Dylan com Café, dia 22: Slow Train

Bob Dylan com café, dia 22 – Era o fim de 1978. Um casamento de 12 anos que lhe deu quatro filhos (e ao menos uma obra prima: “Blood on The Tracks”) havia fracassado e, desesperado, Bob Dylan encontrou Jesus num quarto de hotel: “Havia uma presença naquele quarto que não poderia ser outra pessoa que não fosse Ele. Foi algo físico, senti meu corpo todo estremecer. A glória do Senhor me nocauteou e me levantou”, contou Bob sobre a experiência. Ele decidiu, então, tomar duas decisões: tirar o primeiro semestre de 1979 de “férias” para se converter ao cristianismo e estudar a Bíblia; e escalar Mark Knopfler para assumir a guitarra do álbum vindouro, afinal é importante ter Deus ao seu lado, mas ter um gênio da guitarra como garantia também ajuda. Bob havia visto o Dire Straits em Los Angeles em 1978, e convidou Mark e o baterista Pick Withers para gravar seu primeiro disco gospel no lendário estúdio Muscle Shoals, no Alabama.

Se você é daqueles que reviram os olhos quando ouvem alguém falar de Deus e fé, um aviso: “Slow Train Coming” (lançado em agosto de 1979) é um discaço (primo de “John Wesley Harding”, que era sobre… demônios). Bob diz que nasceu de novo após a conversão, e isso soa realmente verdadeiro, pois o trovador inquieto, o gênio cínico e o músico raivoso de outrora… morreu. Desapareceu. O Dylan que renasce neste álbum é o Dylan dos tempos modernos, mais cadenciado, R&B, classudo, com backings enfim no tempo certo, metais inspirados e a elegantíssima guitarra de Mark Knopfler uivando nas canções. Sucesso de vendas (número 3 na Billboard), “Slow Train Coming” ainda rendeu um Grammy a Dylan pela música “Gotta Serve Somebody”, que incomodou tanto John Lennon a ponto do ex-beatle escrever a resposta “Serve Yourself”. Dylan “responde” tragicamente profético neste mesmo álbum: “Don’t want to shoot nobody, don’t want to be shot”.

Ainda que cristão, “Slow Train Coming” carrega o jeitão Dylan de ser e, dentre as citações da Bíblia, o Apocalipse goleia Paulo, Mateus e Genesis. “I Believe In You” é uma das canções mais lindas escritas para Jesus (e, de maneira universal, você também pode se pegar cantando para seu par: “I believe in you even through the tears and the laughter / I believe in you even though we be apart”). Mais sobre culpa do que sobre perdão, “Slow Train Coming” permitiu a Dylan renascer e seguir em frente se a(pro)fundando-se na religião, mas isso é assunto para o café de amanhã.

Especial Bob Dylan com Café

2 comentários sobre “Dylan com Café, dia 22: Slow Train”

  1. Thiago Fermoraismarço, 20, 2018 às 10:16 pmResponder

    Este é um dos meus álbuns preferidos do Dylan. É a primeira vez que eu leio uma crítica interessante, profissional e sem preconceitos sobre um trabalho tão renegado pela crítica especializada. Geralmente, a maioria dos articulistas e críticos de cultura tendem a considerar que esta não é uma boa obra ou mesmo um trabalho relevante do Bob, justamente por ser um álbum de música declaradamente cristã. Á você, parabéns pela imparcialidade e pelo belo trabalho!

    1. Macmarço, 21, 2018 às 10:17 amResponder

      Muito obrigado, Thiago!

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