Resenhas
por Marcelo Costa

Coldplay - "Parachutes" (EMI)

Parece que todo mundo só sabe falar de amor no rock atual. Não que seja ruim, pelo contrário. É só uma constatação de que o mundo todo anda carente. O Coldplay é a nova sensação britânica e faz rock como se estivesse declarando seu amor a alguém.
Depois de um ep comentado no ano passado, a banda lançou esse ano "Parachutes", que se não acrescenta nada de novo a equação "rock songs+letra confessional+isqueiros acesos em estádio", também não fica devendo a expoentes do gênero como o Verve e Travis. É só mais um punhado de belíssimas canções para se ouvir ao lado de seu par. Ou ao lado de uma garrafa de bebida. Tudo depende de como você vê o amor. Ouça "Yellow", faixa 5, e decida.


The Wallflowers - "Breach" (Universal)

Jakob Dylan está de volta com seu The Wallflowers, quebrando um silêncio de quatro anos, desde o anterior e multiplatinado Bringing Down The Horses, que vendeu 6 milhões de cópias no mundo todo. Quatro anos é bastante tempo no mundo pop, mas não pense que o rapaz mudou. As coisas continuam as mesmas, o que soa calmo, e country, e Bruce Springsteen, e repetitivo demais. "Sleepwlaker" tenta brilhar, com sua guitarra e clima rocker de boteco. As baladas country se sobressaem, as guitarras soam calmas e as letras, bem, soam boas para um ser humano normal, mas sendo filho de quem é.
 


Duas são as maneiras de uma banda/artista repensar a carreira: ou faz uma coletânea de seus maiores sucessos ou lança um álbum ao vivo. Não deixa de ser sintomático que as duas maiores bandas britânicas da década de 90, que passaram esse período trocando sopapos e pontapés e números 1 na parada, escolham cada uma o seu caminho.
Blur - "The Best Of" (EMI)

O Blur vem de "The Best Of", coletânea jóia que reúne 18 faixas do que de melhor esse grupo de universitários ingleses fez em dez anos. Das 18 faixas, 17 foram single (só "This Is a Low" do álbum "Parklife" não foi lançada em single e raramente é tocada em shows, é só uma bela canção). De resto, só jóia. Do primeiro single, "She's So High" (1990), ao último, "No Distance Left to Run" (1999), a banda mostra as várias caras que o próprio rock teve nos últimos anos. Dois brindes fazem parte da coletânea. Pelo primeiro você não paga nada. É a inédita "Music Is My Radar", faixa esquisita, porém bacana. A tal, inclusive, foi licenciada para um portal inglês de telefonia celular, e, quando o telefone de um fã que tenha o sistema tocar, não será trimmm, mas sim a referida. O segundo bônus é mais caro. Na versão importada do CD, você ganha um outro, de "bônus", trazendo dez canções ao vivo, em Wembley, em seqüência cronológica de single. Dez.

Oasis - "Familiar To Mollions" (Sony Music)

O Oasis escalda-se no álbum ao vivo. Para isso, com toda megalomania que cerca esses ex-pobretões, nada melhor que gravar o show num estádio de Wembley (veja só) lotado, com 70 mil pessoas de backing vocal. Foram dois dias, mas só as canções do primeiro foram registradas. Quem saber o clima?  No inicio da apresentação do segundo dia, flagrada em um excelente bootleg, Liam Galagher, o único rock star vivo da atualidade (rock star é, ou deveria ser, aquele cara irresponsável, drogado, puto, que fala o que dá na telha, sempre, como só Liam faz hoje em dia) manda a seguinte perola ao pequeno público de 70 mil pessoas: "Vamos agitar essa porra. Não tem nenhum Simple Minds aqui em cima não". O repertório é aquilo. Algumas canções do fraco "Standing On The Shoulder Of Giants", mas que soam legais ao vivo, e um punhado de canções (já) clássicas, com destaque supremo para as acachapantes "Stand By Me", "Champagne Supernova" e "Don't Look Back In Anger", além de versões matadoras para "Hey Hey My My" de Neil Young e, zuzu bem, "Helter Skelter" dos Beatles. No saldo final, ponto para o Oasis. E para o Blur também.


Gomez - "Abandoned Shopping Trolley Hotline" (Virgin - Imp.)

Descontando todo sentimento de colcha de retalhos que une um álbum de sobras e raridades, o Gomez, a banda inglesa que mais soa americana na atualidade, junta várias canções abandonadas e o resultado é um grande álbum. Não chega aos pés do primeiro, "Bring It On", mas traz momentos chapantes como a coda de abertura, "Shitabag 9", que se une  a segunda e bacana "Bring Your Lovin' Back Here", e a magistral "Buena Vista". As primeiras 50000 cópias trazem de bônus o EP "Machismo", e com ele a sensacional "The Dajon Song", mais de treze minutos de muita, mas muita psicodelia. Ah, tem cover bacana dos Beatles também.


Dandy Warhols - "Thirteen Tales From Urban Bohemia" (Capitol - Imp.)

Treze contos de boemia urbana, o belo titulo do terceiro trabalho do The Dandy Warhols, já passa ao ouvinte uma bela amostra do que teremos pela frente. A banda é americana, de uma cidade quase vizinha a Seattle. O som é inglês, parente bem próximo do britpop. E o CD se junta ao grupo de melhores de 2000. A distorção melódica da guitarra impera, aliada ao vocal arrastado do sex simbol Courtney Taylor, enquanto as letras passeiam por noites bêbadas como em Mohammed - I only want to do the right thing - ou Nietzche, que repete infinitamente - I want a god who stays dead not plays dead, I, even, I, can play dead. Uma versão especial de "Thirteen" traz um CD bônus, com duas inéditas ("White Gold" e "Phone Call") e os hits do álbum anterior, "Come Down", "Not If You Were The Last Junkie On Earth" e "I Love You", gravadas ao vivo no megafestival inglês de Glastonbury. The Dandy Warhols é uma boa pedida para quem quer arriscar numa nova banda e ser feliz, afinal, são só um punhado de deliciosas rock songs.

Resenhas
por Alexandre Petillo

Grandaddy - "The Sophtware Slump" (V2 Records / Sun)

Se existe um disco lançado em 2000 que merece o clichê compre, roube ou troque esse disco é The Sophtware Slump do quinteto californiano Grandaddy. Esse é um daqueles discos surpreendentes do final do século, lado a lado com "OK Computer", do Radiohead, e "Soft Bulletin", do Flaming Lips. E o mais incrível foi o lançamento dele no Brasil. Lindas melodias, ataques de guitarra dilacerantes, mudanças de andamento, vocais abafados, efeitos de computador, letras sofisticadas fazem um álbum recheado de detalhes, que torna obrigatória uma audição no fone de ouvido. A voz frágil de Jason Lytle desfila em histórias sobre homens sem rumo (Hes Simple, Hes Dumb, Hes The Pilot, um melancólico épico de 7 minutos que não desgruda de seu cérebro), robôs (nas sensacionais baladas Jed, The Humanoid e Jed's Other Poem), humanidade dominada pela tecnologia (Broken Household Appliance National Forest) e, claro, corações partidos. Emocionante, para dizer pouco. Ouça The Cristal Lake e não ouse chorar. E pode dizer que eu sou sensível, eu não ligo não.


Lambchop - "Nixon" (Merge Records - Imp.)

A recente onda alt-country tem produzido os álbuns mais apaixonantes dos últimos tempos. Desprezando a tecnologia e valorizando a emoção, alguns CDs têm sido os melhores manuais de auto-ajuda do momento. Nixon do Lambchop não foge à regra. Oriundo de Nashville, berço country, o Lambchop tem 14 membros, com metais, dois bateristas, vários baixistas e diversos músicos periféricos. A banda é conhecida por realizar a improvável fusão entre country e soul. Não é à toa que o álbum chama-se Nixon, uma alusão ao período em que Richard Nixon governou os EUA. Período que marcou a era de ouro da soul music, além dos melhores discos de Gram Parsons (ícone country do período, ex-Byrds). O disco é uma obra-prima, recheado de belas canções e melodias delicadas. Transbordam canções sobre amor, traição, tristeza e a dura vida cotidiana. Prato cheio para ouvir namorando.


Sigur Rós - "Agaetis Byrjun" (Fat Cat Rec. - Imp.)

Na década de 90, a imprensa inglesa adorou bancar a Mãe Dinah. Diversas bandas e artistas foram vendidos como o the next big thing . Tá, às vezes eles acertam, mas chove bola fora. Desta vez acertaram uma no ângulo. A banda islandesa Sigur Rós é a melhor da Europa no momento. O recém lançado Agaetis Byrjun é o atestado. Esse é o terceiro álbum deles, mas o primeiro lançado fora da Islândia. "Melody Maker" e "New Musical Express" morrem de amor pela banda. Thom Yorke é fã confesso. Tanto que o Sigur Rós vai abrir todos os shows que o Radiohead fizer em estádios europeus neste ano. O som? Melancolia, "as usual", com algumas letras cantadas na língua nativa, longas canções, guitarras saturadas, diversos efeitos de computador e tudo de bom que a tecnologia moderna pode trazer para o rock tradicional. Importe e ouça Ny Battery, candidata de peso à música do ano.


Violent Femmes - "Violent Femmes" (Slash Rec)

A explosão do punk no fim dos anos 70 atingiu - para o bem ou para o mal - todos os gêneros musicais contemporâneos. Entre eles, a música caipira americana. Sendo assim, com quase duas décadas de atraso, sai no Brasil o melhor registro já feito da fusão do country com punk rock: a estréia do Violent Femmes. O disco começa com o incrível riff de Blister In The Sun, que segue de maneira frágil até estourar no poderoso refrão: Let me go oonn!. Kiss off, a seguinte, mostra a perfeita qualidade pop da banda, conciliando bons vocais e instrumental sob medida. As letras são um verdadeiro manual sobre todo o tipo de desventura amorosa existente, mesmo nas músicas mais virulentas. Na via contrária, Confessions é uma daquelas baladas arrasadoras, onde Brian Gono, o vocalista, lamenta a solidão enquanto mais se afunda-se, à medida em que a música vai ficando cada vez mais pesada. Para encerrar, Good Feeling, tem toda a doçura que só pode trazer quem está amando. Um discaço, definitivamente. Obrigatório, se o seu negócio é rock.


Alex Chilton - "Set" (City Slang Records - Imp.)

Yeah, yeah! Graças aos deuses do rock, tem gente que não se rende. Um deles é Alex Chilton. Ele e sua banda, o Big Star, plantaram no fim da década de setenta, o que hoje costumam chamar de powerpop, ou seja, melodias pop recheadas de guitarras toscas e distorcidas. A existência de bandas como Teenage Fanclub e Weezer, por exemplo, é culpa de Alex Chilton. Rock retrô, como não se faz mais. Certo? Certo. Tudo bem, pode até ser que o futuro da música pop seja abraçar de vez a eletrônica. Mas, naqueles momentos de solidão, ou quando você e sua namorada (o) resolverem escolher aquela música marcante, pode apostar que não será nenhuma massaroca drum'n'bass. E de música para alma, Chilton entende bem. Tanto que para seu novo disco, "Set", o velhinho foi lá nas raízes da soul music e desenterrou aquelas musiquinhas que costumam tocar nosso coração sem dó nem piedade. É brega, piegas, mas não somos cool e nem estamos numa rave o tempo todo. "Never Found A Girl" abre e dá a tônica do disco. A guitarra swingada, a bateria compassada e a voz de Chilton, já curtida pelo álcool, iniciam a festa. A impressão que se tem é de que Alex entrou de penetra naquelas joints negras, se juntou à banda e exorcizou seus fantasmas e amores não correspondidos. Lá pelo meio do disco, "Single Again" é o lamento rocker: rápido, rasgado, deixa pra lá, vamos voltar às ruas, afinal, eu sou um homem solitário. E dá-lhe solos cortantes. Acompanhado de Richard Dworkin na bateria e Ron Easley no baixo, Chilton envelhece com classe, mas seu disco saudosista, com tons de country, funk e, claro, soul, é apenas para puristas e/ou para aqueles que não querem olhar pela janela enquanto o ônibus da modernidade passa. Ou para quem ainda ama à moda antiga e, vez por outra, vai a um bar meia-luz afogar as mágoas ao som do velho rock'n'roll. E, acreditem, é bem melhor do que ecstasy.