Random header image... Refresh for more!

Category — Entrevistas

Falando de Palma Violets e The Roots

marcelo_costa.jpg
Estive no Portal Terra nesta semana para comentar sobre algumas bandas que vão tocar no festival. Ficou bacana. Assista abaixo.

novembro 7, 2013   No Comments

Entrevista: Manual do Jornalismo Musical

 

por Adriano Oshiro, outubro de 2013

Existem algumas maneiras de medir o sucesso na internet. Número de visitas, quantidade de menções, conteúdo relevante, etc. Agora, junte tudo isso e ainda seja convidado a falar de seu projeto digital ao lado do editor de um dos jornais mais importantes do mundo. Esse é o caso do Marcelo Costa, criador do Scream & Yell.

Nascido em São Paulo, mas crescido em Taubaté, Costa começou a escrever um fanzine de cultura pop nos anos 90, quando ainda fazia faculdade de Publicidade. Leitor assíduo da Bizz, NME, Ilustrada e tudo quanto fosse publicação cultural da época, o jovem estudante distribuía as revistas, que fazia com a ajuda de um colega, pelo campus da universidade e ainda enviava um exemplar para os jornalistas que costumava ler nas suas publicações favoritas.

Justamente por meio dessa divulgação, foi convidado a trabalhar em São Paulo, no IG, em 1998. Ao chegar na capital, levou o fanzine impresso para a web e, desde então, toca o projeto falando de música, cinema e até sobre cerveja e viagens, já que não se limita a abordar nenhum assunto que considere interessante.

Desde que migrou para a internet, o publicitário com alma de jornalista foi repórter, editor e designer do Scream & Yell. Mas, com o site crescendo e ganhando cada vez mais espaço, começou a receber colaborações de várias partes do país. Alguns colaboradores chegaram a ser tão freqüentes que acabaram se tornando parte integrante do Scream e amigos pessoais de Costa, porém, no dia a dia, é ele quem toca o projeto.

O Scream sempre foi desenvolvido paralelamente a outros trabalhos do autor, que também passou pela redação do Notícias Populares, IG e Terra, além de colaborar para as revistas Rolling Stone Brasil, Billboard e GQ. Ainda assim, o hobby nunca deixou de ser levado a sério e, raramente, fica sem atualização.

Antes de ter um domínio próprio na web, o Scream fazia parte da plataforma HPG, um dos maiores sites de hospedagem gratuito, da época. Entre 1998 e o início dos anos 2000, a maioria dos fanzines impressos começaram a se digitalizar, aproveitando as facilidades que as plataformas de gerenciamento de conteúdo ofereciam, o que permitiu que todos pudessem criar o próprio site ou blog rapidamente.

Desde o início do projeto, Marcelo Costa teve uma preocupação em manter uma linha jornalística, contextualizando informação e oferecendo entrevistas e reportagens. As opiniões mais pessoais, o autor passou a deixar no blog Calmantes com Champagne, o que não impede que muitos conteúdos publicados ali possam ficar em destaque na capa do Scream e vice-versa.

Do fanzine ao projeto digital já se vão mais de 15 anos. A recompensa disso tudo? Ganhar um público fiel, amigos e reconhecimento profissional pelo trabalho. Em 2010, foi convidado a participar de um seminário no Itáu Cultural, com Alex Needham, editor de cultura do The Guardian. Na ocasião, o blog e o jornal ficaram lado a lado para falar sobre como construir narrativas utilizando as novas tecnologias (veja o vídeo da palestra).

Hoje, com 43 anos, o jornalista deixou o trabalho fixo, no portal Terra, para tirar férias da jornada dupla. Entre um trabalho freelance e outro, pela primeira vez, Costa pode se dedicar ao site em tempo integral e tem a chance de pensar no futuro do Scream e, quem sabe, rentabilizá-lo, como contou na entrevista a seguir.

Como foi a ideia de deixar de fazer o fanzine impresso e ir para a internet?
Quando eu publicava opiniões em um site chamado Ivox, ainda em Taubaté, fiz amizade com um cara que lia os meus textos. O portal era um site de avaliação, você via um filme e escrevia uma resenha. Então, logo quando vim para São Paulo, fomos tomar uma cerveja e levei meus fanzines para ele e, uma semana depois, o cara disse que gostou e me perguntou se eu nunca tinha pensado em colocá-los na web. Tinha acabado de chegar na cidade e, por mais que já usasse a internet na faculdade, não era uma coisa que eu tinha muita facilidade. Mas, ele acabou fazendo um site para mim, no HPG, e me ensinou a publicar textos lá. Praticamente todo mundo que tinha fanzine em papel começou a migrar para a internet, nessa época. O meu foi mais um acaso. Talvez, se o cara não fizesse o site, eu tivesse chegado sozinho em algum momento, mas ele adiantou o processo em pelo menos um ano. E como era uma coisa nova, já que haviam poucos sites na época, o negócio tornou-se muito grande. Comecei a ter entre 20 e 30 colaboradores, mesmo o Scream tendo um layout completamente assustador (risos). Tinha duas capas, que trocavam minuto a minuto, então, um conteúdo ficava em um minuto par e dava lugar para outro no minuto ímpar. Era umas dessas coisas absurdas que a gente testava para brincar com a ferramenta (risos).

Depois do HPG, como você passou para WordPress?
Eu uso wordpress desde 2007, mas ele já é “.com.br” desde de 2003. Nessa época, eu trabalhava na redação do IG de manhã e no Notícias Populares tarde e noite. Chegava meia noite em casa e ficava até as seis da manhã tocando o site. O Scream já estava “grande”, concorrendo a prêmios, mas era muito exaustivo. Até anunciei que ia acabar, mas recebi centenas de e-mails reclamando. Naquele tempo, você saia para um show do universo indie e todo mundo conhecia o site. Fiz muitas amizades e muita gente pediu para eu não desistir. Acabei parando apenas por um ou dois meses e pensei, bacana, se as pessoas querem, vou voltar e fazer uma coisa legal com isso. Desde aquele tempo ele está no ar, mas, às vezes, fica sem atualizações devido ao tempo escasso para fazer as coisas.

Você é o único editor do Scream & Yell. Nunca pensou em formar uma equipe fixa?
Não. Até tive uma experiência com colaboradores em 2005 e 2006, com dois subeditores frequentes., o Diego Fernandes, do Rio Grande do Sul, e o Leonardo Vinhas, de São Paulo. Era uma época em que o site estava tendo muitas atualizações, tinha muito material chegando e muitas bandas novas procurando a gente, apesar que, hoje, o nível é maior ainda. Daí sugeri para os dois serem os subeditores do site. Eles aceitaram e fizemos essa experiência entre seis e oito meses. O problema todo é que sociedades são fadadas ao fracasso. É um casamento que uma hora as pessoas vão se separar. Todos os principais sites daquela época acabaram, com exceção do Scream & Yell e do Trabalho Sujo… exatamente porque o Trabalho Sujo é o Alexandre Matias que, de vez em quando, aceita alguma colaboração, e o Scream & Yell, que sou só eu.

E você recebe colaboração, mesmo sem pedir. Não tem um espaço no seu blog que você pede, certo? As pessoas mandam voluntariamente?
Uma coisa que me orgulho é de nunca ter pedido, e não é um orgulho do tipo “sou fodão”, muito pelo contrário: é um orgulho das pessoas chegarem ao site e tomarem a iniciativa de compartilhar um tempo delas com outras pessoas. Tem muita gente que colabora para o site que nem conheço pessoalmente. Mas há pessoas que já tenho liberdade de pedir. Por exemplo, me oferecem uma entrevista com o Interpol, aí acabo sugerindo para algum colaborador que queira fazer. Há uma ideia do Scream & Yell ser uma diversão, não uma obrigação. Acho que seria divertido conversar com um ídolo em uma posição de jornalista. Então, se alguém me procurar dizendo que gostaria de entrevistar tal cara, vou tentar conseguir essa entrevista e faço o possível para rolar para o site.

Esses colaboradores te mandam uma pauta ou eles já enviam o texto pronto?
Muitos me mandam o texto pronto. Em média, 50 ou 60% me enviam o texto perguntando se cabe publicar. Outros chegam, assim, “escrevi para o meu blog, mas ficou tão bacana que eu acho que dá para publicar aí”. Tem muita gente que pergunta, “alguém vai escrever sobre o Nick Cave?”, num processo próximo ao de oferecer pauta, e a gente vai encaixando. Alguns temas eu debato, mas sem limitar. O Scream & Yell sempre foi uma provocação do tipo, “por que vocês estão publicando isso?”. Não tem restrições. Uma vez alguém falou assim, “por que vocês não falam de rap?”. Cara, o André Caramante foi colunista do Scream & Yell no começo. Todo mundo sabe quem ele é agora, mas ele escreveu de 2001 a 2003 para o site. A gente não tem essa coisa de “não posso falar de dança”. Há textos de dança no Scream, de teatro. Desde que esteja bem escrito e seja uma coisa um pouco mais aberta, porque é um público grande que vai ler e precisa ter umas chaves para entender tudo. Se for um texto bom e perfeitamente adaptável, cabe.

O que é adaptar um texto para o Scream & Yell?
O site tem um padrão jornalístico, um jeito de falar que é quase primeira pessoa, mas a primeira pessoa não aparece. Discordo completamente quando alguém fala que o jornalismo é impessoal, não tem como. Se você fizer uma entrevista com o Supla, por exemplo, vai sair uma coisa, se eu fizer, vai sair outra. E isso deriva do conhecimento que nós temos, que são coisas pessoais. Então, tem coisas que cabem, tem coisas que não. Tem textos que me mandam e eu transformo tudo em terceira pessoa, e falo, “olha, dá para publicar assim. Do jeito que estava, você pode publicar em um blog pessoal”.

Os textos do Scream & Yell têm limites de caracteres?
Não, quanto maiores, melhores (risos). Tem um mínimo de toques, menos de 3.000 não entra. Eu sempre tive a intenção  de provocar o leitor. No começo eram textos de 10, 15, 20 mil toques. O texto do diário de viagem do Leonardo Vinhas tem 27 mil toques, a entrevista com o Romulo Fróes tem quase 30 mil, com o Helio Flanders também. Eu sempre tento que seja no mínimo três mil e no máximo, a vontade (risos).

Você costuma acompanhar o número de visitantes do Scream?
Sim, diariamente. Tenho por volta de quatro e cinco mil visitantes diários, dá uma média de 45 mil visitantes únicos no mês.

Como foi o crescimento das visitas ao longo dos anos?
Depende do período. O recorde foi em dezembro do ano passado, que deu 68 mil visitantes únicos. No começo eram 300, 500 leitores. Só a classe indie lia mesmo. Hoje tem muita gente nova chegando e conhecendo. O Scream não tem amarras, você pode usar palavrão se ele valer a pena ser usado, ao contrário de uma grande redação, que você nunca vai poder fazer isso.

Você escolhe pautas se baseando nos seus leitores e no que poderá dar mais visualizações?
Não. Tenho uma birrinha das coisas fáceis. Quando falo mal de algo é porque eu preciso falar. Não para provocar ninguém. Gosto de provocar o leitor para tirá-lo de uma zona de conforto, me agrada muito fazer o cara pensar nos motivos de eu falar bem de tal disco e não do outro. Mas o acesso fácil não me agrada. Acho que é um leitor que vai e não volta. Mas há muitos textos polêmicos no Scream. Muitos. Desde os dez piores discos do rock nacional até textos de festivais. Só que  tento sempre puxar para uma análise crítica. No Lollapalooza, por exemplo, não interessa só ir e falar como foram os shows. Interessa o resto, o entorno. Entretenimento não é só o momento em que você está ali. Se você ver um show no Lollapalooza, no Coachella ou no Primavera Sound, o que cerca você é o que vai dizer se você vai gostar daquilo. Muita gente adora o Coachella, porque o entorno é uma vibe tão boa, te joga tão para cima que, quando você está no show, você já está extasiado. Muita gente vê um show no Brasil e fica puto porque o entorno é uma porcaria. Então isso influencia. E isso me interessa muito mais do que saber se o show foi bom ou ruim.

Falando nessa questão de festivais, o Luiz Cesar Pimentel criticou a cobertura desses eventos. O que você achou disso?
Acho que nesse caso do Pimentel houve, também, uma raiva implícita porque ele foi barrado (o que já aconteceu comigo, e agi praticamente como ele, reclamando). Jornalismo é uma coisa sensacional, só que é uma pena que o público não saiba o que acontece por trás dele. É interessante você pensar por que a Folha de São Paulo colocou uma noticia na frente e o Estadão colocou outra. Cada um puxa por um gancho. Então, é legal saber por que ele [Pimentel] pegou no pé, mesmo tendo coisas interessantes naquela crítica. Mas, tem um comentário sensacional do Pedro Só, na comunidade da Bizz sobre esse texto, que daí você percebe que tudo depende. A equipe da Rolling Stone, por exemplo, leva cinco pessoas para cobrir um festival. Uma grande revista não é como o Scream & Yell, que só fui eu e uma fotógrafa. Neste caso, você vai ficar na pista o dia inteiro, porque você é só um. A Rolling Stone tem cinco repórteres, daí um vai cobrir dois shows, outro mais dois e assim por diante. A pessoa, de repente, nem queria estar ali, só que ela tem que estar por que ela tem que trabalhar. Então, onde ela vai ficar quando não estiver cobrindo? Na sala de imprensa. O resto do tempo ela vai ficar lá porque ela não quer ver os outros shows, não interessa para ela. Por outro lado, a gente sofre de um mal sério na assessoria brasileira, há muita represália. Se você falar mal, o cara não vai te credenciar. Muito embora, credenciar não é um favor que ele esteja fazendo para você. É um dever. Só que aqui as pessoas não veem assim, mas como se você estivesse pedindo um favor. Então, vai ter o cara que vai ganhar o ingresso e só vai falar bem, assim como vai ter o outro que não vai ganhar e só vai falar mal. Tem sempre pesar o lado crítico. Você tem que saber a dificuldade que é fazer um show no Brasil, não dá, por exemplo, para você criticar a organização e falar do metrô. O metrô não é um problema da produtora, é um problema da prefeitura. Tem erros  que são cometidos pela assessoria, outros pela produtora e outros pelo próprio jornalista. Mas, de fato, precisamos discutir assessoria no Brasil à sério.

Você recebe muitos convites de assessorias de imprensa, discos e convites para shows?
Discos, relativamente. Muito mais de banda nova. Convite para assistir show eu recebo bastante. Tem muita gente que me manda coisas que eu vou ouvir só dois ou três meses depois. O compromisso que tenho é comigo e por mais que eu saiba que o artista está fazendo uma coisa nova e interessante, eu preciso lidar com o tempo que eu tenho. Sou muito mais movido por uma necessidade de exposição de ideias do que por trabalho. Se escrevo sobre o disco do The Decemberists, por exemplo, é por que eu precisava falar para as pessoas que aquele disco era sensacional.

A maioria das resenhas são motivadas pelo seu gosto pessoal?
Sim, bem provavelmente, para o bem e para o mal. Talvez com filmes eu tenha mais uma relação jornalística do que com música. Música não tenho essa pretensão, nem essa piração de ouvir a última música que vazou. O Scream sempre foi um dos últimos a escrever os textos, e sem nenhuma preocupação. Eu sei que as coisas que importam vão estar ali e não ligo para a concorrência. Acho que ninguém procura novidades no Scream & Yell, a pessoa procura uma boa ideia.

Você recebe muitos comentários de leitores?
Muita gente me escreve coisas assim, “o que você achou do disco do Nick Cave?”, “o que achou do disco dos Strokes?”…

Mas as pessoas procuram saber a sua opinião sobre o disco? Porque muita gente contesta a relevância de uma resenha crítica diante das novas mídias.
Sim, e eu acredito que isso vá acontecer cada vez mais. Chegamos em um momento em que o jornalista é, principalmente, o cara que vai selecionar o que as pessoas vão ouvir. Antigamente, ele tinha que fazer isso porque os discos não chegavam para as pessoas. Agora não. No meio de tantos discos, ele tem que dizer, “ouve isso aqui”. É a função de curadoria. Se 100 discos vazaram no último mês, ninguém vai conseguir ouvir os 100, além de nós, os malucos que escutam discos para caramba. Acho que a função do jornalista vai ser essa de filtrar, nós caminhamos para isso. É muita coisa para as pessoas, que não ouvem tanta música com a febre que a gente ouve, conseguirem acompanhar. Então, elas vão esperar alguém que avise qual é a nova banda legal.

Por que você acha que o Scream faz tanto sucesso?
Não é tanto sucesso assim, mas tem um certo respeito. Eu lembro que uma vez ouvi de um jornalista, “na internet o parágrafo é dividido em três, os textos têm que ser curtos, as pessoas não querem ler muito, etc, etc”. Mas no Scream & Yell as pessoas entram para ler textos grandes. Quando a gente começou a fazer 500 toques, a galera começou a reclamar. O público entra no Scream porque gosta do site e quer ideias para pensar. Acredito muito na vontade que as pessoas têm de ler. Talvez, não a grande maioria, mas é um público interessado e interessante.

O layout que você usa é gratuito?
Sim, o free do WordPress, que peguei e remodelei para deixar com a cara do Scream. No original, não tem aquelas quatro fotos em cima, que eu coloco na mão, no HTML.

Quais outros blogs e sites de música você costuma acompanhar?
Leio a Popload, porque adoro o Lúcio. Temos gostos diferentes, mas respeito muito o que ele faz, ele tem umas sacadas muito bacanas. Gosto muito do Floga-se, que é um cara novo na web, está aí há um ano e pouco, e tem uma opinião fortíssima, dá muito a cara a tapa e não pede credencial: ele prefere pagar o ingresso para ter isenção crítica. É interessante! O Na Mira do Groove, do Tiago Ferreira, um cara que faz umas coisas que fogem dos indies, de ficar babando por Toro y Moi. Ele é um pouco mais profundo do que isso. O Matias, do Trabalho Sujo, que é um grande parceiro, O La Ruta Norteamericana, um blog de musica do El País, que é o melhor caderno de cultura do mundo, hoje. Bate o Guardian, que está patinando há uns quatro anos. Também leio a Rolling Stone americana, argentina, mexicana e italiana.

E a brasileira?
Eu escrevo de vez em quando para a Rolling Stone brasileira, são amigos meus amigos que fazem e, muito do que a gente discute, vai parar ali.

Você pensa na divulgação dos links do Scream na página do Facebook e no Twitter?
Não, menos do que deveria. No Facebook, o Scream está chegando a 5 mil curtidas, porque não uso muito. O Twitter acho espetacular exatamente para postar links diversos, mas sem muito compromisso. Sou meio preguiçoso em atrair leitor. Gosto de cativar o leitor quando tenho um texto bom.

Você pensa em começar a monetizar o Scream & Yell?
Não só monetizar, mas sair de uma coisa independente para algo profissional. Pagar o meu salário, o dos freelas, o provedor, webmaster para melhorar as coisas. O problema é como conseguir fazer isso. Não é fácil.

Nesses 15 anos, o que você acha que o Scream & Yell trouxe de bom para a sua vida?
Só existo por causa do Scream Yell (risos). Estou aqui conversando com você porque, um dia, eu mandei fanzines para um monte de jornalistas: Ana Maria Bahiana, Lúcio Ribeiro, Marcelo Orozco, André Forastieri, Soninha, na época da MTV. O Orozco e o Lúcio que me trouxeram [para São Paulo] por curtir os meus textos e, quando pintou uma vaga, me chamaram para vir para cá. E também tem todo o entorno. Se fui jurado do prêmio da MTV, se integro a APCA, o júri do Multishow e do prêmio Bravo foi por causa do Scream & Yell. Palestro três ou quatro vezes por ano, faculdades me chamam para discutir cultura independente por causa do Scream. Recebo alguns e-mails que me fazem chorar, de pessoas que decidiram se tornar jornalistas por causa do site. Porra, é muito mais lucro do que prejuízo. Valeu muito as noites não dormidas.

Você acha que o Scream & Yell contribuiu para o jornalismo musical brasileiro?
Não sei (risos), mas espero que sim. É muito complicado achar que contribuiu de alguma forma. Acho que nós falamos de muitas bandas legais, registramos algumas coisas ali, discutimos ideias. Mostramos que é possível fazer jornalismo sério sem ser tendencioso e sem trabalhar a favor do capitalismo do mercado, da venda por pura venda.

Como você vê a cena do jornalismo musical agora?
Estamos em uma fase muito complicada. Existem pessoas escrevendo muito bem e muita gente na festa de confundir o que gosta com uma crítica. Mas tem nomes muito bons por aí, na gringa também. Estamos vivendo um furacão histórico, onde a sociedade ainda está se adaptando com a chegada da internet. Por mais que ela tenha se popularizado há uns 20 anos nos EUA e uns 12 no Brasil, a gente ainda não se acostumou a lidar com ela e isso está fazendo com que o jornalismo musical mude. A função dele, hoje, acaba voltando ao inicio, que é a de destacar o que o público precisa ouvir. Estamos com uma cena independente vastíssima em um momento em que as rádios e o mercado brasileiro de música, como a gente conhecia, estão falidos. Nenhum dos grandes jornais se relacionaram bem com a web, não conseguiram fazer um projeto do material impresso para a internet que seja relevante. Mesmo assim, acho que a profissão do jornalista cultural está cada vez mais rica. Tem muita área para trabalhar porque tem muita gente trabalhando no raso. Se você fizer um pouquinho diferente, você vai se destacar. Só que é uma batalha, não é uma coisa para você começar agora e daqui a seis meses reclamar que não estão te reconhecendo. Dei sorte de chegar em um momento em que tinham apenas três ou quatro sites bons de música na internet. Hoje você tem um monte e um melhor do que o outro. A profissão está boa e o caminho está aberto, só que as pessoas precisam ter vontade. Mais do que nunca, é preciso ter vontade.

Quais dicas você pode dar para quem está começando um blog de música?
Fugir do óbvio, do que todo mundo faz. Mas, sobretudo, um blog é um veículo de ideias. Então, você tem que ter uma luta diária para entender o que aquela obra de arte faz no seu mundo. Você tem que entender por que o Criolo estourou, por exemplo, e não falar só que a musica é boa. Musica boa tem milhares por aí. Você tem que falar sobre o contexto social, o porquê do publico pedir aquilo. Isso interessa muito mais do que saber se o disco é bom ou ruim, que é o que quase todo mundo faz. Mas isso são coisas que você só consegue chegar escrevendo.

Se você pudesse definir o Scream & Yell em algumas músicas, quais seriam?
Nossa, nunca pensei nisso, mas é uma coisa bem bacana (risos). As pessoas têm uma visão indie do Scream, que é legal, mas a gente já entrevistou o Renato Teixeira, já falamos de rap. Talvez, “Rotomusic de Liquificapum”, do Pato Fu, por ser uma canção que tem várias caras. Poderia ser também uma do Miles Davis, uma do “Bitches Brew”.

Veja outras entrevistas aqui

outubro 28, 2013   No Comments

Na revista BeerArt #2

beerart.jpg

Criada especialmente para tablet, a BeerArt é uma revista que retrata a evolução da cerveja artesanal, em um mundo onde importante é saborear, e não exagerar. Neste segundo número, falo sobre minha cerveja preferida (veja aqui). A revista está disponível apenas para tablet, mas o pessoal colocou algumas páginas para degustação no site da publicação. Confere lá: http://revistabeerart.com/

outubro 18, 2013   No Comments

Bate papo: Crítica musical em discussão

Eis a integra do bate papo sobre Crítica Musical que participei ao lado de Carlos Calado e Marcus Preto com mediação de Benjamim Taubkin, promovido pelo Ciclo Uia + Casa do Núcleo. É um debate informativo, polêmico, repleto de dúvidas e questões interessantes não só sobre crítica, mas também sobre jornalismo e cenário musical. Divirta-se.

Assista também:
– O Editor e as Possíveis Narrativas: Debate no III Seminário Internacional Rumos de Jornalismo Cultural com Marcelo Costa (Scream & Yell), Jan Feld (UOL) e Alex Needham (Guardian) (aqui)

agosto 30, 2013   No Comments

Sobre Nick Horby e Alta Fidelidade

nicrkhorby.jpg

Na onda dos relançamentos dos dois primeiros livros do escritor britânico Nick Hornby, “Febre de Bola” (1992) e “Alta Fidelidade” (1995), o amigo jornalista Thiago Pereira me enviou algumas perguntas para uma reportagem especial que foi publicada no caderno Magazine, do jornal mineiro O Tempo, no domingo passado (04/08), e o texto serviu para resgatar o carinho que tenho por estes livros em particular – e por quase toda obra de Hornby.

Thiago dividiu a reportagem – que conta com a opinião de Christian Schwartz, tradutor dos livros de Hornby, o doutor em história e teoria literária Marcio Serelle, e Leonardo Bertozzi, jornalista da ESPN Brasil, além de mim – em três partes: o texto principal, “Uma sensibilidade pop na literatura”, e dois apêndices, “O texto de Hornby e a questão dos gêneros literários” mais “O futebol no campo das letras”.

Já escrevi bastante sobre Nick Hornby no Scream & Yell, tanto que perdi a conta. Aliás, contei aqui dia desses como “Alta Fidelidade” chegou a mim. Gosto da teoria dos pesos-médios e, sobretudo, de “Um Grande Garoto” (”Como Ser Legal” também, mas um pouco menos). Gostei de “Juliet Naked” e a peça “A Vida é Cheia de Som e Fúria” foi uma experiência espetacular (entrevistei Guilherme Weber na época).

Possivelmente, se você vem com certa frequência a este espaço,  já deve ter lido tanto “Febre de Bola” (não vale a fraca adaptação hollywoodiana “Amor em Jogo” – a versão inglesa com Colin Firh é bem melhor) quanto “Alta Fidelidade” (a versão de Stephen Frears é boa, embora não definitiva), mas caso não tenha lido, fica a recomendação: vale a pena. Muito. Abaixo, as respostas que enviei ao Thiago Pereira.

Quando você conheceu Nick Hornby? O que te chamou a atenção?
Conheci com “Alta Fidelidade”, em 1998, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi a união de duas coisas que admiro bastante: relacionamentos e cultura pop. A forma com que Nick Hornby chocava estes dois temas me interessou muito, porque também era uma crítica a um certo esnobismo cultural que circulava – e circula muito ainda hoje – na época. Afinal, como uma pessoal pode ser legal se não conhecer Beatles? (risos). O interessante de Nick Hornby é que ele questiona isso, mas também confere alma ao tal esnobe, permitindo que muita gente se identificasse (e até a pessoal que não conhece Beatles, entendesse esse ser-humano que surgiu junto com Elvis e com a Indústria Cultural).

O que você apontaria como os motivos maiores da obra dele ter chamado tanta a atenção do público- inclusive mobilizando versões para cinema, teatro, etc?
“Alta Fidelidade” é um romance geracional, daqueles que retratam um grupo de pessoas em uma determinada época, neste caso, o decantado fim das lojas de discos (que, no fim, não acabaram, e estão cada vez mais vivas), a valorização de certa honestidade em artistas, a elevação de listas top alguma coisa a categoria de arte e coisas assim. O que você consome diz muito sobre quem você é, e Nick Hornby percebeu isso naquele momento olhando homens que se recusam a envelhecer como manda o figurino. É um belo exemplo de adultescente, que já havia sido antecipado em “Febre de Bola”, e vai ser explorado de forma ainda mais genial em “Um Grande Garoto”.

A chave de entendimento para a obra de Hornby é a conexão com a cultura pop, ou acha ele um grande romancista, acima de tudo?
A conexão com a cultura pop é um dos grandes destaques de boa parte de sua obra, mas há, sim, um grande romancista. Ele usa ferramentas para atingir um grupo x de pessoas, mas são apenas ferramentas. O que move o leitor é sua prosa e história envolventes.

“Alta Fidelidade”, em especial, é um livro que marcou época para uma geração do final dos anos 90, ligada em música. Será que hoje, com a música tão descompartimentada, tão espalhada em diferentes suportes, ele tem o mesmo apelo?
Sim, sem dúvida. E a volta do vinil é um sintoma de que o apelo continua o mesmo, quiça aumentou. A discussão sobre MP3, CDs e vinis tomou outras proporções no novo século. Quando “Alta Fidelidade” foi escrito, as lojas de discos e a própria música pop de qualidade estava em franca decadência. Hoje o cenário está mais estável, e esta estabilidade é fruto de um novo grupo de pessoas que pensa e conversa coisas que poderiam ser dialogadas na loja de Rob Fleming.

Ainda sobre “Alta Fidelidade”: qual a importância do livro para você, pessoalmente? Você também é um pouco Rob Gordon?

Uma jornalista, certa vez, fez a mesma pergunta. Eu respondi: “Devo ter coisas mínimas de vários personagens, mas não acredito que tenha um em especial que me absorva por inteiro. Não sou tão confiante, mas ainda assim sou mais confiante que os personagens dele (risos). Ou ao menos acho…”. E mesmo assim, no abre do texto dela, ela dizia: “Gosto de imaginar o Marcelo como um Rob Gordon tupiniquim”. A questão que fica é: somos o que achamos, ou o que as pessoas acham de nós? (risos). E essa questão é totalmente nickhorbiana. Então eu devo ter um pouco de Nick Hornby sim, mais do que eu gostaria, talvez.

Uma mania em “Alta Fidelidade” são os Top 5. De alguma forma ele materializou uma mania de muitos não? Você usa até hoje né, assumidamente no teu site…Hornby, de alguma forma, é um jornalista de música?

Hornby é um apaixonado por música, e que tem o dom de escrever bem. Isso praticamente o torna um bom crítico, porque a música, pra ele, tem um valor especial, que permite um livro como “31 Canções”. Quantas pessoas no mundo conseguiriam escrever livros sobre canções hoje em dia? O fato de ser atento ao universo pop e apaixonado por música o torna um jornalista de música em potencial, afinal, ele faria mais perguntas pertinentes para Bob Dylan do que a grande maioria dos jornalistas que participou da coletiva em São Francisco, 1965.

Pra fechar: consegue eleger 5 personagens favoritos na obra de Hornby?
1) Will Freeman, de “Um Grande Garoto”
2) Rob Fleming, de “Alta Fidelidade”
3) Duncan, de “Juliete, Nua”
4) Katie Carr, de “Como Ser Legal”
5) Nick Hornby, de “Febre de Bola”

nick.jpg

Leia também:
– “Howdy!”, do Teenage Fanclub, por Nick Hornby (aqui)
– Doce Miséria – A suavização de Nick Cave, por Nick Hornby (aqui)

agosto 10, 2013   No Comments

Dois shows

swans.jpg

A pedido do pessoal do site RockinChairBR, elenco o melhor show que vi no primeiro semestre e recomendo o imperdível do segundo… Confira aqui.

julho 18, 2013   No Comments

Entrevista ao Club Beer

marceloa.jpg

Na quinta me formei Sommelier de Cervejas. Na sexta foi publicada essa entrevista no Club Beer, umas perguntas que eu já tinha esquecido (são de umas cinco semanas atrás – exatamente o tempo do curso), e fui reler torcendo para não ter falado nenhuma bobagem contrária ao que aprendi. Que nada, está bacana. Obrigado Arthur, pelo convite:

Cervejeiras e cervejeiros que nos acompanham, trazemos para vocês hoje uma entrevista feita com Marcelo Costa. Marcelo é editor chefe da Scream & Yell, revista eletrônica especializada em cultura pop. Ele também escreve o blog Calmantes com Champagne 2.0, onde, apesar do nome, ele fala bastante sobre cervejas especiais. Marcelo Costa é fã de cerveja belga e entende muito sobre todo o universo cervejeiro. Na entrevista em que fizemos, ele conta sobre como começou sua paixão por cervejas especiais, sobre como enxerga o mercado nacional e até um pouquinho sobre seu último Carnaval.Leia na íntegra a seguir:

março 23, 2013   No Comments

Entrevista para o Portal Imprensa

cds.jpg

Bati um papo por telefone com a Jéssica Oliveira, do Portal Imprensa, sobre o cenário de shows no Brasil: “O Brasil tem 30 anos como rota de shows. Não é novidade”. Leia abaixo:

A agenda dos brasileiros fanáticos por um bom show anda disputada. Todos os meses, com poucas exceções, o país recebe algum artista estrangeiro ou grande festival com vários de uma vez só. Mas isso está longe de ser uma realidade “nova”. “Somos rota de shows, sim. Mas desde os anos 80”, diz Marcelo Costa, curador do Sonora, realizado pelo Terra e editor do site Scream & Yell.

Costa passou em jornalismo e publicidade, mas se formou no segundo, porque o jornalismo só tinha “noturno” na Universidade de Taubaté (Unitau). Chegou em São Paulo e entrou no iG quando o portal montava sua primeira equipe. Na capital, passou pelo Notícias Populares, e mais de uma vez pelo UOL, iG e Terra, onde está hoje. Nessas mudanças, já trabalhou com cidades, esportes e celebridades, mas a música sempre esteve com ele.

O jornalista já colaborou com revistas como a Billboard e com a GQ, e atualmente colabora com a Rolling Stone, além de editar o Scream & Yell há 12 anos. Apesar da paixão pela música, alerta em tom de brincadeira. “Se ama musica, não escreva sobre”, diz. Segundo ele, a relação com discos e shows muda completamente. “Você não pode mais só gostar, mas tem que entender o que aquilo representa e perceber que já não é mais um ouvinte comum”, explica.

Costa entende de música como poucos. Em sua casa, parte da parede da sala é ocupada por nada mais nada menos que cerca de oito mil CDs, 800 vinis, fora os cassetes doados. Passa a maior parte de seu tempo ouvindo músicas e escrevendo sobre – sua forma de entender o mundo. À IMPRENSA, ele comenta os desafios e condições do atual mercado de shows no país, as mudanças e características do público, e a cobertura da imprensa.
IMPRENSA – É certo falar que o Brasil virou rota obrigatória de shows? Por quê?
Marcelo Costa – Somos, sim, rota de shows. Isso acontece desde os anos 80, não é novidade. Não é um ‘ah, descobriram o Brasil.’ A novidade é o país estar com uma economia segura, em um momento que o mundo passa por uma crise séria. A Alanis Morrisette, por exemplo, fará oito shows no Brasil, mas saindo do eixo Rio-São Paulo, acreditando que em outros lugares também terá um bom público. No começo dos anos 80 ainda tivemos alguns probleminhas de sumir equipamentos de artistas, e não era tanto pelo valor em dinheiro, mas mais por ser uma coisa muito pessoal. Hoje em dia não existe isso. São 30 anos de mercado. Estamos prontos.

IMPRENSA – Mas e os desafios, como os preços altos do nosso mercado?
Os preços ainda são ditados por quem está dentro dele [mercado], e é um problema que precisa ser acertado. O mercado está ativo, as pessoas estão querendo ver shows, mas não conseguimos ver tudo, o que por um lado é positivo. Antes você tinha um show e todo mundo tinha que ir nesse. Hoje, não. Você tem muitos shows. O que se desenha para o futuro é uma competição grande. A tendência é que os ingressos barateiem e todas as casas tenham um público bacana, mas não lotem. A opção de escolher, dispersa o público. Mas temos público para tudo. Precisamos chegar nesse consenso. Mas ainda somos conhecidos como um mercado que paga muito alto.

IMPRENSA – O publicou mudou muito? Por exemplo, hoje quem vai a um show de rock, vai em shows de outros estilos. E sobre quem vai ao show, mas assiste pela telinha de celulares ou câmeras porque quer registrar tudo o tempo todo?
Acredito que seja uma mudança comportamental, mais do que do próprio conceito de shows. Fomos caminhando em nível mundial para uma pluralidade, é normal que uma pessoa vá em shows diferentes. Talvez até a MTV tenha contribuído com isso também. E acho que as ferramentas foram mudando. Sou de uma geração anterior. O que me incomoda mais são as pessoas falando no meio do show. Antigamente quando você tinha um ou dois shows e todo mundo ia lá, eventualmente tinha músicas que o cara não conhecia e ele ficava conversando durante essas, mas quando sabia, prestava atenção e tal. Ainda carecemos de uma cultura de respeitar o artista, e respeitar o momento que se está vivendo. Além disso, outro ponto é dissociar o show de balada. Até acho muito legal, mas tem show e show. Tem show que funciona muito em balada. Tem show que não.

IMPRENSA – Se o país vai receber cada vez mais shows e se tem público para isso, por que muitos lugares que recebem esses eventos ainda pecam na estrutura?
A gente não soube trabalhar com isso de shows em locais abertos ainda, um exemplo que deu certo foi o Lollapalooza [Jockey Club, abril-2012], mas foi estrutura de fora, um modelo de fora. No Anhembi, você muitas vezes não ouve o show. E o público acaba aceitando. Isso é um problema sério. O contratante, geralmente, é quem aprova o lugar e quer saber se o público vai ouvir tudo. Alguns artistas realmente se preocupam com isso, outros não.

IMPRENSA – Por que o público aceita pagar caro nessa situação? O que podem fazer?
Uma das formas que o consumidor tem de pressionar a mudar isso, é não ir aos shows. Mas isso é difícil, porque se você ama o artista, é a chance que tem de vê-lo. Aí acaba aceitando e começa a torcer muito para dar tudo certo. Também tem os meios para se cobrar posteriormente, como no show do Radiohead que teve vários problemas e muita gente foi ao Procon reclamar. Infelizmente, empresários só sentem quando dói no bolso. Mas não é só em relação a estrutura do show em si. Falta um pouco também da prefeitura se preocupar com o público. Não dá para fazer um evento como o Lollapalooza e fechar as catracas do metrô como fizeram. Por exemplo, no Hyde park, em Londres, quando acaba o show, as pessoas vão até o metrô e conseguem chegar em casa. A prefeitura local se preocupa em garantir a segurança do seu pessoal. Aqui a gente não tem essa preocupação. Falta no Brasil um estudo de estrutura. Por exemplo: tenho isso aqui, o show será para tantas mil pessoas, que precisam tanto de alimentação, transporte… Claro que não da para resolver tudo, em nenhum lugar do mundo. Como a gente vai melhorar tudo isso? Com mais shows. Entendendo como as coisas funcionam.

IMPRENSA – Com tantas bandas vindas de fora, como fica o mercado para nossos artistas? Em relação ao espaço e valorização do público.
Há mercado para todos. Claro que isso reflete no mercado independente. Mas o pessoal tem que aprender a mudar isso de alguma forma, não dá para ficar olhando tudo e reclamando. É até bom, porque acabam tomando contato com uma cultura de festivais, e percebem que são capazes de fazer a mesma coisa, além de ver que todos tem os mesmo problemas e desafios. O palco é o mesmo. Sobre o público, acho que ainda há um problema de não valorizar a cultura brasileira. Nos line-ups de festivais, por exemplo, muitos artistas brasileiros poderiam estar em horários melhores, e tinham todo para isso. O cara que vai comprar o ingresso vai ver o show, desde que você consiga arrumar o cardápio sem ser de uma forma agressiva, todo mundo vai curtir. Você não faz um festival para fãs de uma banda, mas para um público que vai receber talvez 20 bandas diferentes.

IMPRENSA – Como você avalia a cobertura da imprensa sobre o assunto? Falta mais profundidade? Diversidade?
Temos a Rolling Stone e a Billboard, que não são de grande tiragem (se comparadas com a Veja e /ou Playboy), mas cumprem seu papel muito bem. Mas ainda não temos um jornalismo cultural aprofundado ou cobertura aprofundada. Há o costume de replicar o que sai ‘na gringa’. Ao mesmo tempo, você tem grandes blogueiros que acompanham seus cenários e cobrem bem. Temos que ver que nossa cena do mercado independente, e não falo só de rock, mas de samba e outros, é muito melhor que a cena americana ou inglesa. Talvez esteja na hora da imprensa valorizar a cena nacional e começar a vender isso. E não só, muitas notícias sobre músicos são repercussão de bobagens. Cada um tem seu público, claro, mas às vezes o jornalista fica tentado com o clique, com a audiência, e esquece de fazer jornalismo. Mas de modo geral acho que a gente ainda tem uma boa imprensa, critica e independente. Estamos bem de crítica, mas precisa renovar um pouco até para não afastar a molecada. E o público precisa entender também que cada pessoa [jornalista] vai ter uma visão diferente. É um mal do leitor, sério e cultural até de achar que só porque está na no jornal ou na TV, virou verdade. Não é verdade, é uma pessoa comum que escreveu aquilo. Ela tem esse direito, de gostar ou não, e de falar se gostou ou não e argumentar sobre isso. O brasileiro não tem o costume de discutir.

Veja outras entrevistas aqui

setembro 5, 2012   No Comments

Programa Perdidos no Ar, Gazeta AM

perdidos.jpg

No sábado, participei da edição número #42 do Perdidos no Ar, um programa de rádio feito por alunos da Cásper Líbero, e que vai ao ar na Gazeta AM. Falei um pouco do Scream & Yell em uma edição que teve como destaques o álbum “Screamadelica”, do Primal Scream, a banda Dungeon e Jack White. Gostei pacas do programa e até gostaria de agradecer a Izabela, Kaluan, André, Luan, Afonso e Vitória pelo convite e acolhida. Valeu. Você pode ouvir online ou baixar o programa aqui.

http://perdidosnoar.blogspot.com/

setembro 26, 2011   No Comments

Entrevista para o Verdades Particulares

mac_minas.jpg

por Bárbara Bom Angelo

‘Texto curto, rápido e direto. De preferência com fotos mil. Esse é o padrão em que querem, há tempos, amarrar a internet. Só que tem vezes que você quer algo com mais sustância, sabe? Tipo comida de mãe? Você quer ler impressões mais profundas de um disco, um show, um filme ou um livro e para isso não ter que correr para um jornal ou revista. Afinal, você quer agora – é o mal dessa nossa geração instantânea.

Quando essa vontade bate, o lugar para onde vou de olhos fechados é o Scream & Yell, site de cultura pop que já está em seu décimo primeiro ano de vida. Antes de estabelecer casa no mundo digital, o S&Y era um fanzine de papel e tinta que rodava feliz pelas ruas de Taubaté, interior de São Paulo. Ele vinha cheio de textos sobre música, filmes e comportamento e se manteve assim até mesmo quando mudou de mídia definitivamente em 2000. O editor Marcelo Costa resolveu vir para a capital paulista de vez e não mais restringir todo aquele conteúdo bacana a uma só cidade.

Gosto de imaginar o Marcelo como um Rob Gordon tupiniquim. Rob, para quem não lembra, é o personagem principal de Alta Fidelidade, do Nick Hornby, que é viciado em música e em fazer listas de tudo o que for possível. Quem frequenta o blog pessoal do Marcelo sabe bem do apreço que ele tem pelo escritor britânico e também em bolar os seus próprios Top 5, que ficam sempre em destaque e acabam servindo para mim como uma espécie de guia. Mas atenção, ele garante ser bem mais confiante que Rob e outros tipos de Hornby.

Eu tendo a concordar com ele, ainda mais depois de gentilmente aceitar dar a entrevista que você confere abaixo ao Verdades para contar um pouco mais do S&Y e de si mesmo.”

Essa é a vida que você sempre quis? Escrever sobre o que gosta, viajar bastante, ir a vários shows… Está faltando algo?
Eu tive um pouquinho de sorte no trajeto até agora (e vou precisar de mais um tantinho para prosseguir), mas quando olho para trás fico muito feliz com tudo o que aconteceu. Ainda assim tento não pensar tanto no que aconteceu e sim no que vai acontecer. É uma metáfora interessante: quando observo o tanto que caminhei, me sinto feliz e realizado; quando penso no tanto que ainda falta para caminhar, parece que não sai do lugar. A vida segue…

Como fazer para não perder o tesão editando há 11 anos o mesmo site?
E quem disse que eu não perco? Existem dias ruins, em que a vontade de abandonar tudo é enorme. Deletar e-mail, Facebook, Twitter, largar o site e… sair por aí sem rumo, lenço e documento. Felizmente existem dias bons, em que um bom texto me faz sentir que, sim, vale a pena continuar fazendo o que eu faço. Sigo balançando entre os dois extremos e… risos… parece outra metáfora da minha vida.

O Scream & Yell vai na contramão do que muitos acreditam ser o que funciona na internet: textos curtos. Por lá, a gente encontra entrevistas, críticas e reportagens bem longas. E dá mais do que certo. Por quê?
Eu não tenho a resposta, mas acredito que existem pessoas interessadas em conteúdo, em algo mais elaborado, profundo, irônico. Quando começamos só queríamos provocar, sabe. Fugir do lugar comum. Fazer algo que a gente gostasse realmente sem precisar seguir algum hype. E conseguimos um espaço de que me orgulho. No entanto, um tempo depois apareceu gente escrevendo textos longos, então inverti a provocação tentando resenhar discos em 500 e 1000 toques. Provocar é essencial. Tirar o leitor (e você mesmo) da zona de conforto. Isso me interessa.

Como dar conta de tudo o que você precisa ouvir, ler e assistir? Como não deixar as coisas que você mais gosta virarem obrigação?
Algumas coisas acabam virando, inevitavelmente, mas o que me salva ainda é um bom disco, um bom filme, um bom livro, uma boa foto. Quando algo bom toma a alma da gente, a obrigação passa a ser falar disso, estender o entendimento, contaminar outras pessoas. Não é uma obrigação – no sentido negativo do termo – escrever 11 mil toques sobre o disco do Decemberists. Eu preciso escrever do disco porque quero que pessoas que não o conhecem, o descubram. Se vou dormir às 5 da manhã em uma viagem porque eu queria escrever sobre o que aconteceu naquele dia é porque quero que essa pessoa que lê participe da minha experiência e tenha, assim, vontade de ter a dela.

Qual banda anda consumindo seus ouvidos ultimamente? Está ansioso por algum show que vai rolar em breve?
Tenho tentado não ouvir Decemberists (risos), mas é tão difícil. Sobre shows, tenho pensado bastante no Pearl Jam. Acho que será especial. Mas se tivesse que escolher um seria o show gratuito que o Arcade Fire fará em Montreal, 22 de setembro, encerrando a turnê “The Suburbs” em casa. Tem tudo para ser histórico.

O que você faz só para você?
Vejo filmes (muitos), ouço discos (muitos também), leio livros (poucos) e bebo cervejas (não muitas… risos). De vez em quando cozinho… bem de vez em quando.

Acompanho muito o desenvolvimento dos seus roteiros de viagem, especialmente porque eu adoro fazer o mesmo. Qual a próxima?
Não há nenhuma desenhada neste momento, mas pequenos prováveis roteiros. Por exemplo: estou pensando em ir ao cruzeiro do Weezer, em janeiro, e descer de lá para a casa de um amigo na República Dominicana passando pelo Haiti e por Cuba. Não deve acontecer, mas é uma ideia. Outra envolve a Escandinávia (incluindo San Petersburgo). Há ainda uma viagem de carro pela Itália, a necessidade de conhecer Portugal e a vontade de ir ao Fuji Rock Festival, no Japão. Ou seja: são vários roteiros que se adaptam a oportunidade do momento.

Quais são os lugares que você visitou que roubaram seu coração?
Veneza é a número 1, e acredito que o texto sobre a cidade assinado pela Cathy Newman, editora especial da National Geographic, pesa no olhar poético que tenho sobre a cidade. Mas só um pouco: bastou olhar as casinhas empilhadas sobre o mar da janela do avião para o coração derreter. Santorini também é algo inacreditável. Praga, Paris e Amsterdã são mais táteis, mas não menos apaixonantes. Por fim, Cork – pelo folk irlandês.

Em que lugar de São Paulo você encontra um pouco de Taubaté, a cidade onde cresceu?
Eu nasci em uma maternidade no Belenzinho, pois, segundo minha mãe, não havia nenhuma na Mooca, onde morávamos na época. Fui para Taubaté com cinco anos e cresci olhando a vida com olhar de interior. Mas meu coração sempre bateu por São Paulo. Então, hoje em dia, só encontro Taubaté quando pego no telefone para falar com a minha mãe, a minha irmã e a minha sobrinha. Sempre fui São Paulo, mesmo quando não estava aqui.

O que tem de paulistano em você?
O jeito meio workaholic de ser, talvez. Sinceramente, não sei. Paulistano é meio blasé porque se acostumou a ter acesso a tudo (e isso é um grande defeito), então não se importa em perder um show ou um filme hoje, “porque semana que vem tem outros shows e filmes”. O bom de viver em uma cidade de interior é aprender a valorizar a necessidade. Ir ao cinema e não ter filme nenhum para ver (mas não perder de maneira alguma quando aparecer algo interessante). Será que sou paulistano mesmo? Certa vez, em uma troca de cartas com uma amiga carioca, escrevi:

De resto, tudo bem. É impressionante como essa poluição toda me faz bem para alma.

E ela: Meu Deus, os paulistas realmente não são deste planeta. Isso é porque você não mora no Rio: eu vejo o mar e o sol e a lagoa e a montanha todos os dias… todos os dias Deus me lembra que estou viva.

Não sei se tenho algo de paulistano realmente, mas me emociono todas as vezes que o piloto do avião diz que o pouso na cidade está autorizado e as casas e prédios começam a crescer e se multiplicar pela janela do avião até o infinito. Sei que estou em casa.

Não podia deixar Nick Hornby de lado nesta entrevista. Tirando Alta Fidelidade, qual o seu livro preferido dele? Você se vê um pouco em Rob Gordon ou em algum outro personagem?
“Um Grande Garoto” ocupa a posição número 2, mas “Juliet Naked” mexeu bastante comigo também. Acho que, de tudo que ele escreveu, só não gosto mesmo da segunda metade de “Uma Longa Queda”. E eu devo ter coisas mínimas de vários personagens, mas não acredito que tenha um em especial que me absorva por inteiro. Não sou tão confiante, mas ainda assim sou mais confiante que os personagens dele (risos). Ou ao menos acho…

E falando em livros e Nick Hornby… Nos seus Top 5 do Calmantes com Champagne falta uma lista de livros. Qual o ranking do momento?
Não tenho lido tanto, sabe. Isso é algo que São Paulo tirou de mim: o prazer silencioso da leitura, algo que sobrava nos anos em Taubaté. Mas se eu tivesse que levar cinco livros para uma ilha deserta, eu iria roubar na contagem e incluir “O Tempo e o Vento”, do Érico Veríssimo (sim, os sete volumes, mas se você insistisse muito que eu não poderia levar tanto peso, eu deixaria os dois volumes relativos ao Arquipélago), “As Obras Completas”, do Oscar Wilde (parece muito, mas é só um volume gordinho em papel bíblia), “O Chão Que Ela Pisa, de Salman Rushdie”, “O Macaco e a Essência”, de Aldous Huxley e os dois volumes pequeninos de comédias, tragédias e sonetos, de Shakespeare (na edição marrom da editora Abril, de 1981). Esses cinco livros me fariam feliz até o fim dos tempos. Se você fosse boazinha eu pediria, ainda, “Crime e Castigo”, de Dostoievski, uma coletânea de poetas franceses do século XIX (organizada por José Lino Grünewald e lançada pela Editora Nova Fronteira em 1991) e a coleção “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust (que está completa aqui na minha estante, mas que ainda não li). Droga, não inclui a coletânea “Seleta”, da Lygia Fagundes Telles nem as três coletâneas de tirinhas sobre Deus, do Laerte, e nada do Manoel de Barros… Posso levar 10?

Veja outras entrevistas aqui

setembro 2, 2011   No Comments