob entrou em estúdio em janeiro de 1997 escudado por Daniel Lanois para esboçar os arranjos do novo material. Eles não trabalhavam juntos desde “Oh Mercy” (1989), e o clima no estúdio em muito lembrava aquelas sessões, com Dylan e Lanois discutindo intensamente sobre o rumo de cada uma das canções, num processo de queda de braço criativo que, normalmente, terminava no estacionamento, com Bob e Daniel argumentando suas ideias longe da banda. No início das sessões, Dylan mandou uma declaração por escrito à sua gravadora: “Antes de gravar essas músicas, Daniel e eu conversamos sobre elas, sobre como deveriam soar longas. A música em si possui um efeito tão potente quanto às letras, e isso é proposital. Trata-se de um álbum performático, não poético, literário. Sentimos a música, mais do que pensamos nela”.
As sessões aconteceram entre 13 e 28 de janeiro de 1997, e a banda tocava o novo material ao vivo cerca de 12 horas por dia – o bruto de canções inéditas gravadas renderia facilmente dois novos discos. Lanois seguiu na produção enquanto Dylan dizia: “Acho que esse novo disco pode ser chocante por sua aspereza”. Então em maio Bob foi diagnosticado com histoplasmose, uma micose sistêmica que afeta órgãos internos (principalmente pulmão) e é causada por um fungo transmitido por aves e morcegos. O homem cancelou dois meses de shows da Never Ending Tour e, por muito pouco, “Time Out of Mind” (1997) não foi um disco póstumo. Em agosto, porém, Dylan já estava recuperado e de volta à estrada, e o novo disco, lançado em setembro, receberia os maiores elogios da carreira de Dylan desde “Blood on The Tracks” (1975). As críticas variavam de “73 minutos de genialidade” a “Dylan em seu ápice criativo” e “o álbum se atreve a tratar de mortalidade e é chocante em sua amargura”. A definição do biografo Brian Hinton para a esplendorosa faixa de abertura, “Love Sick”, é tão primorosa quanto à música: “Soa como psicodelia desacelerada, ‘I Put A Spell On You’ tocada em um hospício”.
Outra boa definição de Brian: “A canção ‘Dirt Road Blues’ é como se Charley Patton tivesse vivido o bastante para gravar nos estúdios da Sun Records nos anos 50”. Em “Standing In The Doorway”, uma suavemente desesperada canção de abandono anestesiada por melancolia, Bob canta: “Eu sei que a misericórdia de Deus deve estar próxima”. Já “Million Miles” é um blues em marcha fúnebre enquanto “Tryin’ To Get To Heaven” inspirou uma das melhores canções de Marcelo Nova. Especialista em “emprestar” trechos de canções de outros artistas (muitas vezes canções inteiras), Bob incluso, ao ouvir esta canção, Nova titubeou: “Eu estava traduzindo ‘Tryin’ To Get To Heaven’, em que o Dylan diz que está tentando entrar no céu antes que fechem a porta, e fiquei dias pensando nisso até concluir: eu não quero entrar no céu. Daí surgiu a poderosa ‘A Balada do Perdedor’”. No r&b retrô “’Til I Fell In Love With You”, Dylan canta que sua casa está em chamas, e lamenta: “Achei que choveria, mas as nuvens passaram reto”. O primeiro anti-single do disco foi “Not Dark Yet”, uma fantasmagórica e maravilhosa canção sobre a desintegração de um relacionamento. “E, vamos ser sinceros, com tamanho deleite sobre sua própria amargura”, pontua Hilton. Para Emmylou Harris, essa é a melhor música já composta sobre… envelhecer. Calma, há mais: A próxima, “Cold Irons Bound”, ganhou o Grammy de 1998 como Melhor Performance Vocal Masculina (outros dois Grammys foram concedidos ao disco: Melhor Álbum do Ano e Melhor Álbum Folk), e Daniel Lanois dá um show colocando a voz de Dylan milésimos à frente dos instrumentos, rebeldes, nervosos, e tudo soa puro farrapo: “É tão triste ver a decadência da beleza”, canta Dylan, concluindo: “Mais triste ainda é sentir seu coração sendo arrancado”.
Com a banda na mesma pegada desconstruída, nervosamente jazzy & blues, “Can’t Wait” trata o amor como uma condenação. Para encerrar, a mais longa faixa cantada por Dylan em um álbum de estúdio, e assim que terminou a sessão de gravação de “Highlands”, um cara da gravadora perguntou: “Bob, você tem uma versão curta dessa canção?”. E Bob respondeu: “Essa é a versão curta!”. São 16 minutos e 32 segundos (e ele não estava brincando: há uma versão de 27 minutos dessa mesma canção!) de um blues lento que vai num crescendo suave enquanto Bob narra acontecimentos nonsense, como estar ouvindo Neil Young e ter “que aumentar o som”, ou estar em um restaurante em Boston sem ter ideia do que quer comer. É a típica canção interminável (Bob já fez várias dessas), em que o verso atual puxa um próximo verso e assim por diante, encerrando um álbum grandioso, marcado pela dor, pelo desamor e pelo envelhecimento. Sucesso de crítica e público, “Time Out of Mind” foi o primeiro álbum de Dylan no Top 10 dos mais vendidos da Billboard em quase 20 anos (o último havia sido “Slow Train Coming”, em 1979) e inaugura uma nova fase na carreira do bardo. Assim como “Oh Mercy”, Dylan, no entanto, não ficou tão satisfeito com o resultado da produção de Lanois (ou, como alguém certa vez escreveu – sobre “Chaos and Creation in the Backyard”, o último grande disco de Paul McCartney, produzido pelo genial Nigel Godrich: um bom produtor tira qualquer artista de sua zona de conforto, mas poucos grandes artistas estão dispostos a esse exercício de caos e criação), e passará a produzir ele mesmo seus futuros discos de estúdio.
Ps. Segundo o amigo @garrasverdes (do Selo 180) no Instagram: “Em vinil, teve uma tiragem pequena na época do lançamento e ficou anos fora de catálogo. Custava uma fortuna. Mas a procura era tamanha que pintaram umas prensagens piratas (em vinil colorido/marmorizado). Alguns anos atrás o selo Music On Vinyl reeditou o LP duplo oficialmente”
abril 6, 2018 No Comments
Algumas palavras sobre o Miranda

A pedido da SIM São Paulo, escrevi algumas palavras sobre o amigo Carlos Eduardo Miranda, que nos deixou recentemente:
“Se não existisse o Miranda, talvez a história do rock brasileiro a partir dos anos 90 fosse completamente outra”, escreveu Samuel Rosa (Skank) no Instagram. “Perdemos nosso Guru da música e arte, um homem sem fronteiras, explorador do estranho, esquisito e legal”, disseram os Raimundos, no Facebook. “Talvez você não saiba, mas, nos últimos 25 anos, sua vida tem sido influenciada pelo Miranda”, pontuou o músico Giancarlo Rufatto, no Twitter, no dia em que as redes sociais se uniram para saudar a sabedoria de Carlos Eduardo Miranda, falecido na quinta-feira, 25, aos 56 anos.
Miranda era tudo isso… e muito mais. Em sua coluna de estreia, na saudosa revista General, de dezembro de 1993, após anos escrevendo na revista Bizz, ele batia no peito e escancarava em tom de bravata: “Como inventei o rock gaúcho”. Ironicamente, naquele mesmo momento ele estava “inventando” o rock nacional dos anos 90. Enquanto toda a indústria fonográfica da época estendia um tapete vermelho para a música sertaneja e arremessava pás de cal sobre o rock, Miranda estava cercado de fitas K7 arquitetando a revolução que lançaria, através do selo Banguela Records (em parceria com os Titãs), nomes como Raimundos, Mundo Livre S/A, Little Quail and Mad Birds, Graforréia Xilarmônica e Maskavo Roots. Era só o primeiro passo.
“O contrato dos Raimundos foi assinado numa roda de chopp, num barzinho em Ipanema”, relembrou ele em outra coluna da revista General. “O Little Quail, um dia depois do Mundo Livre S/A, também assinou na praia e em mesa de bar. Dessa vez no Leblon. Mais um dia e eu comemorava a assinatura do Graforréia Xilarmônica com uma cervejada no Timbuca, na Assunção, em Porto Alegre. Na beira do rio Guaíba, arquibancada para o mais tradicional pôr-do-sol sulista e brodagens gerais”, completava Miranda para, no parágrafo seguinte, cantar a bola do verão 94/95: “Por sinal, o Maskavo Roots vai se dar bem nesse verão. Eles, o Skank… É reggae na cabeça”. E não é que o Velhinho estava certo?
Ele não parou. Muito pelo contrário. Depois de virar os anos 90 do avesso, Miranda adentrou o novo século arquitetando outro belo movimento de xadrez no tabuleiro da música brasileira. E quando a Internet começou a se tornar realidade em um Brasil ainda navegando em conexões discadas, lá estava ele à frente da Trama Virtual, uma plataforma gratuita focada em música independente que criou um espaço para novas bandas mostrarem seu trabalho. De Teatro Mágico a Móveis Coloniais De Acaju, de Hateen a Vanguart, de Jupiter Maçã a Fresno (que ocupou por muito tempo as paradas da plataforma), de Nuno Prata (Portugal) a Cansei de Ser Sexy, que foi a primeira banda a lançar um disco pelo selo, para depois se transformar em um sucesso mundial.
Se um é pouco e dois é bom, três “é só alegria”. No mesmo momento em que começava a se tornar um nome reconhecido nacionalmente através de programas de TV, Miranda também iniciava um relacionamento amoroso pela música paraense que renderia muitos frutos: ele dirigiu as três edições do Terruá Pará, projeto grandioso envolvendo dezenas de músicos da região que aconteceu nos anos de 2006, 2011 e 2013, sendo que, nesse último ano, o show foi eleito como o melhor projeto especial na categoria Música Popular, pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Depois trabalhou nos discos de Gaby Amarantos, Jaloo e Sammliz. Já à frente do selo StereoMono, também lançou Mahmundi e Boogarins. Miranda não era apaixonado por um estilo de música, mas sim pela música como um todo, por qualquer boa música.
Mas muito mais que músico, jornalista, crítico, produtor, curador, agitador, dono de selos (além do Banguela Records, Miranda montou a Excelente Discos, que lançou o Virguloides – do hit “Bagulho no Bumba” – e também o Acabou La Tequila, influência assumida de outro grupo que faria sucesso nos anos 2000: Los Hermanos) e jurado de programa de TV, Miranda foi um dos maiores articuladores e influenciadores que a música brasileira já teve. Por trás das câmeras, era um pesquisador incansável de novos sons e acompanhava atentamente a carreira dos jovens artistas que admirava. Fonte inesgotável de boas ideias, se tornou uma espécie de guia e referência para quem criava ou produzia no mundo musical. Tem um projeto novo? Pergunta pro Miranda o que ele acha. Escreveu uma música nova? Manda pro Miranda dar uma escutada. E ele sempre tinha a resposta certa pra dar, como um bom amigo.
Se não fosse ele, a música brasileira não teria alcançado muitos dos níveis de criatividade que alcançou nos últimos 30 anos. Miranda ajudou a mudar o mercado muitas vezes, injetando sabedoria, humanidade e bom humor. “Eu acho que não conheço outra pessoa que mudou tantas vidas como ele”, comentou Adriano Cintra, ex-Cansei de Ser Sexy, em seu Facebook. “A minha com certeza ele mudou”, completou. A sua também, caro leitor, pode acreditar.
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. E junto com os amigos Marcos Bragatto, do site Rock em Geral, e Rodrigo James, do Esquema Novo, gravamos um vídeo mais emocional contando nossas histórias e nossos álbuns favoritos produzidos pelo Miranda. Assista abaixo.
abril 5, 2018 No Comments
No show documentário de Wado

Estou ao lado de uma turma sensacional (o saudoso Carlos Eduardo Miranda mais Roberta Martinelli, Zeca Baleiro, Curumin e André Abujamra) falando sobre Wado em intervalos do registro de seu grande show no Rex Jazzbar, em Maceió. Assista abaixo!
abril 5, 2018 No Comments

