Trilhas sonoras que valem a pena
Vanilla Sky - I am Sam
por Carlos Eduardo Lima

As duas melhores trilhas sonoras que o cinema pode proporcionar ultimamente foram lançadas com diferença de um mês nos Estados Unidos, do fim do ano passado para cá. Uma delas está chegando ao mercado nacional nesta semana e a outra ainda não tem prazo para o Pólo Industrial da Amazônia, mas não deve tardar.

Vanilla Sky e I Am Sam são dois filmes diferentes. Nenhum dos dois tem a originalidade como seu forte, são destacados da maioria por motivos diversos, mas garantem o rastilho de curiosidade necessário para levar o espectador médio para o escurinho. As trilhas, ao contrário dos filmes, são verdadeiros triunfos para consumidores de discos e amantes de boa música pop/rock.

O diretor de "Vanilla Sky", Cameron Crowe, é, antes de tudo, um cara bem relacionado. Foi editor da Rolling Stone, conhece tudo e todos no mundo do entretenimento, conseguindo a manha de usar referências visuais, audiovisuais e canções a rodo, de gente famosa e complicada, que atende aos pedidos do cara como quem aceita um convite para jantar.

Radiohead, Peter Gabriel, Monkees, Bob Dylan, Chemical Brothers, Paul McCartney, REM (estes dois últimos com faixas inéditas, especiais para o filme) todos estão na trilha de "Vanilla Sky". Suas canções, mais gente de segundo escalão, mas ainda assim maravilhosos, estão fazendo fundo musical para as aventuras de David Aames, vivido por Tom Cruise, um playboy herdeiro de um império editorial em Nova York. A habilidade de Crowe em fechar narrativas, como ele já havia mostrado em "Jerry Maguire" e "Quase Famosos", não funciona aqui e o que poderia ser um drama existencial redentor,
descamba para um rasteiro vai e vem de citações e desperdício, principalmente de Cameron Diaz, que prova ser a melhor coisa na tela, seja interpretando, seja simplesmente aparecendo. Dá pena de comparar a lourice de comercial da Loreal de Cameron com a irritante voz e a absoluta ausência de presença que é a "presença" de Penelope Cruz. A atriz espanhola não tem carisma, nunca poderá fazer um tipo não latino em Hollywood e acabará se tornando um Antonio Banderas de saia. 

Se o filme é uma sucessão de erros, a trilha é um desfile de acertos perfeitos. Músicas como "Solsbury Hill", de Peter Gabriel; "Svef-n-Glar" do Sigur Rós; "Directions", de Josh Rouse entre as citadas mais acima, recomendam altamente a trilha
sonora. O filme, blah. No máximo veja em vídeo só para dar uma malhada.

A outra grande trilha sonora é a sucessão de 17 covers de canções dos Beatles, que fazem de I Am Sam um fato incomum na indústria fonográfica moderna. Versões dos Beatles passaram a ser raras desde quando Michael Jackson arrematou os direitos autorais do grupo no início da década de 80. Desde então não vimos uma só música do Fab Four em trilhas de filmes, compilações ou algo no gênero. A grande saída para isso foi convidar artistas contemporâneos para interpretarem as
músicas, cada um a seu jeito. 

É um tributo disfarçado, mas que guarda grandes revelações. Se você pensa que as músicas escolhidas para a trilha são só os sucessos fáceis do inconsciente coletivo, enganou-se. Pelo contrário, a maioria das músicas são do período pós-65, ou seja, a época em que o quarteto começava a experimentar. Mas, você deve estar se perguntando, por que fazer um tributo aos Beatles na trilha de um filme? Simples. A narrativa levada à tela é uma mistura de "Kramer vs Kramer" e "Forrest Gump". 

Sam, vivido pelo maravilhoso Sean Penn é um sujeito com idade mental de 7 anos, mas que luta na justiça para ter a guarda da filha pequena. Michelle Pfeiffer é sua advogada. Sam, na sua ingenuidade ímpar, acredita que as músicas dos Beatles trazem mensagens de sabedoria e as cita pelo filme adentro, em inesperadas referências à cultura pop. Mesmo que o tema "adulto" nos prive da vivência, é uma delícia ver alguém tendo coragem de dizer que as músicas dos Beatles são tão importantes assim. Se chegam a trazer mensagens de sabedoria ou não, depende de cada ouvinte, mas o deleite de ouví-las traz a sabedoria do ato de ouvir boa música. 

Então, que tal a versão do menino prodígio canadense Rufus Wainwright para "Across The Universe"? Ou a redenção de Paul Westerberg (ex-fundador dos seminais Replacements) em "Nowhere Man"? Ou ainda Eddie Vedder solitário em "You’ve Got To Hide Your Love Away"? A lista ainda traz Ben Folds (exorcizando Paul McCartney dentro de si em "Golden Slumbers"), Black Crowes, Ben Harper, Wallflowers, Grandaddy, Nick Cave (refazendo "Let It Be"), Stereophonics, entre outros. 

Ficamos na torcida para que I Am Sam como filme não seja a confusão que é Vanilla Sky, mas se você vir as respectivas trilhas sonoras dando sopa por aí, não hesite em adquirí-las logo. Músicas sábias. Essa é boa.