HERÓIS
MAIS OU MENOS VISÍVEIS
Festa de
lançamento do zine O Apanhador No. 7 - 27/07/2002
winston
e The Next no BR3 Studio Bar, São Leopoldo – RS
por
Diego Fernandes
d13g0_freejazz@yahoo.com.br
Vou avisando
ao leitor logo de saída que fui ao show disposto a detonar a winston
na resenha que escreveria posteriormente. Em um papo recente com o colega
de S&Y Léo Vinhas, afirmei que não gostava da banda.
E não estava mentindo: de fato não gostava. Alguma coisa
mudou esta noite, e não foi a banda.
(Adendo: São
Leopoldo é uma cidade pitoresca -- mas até aí, toda
cidade tem lá suas peculiaridades. O rumor da vez, até o
momento não confirmado oficialmente, envolve fitas VHS registrando
sodomia e propina nos corredores da Câmara De Vereadores da cidade
-- fitas estas entregues a um partido de oposição. O boato
não confirmado diz respeito à questão sodomia, porque
o vergonhoso esquema ligado à compra de votos de vereadores já
foi ao ar no noticiário local, causando furor. Toda cidade tem lá
seus boatos subjacentes, então deixemos essa pataquada de lado,
e voltemos ao rock.)
O pessoal do
zine O Apanhador vem fazendo um belo trabalho divulgando bandas da região
do Vale Do Rio Dos Sinos nas festas de lançamento de cada edição,
como o grande show da Walverdes no lançamento do número 4,
em abril. As festas vêm ocorrendo no BR3. Cabe aí uma ressalva:
nas duas festas que fui, as bandas de abertura eram bem fracas. A Not So
Easy (que abriu para a Walverdes),
fazendo um som college/guitarra-colméia legal poderia ter se saído
muito melhor se fizessem algo que, convenhamos, não é lá
tão fácil, mas faz-se necessário para sair do gueto
indie (se forem essas as intenções, claro): cantar em português.
As músicas cantadas em inglês ficam completamente descaracterizadas
e repetitivas, o som embolado não ajuda, e, o principal: quem vai
comprar um CD de uma banda igual a quinhentas outras do circuito indie
americano? Ok, eu sei que tem gente que compra – mas eu não. Tudo
bem haver uma identificação estilística com bandas
que tocam no circuito universitário gringo, mas, querendo ou não,
as bandas brazucas não vivem em Berkley, Minneapolis ou sei lá
onde.
The Next (que
abriu para a winston) incorre nos mesmos problemas. Um casal de namorados
(pelo que consegui sacar), ele na guitarra/voz, ela no baixo, mais uma
bateria eletrônica. O som é uma mistura fragmentada de Placebo
(principalmente nos vocais chupados de Brian Molko) com Smashing Pumpkins
(que, convenhamos, não são bandas tão diferentes assim
entre si). A garota não mexia mais do que os dedos necessários
para tocar o baixo, e o cara cantava de suéter e cabelo na cara,
igual a Kurt
Cobain. Presença de palco tímida, meio shoegazer. Teve
uma hora que eu ameacei cochilar e minha namorada me deu um cotovelaço.
Após a apresentação, sumiram em meio ao público
(ou fui eu que não consegui distinguir os dois em meio aos indie
kids presentes?).
Então
finalmente a winston sobe ao diminuto palco do BR3. Começam a aquecer
as turbinas, engatam os acordes iniciais de "O Casamento", armam uma barulheira
dos diabos. Entra em cena um camarada de ar circunspecto: todo de preto
com NIETZCHE em letras garrafais bordado no peito, óculos, barba
trotskista e coturnos. Saca uma folha de papel e começa a ler ao
microfone. Uma corda do baixo de Pepe arrebenta logo de saída, e
este sai do palco às pressas em busca de um baixo sobressalente.
Confesso que não consegui entender metade do que o NIETZCHE dizia
devido à barulheira que a banda fazia – captei que era uma espécie
de libelo derrotista. Interessante. O cara chispa do palco e o barulho
segue.
Engatam "O Casamento"
(sem baixo mesmo), em seguida "O Herói Invisível" (já
com Pepe novamente a postos), e segue o baile. A banda toca segura, e o
vocalista/guitarrista Tiago Ribeiro sua sangue no palco, cantando cada
palavra com entrega, como se o peso esmagador das guitarras repousasse
sobre suas costas, desafinando, sofrendo a cada frase. "Me Chamo winston"
e "A Carta" foram as que mais me chamaram a atenção pela
incrível carga emocional que a banda conseguiu transmitir. A recorrente
teoria de que o Weezer está para a cena gaúcha assim como
os Beatles estão para o mundo faz muito sentido quando se observa
um show da winston. A referência é inescapável, seja
nas distorções melodiosas e cheias de peso, seja na dinâmica
vocal adotada por Tiago, seja nas letras auto-piedosas.
Quando pergunto
após o show ao guitarrista Dudu Magalhães sobre o CD novo,
a resposta vem rápido. "Está pronto, passamos muito tempo
gravando ele, e temos várias propostas de lançamento, em
parceria com as gravadoras ou não", diz. "Mandamos o CD para várias
gravadoras, por descarga de consciência", acrescenta Tiago. "Deve
sair em dois meses, mas não vou te garantir isso, até o fim
do ano deve sair – senão não tem mais banda". A banda, em
seu segundo show com o novo baterista Fábio Noronha, deixa transparecer
um certo desgosto com a demora em lançar seu primeiro (e por muitos
aguardado) primeiro disco. Pudera: os gastos com a gravação
ultrapassaram os 7 mil r$, cifra assombrosa para uma banda em esquema até
o momento independente. Já foram lançados quatro singles
nesse esquema: "Anoréxica", "Me Chamo winston", "O Herói
Invisível", e, o mais recente, "O Casamento".
Vale acrescentar
que os sujeitos são isentos de frescura, sendo difícil não
simpatizar, ainda que mostrem-se preocupados com a visão conceitual,
digamos assim, criada em torno da banda (exemplo: impossível não
reparar que agora que Rivers Cuomo do Weezer ostenta uma barba, Tiago faz
o mesmo).
"As
letras representam o que a gente sentia e era até, digamos, um ano
e meio atrás, que foi quando a gente começou a gravar o CD
– não que a gente tenha mudado radicalmente nesse período",
continua Tiago. "As principais influências da banda? Acho que Weezer,
Radiohead
fase "The Bends" e Sunny Day Real Estate." Quando lanço uma pergunta
de teor mais capcioso (a respeito do estigma de 'banda nerd' que os acompanha),
Tiago não se mostra particularmente constrangido. "Tu quer saber
se somos nerd? Acho que, é, pode ser, nunca fui o capitão
do time de futebol no colégio." Quando pergunto a respeito do teor
derrotista de algumas de suas letras, o vocalista parece encarar isso com
naturalidade. "Algumas pessoas se sentem incomodadas em ouvir uma letra
que fale de derrota, que exteriorize problemas, desencontros. Esses dias,
li uma resenha de um show nosso em que um cara escreveu uma coisa do tipo
'e depois tocou a ruinston1. Rola um preconceito. Das bandas que eu gostava
uns quatro, cinco anos atrás, a única que continua legal
é o Weezer, que antes todo mundo gostava. Agora é 'Bah, Weezer?!'.
"Maladroit" pra mim é o segundo melhor do Weezer (o primeiro é
o "Pinkerton")."
O assunto do
papo passa a ser a conterrânea Walverdes, que lançou recentemente
o elogiadíssimo "Anticontrole" (para alguns – eu incluso -- o disco
do ano). "É bacana ter uma banda como a Walverdes por perto, estabelece
um patamar alto de competição, tipo, uma banda da nossa cidade
[Porto Alegre] fazendo um disco muito bem gravado, produzido. O Mini [Gustavo
Bittencourt, guitarrista e vocalista da Walverdes] é um cara extremamente
prolífico, exigente." Outra banda apontada por Tiago como revelação
é a Blanched, banda local do Vale Dos Sinos de inclinação
guitarreira/bossa-novística (bossa noise, dizem alguns) com letras
em português, capitaneada por Leonardo Fleck, um dos editores do
zine O Apanhador.
O pessoal da
winston explica também que o cara que leu o texto ao microfone no
início do show é Felipeto, amigo da banda ligado ao movimeto
da Estética Do Fracasso (esteticadofracasso.cjb.net),
manifesto redigido por Tiago. Felipeto faz intervenções em
quase todos os shows da banda. "Se a winston fosse uma pessoa", diz Tiago,
"essa pessoa seria o Felipeto", enquanto o próprio assente com a
cabeça, um leve sorriso situado atrás de sua espessa barba.
Meu bode com
a winston estava ligado principalmente ao aspecto loser explícito
nas músicas da banda, que eu acreditava (equivocadamente) ser pura
pose. De fato, vendo a frágil figura de Tiago Ribeiro sentado no
camarim moquifento do BR3, tive a impressão de que ele era um personagem
saído de "Os
Excêntricos Tenembauns". E, mesmo que o restante da banda não
ostente uma aura, assim, tão fora do comum, ou mesmo que justifique
tamanha auto-indulgência, as músicas da winston realmente
causam desconforto. São fábulas idealizadas sobre a derrota,
resultando em uma experiência algo catártica (principalmente
ao vivo), que auxilia na purga dos demônios do fracasso. Ao menos
para quem ouve as músicas, porque eu é que não queria
estar na pele da banda ao compor letras do tipo. A winston é o tipo
de banda que fica difícil explicar por que gostar. A melhor resposta
que posso oferecer é que trata-se do mesmo motivo que faz alguém
gostar de bandas como Stone Temple Pilots, System Of A Down ou McLusky:
nada genialmente novo, mas inegavelmente praticado com paixão. Já
que vocês devem estar pensando nisso, sim, é como Weezer,
só que em português. Vale lembrar que Los Hermanos também
fazem isso, embora a referência não seja tão óbvia
– mas vamos encerrar as comparações por aí.
Quando digo
a Tiago que andam dizendo que o Weezer equivale aos Beatles na cena local,
ele responde, rindo: "Bah, que massa!"
winston
– souvenir (independente)
O CD "souvenir",
de capinha estilosa e bem-cuidada, nada mais é do que uma prensagem
em edição limitada de três músicas pinçadas
do disco de estréia por sair ("Recortes De Vidas Comuns"). "O Casamento",
música entregue à winston por Mini, da Walverdes, é
uma beleza, e agora está colando direto na programação
da Unisinos FM (a rádio universitária mais conceituada do
RS). Popíssima, tem uma dinâmica guitarreira empolgante e
letra bem sacada falando de um casamento indie: "O casamento vai ser legal
/ Você de saia e de All-Star / Eu com a camisa do Nevermind / E no
fim vamos todos cantar". Seria bacana ouvir isso nas rádios comerciais
jabazentas da área – tem apelo suficiente para isso para soterrar
um monte de lixo que anda ciscando na área, e acho que a banda faria
muito mais sentido se saísse do circuito indie e alçasse
vôos mais altos. "O Herói Invisível", vai na mesma
linha, sensivelmente mais melodiosa, e já vem tocando no rádio
tem um tempinho -- poderia ser trilha sonora para a leitura de uma HQ de
Dan Clowes. Completa o disco uma versão acústica exclusiva
para "A Carta", música que remete diretamente a "Önly In Dreams",
do Weezer. "A Carta" é a única produzida pela própria
banda, tendo as outras duas sido produzidas por Pedro Veríssimo
da Tom Bloch. As músicas têm todas em comum a capacidade de
despertar o nerd adormecido dentro de cada um, com seus versos comiserados
e doces. O que me leva a crer que o winston é uma dessas bandas
feitas de pura matéria pop, quase intangíveis. Interessante,
produção nota dez, um belo aperitivo para o álbum.
Cruzem os dedos.
http://www.winston.tk
Diego Fernandes,
21 anos, acha que o melhor do Weezer é o da capa azul – até
porque não prestou muita atenção nos outros.
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a pureza do rock gaúcho - por Carmela Toninelo
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