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Category — Entrevistas

Um monte de entrevistas nerds

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Hoje o Marco Pessoa, do Setup Brasil (@usaisso), um site bacana que busca descobrir o que as pessoas usam para produzir seus conteúdos, publicou o meu depoimento com base em quatro perguntas simples:

1) Quem é você, e o que você faz?
2) Que hardware você usa?
3) E que  software?
4) Qual o seu setup dos sonhos?

As respostas estão aqui: http://usaisso.com/entrevista/marcelo-costa/

Ps. Foto de Martín Wain, do La Nacion / Cork, 2011

agosto 22, 2011   No Comments

O Editor e as Possíveis Narrativas

Sob curadoria da jornalista Rachel Bertol, aconteceu de 8 a 10 de dezembro de 2010 no Itaú Cultural, em São Paulo, III Seminário Internacional Rumos de Jornalismo Cultural – pRINCÍPIOS iNCONSTANTES. Tive o prazer de participar ao lado de Jan Feld (UOL) e de Alex Needham (Guardian). Abaixo, os vídeos.


Marcelo Costa, Scream & Yell


Jan Feld, UOL


Alex Needham, Guardian


Bate papo final

julho 6, 2011   No Comments

Entrevista ao Blog do Bracin

Entrevista concedida a Vinicius Felix

Se você é leitor deste blog há algum tempo provavelmente sabe quem ele é. Se não sabe eu deixo que ele se apresente:

“Marcelo Costa é um leonino do segundo decanato com ascendente em touro apaixonado por cervejas belgas, cachaças mineiras, picanha ao ponto, mixto quente com salada e bacon, pipoca do Cinemark e tortinhas de morango. Editor do Scream & Yell, coordenador de capa do iG, DJ eventual, cozinheiro de fim de semana e centroavante nos moldes do grande Geraldão. Escreve sobre romances e cultura pop.” (retirado do seu perfil no blog “Calmantes com Champagne”)

Foi a pouco mais de três anos que conheci o Scream & Yell e seu editor, Marcelo Costa, via Comunidade da Bizz no Orkut.

Gostei logo do site e dos textos do Marcelo pela boa escrita e identificação com as opiniões e gostos. Estava no terceiro ano do ensino médio e já tinha certeza em prestar jornalismo. Veio em boa parte dali o incentivo para começar a rabiscar um blog para treinar.

A influência era tanta que na minha cabeça tinha certeza que quando entrasse na faculdade e tivesse que fazer uma entrevista falaria com o Marcelo.

Tanto tempo depois e esta aí a entrevista com ele, feita por e-mail, resultado de um trabalho para faculdade onde foi necessário entrevistar algum profissional da área de comunicação e conseguir um perfil de sua rotina, carreira e outros detalhes profissionais, acadêmicos e pessoais.

Minhas perguntas são simples, até pelo limite do tema – e pela falta de manha (primeira vez é foda) –, mas o Marcelo foi incrível e deu respostas que você tem que ler. Aliás agradeço muito ele por ter cedido a entrevista e também pela sua atenção em concordar com o prazo curtíssimo para a entrega do trabalho e depois ainda mandar um “versão melhorada” para ser publicada aqui.

Não sei ainda se rendeu um dez, mas o que eu aprendi nesta entrevista vale muito mais que qualquer nota.

Vamos lá

Você não é formado em jornalismo, certo? Faz alguma falta isso ou você acha que a experiência já deu conta de suprir qualquer ensinamento da faculdade?

Eu me formei em Publicidade e Propaganda e, a rigor, qualquer faculdade é importante. A minha abriu meu olhar para uma série de coisas que me ajudaram bastante profissionalmente. E acho que isso também deve acontecer com a Faculdade de Jornalismo, mas é preciso lembrar que faculdade é apenas a ponta do iceberg no quesito estudo. Vai soar piegas, mas a vida é que a escola. A faculdade te dá possibilidades e certos direcionamentos, mas o jornalista aprende mesmo na redação, escrevendo, lendo, prestando atenção no mundo que o cerca. Eu gosto do jornalista que eu sou hoje em dia, mas precisei camelar para isso. Numa de minhas saídas do iG, expliquei para minha superiora que eu precisava ir pois o outro emprego iria me dar oportunidades de fazer pauta na rua, entrevistar com microfone, fazer links ao vivo, coisas que naquela época não iria rolar no iG. E eu precisava crescer como profissional. Ou seja, acabei aprendendo o oficio em redação. Acho que a faculdade tem o seu valor, mas muitas vezes ela acaba podando a liberdade textual do jornalista na cegueira das regras. Não a toa, alguns dos jornalistas que mais admiro não fizeram jornalismo.

Como foi basicamente sua vida universitária?

Normal… acho. Fui campeão de truco na Semana da Comunicação (risos). Tive sorte em estudar na primeira turma grande matutina de PP da Unitau (Universidade de Taubaté). Eu trabalhava como auxiliar de biblioteca na Faculdade de Direito, passei no vestibular para Jornalismo, mas não havia jornalismo matutino, só noturno, e a pró-reitora não abria mão de eu abandonar a biblioteca à noite (e eu precisava do trabalho não só para pagar a faculdade, mas também porque ele me dava uma bolsa de 50% por ser funcionário concursado da universidade). PP foi minha segunda opção. Entrei e encontrei uma turma excepcional, inteligente, agitada. Imagina: éramos 70 calouros contra 15 veteranos (risos). Isso nos deu uma liberdade do tipo: “Podemos fazer o que quiser aqui nesse lugar”. E fizemos. De peças de teatro a números musicais. Nas aulas de rádio, apresentávamos programas em italianês (risos). Meu ponto alto foi o trabalho que apresentei para a cadeira de Estética de Cultura de Massa. A professora pediu uma leitura crítica da “Divina Comédia”, de Dante. Chamei um guitarrista amigo apaixonado por blues e metal e um DJ para fazer uma base pesada (pensando hoje, era puro Nine Inch Nails). Colocamos uns quinze latões com velas na frente da faculdade. Era noite do encerramento da Semana da Comunicação, com teatro lotado. Assim que acabou a cerimônia, começou o barulho. Eu declamava uma citação de Aldous Huxley, um poema meu em três partes, e fechava declamando “Os Provérbios do Inferno”, de William Blake, sob uma base de microfonia. Foram 10 minutos ensurdecedores com todo mundo saindo do teatro e atravessando aquele purgatório (risos). Uns cinco anos depois encontrei uma menina em uma balada. Ela fazia Arquitetura e tinha ido a Comunicação com uma amiga, e ficou chapada com o arranjo que fizemos. Valeu a pena (e também um 10).

Tem alguma pretensão em fazer doutorado, mestrado, caso não tenha ainda?

Eu cheguei a ter vontade de fazer, mas hoje em dia sem chance. Ao menos que alguém aumentasse o dia de 24 para 36 horas. E olhe lá. Talvez ainda não me sobrasse tempo. Não é a toa que estou respondendo isso a 1 da manhã.

A motivação para trabalhar com jornalismo veio antes ou depois de alguma necessidade profissional? Em que momento o Screm & Yell começou? Foi antes dessa necessidade, por paixão por escrever ou surgiu depois quando você já estava formado?

Meu pai sempre sonhou em ser jornalista. Ele era chefe da segurança da Volkswagen, mas escrevia no jornal da empresa, apresentava programa de rádio. E aquilo de alguma forma me impressionou. Então, desde que me conheço por gente penso em ser jornalista. Eu gostava daquilo, dele mostrando o jornal pra nós. Parecia… especial. Daí veio a paixão por música (também herdada dele) e a Bizz, e então já viu: lá estava eu, mais um moleque de 15 anos querendo escrever sobre música pop. Mas isso demorou a acontecer. Eu fazia o que todo moleque faz, que era escrever poesias. Eu explorava as formas (sonetos, baladas, redondilhas), e isso me fazia escrever melhor, mas só fui escrever algo sobre música quando uma namorada, a Maria Teresa, pediu um texto meu para ela mostrar para um amigo. Deve estar em algum lugar aqui em casa, e ficou uma porcaria. A idéia era boa, mas como assim, escrever um texto sem gancho? Eu quero pauta (risos). Escrever um texto do nada foi bastante desafiador. Mas ela queria me colocar em contato com algumas pessoas que escreviam, ela queria me colocar em um jornal. Depois disso só fui escrever à sério quando surgiu o Scream & Yell, na metade da faculdade. Dois amigos já tinham feito um fanzine na classe, o Gambiarra, e aquilo me deu idéias. Comentei a idéia com um amigo que fazia Direito, e um dia ele aparece em casa do nada. Era 25 de dezembro, natal, e ele surge com a proposta de fazermos um fanzine exatamente pela paixão de escrever. Nessa primeira fase, que durou uns três meses, nossa idéia era mapear a cena local. Fazer um fanzine de cultura sobre Taubaté. Entrevistamos banda de metal da cidade. Mas daí o João se acidentou, e morreu. Aposentei a idéia até um outro cara, que estudava com o João no Direito e tinha visto um rascunho do fanzine, fazer a proposta de tocarmos juntos o negócio. Foi um ano e pouco depois do acidente, eu já namorava outra garota, a Karina, que manjava de computação (PageMaker), e nos ajudou a formatar a idéia do que queríamos. Aqui já há uma necessidade de escrever devido aos veículos que eu acompanhava (Ilustrada, Bizz) não estarem trazendo nada de novo. Então foi algo: “Se eles não falam das bandas que deveriam ser faladas, a gente fala”. Nasceu o Scream & Yell…

Aliás, quais são foram suas influências para escrever? O que você lia, ouvia quando começou?

Jornalistas: Ana Maria Bahiana e André Forastieri. Eu lia muito eles. Lia, recortava, guardava, lia de novo. Não é a toa que tínhamos uma seção no fanzine chamada “Matérias Antológicas”. Eu queria ter escrito tudo aquilo, e queria que mais pessoas lessem. Eu lia muito Shakespeare, Oscar Wilde, Aldous Huxley, Vinicius de Moraes e Morris West na época. E ouvia muita música, traduzia letras com o dicionário na mão.

Que eu me lembre você trabalhou nos principais portais do país, ou seja, pelas minhas contas aqui seu trabalho com internet vem de uma época menos popular dela e até uma fase extremamente popular, a atual. Quais portais foram e em quando e quanto você trabalhou em cada um? Como são as diferenças desses períodos? E como é trabalhar com um material tão passageiro, incomoda?

Eu cheguei em São Paulo em 2000 para trabalhar no recém criado iG. Cheguei em agosto para um trabalho como redator de nova economia (no iG.com – iG Economia), que nem eu e nem a editora sabíamos direito o que era (risos). Trabalhava de 6h às 12h, e em dezembro acumulei o Noticias Populares, cobrindo esportes. Passei a entrar no iG às 5h e sair às 11h. Ai eu almoçava e corria pro NP, às 14h, e ficava até a rodada do futebol acabar. Isso durou pouco mais de um mês. A diretoria da Folha da Manhã assassinou o NP e o iG.com foi engolido pela bolha da internet. Foram uns seis, sete meses de trabalho, mas eu dei sorte. No mesmo dia que o iG fechou o iG.com (e demitiu as 24 pessoas – imagina: 24 pessoas na editoria de apenas um canal???) tinha show do Mudhoney. Enchi a cara, e fui desabafar ao som de “Touch I’m Sick”. Na porta encontrei um cara que eu já conhecia por ele ter escrito algo para o Scream & Yell (o site entrou no ar em novembro de 2000), e ele me arranjou um frila para cobrir esportes em um site parceiro da Zip.Net, o Esportes-E (do Banco do Brasil). Eu só trabalhava aos sábados e domingos (e ganhava mais do que trabalhando o mês inteiro no iG), e cobria jogos do Gustavo Kuerten e da seleção de vôlei, esportes que o BB patrocinava. Então o UOL comprou a Zip.Net, e esmagou o portal. Foi mandando paulatinamente todo mundo embora. Desse site parceiro mandaram o jornalista, depois o editor, depois o webmaster. Sobrou eu. E o UOL teria que honrar a parceria assinada em contrato com o BB. Então me ofereceram um contrato de 15 meses para eu ser editor do site. E eu fui pro UOL. Os 15 meses se passaram, a parceria acabou, e eu fiquei mais cinco meses trabalhando em outros projetos. Chegou janeiro de 2003, meu chefe (que estava me pagando por borderô, já que meu contrato tinha acabado uns seis meses antes) falou que não iria sobrar grana naquele mês pra mim. Fui pra casa. Numa balada encontrei minha ex-chefe do iG, que me convidou pra voltar para ser redator de capa do portal. Fui. Seis meses depois recebi uma proposta do Terra. Era para uma vaga de editor de música, mas eles curtiram meu currículo e acabaram me dando a vaga de sub-editor de Diversão e Cultura. Foram três anos intensos. A chefia mudou, fui saído. Tirei um semestre sabático e, quando menos esperava, lá estava o iG de portas abertas para mim novamente. Voltei para ser editor de capa. E hoje faço parte da equipe que coordena a edição de capa do portal (junto a do BrTurbo, do iBest e da Oi).

E não existe tanta diferença entre esses períodos. Porque a internet ainda é um meio a ser desbravado. Ninguém pode dizer com toda a certeza do mundo o que é certo e o que é errado na internet. Não existe formula. As pessoas se surpreendem quando digo que publico entrevistas no Scream & Yell com 15, 16 laudas. E quem disse que não posso publicar? Se o material for relevante, o leitor acompanha, mas é o leitor de um grande portal é diferente do Scream, claro. Então, os grandes portais ainda estão tateando no escuro. Os grandes jornais do mundo também.

Quanto ao material passageiro, uma questão: qual a o veiculo que se perde mais? Os jornais, que vão embrulhar peixe, banana ou servirem de forro para gaiolas ou a internet? Uma das matérias mais lidas do site no mês passado foi uma reflexão que o Marco Antonio Barbosa, do Jornal do Brasil, escreveu sobre o “Apanhador no Campo de Centeio”… em 2000. Hoje (18/03/2010) linkei no twitter um texto do Marcelo Orozco (ex-NP, atual Vip) escreveu em 2000 sobre o Big Star. Será que é passageiro mesmo?

Fale um pouco sobre sua rotina de trabalho no portal. Como é sua função por lá, as coisas que você sempre faz, seus principais prazeres e o que é chato demais nessa rotina. Como é seu retorno do trabalho feito lá? Procurei muito, mas não encontrei, por exemplo, o nome do pessoal que edita o portal.

Estamos preparando uma página com o expediente do portal, mas ela ainda não está no ar. Bem, a minha rotina é escolher (junto com mais quatro pessoas, sendo dois superiores) as matérias que vão ser destacadas na capa, dentre as centenas que nos recebemos. Essa equipe escolhe não só a matéria, mas onde ela vai ficar na capa, e o tempo que ela vai ficar. Então a rotina é receber a pauta dos cadernos, analisar a validade jornalística e a qualidade editorial dela, e encaixar aquela pauta no quebra-cabeça de uma primeira página de portal. O prazeroso é que você acaba tendo contato com muita informação vinda de todos os lados. O chato é que você não escreve, apenas adéqua o conteúdo que as pessoas te mandam em manchetes e boxes temáticos. E, posso estar enganado, mas 90% das pessoas que escolhem o jornalismo o fazem porque querem escrever. Basta subir um pouquinho na carreira que você deixa de escrever.

Você também escreve para a Rolling Stone e para a Billboard, as únicas revistas de cultura pop que circulam da maneira tradicional ainda. Ainda acredita nesse velho formato ou mais na internet, ou em revistas virtuais, você também colabora bastante para algumas, certo?

Eu acredito no poder da palavra, mesmo. Seja na imprensa escrita, seja na internet. É bom lembrar que 60 milhões de brasileiros têm acesso à internet, e apesar de ser um número sensacional, e os outros 140 milhões? Alguns desses lêem revistas, apesar das tiragens estarem despencando. Acho que há espaço para ambos, assim como defendo que as revistas vão precisar se desdobrar para convencer o leitor que o preço de capa foi bem pago. Ninguém quer comprar uma revista para encontrar ali o que ele poderia encontrar de graça na internet. Porém, muita gente paga por opinião. Eu compro uma revista que tenha textos do André Forastieri, Lucio Ribeiro e Ana Maria Bahiana porque a opinião deles me interessa. A informação eu posso até saber, mas o modo como eles colocam as coisas me faz comprar a revista. Acontece o mesmo na web.

Uma grande dúvida dos jovens alunos acho que é com o freelancer. Como conseguir, como administra-los. Lembro de uma verdadeira saga sua para receber certa vez um pagamento de freela, que você relatou cada enrolada da editora. Como funciona essa parte da profissão e quais são as dicas para um bom freelancer? Como mostrar o primeiro trabalho, fazer contatos, etc?

Para ser um bom frila você precisa ter uma idéia genial por semana. Sério. Pagar aluguel com frila é pra poucos. A maneira de conseguir é simples: é só meter o pé na porta do editor (risos), ou, menos violento, achar o email dele (que hoje em dia não é difícil) e oferecer uma pauta que só você tenha pensado. Nenhum editor recusa uma pauta boa… mas tem que ser boa.

Seu site musical já deu algum lucro ou não, é puramente, como já disse, paixão? E os nomes que você já revelou? Em 10 anos quantos já leram e escreveram por lá? É um número significativo, comparado até o de grandes veículos com objetivo diferentes, não?

Depende da forma que uma pessoa entende o lucro. Quem entende que lucro é ganhar dinheiro, bem, o Scream nunca deu lucro. Mas abriu portas. Muitas. Eu fui chamado para um teste no iG devido aos textos que eu mostrava no Scream & Yell em papel. Já fui chamado para palestras, debates, entrevistas e conheci as pessoas que mais admiro na profissão (e algumas na música) através do Scream. Isso pra mim é lucro. Quantos já leram? Não tenho um número preciso. Segundo as estatísticas do site, em 2009 foram 533 mil visitantes únicos. Em 2004 tinha sido 167 mil visitantes únicos. Em dois meses e meio de 2010 já temos 128 mil. Já a lista de pessoas que escreveram para o site é imensa, e muita gente boa. Quem sabe um dia eu não faço um listão.

Vou me render a um clichê, como você vê o jornalismo daqui alguns anos? Você pretende participar disso ou pensa em descansar ou mudar de carreira? Ou acha que esse fascínio em escrever será eterno?

O jornalismo vai existir. Sempre. Acho que a tendência é o mercado crescer, e exigir cada vez mais do profissional. Agora todo leitor tem acesso a informações de fontes oficiais. Se você der uma mancada, ele vem e pega no seu pé, e não volta. Quanto a mim, uma das boas coisas do jornalismo é que você pode (e deve) escrever sentado (risos). Enquanto o cérebro funcionar quero estar escrevendo, mas ainda não sei sobre o que nem quanto tempo vou conseguir enfrentar baladas de madrugada da rua Augusta para ver shows de gente sensacional. Já ando passando alguns…

Por fim, quais são suas dicas para os estudantes? Além de escrever e ler muito, qual outra qualidade você considera indispensável para o jornalista? Filmes e livros também indispensáveis, cite alguns?

Dica número 1: abra um blog, e comece a postar ali as coisas que você acha sobre o mundo. Escrever é exercício. Quanto mais você escreve, mais as palavras te procuram na hora em que você precisa fechar um parágrafo confuso. Ler é obrigatório. Nem que seja bula de remédio, mas dispense os livros de auto-ajuda. Você precisa ter a cabeça em ordem para escrever bem e não filosofar bobagem. Se quer filosofia vá atrás dos grandes. Devore entrevistas e resenhas como se toma café da manhã. Exercício: a coisa só começa a funcionar quando você pega um texto e no primeiro parágrafo já descobre quem o escreveu. Quando você passa a distinguir bem os textos você passa também a ter um leque de opções que pode ser usado na hora que você precisar. Escrever é filtrar nossas maiores influências através de nosso prisma pessoal. E, por fim, discuta muito. Veja um filme e analise. Discorde, concorde, mas argumente. Escrever (e principalmente resenhar, que é o que a maioria gosta de fazer) também é argumentação. E isso lhe prepara para a vida, porque ela também é feita de argumentação. E aquele que presta atenção aos detalhes e sabe discutir e argumentar está um passo à frente. Como diria Blake, “se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser”. E como diria Forastieri, “ter um pouco de caráter também nunca atrapalhou ninguém”. Por fim, como diria Tony Parsons, “fique perto das coisas que você ama. E leve um bastão de beisebol para o resto”. Basta.

Veja outras entrevistas aqui

março 25, 2010   No Comments

Esqueci

Era pra eu ter avisado, mas quem diz que eu lembrei: hoje (ou melhor, ontem, quinta-feira, já que passamos da meia-noite) tinha uns três minutos meus no programa Comentário Geral, da TV Brasil, falando sobre o “Bloco do Eu Sozinho” e carnaval… foi mal ae, mas liga não: nem eu mesmo vi! :/

fevereiro 11, 2009   No Comments

Voltando a programação normal

No segundo semestre do ano passado eu concedi algumas palavras (antes de uma palestra bem bacana) para os jornalistas Itaici Brunetti, Luiza Paiva, Jairo Falvo e Roger Mendes, em Araraquara (SP) versando, quase sempre, sobre a cena independente de música no Brasil. O papo entrou no documentário “Três ou Quatro Riffs”, que além de mim ainda conta com depoimentos de Kid Vinil, Fábio Massari, Lúcio Ribeiro, Supla, bandas como Matanza, Forgotten Boys, Vanguart, Hurtmold e Dance of Days, e outros. Você pode assistir via youtube ou baixar o documentário na integra no site oficial. Assista abaixo:

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Assim que cheguei de viagem, o José Franco Jr. do blog Eu e o Pop me encaminhou umas perguntas para uma seção chamada Talk Show com questões do tipo “Por que o rock?”, “Qual o atual papel da grande mídia”, “Quais as cinco bandas ou artistas que eu traria para tocar no Brasil?” e “Um CD e um filme hoje”. Você pode conferir as minhas respostas clicando aqui, muito embora eu ache que – antes – você deva conferir mesmo as respostas do grande Arthur Dapieve aqui.

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Vou cutucar a onça com vara curta: você está surpreso com o fim do Violins? Alguma coisa saiu de órbita no mundo quando a banda anunciou o fim? Apesar de terem lançado dois álbuns sensacionais, eles têm alguma importância/relevância para a música mundial? Fãs, me desculpem, mas o mundo não pára de girar só porque uma banda bacana desistiu de fazer música. O mundo não pára de girar nem mesmo quando a gente segura na alça de uma caixão e leva um grande amigo para ser enterrado sete palmos do chão (coisa que eu já fiz três vezes na minha vida, antes dos 30).

Então vamos parar com esse lenga lenga porque a vida segue em frente e, sexta, em São Paulo, tem show do graaaande Josh Rouse (que eu saiba, ainda tem ingressos), teremos Vaselines e Breeders nos próximos meses e, domingo, o Lestics, banda querida deste espaço, toca no projeto Folk This Town, no Lado B, ali perto da minha ex-casa, na rua General Jardim, 35, a partir das 19h. Estarei de plantão no fim de semana (você acha que a gente tira 40 dias de férias e não “paga” nada por isso? – risos), mas farei o possível para aparecer no Lado B para beber uma Bohemia com os amigos. Apareça, mas sem lágrimas. A vida é uma festa.

agosto 12, 2008   No Comments

Um puta clichê

Dia desses eu conversei com a Talita, que está se encaminhando para o projeto de conclusão da faculdade de Jornalismo, e está centrando o foco de seu estudo nos sites de cultura. No meio do papo, a pergunta:

– O que te levou a fazer jornalismo?

A resposta aqui

Ps. Tô pensando sobre a vida. Já volto.

maio 25, 2008   No Comments

Entrevista ao Pop Indie

Entrevista concedida a Maikol Paolo Vancine (agosto de 2006)

Hoje estréia a série de entrevistas (tomara que realmente vire uma série), feitas por e-mail, com poucas e simples perguntas, até porque não tenho prática nisso, pra matar a curiosidade, e saber mais um pouco sobre grandes pessoas que se movimentam para trazer um pouco de diversão e cultura para nós, apaixonados. E hoje, mais do que merecido, o primeiro convidado foi o jornalista Marcelo Costa, editor do site Scream & Yell, e um grande apaixonado pela cultura pop.

Marcelo também é editor de homes do iG, BRTurbo, iBest, e escreve para as revistas Rock Press, Rock Life, Pipoca Moderna, e estreou na semana passada sua coluna no iG chamada Revoluttion. Marcelo fala aqui sob sua estréia, um pouco da sua vida, seus pensamentos, etc.

Quem te conhece sabe da sua paixão pela cultura pop, você acha que é possível viver fazendo somente tudo aquilo que você gosta, desde trabalho até estilo de vida? E no seu caso em especial você se sente realizado, e acredita que ainda hoje é possível viver de cultura pop?

Possível é, mas é bem difícil também. Eu gostaria muito de poder viver só de cultura pop, do site que eu edito, dos textos que escrevo para algumas revistas, mas isso ainda é impossível. O meu trabalho no iG, por exemplo, nada têm de cultura pop. E é este trabalho que possibilita que eu pague as contas, me alimente, ou seja, viva a vida normalmente. Viver só de cultura pop não daria, mas não é impossível. É preciso, talvez, um tato maior para negócios, para fazer o dinheiro render. Particularmente tenho medo de dizer que me sinto realizado, sabe. Eu tenho 36 anos, só (risos). Se me sentir realizado agora, o que é que vou fazer com os outros 54 que ainda pretendo viver? Ficar vendo a vida passar é que não dá. Poderia dizer que me sinto orgulhoso com as conquistas, mas ainda falta muita coisa para se conquistar e viver. É só sair pra rua e dar uma boa olhada ao seu lado. O mundo precisa melhorar muito, e isso faz parte de se sentir realizado, sabe: desejar o bem estar de todos. Não dá para se sentir o cara mais bacana do mundo com tanta desgraça por ai. Seria muito “umbiguismo”.

E para quem está iniciando, principalmente na área jornalística, ainda existem chances de ter toda a carreira voltada para essa área, já que toda a “magia” de publicações impressas de fanzines, jornais e revistas especializadas de décadas passadas, se perdeu um pouco, principalmente pelo surgimento da internet e as facilidades que ela proporciona?

As chances sempre existiram e sempre vão existir. Apesar das facilidades da Internet, acho que fazer fanzines em papel deve ser muito mais sedutor e mágico hoje em dia do que um dia foi. Eu ainda quero fazer umas edições do Scream em papel novamente, mas seria voltar estágios, já que comecei a me envolver com revistas, e você acaba enxergando a coisa como um todo. Acaba sendo mais exigente, mesmo sendo um fanzine. No entanto, com tantos sites surgindo por ai, o fanzine em papel é um diferencial que deve ser explorado.

O Scream & Yell surgiu como um fanzine, e durou pouco tempo, houve uma necessidade de se digitalizar, ou foram outros os motivos?

Foram acasos, apenas isso. Eu editava ele (o fanzine de papel) inteiro no pagemaker, sozinho. E continuaria editando, mas um amigo se empolgou com o fanzine em papel, e me “deu” um site. Ele fez tudo. E depois teve a Zero, que foi um projeto que nasceu dentro do S&Y. Ou seja: era um fanzine, virou site, e dali surgiu uma revista. São passos naturais.

Cultura é coisa de rico?

De maneira alguma. Eu, por exemplo, não sou rico. Com muito jeito dá até para dizer que sou classe média, média mesmo (e baixa records, como escreveu o Mini na letra da música do Walverdes). Passei em um concurso para trabalhar na faculdade, e ganhei uma bolsa de 50% para cursar Comunicação Social. Isso me permitiu ter um diploma de bacharel. Nunca cheguei a prestar Federal, mas acho que eu nunca iria passar. Faltou base no colégio. Mesmo assim, era rato de biblioteca e lia tudo que pintava pela frente. Ou seja, a cultura está na própria pessoa. Na vontade dela conhecer mais coisas. Tem gente que tem dinheiro e prefere gastar com iates, helicópteros, jatinhos e coisas e tal. Tem gente que não tem e prefere comprar CDs, filmes e livros. O dinheiro não serve como paralelo. A cultura está na própria pessoa.

Política e futebol te interessam, ou você foge do comum?

Política deveria interessar a todos, mas as desilusões foram me colocando mais distante. Assim como vários amigos, pela primeira vez estou pensando seriamente em votar nulo. Havia uma meta sonhada, e essa meta foi conseguida, mas não mudou nada. Então acho que precisamos de medidas sérias para mostrar aos governantes que estamos infelizes. O voto nulo é uma destas medidas. Já o futebol… eu era completamente fanático, corintiano roxo e tal. Mas depois de um certo dia (uma oitavas de final da Libertadores com o Palmeiras), nunca mais fui o mesmo. E, cada dia que passa, perco mais e mais o prazer em assistir e acompanhar os jogos. Hoje em dia o futebol me interessa com os amigos…

 

Você se sente indo contra a corrente, como você disse na Revoluttion em relação aos nomes de suas colunas (Revoluttion, Calmantes com Champagne, L’âge D’or)?

Na maioria do tempo, mas existem coisas que me surpreendem. Às vezes acho que só eu detestei uma coisa, e quando comento vejo que mais pessoas achavam aquilo também (como quando critiquei negativamente o “A Ghost Is Born”, do Wilco). Mas também não é uma corrente tão forte assim… (risos).

Em sua página no Orkut você dá a entender que não assisti televisão, ou que não gosta. Chega a ser um “radicalismo”, uma aversão?

Dá a entender isso mesmo? Bem, é só por falta de tempo mesmo. Em São Paulo existem sei lá quantas salas de cinema. Tem shows todo dia. Eu tenho mais de 80 discos novos para ouvir (sem contar os 5 mil da minha estante). Tenho que escrever para alguns lugares, editar o site… e tem os DVDs. A televisão acabou perdendo a sua função para mim, assim como o rádio. Se eu quero ouvir uma música, eu vou e pego o CD na estante. Não preciso ficar procurando ela numa FM. Acho que aconteceu o mesmo com a TV…

Sua coluna, Revoluttion, estreou dia 05 desse mês no iG, além disso você tem outros trabalhos em revistas, além do site. Como você faz para não se tornar repetitivo, e administrar o seu tempo em torno de tantos projetos?

Existem muitas maneiras de se falar a mesma coisa sem se repetir (risos), mas na verdade são coisas diferentes. O blog Calmantes é extremamente pessoal, eu com meu leitor; a coluna Revoluttion será uma coisa mais centrada na informação e na poesia do texto, assim como é a coluna de cinema no site da Rock Press. Cada coisa tem seu foco. E administrar o tempo é sempre um problema. Um dia de 24 horas é muito curto para tanta coisa… Não há uma fórmula. Você vai fazendo e fazendo e fazendo.

E quais são suas expectativas diante dessa nova empreitada?

Acho que é um espaço bacana, num lugar bacana, com uma exposição ótima. Tem tudo para render.

Pra finalizar: Morrissey é o maior inglês vivo da história, e Chico Buarque o melhor letrista do nosso país?

Letrista, sem dúvida. No rock sempre tivemos bons nomes, mas Chico é imbatível. Só não sei se ele é o maior brasileiro vivo. Tem vários nomes para essa lista…

setembro 18, 2007   No Comments

Entrevista ao Yer Blues

Entrevista concedida a Jonas Lopes (07/2004), do Yer Blues

Para aqueles que gostam de ler e-zines, provavelmente nunca haverá tão cedo um período fértil como o de 2001/2002, quando ótimos sites como o Scream & Yell e o Quadradinho nos ajudavam a entender um pouco mais esse bicho tão abrangente quanto pouco compreendido chamado cultura pop.

Claro que hoje há alguns zines de alto nível, e isso só comprova a minha teoria, pois várias das pessoas que escrevem neles eram leitores ou escreviam para o S&Y nesta época áurea. Liderado e idealizado por Marcelo Costa, o Scream & Yell impressionava pela qualidade e produtividade – tinha texto novo praticamente todo dia, graças ao batalhão de colaboradores do site.

No fim de 2002, Marcelo anunciou o fim do zine, para surpresa dos leitores. A comoção foi geral. Mac ensaiou uma volta no ano passado, que durou alguns meses, mas não vingou completamente. Hoje ele mantém um blog na página principal do S&Y. Nesta entrevista ele conta algumas histórias curiosas da trajetória do zine e até vislumbra uma possível volta, entre outras coisas interessantes. Vamos torcer.

Uma pergunta vaga e bem pessoal: pra você, o que é cultura pop e que importância devemos atribuir a ela?

Putz, pegou pesado para começar, hein (risos)? Bem, entendo cultura pop como um braço mais deslocado da cultura, um caminho mais leve, desencanado e que permite muito mais maneirismos do que a cultura sedimentada. Vai desde gibis, revistinhas Tex (Sabrina e Julia também), passa por discos e chega ao cinema. É tudo de uma leveza e uma urgência que demarcam muito o tempo que vivemos. Fico cá imaginando a atemporalidade dessa cultura, mas se um livro do Marcelo Paiva de 1982 ou um disco dos Beatles de 1967 continuam atuais, acho que não temos muito com o que nos preocuparmos, né? Quanto à importância, putz, vai da vida de cada um. Conheço muita gente que não sabe nada de Belle & Sebastian, nunca passou perto de um livro de Salman Rushdie e deve achar que Matrix é um xingamento, e essas pessoas são felizes. Cada um tem que se satisfazer e descobrir o que pode retirar de bom da vida. Na verdade, e chulamente falando, cultura pop se assemelha ao futebol. De que adianta ficar se remoendo, torcendo, brigando por 22 homens peludos correndo atrás de uma bola e que ganham em um mês a grana que eu deverei juntar trabalhando a vida toda? Adianta porque é passatempo, é diversão, é emoção. Faz a vida valer a pena, faz o mundo pessoal de cada um ter sentido. A importância cada um dá.

Como e quando surgiu a idéia do Scream & Yell?

Foi um tremendo acaso. Eu sempre fui bicho do mato. Tinha centenas de vinis e passei a adolescência toda lendo, ouvindo música e jogando jogo de botão, sempre sozinho, muito pelo fato da minha família se mudar constantemente, o que me atrapalhava em fazer novas amizades. Isso tudo para dizer que quando o Scream & Yell surgiu eu tinha noção quase zero do que era um fanzine. Mas eu gostava de escrever, era metido a enciclopédia de música, tinha uma coleção invejável de vinis e muitas pessoas próximas freqüentavam a minha casa ou para ouvir um som ou para gravar fitas. Na época, eu estava cursando o segundo ano de publicidade e propaganda na Universidade de Taubaté, local onde eu trabalhava também (era auxiliar de biblioteca na faculdade de Direito de lá). E foi lá que eu conheci o João Marcelo, um cara que amava Metallica e Engenheiros do Hawaii em proporções iguais (risos). Foi ele que em plena tarde de 25 de dezembro de 1996, apareceu na minha casa com a idéia de fazer um fanzine. O pessoal da minha sala da faculdade já tinha feito um, o Gambiarra, bem bacana por sinal, então as idéias brotaram com facilidade. Ali mesmo, ouvindo Smiths, Jesus & Mary Chain e Smashing Pumpkins, rascunhamos o número 1. O problema foi que ambos eram muito perfeccionistas. O João estava aprendendo a mexer em pagemaker e toda vez a gente mudava algo, tinha uma nova idéia, e tudo mudava. Fizemos um zine profissa, com espaços para anunciantes e tudo mais. Outro grande problema é que, já na fase de acabamento, o João se acidentou. Enfiou a moto no meio de uma Brasília amarela e se foi. Fiquei sem chão pela perda do amigo e nem quis mais saber do projeto. Um ano depois o retomei, por uma paixão enlouquecedora pelo álbum Carnaval na Obra, do Mundo Livre. Daí tem um intervalo, né, entre o fanzine sair do papel e virar site. Eu tinha vindo para São Paulo já, e conversava sempre por email com um cara politizado e bem bacana, chamado Hugo. Quando mostrei o Scream & Yell em papel, ele pirou.Tinha planos de fazer um site e fez mesmo. O Scream & Yell que está hoje no ar ainda é o mesmo HTML que o Hugo colocou no HPG em novembro de 2000. Mudei alguns detalhes depois, mas em essência é a mesma coisa.

No zine você já fez coisas como entrevistar o Ian McCulloch, que é um grande ídolo seu. Que outros momentos você destacaria em toda a trajetória do site?

A entrevista com o Lambchop que o Leonardo Vinhas fez, é muito melhor que a publicada em qualquer grande veículo, mesmo. Tem muita coisa no site que bate material publicado na grande mídia, mas eu sempre curti mesmo dar aos colaboradores a oportunidade de falar sem rabo preso. Mas o que mais me emocionou neste tempo foi uma história bem legal. Estava eu bebendo cerveja em um boteco na Augusta com alguns amigos quando me liga uma grande amiga para contar uma novidade: ela estava vendo o DVD do filme Concorrência Desleal e, na parte dos extras, um atalho leva para os comentários da imprensa e tava lá, entre Folha, Veja e Estadão: “Um filme inesquecível” – Marcelo Costa, do Scream & Yell. Foi muito legal ter esse reconhecimento. Meio que mostrou que o site era uma fonte de referência. Mas, sobretudo, acho que o grande momento do site aconteceu quando anunciei seu fim. Não me passava pela cabeça que tanta gente lesse e se importasse com o Scream & Yell. Foram três dias seguidos chorando. Toda hora que eu abria o email tinha uma mensagem linda, emocionada, que me chapava.

O Scream & Yell conta com textos de vários colaboradores. Como você fazia a seleção do que dá pra entrar e o que não dá? Rolava muito de você discordar completamente da opinião de algum colaborador e mesmo assim publicar o texto?

Essa sempre foi a parte mais simples do negócio, e você mesmo pode contar melhor que eu. Na verdade, muita gente tem o S&Y como um grande veículo. É sério. Tem gente que já colocou em currículo! Mas sempre foi simples. A pessoa entra em contato, passa a pauta (na maioria resenhas, pouca gente oferece uma pauta de entrevistas ou de pesquisa, por exemplo) e eu analiso mais o texto e a viabilidade da idéia. Por exemplo, discordo muito tanto do Leonardo Vinhas quanto do Diego Fernandes, mas os textos deles são tão bons que fica impossível não publicar (risos). É básico. Não basta dizer que Radiohead é chato, tem que explicar. Se explicar bem, de maneira convincente, sem ataque gratuito e tal, entra, mesmo comigo amando Radiohead.

Quais eram os pontos fortes e fracos do site? Que outros zines você curte?

O grande destaque do Scream & Yell é poder falar de tudo e todos. Poder ter uma boa entrevista com Renato Teixeira, uma boa entrevista com o Interpol e uma boa entrevista com o Autoramas. É não se prender a nichos. Falar do que der vontade, porque uma pessoa faz um zine para falar do que der vontade, não para ficar atendendo a expectativas alheias. O ponto fraco era a falta de uniformidade nos textos. Adoro o HTML do site, mas ele não funciona em vários aspectos, como busca. Sem contar que, como foi feito tudo no braço, para alterar ou corrigir alguma coisa é um trampo. Quanto aos e-zines, puxa, são tantos que até dá medo de citar e esquecer de algum.

Muito se fala na decadência do jornalismo musical e até cultural no país. As poucas revistas não são tão lidas, a qualidade dos textos vem caindo bastante. De quem é a culpa: leitores que não correm atrás, jornalistas que têm se achado tão importantes quanto os artistas ou editoras que não deixam o produto se firmar? Você enxerga melhoras para o futuro?

Cara, há muito de nostalgia ai, sabe? As coisas não estão tão ruins agora quanto estavam dez anos atrás, ou vinte, ou cinqüenta. Pega um jornal dos anos 60 que você vai encontrar muitos erros também. O que acontece é que, hoje em dia, tudo é mais visível, muito pela internet. E quase todos os bons textos e jornalistas sensacionais que eu admiro nem jornalistas são. Como explicar que os jornalistas que melhor traduzem a música não são jornalistas? Ou seja, vai muito do feeling. Do jeito do cara se expressar. Então, o presente está maravilhoso como sempre esteve. Não é apologia da cegueira. Também tem essa dos jornalistas superstar (risos), mas é a indústria. Cara, como dizia um filme, todo mundo precisa de um guia, “seja ele Buda, Jesus ou Elvis”. Ou Álvaro Pereira Júnior (risos). Cada pessoa tem o guia que merece, pode ter certeza…

Você fazia parte do projeto inicial da Zero e saiu por “diferenças profissionais”. Que diferenças foram essas e o que você acha do rumo que a revista vem tomando?

Primeiro é bom que se esclareça que eu não saí da Zero. Eu fui “saído”. Seria altamente nobre da minha parte dizer que saí por não concordar com diversas coisas da revista e blá blá blá, mas, infelizmente (risos), não foi isso que aconteceu. O que aconteceu é que, no final de 2001, quando o número 0 da Zero estava sendo feito, eu descobri uma série de coisas erradas no que diz respeito a honestidade e idoneidade de uma das pessoas do grupo. E isso, simplesmente, me bloqueou. Aquela época foi a que menos escrevi na vida, por absoluta falta de tesão. Não me via fazendo uma revista que iria contar com matérias duvidosas. O certo, claro, seria reunir o grupo e abrir o jogo. Mas faltou culhão da minha parte em jogar sucrilhos no ventilador. E também da parte deles, afinal, eu era um nome no projeto, participava de reuniões com editoras, mas não estava rendendo como jornalista. Nisso fui me afastando, e eles se unindo. Colaborou para a minha saída o fato de eu assinar um contrato de um ano com o UOL para editar um site parceiro de esportes. Ou seja, eu estava cada vez mais fora da revista, mas só fui saber que estava fora ‘de fato’ quando recebi o release da número 1 e eu não estava lá. Ao contrário de ficar chateado, eu comemorei, afinal, estava livre. No fim, ficou todo mundo em paz, claro, eles por um tempo, como conta a história (hahahaha).

Quanto ao rumo que a revista tomou, isso me dá um alívio. Imagina se eles vão e fazem uma puta revista bacana? Eu ficaria mordido de vontade de estar lá (risos). Mas, como demonstra a história, não foi bem isso que aconteceu. A Zero é uma revista absurdamente sem foco, sem ideologia. Sem rumo musical, político ou social. É claro que tem o seu valor. Se uma pessoa não consegue comprar revistas gringas (Q, Mojo, Uncut, Rolling Stone, etc…), não tem acesso à internet (para se informar em sites de música, e-zines, sites dos próprios artistas, etc…), não consegue acompanhar os cadernos culturais dos principais jornais do país (Caderno 2, Ilustrada, Segundo Caderno, Zero Hora, etc…), uma revista como a Zero terá a sua utilidade. E eu seria altamente maldoso se dissesse que a revista toda é ruim. A coluna do André Fiori é muito boa, a melhor coisa da revista (e nem é por ele ser um grande amigo – risos). E tem gente muito boa que colabora com a revista, como o Jardel Sebba, o Luciano Vianna, o Alex Antunes. Na edição passada, com Caetano e Gil na capa, o resgate daquelas fotos merece aplausos. É claro que, para isso, eles poderiam ter feito um álbum de fotos e não uma revista, mas está valendo. Com certeza deve dar para salvar uns dois ou três textos por edição. E, por mais que isso venha a soar rancoroso, é só uma análise fria e séria da publicação, e só quem me conhece sabe que eu não brincaria com um assunto desses. No mais, o esforço deles em manter a revista nas bancas é louvável. Só é preciso deixar claro que isso não justifica a qualidade questionável da publicação. Interessante é que acho o site deles mais bem definido.

Dizem que os blogs mataram os zines, que por sua vez mataram as revistas. Até que ponto isso é verdade e qual seria o espaço de cada um destes veículos?

Quem está dizendo que os blogs mataram os zines que, por sua vez, mataram as revistas, está completamente enganado. Primeiro: as revistas não morreram. Segundo: os zines não morreram. Terceiro: os blogs são apenas mais uma fonte de informação. Para provar que as revistas não morreram é só pegar a tiragem de uma Caras, de uma Veja, de uma Playboy, de uma SuperInteressante, de uma Vip. O problema não é com o mercado de revistas. O problema é com a indústria musical no Brasil. É esta indústria que dificulta a existência de revistas de MÚSICA, porque é tudo uma engrenagem só.

O Skank está feliz da vida porque vendeu 100 mil cópias do Cosmotron. E eles já venderam 2 milhões de cópias do Calango. O Caetano estava festejando as 50 mil cópias do A Foreign Sound. E ele vendeu 1 milhão de cópias do Prenda Minha – Ao Vivo. Transponha isso para o mercado: imagine uma revista de música para um público que compra 2 milhões de discos e a mesma revista de música para quem compra 100 mil. A distância é enorme. O que significa que a indústria musical brasileira está falida e absurdamente perdida. Como uma revista de música pode ter uma vida saudável em um país que não tem uma vida cultural saudável? Você sempre irá escrever para os mesmos gatos pingados. A indústria musical colocou tudo a perder com preços abusivos, jabás em excesso e nenhuma noção de mercado. As gravadoras são culpadas pela programação ‘flashback’ das rádios. Não há espaço para o novo. E se não há espaço para o novo, como a massa de 170 milhões irá ter acesso ao novo? No Domingão do Faustão que não será. Eu assisti a uma palestra do André Midani no ano passado e ele dizia que a idéia das majors era de deixar o preço de um CD nacional equivalente com o de um CD gringo. Então, você chega para comprar o novo álbum da PJ Harvey e está R$ 39, aproximadamente US$ 13, preço de um CD nos Estados Unidos. É preciso muita percepção para notar que não é possível comparar a economia norte-americana com a brasileira? Que pouca gente tem condições de pagar esse preço por um CD no Brasil? E se formos comparar um CD independente (por exemplo, da Monstro Discos) com um CD de uma major, não veremos nenhuma diferença: a qualidade de gravação, a arte gráfica, o produto é totalmente equivalente. E um CD independente sai exatamente pela metade do preço. O Wander Wildner vende o CD dele por R$ 15!!!!!

Então esse papo de que a Internet colaborou para o fim das revistas é uma tremenda balela. Por exemplo: enquanto eu tiver uma grana sobrando, eu vou comprar uma Uncut, que, para mim, é a melhor revista de música do mundo. Só que seria utopia acreditar que uma revista como essa cresça no Brasil. É preciso começar de cima. É preciso reestruturar o mercado, gravadoras, rádios. Se nós tivéssemos um mercado cultural saudável, teríamos boas revistas com grandes tiragens.

Existe alguma chance, ainda que remota, de o Scream & Yell voltar enquanto zine?

Eu, sinceramente, espero que o Scream & Yell volte. O que acontece é que eu sempre consegui conciliar o tempo no emprego que paga as contas, as cervejas e os CDs com um tempo de folga em que eu editava o Scream & Yell. Mas ultimamente não estou conseguindo. O meu trabalho é absurdamente envolvente, não há como me desvencilhar, não sobra tempo. Então quando chego em casa não quero saber de jornalismo (risos). Mas a idéia é ter um trabalho mais leve que permita pagar as contas e manter o Scream atualizado. Eu sempre disse que o Scream & Yell era um site tosco e passional demais, o que soava um tanto desrespeitoso da minha parte com algo que me surpreendeu mais do que qualquer coisa na vida. De um tempo para cá tenho admirado demais esse projeto que nasceu tão idiotamente (em um dia de natal) e, depois de quase oito anos, após ter se envolvido na vida de tanta gente, me orgulha demais. Ele vai voltar sim, provavelmente reformulado visualmente, mas com as mesmas ideias editoriais. Não dá para dizer ao certo se será em uma semana, um mês, ou até o fim do ano. Mas ele voltará.

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setembro 18, 2007   No Comments

Entrevista ao Sampaist

Entrevista concedida a Lucas de Oliveira Fernandes (dezembro de 2006)

Marcelo Costa aposta que que o CD tal qual o conhecemos ainda não morreu, mas vai morrer, e logo. Ainda assim tem 5 mil desses disquinhos ocupando toda sua sala. “O CD vai morrer, mas não a música. O suporte mudou, mas a música continua a mesma.” E quando não está ouvindo ou pensando em música, está tocando ou escrevendo sobre ela. De “profissão séria” é editor de homes em um portal de internet, editor do site Scream & Yell e escreve sobre música, cinema e cultura pop. Quer alguém mais gabaritado para comandar as pick ups da festa do Sampaist no Studio SP?!

De onde veio e para onde vai Marcelo Costa?
Marcelo Costa já veio e já foi para tanto lugar que nem sabe mais onde ele está. Ele continua procurando algo que ainda não sabe o que é. É um eterno insatisfeito que, ironia das ironias, é apaixonado pela vida.

São Paulo produz boa música? E sabe consumir boa música?
Das capitais que produzem boa música, São Paulo deve estar em sétimo, oitavo lugar. Existem ótimas bandas aqui (Ludov, Pullovers, CSS), mas essas boas bandas não constituem uma cena. Há boa música, mas em comparação, é menos do que se produz em capitais como Curitiba, Porto Alegre, Goiânia e Recife, por exemplo. Mas a noite daqui é agitada e quente. As pessoas vão atrás das informações. São Paulo é a capital cultural do país. É o melhor lugar para um apaixonado por cultura pop viver.

Qual a trilha sonora de SP?
Acho que o Pullovers está vestindo essa camisa, sabe. Esse papel que era do Ira! nos anos 80, de se dizer paulista e se sentir orgulhoso por ser daqui.

Falta algo aqui?
A minha mãe (risos). Ela ama São Paulo, provavelmente mais do que eu, mas acho que não teria coragem e pique de voltar a viver aqui. São Paulo é uma cidade muito agitada.

Quem for à festa do Sampaist vai ouvir o que na pista?
Sempre monto a discotecagem na hora, mas deve ter rock da melhor qualidade, muita coisa nova, muita coisa velha e “Be My Baby” encaixada no meio de tudo.

Qual a característica mais comum de um paulistano?
A pressa. São Paulo não anda, corre.

Que banda nacional você tem ouvido?
Duas: Terminal Guadalupe, de Curitiba, e Violins, de Goiânia. Ambas lançam discos novos no começo de 2007. Ambos discos sensacionais.

Onde comprar CDs e discos de vinil?
Há, pelo menos, uma dezena de lojas de CDs ótimas nessa cidade. As minhas preferidas são a Velvet CDs e a Sensorial no centro da cidade, a Nuvem Nove no Itaim e as filiais da Neto Discos (tem uma ótima, com muita coisa de MPB, na frente do Espaço Unibanco, na Augusta). Vinil é na Benedito Calixto ou na Baratos Afins, na Galeria do Rock.

De ônibus, metrô, carro, moto, bicicleta ou à pé?
Como moro na Maria Antônia, quase Consolação, todo o trecho de cinemas (Bristol, Cine Bombril, HSBC, Espaço Unibanco, Reserva Cultural), baladas (Vegas, Inferno, Outs, Funhouse, A Loca, Sarajevo) e lugares para comer (Bela Paulista, Pedaço da Pizza, Exquisito) e beber (os botecos da Augusta próximos ao Espaço Unibanco) até a região da Paulista faço a pé. É ótimo andar por ali. E os corredores de ônibus melhoraram – e muito – o transporte na cidade.

Qual paulistano merece uma música só pra ele?
Putz, sou paulistano, da Mooca, mas ouso dizer que os paulistanos que mais admiro são paulistanos adotados, como o Tom Zé, por exemplo. Ele, que já fez várias músicas pra São Paulo (“Augusta, Angélica e Consolação” é uma das músicas que descobri neste ano, e é tão linda), merecia uma música em que São Paulo o reconhecesse com paulistano (de coração) que ele é.

Um amor e um ódio na cidade.
Um ódio: o trânsito. Um amor: a Paulista

Qual a hora de Revolution?
Toda hora é hora de Revolution.

agosto 18, 2007   No Comments