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Category — Cinema

Cinema: “A Era da Inocência”

“A Era da Inocência”, de Denys Arcand – Cotação 3,5/5

Primeiro, do começo: esqueça a tradução idiota da distribuidora nacional: “L’Âge des Ténèbres”, na verdade, é “A Idade das Trevas”, período histórico que se seguiu às invasões bárbaras que puseram fim ao decadente Império Romano. Ou seja, com “A Idade das Trevas”, o cineasta canadense Denys Arcand fecha uma trilogia informal – sobre a crise da civilização moderna – iniciada em 1986, com “O Declínio do Império Americano”, e que teve continuação em 2003, com “As Invasões Bárbaras”, que levou o Oscar de Filme Estrangeiro.

Jean-Marc LeBlanc (Marc Labrèche), personagem central do terceiro capítulo desta epopéia dos tempos modernos, é um ouvidor municipal infeliz com a profissão, casado com uma workaholic que não larga o celular um segundo sequer (e com quem ele não transa faz mais de dois anos), com duas filhas que desconhecem sua existência de tão afundadas que estão em games e iPods, vivendo em uma sociedade cujo caos tornou-se a regra através de congestionamentos, abandono político e médico, cerceamento social e epidemias, entre outras pequenas tragédias.

Com exceção de dois amigos do trabalho (ele, negro; ela, lésbica), LeBlanc não pode contar com mais ninguém, por isso se entrega aos sonhos em que encarna um escritor cujo primeiro livro foi premiado, um político, um rei, um carrasco e até um samurai. Nos sonhos, que surgem em qualquer momento (no banheiro, no trabalho, no trânsito), LeBlanc está sempre acompanhado por belas mulheres, seja a repórter voluptuosa que após a entrevista quer sexo “aqui e agora”, seja uma famosa modelo que o visita regularmente, seja a amiga lésbica do trabalho ou mesmo sua chefe, que surge ali para ser punida.

São dois cenários grotescos e deliciosamente interessantes que se intercalam na tela: o primeiro, real e crudelíssimo, exibe um homem que se perdeu completamente da civilização, que por fim perdeu-se de si mesma estampando em manchetes de jornais pessoas que ateiam fogo no próprio corpo enquanto outras falam ao celular sem nem prestarem atenção ao que acontece ao lado. O segundo, irreal e cômico, tenta saciar anseios sexuais, afetivos e de justiça enquanto critica o politicamente correto, a overdose de tecnologia, o “trabalho escravo” voluntário e a busca do verdadeiro eu em fantasias surreais (esta última numa paródia hilária de “O Senhor dos Anéis”). Enquanto a vida real é tratada com tintas de desespero e melancolia, a vida irreal é puro sarcasmo e prazer.

Denys Arcand usa a ironia como se ela fosse um pesado taco de beisebol, e manuseia o objeto com extrema destreza, desferindo fortes pancadas no baixo ventre, na cabeça e, por fim, no coração de seu público. Trafegando entre dois mundos, seu personagem Jean-Marc LeBlanc é um retrato perfeito das contradições da sociedade moderna. O ceticismo de Arcand para com a modernidade – o qual “As Invasões Bárbaras” amplifica de forma sublime apoiado pela desilusão política – encontra momentos de genialidade cinematográfica em “A Era da Inocência”.

O cineasta canadense provoca seu público de forma brilhante tentando arrancar dele algum senso de humanidade enquanto sabota as instituições sociais (família, casamento, trabalho, mídia) e só tropeça no trecho final do filme, quando sugere que a saída da idade das trevas é o recolhimento, um retiro espiritual, a negação da modernidade. E mesmo nesse tropeço (ou principalmente por ele), Arcand consegue dar ao seu público um momento interessante de questionamento: a culpa do caos é pessoal ou social? Há como separar um de outro? Se o social está falhando, o pessoal deve agir pensando em si mesmo? Se sim, qual seria a solução: voltarmos ao passado ou nos prepararmos para o futuro?

Para o canadense e seu personagem sonhador vitimizado, o recolhimento parece ser a solução. Seria uma premissa válida se LeBlanc não fosse tão conformado. Ao perder-se no tempo, no casamento, em sua própria história (optando por sonhos ao mundo real), LeBlanc representa um ser pré-histórico que lê Fernando Pessoa (”Livro do Desassossego”), foi vice-presidente do grêmio no colégio, participou de passeatas, greves, e tentou, mas não conseguiu mudar o mundo. Por fim, calou-se e desistiu até escolher o retiro ao caos, o pessoal ao social, opção umbiguista que revela – por trás de um verniz culto – muito mais medo do futuro do que apreço pelo passado e propõe uma questão crucial : o problema é o mundo ou a pessoa? Por que? Pense bem: a resposta pode traduzir o seu futuro, caro leitor.

Ps. A foto acima é de uma das melhores cenas cômicas de “A Era da Inocência”, compatível a cinco filmes inteiros do Adam Sandler…

março 26, 2008   No Comments

Mais uma paixão…

Sou apaixonado desde sempre por Ingrid Bergman (já comentei que vejo “Casablanca” ao menos uma vez por ano desde os meus 15 anos?). Audrey Hepburn é algo mais recente, de uns dez anos pra cá, depois que assisti “Quando Paris Alucina”. A loirinha Jean Seberg, que invadiu meu coração na semana passada, é totalmente novata em meus romances cinéfilos. Essa garota da foto, no entanto, caminha sobre a minha alma já faz uns quinze anos. Fui matar saudade hoje. Ahhhh, as francesas…

março 13, 2008   No Comments

Me apaixonei…

Ingrid Bergman (e Audrey Hepburn) me perdoem, mas essa loirinha acaba de tomar meu coração de cinéfilo… suspiro…

março 1, 2008   No Comments

As 100 mais sexies do mundo em 2008

 Angelina Jolie em décimo segundo lugar? Estão de brincadeira, né.

1-Megan Fox
2-Jessica Biel
3-Jessica Alba
4-Elisha Cuthbert
5-Scarlett Johansson
6-Emmanuel Chriqui
7-Hilary Duff
8-Trisha Helfer
9-Blake Lively
10-Kate Beckinsale


11-Hayden Panettiere (foto)
12-Angelina Jolie
13-Eva Mendes
14-Rihanna
15-Erica Durance
16-Lindsay Lohan
17-Kim Kardashian
18-Cameron Diaz
19-Ali Larter
20-Beyonce Knowles

21-Kaley Cuoco (foto)
22-Heidi Klum
23-Sienna Miller
24-Kristen Bell
25-Natalie Portman
26-Vanessa Hudgens
27-Selita Ebanks
28-Keira Knightly
29-Maria Sharapova
30-Rachel Bilson (foto)

31-Gisele Bündchen
32-Kate Bosworth
33-Halle Berry
34-Carmen Electra
35-Jessica Simpson
36-Adriana Lima
37-Evangeline Lilly
38-Katherine McPhee
39-Christina Aguilera
40-Cheryl Burke

41-Kristin Kreuk
42-Jennifer Aniston
43-Charlize Theron
44-Heidi Montag
45-Anna Faris
46-Shannon Elizabeth
47-Alessandra Ambrosio
48-Mayra Veronica
49-Katherine Heigl
50-Keeley Hazell


51-Anne Hathaway (foto)
52-Jenny McCarthy
53-Marisa Miller
54-Kate Hudson
55-Shakira
56-Tara Reid
57-Jennifer Love-Hewitt
58-Cassie Ventura
59-Eva Longoria
60-Fergie


61-Ellen Page (foto)
62-Nicole Scherzinger
63-Grace Park
64-Stacy Keibler
65-Katie Holmes
66-Leeann Tweeden
67-Liv Tyler
68-Kari Byron
69-Christina Ricci
70-Mischa Barton

71-Amanda Beard (foto)
72-Elizabeth Banks
73-Carrie Underwood
74-Kelly Hu
75-Pam Anderson
76-Rachelle Leah
77-Paris Hilton
78-Karina Smirnoff
79-Christine Lakin
80-Audrina Patridge

81-Mila Kunis (foto)
82-Alyssa Milano
83-Jenna Fischer
84-Maria Kanellis
85-Olivia Munn
86-Reese Witherspoon
87-Madonna
88-Shamron Moore
89-Rachel McAdams
90-Summer Glau (foto)

91-Ashley Collette
92-Maggie Gyllenhaal
93-Whitney Able
94-Olga Kurylenko
95-Lauren Conrad
96-Carmit Bachar
97-Amber Heard
98-The Olly Girls
99-Victoria Beckham
100-Britney Spears

fevereiro 25, 2008   No Comments

Cinema: “Sangue Negro”

“Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson – Cotação 5/5

Quando você estiver preparando-se para adentrar a sala de cinema para assistir a “Sangue Negro”, quinto longa do cineasta Paul Thomas Anderson, faça uma limpeza em sua memória e esqueça todo e qualquer filme que você tenha visto nos últimos meses. Na verdade, o ideal é que você entre na sala encarando “Sangue Negro” como o primeiro filme de sua vida, e todos os demais a partir de então soaram menores, incompletos, mero entretenimento para os olhos enquanto seus dentes mastigam pipoca aguardando o final provável em que o mocinho se dá bem.

Peço esse exame de consciência, pois acredito que poucos dos leitores que visitam este espaço puderam assistir a filmes clássicos dentro de uma sala de cinema. Uma coisa é você ver “Laranja Mecânica” na sala de sua casa, e mesmo que você tenha um senhor home theater, nunca conseguirá chegar perto – um milésimo que seja – da experiência que foi, para o público, ter assistido ao filme em uma sala escura, na época de seu lançamento. Outros filmes clássicos concorrem a tal avaliação, mas quantos filmes definitivos tivemos nos últimos 20 anos?

Arrisco-me a citar um: “Magnólia”. Outro: “Sangue Negro”. Oito anos separam o primeiro do segundo, e o que aconteceu com o mundo neste tempo? Muita coisa, mas vou citar apenas três, as três relacionadas aos Estados Unidos da América: houve um violento atentado ás Torres Gêmeas, mais uma guerra manchando de sangue as páginas de História e uma reeleição forjada. Três fatos correlacionados que permitem imaginar que, mesmo sendo muito otimista, o mundo não melhorou absolutamente nada nestes oito anos. Pode-se até dizer o contrário.

“Magnólia” era uma obra que exaltava o perdão, mas o perdão só surgia na tela após o espectador estar fustigado até a alma pela culpa dos personagens que observava. Isso era oito anos atrás. Agora, não há perdão. Não há perdão em “Sangue Negro”. Nem uma chuva de sapos poderia salvar o personagem Daniel Plainview, porém, a grande “piada” proposta por Upton Sinclair – autor do livro “Oil” (que serve de base para o roteiro) – e comprada por Paul Thomas Anderson é: Daniel Plainview não precisa do perdão. A parcela católica do mundo afundada no exercício da culpa nunca irá conseguir entender isso, mas não tem jeito, nem todo mundo precisa do perdão divino.

Daniel Plainview (Daniel Day Lewis excepcional) é um mineirador em busca de fortuna e poder. A seqüência inicial de “Sangue Negro” – de fotografia belíssima e praticamente nenhum som fora o da introdução gótica e épica que abre o filme de forma acachapante – exibe um homem de personalidade forte, que não se deixa abater por ninguém e por nenhuma adversidade. Ela procura por pedras preciosas e elas saem de cena quando o petróleo começa a brotar do solo pátrio. Plainview passa a ser um explorador voraz e um negociante impiedoso que oferece seus serviços como se estivesse oferecendo ajuda e faz tudo o que precisa ser feito para ter aquilo que queria em suas mãos.

Melhor frisar a última frase do parágrafo anterior: Plainview faz tudo o que precisa ser feito para ter aquilo que quer em suas mãos. Tudo. “Sangue Negro” foge do padrão pré-fabricado dos roteiros hollywoodianos: não há grandes reviravoltas na história, mas sim um crescendo mortífero que joga o espectador nos braços de Daniel Plainview, e ele só o solta na arrepiante, grandiosa, épica e sensacional cena final, não a toa, a grande cena de todo o filme. Até lá você terá que suportar e entender (se for possível) o que move nosso homem: o prazer pela competição, o ódio contra tudo e todos (todos!) e o desejo de isolamento total e completo.

Não há charme, nem sedução. Não há paz, nem perdão. Haverá petróleo. Haverá sangue. Negro e vermelho. Haverá dinheiro. Daniel Plainview personifica o predador e com ele – parodiando outra obra de arte no cinema em 2007 – os fracos não têm vez. Como pode se esperar de uma pessoa tão destrutiva, o grande foco de destruição é ele mesmo, e o trecho final reitera essa premissa. Tanto que após todo o desenlace da trama, a sensação de vazio é algo tão forte que poderia engolir o mundo. Duas vezes. Sem charme, nem sedução. Não há nenhuma atração em “Sangue Negro” além do inevitável prazer cinematográfico, porém, a dualidade insiste em questionar: porque sofremos tanto? Provavelmente – uma resposta vazia, como o filme – sofremos para aprender, mas tudo isso é ralo demais, escapa pelos dedos com oxigênio, como sangue e petróleo.

É impossível imaginar um próximo passo para Paul Thomas Anderson. “Sangue Negro” é um cinema tão perfeito em seus detalhes que suscita a clássica pergunta: o que fazer após atingir a perfeição? Essa resposta fica em segundo plano no momento já que “There Will Be Blood” (titulo original do filme) chega aos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira, e o agora é mais urgente que o futuro. Você tem alguns dias para limpar o cache de sua memória e dedicar-se completamente ao filme, à trilha estupenda do Radiohead Jonny Greenwood, à atuação espetacular de Daniel Day Lewis e ao ótimo Paul Dano (que interpreta um jovem pastor em uma nova Igreja). Sobretudo, você tem tempo para imaginar – antes de ver o filme – que “Sangue Negro” está em outro patamar de cinema, alguns degraus acima da média comum que preenche as salas de exibição: o das obras-primas. Isso talvez faça o filme descer mais fácil… mas não impede o gosto amargo nos lábios de nossa alma.

fevereiro 11, 2008   No Comments

Cinema: Juno

“Juno”, de Jason Reitman – cotação 3,8/5

Juno MacGuff tem 16 anos. Não se engane pelo nome: Juno é uma menina (na mitologia romana, Juno era a mulher de Zeus). Uma menina estranha para os padrões “normais” (reforçando: entre aspas) da sociedade: ela gosta de Stooges, Patti Smith e Mott The Hoople (artistas que surgiram em média 16 anos antes dela ter nascido) enquanto as paradas de sucesso apontam Britney Spears, Spice Girls e Garth Brooks; já teve uma banda com alguns amigos da escola; usa camisetas largadas enquanto sua melhor amiga brinca de cheerleader; e está grávida.

Ok, gravidez adolescente não é algo tão estranho assim; se fosse, a discussão em torno do aborto não seria tão grande quanto é. Discussões a parte, a gravidez adolescente já rendeu comédias fofas como “Mais ou Menos Grávida”, em que a ruivinha Molly Ringwald engravida do namorado e a visita da cegonha bagunça os planos do jovem casal, mas tudo acaba bem. O tema também rende filmes densos e pesados como o recente “4 Meses, 3 Semanas, 2 dias”, em que a opção pelo aborto e todo desenrolar da história ficará marcado eternamente na memória de uma adolescente grávida e de sua melhor amiga.

Porém, embora suscitem verossimilhança, tanto a ruivinha que fica grávida, casa com o namorado, sofre, mas se dá bem (com o filho e o marido) no final quanto a romena que faz o traumático aborto auxiliada pela amiga parecem menores diante do tratamento ao tema realizado por “Juno”. Os méritos são vários. O roteiro da ex-strip-teaser Brooke Busey (que assina como Diablo Cody) é esperto o bastante para não cair em clichês; a direção correta de Jason Reitman (que parece ter gosto por temas tabus; Reitman estreou com o genial “Obrigado por Fumar”) desenha personagens comuns vivendo situações comuns, e isso aproxima a trama do espectador; a trilha assinada Kimya Dawson (Moldy Peaches) dá aquele sotaque indie adolescente ao filme; e, por fim, Ellen Page encanta e conquista com sua atuação consagradora.

O roteiro foge do óbvio partindo de uma nova premissa: Juno sabe que não tem estrutura nenhuma para criar um filho, porém não tem nenhuma coragem de encarar um aborto (a cena no hospital, em que a atendente a oferece camisinhas com gosto de amora, é impagável). A saída: encontrar um casal que tope adotar o bebê. Com essa idéia em mente, Junto e sua melhor amiga saem à procura do casal perfeito. A direção de Reitman insere cores à trama (perceba a profusão de cores no cartaz; o filme é exatamente assim). Em sua busca pelas situações comuns, Jason Reitman quase não erra em “Juno”. Uma cena capital mostra bem isso: na hora que Juno vai contar ao pai sobre a gravidez, a forma com que ele e a madrasta reagem é totalmente provável. Lembre-se: ele deu o nome de Juno á filha. O diálogo depois que a filha deixa a sala é impagável.

– Você achava que era isso? – pergunta o pai para a madrasta;
– Eu achei que ela estivesse viciada em drogas… – diz a madrasta.

A trilha de Kimya Dawson (de enorme sucesso nos EUA) une Cat Power, Belle and Sebastian e Moldy Peaches com Velvet Underground, Buddy Holly e Sonic Youth (representado por “Superstar”, versão para o original dos Carpenters). O filme respira música, e há até um certo excesso de canções na trama, embora um dos grandes momentos da história resida em uma tirada sensacional – raivosa e certeira – de Juno com relação ao Sonic Youth. Por fim, a estrela Ellen Page. Ela tem apenas 20 anos, atua desde os 10, e conseguiu com Juno criar um personagem tão cativante que é quase impossível não se apaixonar por ele. Ellen Page brilha e faz todos os demais atores circularem ao seu redor. Mais: é extremamente convincente nas cenas em que carrega uma barriga falsa de oito meses (note em seu caminhar), o que torna realmente merecida sua indicação ao Oscar.

Roteiro esperto, direção correta, trilha sonora certeira e uma atriz encantadora: com esses quatro ingredientes, “Juno” vem arrebatando corações, vendendo centenas de milhares de CDs e conquistando nas bilheterias mais de 15 vezes aquilo que custou (US$ 7,5 milhões de custo, US$ 113 milhões nas bilheterias até a semana passada), e por mais que a histeria, as cifras milionárias e suas quatro indicações ao Oscar possam transformar a película em um hype nos cinemas abarrotados de bobagens sem conteúdo, Juno (precocemente madura e exageradamente espirituosa – tal qual os personagens da série Dawsons Creek, lembra?) é a personagem carismática do grande filme indie da temporada: fofo, estranho e charmoso. Quer saber: Juno está certa. Sonic Youth é barulho. Mesmo.

fevereiro 10, 2008   No Comments

Cinema: “Conduta de Risco”

“Conduta de Risco”, de Tony Gilroy – Cotação 2/5

Michael Clayton já foi promotor de justiça, vem de uma família de policiais, mas neste momento trabalha para uma grande empresa de advocacia. Sua função: faxineiro. Bem, mais ou menos isso. Michael, na verdade, ganha uma fortuna para limpar a sujeira dos clientes da firma Kenner, Bach & Ledeen, desde um caso em que o homem atropelou alguém e fugiu da cena do crime até grandes empresas atoladas em processos milionários.

Nosso amigo poderia estar bem de grana se seu bar não tivesse falido, se ele não fosse viciado em carteado e se não devesse um belo montante para um agiota. Como se os problemas financeiros não bastassem, Michael fica encarregado de limpar a sujeira de um outro “faxineiro”, Arthur Edens, um dos seus melhores amigos na corporação. Arthur surtou em um julgamento, tirou toda a roupa em frente ao júri e está prestes a sabotar uma mega corporação em um processo de bilhões de dólares.

Após uma boa carreira como roteirista – tendo escrito a trilogia “Bourne” e o ótimo “O Advogado do Diabo” –, Tony Gilroy estréia na direção (sem largar o roteiro) e constrói um excelente thriller político – ancorado em um grande time de atores (George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton e Sydney Pollac) – que arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo os badalados Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Clooney), Melhor Ator Coadjuvante (Wilkinson), Melhor Atriz Coadjuvante (Swinton) e Melhor Roteiro Original. Para um filme de estréia, vamos combinar, não é nada mal.

Porém, mesmo com a mão certeira na direção e roteiro, e com a equipe recheada de atores acima da média, “Conduta de Risco” soa deja vu em grande parte de seus 119 minutos. A escolha de George Clooney para o papel principal soa equivocada, não que ele não seja capaz de arrancar do personagem uma grande atuação, mas porque ele ganhou um Oscar dois anos atrás com um papel praticamente igual a este. Em “Syriana”, Clooney era um agente veterano da CIA trabalhando no Oriente Médio. Em “Conduta de Risco” ele é um advogado veterano trabalhando em Nova York. Acredite: praticamente inexistem diferenças entre os dois personagens.

“Syriana”, que discutia a indústria do petróleo, já vinha embalado por uma onda de filmes que escancaravam os meandros políticos das grandes corporações cuja lista inclui “O Informante” (1999), sobre a indústria do tabaco; “Erin Brockovich” (2000), indústria química; “O Júri” (2003), indústria de armas; e “O Jardineiro Fiel” (2005), indústria farmacêutica. Há praticamente um pouco de cada um destes filmes em “Conduta de Risco”, principalmente “Erin Brockovich”e ”Syriana” (devido à presença marcante de George Clooney), que apesar da mão certeira, não supera em qualidade nenhum dos citados.

O submundo das grandes corporações é um prato cheio para bons filmes e discussões. Se levarmos em conta o best-seller “Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido”, de Naomi Klein, filmes ágeis como este “Conduta de Risco” mostram perfeitamente como as decisões mais importantes do mundo estão sendo discutidas, definidas e aprovadas em uma pequena sala com poucas pessoas, longe da grande sociedade. Enquanto escrevo (e você lê), pessoas que não conhecemos decidem o nosso futuro. É bastante assustador, e apenas por trazer o assunto à tona, “Conduta de Risco” já merece crédito, mesmo soando repetitivo e sem personalidade.

Desta forma, na teoria, politicamente falando, “Conduta de Risco” é um filme interessante e necessário em uma sociedade cada vez mais apática e dominada por um grupo minoritário de pessoas. Porém, na prática, cinematograficamente ele é um placebo, um filme fórmula perfeito na execução, mas igual – e até inferior – a vários outros do mesmo gênero. Não se impressione pelas sete indicações ao Oscar. Tony Gilroy vai sair da premiação como entrou: com as mãos vazias…

janeiro 30, 2008   No Comments

Cinema: “4 Meses, 3 Semanas, 2 dias”

“4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu – Cotação 3/5

Romênia, 1987. O regime comunista de Nicolae Ceau?escu completa 32 anos e o país está em frangalhos. Exemplo máximo do caos: não havia mármore para ser usado em túmulos, pois todo ele seria usado para a construção de um enorme palácio planejado pelo ditador. Produtos estrangeiros eram proibidos no país. Porém, de cigarros a anticoncepcionais, tudo podia ser encontrado no mercado negro que funcionava sob as ruínas de um regime opressor. É neste cenário pouco estimulante que vivem as estudantes Otilia (Anamaria Marinca) e Gabita (Laura Vasiliu).

Otilia e Gabita dividem um quarto num dormitório estudantil. Elas são colegas de classe na universidade de uma pequena cidade romena, e se a opressão governamental já não bastasse para tornar os dias longos e difíceis demais, um fato inesperado irá complicar ainda mais a vida das duas meninas: Gabita está grávida, quer fazer um aborto (ilegal no país), e Otilia será sua companheira nessa viagem traumática ao âmago da sordidez humana. Sem palavras de carinho, o diretor Cristian Mungiu (que também assina o roteiro) desfere um pontapé no estômago do espectador.

“4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” não é, como poderia se esperar, um filme que discute o aborto. O roteiro não explora o tema tabu, e este é um de seus grandes méritos. Mungiu foca sua câmera no desenrolar dos fatos após a grande descoberta, e o que vê em suas lentes não julga o individuo em particular, mas a sociedade como um todo. Não há bandeiras – nem pró, nem contra – em “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”. Há apenas o gosto amargo das relações humanas em uma sociedade corrompida. Não à toa, o filme começa focando um pequeno aquário, com dois peixes e pouca água.

Gabita quer fazer um aborto, mas não age para tal. Suga a amiga Otília, que resolve praticamente tudo sozinha e ainda “participa” da negociação imposta pelo homem encarregado dos procedimentos médicos. É Otília quem procura o médico, quem reserva o hotel, quem leva o dinheiro, quem assume a frente da negociação e, por fim, quem dá cabo ao feto de quatro meses, três semanas e dois dias. Gabita se recolhe deixando a amiga encarregada de tudo, e Otília não a desaponta, mas será que tudo teria acontecido da mesma forma se fosse o contrário? Se Otília estivesse grávida?

Cristian Mungiu conseguiu que “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” não soasse panfletário, muito embora deixe escorregar um tiquinho de moralismo ao culpar suas garotas, mas seus recursos de dramatização chegam a incomodar em algumas passagens capitais da película. Como quando Otília e Gabita tentam negociar com o fazedor de anjos. O diretor estende a cena até o limite do óbvio repetindo frases (apesar do interlocutor dizer: “Não vou repetir tudo o que disse”) injetando uma carga de tensão desnecessária frente ao impressionante desenrolar do quadro. O mesmo acontece em uma cena de jantar e em outra que flagra uma discussão com o namorado, que poderiam ser mais enxutas.

Essa impressão de excesso contamina o olhar, e por mais que se entre em uma sala de cinema predisposto ao “mal-estar cinematográfico” (afinal, estamos falando de um filme cujo tema principal é – ou deveria ser – o aborto: não dá para esperar leveza), a impressão final é de que a necessidade de obstáculos no roteiro desvaloriza (mas não apaga) o olhar severo, crítico e nada romantizado sobre a sociedade em geral, e Gabita e o “médico” Sr. Bebe (Vlad Ivanov) em particular.

Entrincheirada entre estes dois (humanos, demasiado humanos), Otília é o último cigarro da carteira em uma noite em que se está desesperadamente precisando fumar. Porém, cada vez mais, menos pessoas fumam.  E menos Otílias surgem. Estamos vivendo o ápice da sociedade mediana. A grande maioria aceita qualquer coisa. A grande maioria foge, se esconde. E a vida segue neste grande aquário. Melhor não falarmos mais falar nisso. Corte.

janeiro 26, 2008   No Comments

Oscar 2008: Torcendo pelos Coen, mas…

É foda demais falar qualquer coisa sobre o Oscar deste ano sem ter visto “Sangue Negro”, dirigido por um dos caras que mais admiro no cinema atual, Paul Thomas Anderson, mas as oito indicações para o sensacional “No Country For Old Men”, dos irmãos Coen, já fez valer um sorriso nessa manhã chuvosa de São Paulo. Tô na torcida por Javier Bardem desde… novembro do ano passado. E Cate Blanchett, com duas indicações (uma delas por “I’m Not There”), também balança meu coração. E não deu para o Brasil…

Filme
“Desejo e Reparação”
“Juno”
“Conduta de Risco”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”

Diretor
Julian Schnabel, “O Escafandro e a Borboleta”
Jason Reitman, “Juno”
Tony Gilroy, “Conduta de Risco”
Joel e Ethan Coen, “Onde os Fracos Não Têm Vez”,
Paul Thomas Anderson, “Sangue Negro”

Ator
George Clooney, “Conduta de Risco”
Daniel Day Lewis, “Sangue Negro”
Johnny Depp, “Sweeney Todd”
Tommy Lee Jones, “No Vale das Sombras”
Viggo Mortensen, “Senhores do Crime”

Atriz
Cate Blanchett, “Elizabeth: A Era de Ouro”
Julie Christie, “Longe Dela”
Marion Cotillard, “Piaf – Um Hino ao Amor”
Laura Linney, “The Savages”
Ellen Page, “Juno”

Ator coadjuvante
Casey Affleck, “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”
Javier Bardem, “Onde os Fracos Não Têm Vez”
Phillip Seymour Hoffman, “Jogos do Poder”
Hal Halbrook, “Na Natureza Selvagem”
Tom Wilkinson, “Conduta de Risco”

Atriz coadjuvante
Cate Blanchett, “I’m Not Theere”
Ruby Dee, “O Gângster”
Saoirse Ronan, “Desejo e Reparação”
Amy Ryan, “Gone Baby Gone”
Tilda Swinton, “Conduta de Risco”

Filme estrangeiro
“Beaufort” (Israel)
“The Counterfeiters” (Áustria)
“Katyn” (Polônia)
“Mongol” (Cazaquistão)
“12? (Rússia)

Filme de animação
“Persépolis”
“Ratatouille”
“Surf’s up”

Roteiro original
Diablo Cody, “Juno”
Nancy Oliver, “Lars and the Real Girl”
Tony Gilroy, “Mudança de Risco”
Brad Bird, “Ratatouille”
Tamara Jenkins, “The Savages”

Roteiro adaptado
Christopher Hampton, “Desejo e Reparação”
Sarah Polley, “Longe Dela”
Ronald Harwood, “O Escafandro e a Borboleta”
Joel e Ethan Coen, “Onde os Fracos Não Têm Vez”
Paul Thomas Anderson, “Sangue Negro”

janeiro 22, 2008   No Comments

Cinema: “Mutum”

“Mutum”, de Sandra Kogut” – Cotação 5/5

A adaptação de livros para o cinema sempre foi um desafio para roteiristas e cineastas, e com raríssimas e honrosas exceções estes profissionais conseguem transformar as palavras no papel em imagens inesquecíveis tão belas quanto aquelas perdidas em páginas e páginas amareladas pelo tempo e pela história. Condensar uma narrativa de centenas de páginas em duas horas de exibição é uma tarefa inglória que já derrubou muitos (e continuará derrubando).

Agora, se adaptar um livro já é um grande desafio, o que dizer de uma adaptação de uma obra de Guimarães Rosa, escritor mineiro que ia além do simples escrever: ele criava vocábulos a partir de arcaísmos, palavras populares e de seu imenso conhecimento de línguas (falava mais de sete e, “com o dicionário agarrado”, lia mais umas cinco) colocando suas “novas palavras” em uma prosa tão poética que, recomenda-se, deve ser lida sempre em voz alta. Trabalho quase impossível, com certeza.

A cineasta Sandra Kogut “inventou” de enfrentar o desafio e “Mutum”, longa baseado na novela “Campo Geral”, do livro “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, é uma surpresa que emociona e encanta. A rigor, Sandra deixou de lado a narrativa pessoal de Guimarães Rosa (vamos combinar, iria soar forçado), e concentrou-se na descoberta de jovens atores que pudessem dar aos personagens Miguilim e Dito uma verossimilhança acima de qualquer suspeita. Os garotos Thiago da Silva Mariz e Wallison Felipe Leal Barroso cumprem essa função de forma arrebatadora.

Com os personagens principais em sintonia, faltava Sandra buscar a melhor forma de traduzir as emoções, os neologismos, a poesia da prosa de Guimarães Rosa para as telas. Como transformar em imagem a seguinte frase: “Mesmo assim, enquanto esteve fora, só com o tio Terêz, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E foi descobriu, por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela aflição um pouco aliviava.” Não basta focar os olhos do garoto e filmar o ato. É possível que espectadores achassem nojento e perdessem a poesia do texto. A tarefa não era fácil.

Porém, o roteiro inteligente focou-se na poesia da narração e procurou, ao máximo, transforma-la em imagens. Dessa forma, o sertão mineiro é explorado em seus detalhes e, maior mérito, apresenta ao público um Brasil que o Brasil parece desconhecer e querer deixar no passado enquanto caminha a passos largos para o futuro. O Brasil dos nossos pais e avós. Um Brasil de pratos de plástico, roupas remendadas e palavras inventadas. Um Brasil que, embora muitos nem saibam, ainda corre nas veias de seu povo. “Mutum” é a outra metade de “Saneamento Básico”, grande cinema de Jorge Furtado. Os dois filmes se completam ao falar de um Brasil que muita gente realmente não conhece.

Em “Mutum”, Thiago vive o personagem Miguilim, mas no filme ele é Thiago mesmo. Felipe passa pelo Dito, mas também manteve seu nome de batismo no longa. Estes dois garotos vivem a história de uma família que vive no Mutum, um lugar “longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto (…). No meio dos campos gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra.” Thiago tem oito anos, acabou de ser batizado, muito embora esse rito de passagem não vá proteger sua família das “tragédias” vindouras.

Primeiro, a briga dos irmãos pela mesma mulher. No sertão não há diálogo: é tudo no facão. Se não tem como conversar, melhor partir, e o ente mais querido de Thiago Miguilim deixa a casa num dia de chuva e trovoadas. Os meninos, embaixo de uma mesa – à luz de velas – comentam: “Deus tá castigando a gente”. O drama segue, mas tanto a narrativa de Rosa quanto as imagens de Kogut transpiram poesia, mesmo na morte. Tanto as imagens quanto o texto mais enlevam que anuviam. E essa métrica será seguida até o final de “Mutum”, e ganha ares de clássico na cena derradeira, a cena mais tocante do cinema recente feita em terras brasileiras, quando o garoto lança o último olhar sobre o Mutum pretendendo guardar cada grão de areia no fundinho de sua alma de menino.

Sandra Kogut transforma a rica prosa poética de Guimarães Rosa em poesia visual. O resultado é um dos filmes mais líricos da retomada. E um dos melhores. “Mutum” é sublime e sobrevive ao livro sem diminui-lo ou desmerecê-lo. Além, filme e livro se entrelaçam, se envolvem, e criam uma nova perspectiva na mente do leitor espectador: cada um deles sobrevive sem o outro, mas nenhum deles substitui o outro. Se você leu o conto, o filme o levará galopando pelo mesmo sertão, com o olhar em primeiro plano, não o ouvido. Se você só viu o filme, você precisa urgentemente ler o conto. :*) Ou seja, o melhor que você tem a fazer, caro leitor, é adentrar os mundos particulares de Guimarães Rosa e de Sandra Kogut e descobrir, como disse um homem para Miguilim, que o “Mutum era lugar bonito”.

janeiro 9, 2008   No Comments