Músicas
para Acampamentos
por Alexandre
Petillo
Esqueça
toda a revolução tecnológica, os blips e blops do
novo mundo, "Amnesiac" ou "Get Ready".
estamos
em 1973 e o Black Crowes é a melhor banda de rock do planeta.
Eu sempre achei deprimente esses neo-hippies.
Sabe, aquelas pessoas que em pleno século 21 posam de hippies, ouvem
sons "transcendentais", fazem poesias bonitinhas, não comem carne
e gostam de falar no diminutivo. A única coisa que me faz fechar
o vidro no sinal é quando eu avistou aquele cara vindo querendo
me vender incenso para "ajudar na reforma do templo". Que o Dalai Lama
me perdoe, mas musicalmente, tenho pavor, por exemplo, dessas bandas tipo
The
Darma Lovers, com aquele papo furado de "somos todos peixes". Argh!
Como bom comedor de carne (bem passada,
por favor), tive um certo pé atrás com o Black Crowes.
Imaginava que eles fossem mais uma dessas bandas nocivas e neo-hippies.
Mas mudei completamente de opinião depois de "Lions", o novo
disco dos americanos, lançado aqui pela Sum.
O Black Crowes situa-se no começo
dos anos 70 e portam-se, em sua música e conceito, numa das melhores
fases do rock: fase The Faces, Stones "Exile On The Main
Street", Free. Uma época regada a boas doses de birita, putaria
'all night", junkie food e canções inspiradas. Hedonismo
pouco é bobagem. "Lions" é o melhor disco de rock
do ano (ou talvez o único).
Usualmente chamados de cópia
malfeita e descarada de um misto de Rod Stewart e Mick Jagger,
vestindo roupas de brechó com destaque para calças jeans
saint-tropez com boca de sino, o Black Crowes passou toda a sua existências
sob a sombra da banda de Jagger. No entanto, como o grupo "congelou-se"
em 73, Chris Robinson e sua turma não farão pastiches de
disco music, ou "Undercover Of The Night", "Bridges To Babylon"
ou filho com a Luciana Gimenez. Os Crowes preferem passar a vida entre
"Beggars
Banquet" e "Goats Head Soup", o que não é mal
nenhum. Você iria criticar um jogador que aparecesse hoje tentando
jogar como o Garrincha?
Robinson é craque em fazer
boas músicas setentistas. "Soul Singing" é contagiante.
Um misto de rock, gospel e soul, com um refrão "levanta estádio".
Inspiração é o que não falta para Robinson.
O vocalista do Black Crowes é o sortudo homem que acorda todas as
manhãs ao lado da atriz Kate Hudson (a groupie Penny Lane, de "Quase
Famosos"). "Soul Singing" é sobre seu amor por Kate.
E os fantasmas rondam. "Midnight
From The Inside Out" parece ter Jimi Hendrix na guitarra. "Miracle
To Me" deixa a sensação que Gram
Parsons vai chegar a qualquer momento (apesar de Robinson fazer um
estilo mais Rod Stewart). Em um mundo onde existe terrorismo, Travis, Kid
A e vegetarianos, "Lions" resgata uma época onde as músicas
saiam do coração e te levavam a um lugar cheio de diversão,
fantasia e roqueiros cabeludos. Altamente recomendado.
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