UPLOAD FESTIVAL 
Por Alexandre Petillo


 


SÃO PAULO ROCK CLUBE

UPLOAD – DIA 01

   Por Alexandre Petillo

Os chatos de plantão vão dizer que a nossa cobertura sobre o festival não acrescenta nada de novo, que estamos seguindo o coro dos contentes, que deveríamos criticar, mostrar o outro lado... Mas, em pé, diante do palco da chopperia do Sesc Pompéia, com as guitarras do Thee Buthchers Orchestra apitando no ouvido, não dá para falar mal de uma iniciativa como essa. Principalmente uma noite em que, de uma batelada só, você assiste Butchers, MQN, Matanza e Autoramas.

Graças ao maravilhoso trânsito de São Paulo de sexta à noite, quando adentrei ao Sesc o MQN já estava no palco. Acabei perdendo o rock rural do Som Tomé. Acredito que muita gente perdeu, já que o lugar estava vazio. Não sei se foi por causa de uma festa concorrente (é provável) ou do show conjunto do Agent Orange e TSOL (bem pouco provável), mas poucas pessoas prestigiaram a estréia do Upload, o primeiro grande festival de rock independente de São Paulo. 

Com certeza, a maioria das pessoas que estavam lá era convidada e/ou amigos de membros da banda.  Não foi por causa das atrações, porque o que se ouviu na noite de sexta foi um desfile do melhor rock honesto, sujo e empolgante.

"Alguém aí tomou drogas hoje?", ninguém. 

"Alguém aí se encheu de álcool a tarde toda?", ninguém.

"Então vocês não estão se divertindo nem metade do que eu", ironiza o vocalista, agitador cultural, promotor de shows, dono de selo, figuraça e gente muito boa Fabrício Nobre. 

O MQN tem um dos melhores shows do rock nacional. Potente, competente, direto, tem alguns dos melhores riffs de guitarra, cozinha criativa e vocal bem postado. As músicas passeiam pelo rockabilly, pela garageira sessentista tipo Sonics e desembocam numa baralhureira desencanada nos moldes de um Mudhoney. Falando nisso... "Essa música é sobre um cara chamado Mark Arm. Nós mostramos a música para ele e o cara gostou e aprovou. Se vocês não gostam, fodam-se. Mark Arm gosta". Dream team. 

Em seguida, nada menos do que Thee Butchers Orchestra. Privilegiando as músicas do (ótimo) último disco, "Golden Hits By...", os Butchers poderiam ser ainda maiores que Strokes. O rock voltou às origens. Depois de ser soterrado por blips e blops da nova tecnologia e render-se ao experimentalismo sem saída do Radiohead, o barulho e o ritmo tosco e direto voltou a ser a primeira ordem no rock. O Nebula, do selo Sub Pop, que há dez anos colocou Nirvana no mapa, passou pelo Brasil proclamando o barulho. Com um pé no metal, o White Stripes já virou hype na cena roqueira mundial. E o Strokes, bem, dos Strokes já falaram tudo. 

Na estrada há muito mais tempo, com poeira na garganta de muita estrada, show do Butchers é um evento. Com o rock dominado pela autenticidade roqueira vendável e pela rebeldia burguesa, o Butchers poderia ser maior do que o Strokes. Afinal, fazem um barulho mais consistente com apenas três integrantes, enquanto os nova-iorquinos precisam de cinco. Todo mundo que consome música, que tem acesso e dinheiro para publicações e discos, fica contente em consumir mais do mesmo e os jornalistas periféricos daqui têm mais munição para bradar que qualquer banda mediana americana é melhor do que as daqui – ainda que os próprios EUA e Inglaterra estejam infestados de bandas previsíveis, só que com mais dinheiro e mercado para se produzir melhor.  

Riffs e fraseados fortes de guitarra dão o tom. Em meia hora de show,  passeiam com desenvoltura por blues primal, Stooges, hardcore, Jon Spencer Blues Explosion e quetais. Um fã alucinado sobe no palco e faz uns vocais, enquanto o guitarrista Adriano sola. Sem perceber, o fã pula fazendo uma ridícula air guitar. Infelizmente, pousa na cabeça de Adriano. Mas nada acontece. Nem cara feia. Uma potência sonora única. Infelizmente, para o mundo roqueiro, a garagem deles é na Mooca. 

Em seguida veio o Garage Fuzz, hardcore de Santos. Confesso que não é a minha praia, então aproveitei para dar uma olhada nos livros e nos discos que estavam a venda (muita coisa boa, se passar por lá, não esquece da barraquinha). De longe todas as músicas pareciam iguais, inclusive para o próprio vocalista, que em três situações se enganou com elas: "Essa é uma música nova, não, quer dizer, é uma antiga". Esquisito, para uma banda com 10 anos nas costas.

Em seguida veio o Matanza. Puta show! Puta show! Rock bandido de primeira. Só clássicos: "As Melhores Putas do Alabama", "Eu Não Bebo Mais" e a chicletuda "Ela Roubou Meu Caminhão", todas do excelente álbum "Santa Madre Cassino". O vocalista Jimmy é um perfeito frontman, com cara de quem acabou de sair de uma corrida de Harley-Davidson. O melhor ambiente para um show do Matanza seria um saloon, com o pau comendo, cadeiras voando, todo mundo bêbado e umas putas-diabinhas. Infelizmente era num point indie, e a maioria não gostou. Tudo bem, que fiquem com o Sigur Rós e o Drugstore.

Para fechar com chave de ouro, o Autoramas. O trio é potente e o show é muito bom. Poderia muito bem já estar entre os grandes nomes do rock nacional, só não está graças a forças sobrenaturais. Rock direto e bons refrões. Estavam lá "Carinha Triste", "Falem Mal de Mim", a nova e feliz "Copersucar" e uma sensacional cover de "Você Não Soube Me Amar", da Blitz (dedicada ao grande Macedão, colaborador e membro da família Scream & Yell), que está no novo álbum deles, "Vida Real". Um fim perfeito de uma noite perfeita. Para completar, um sample de "Brasil-sil-sil" ecoa várias vezes. Será o início de uma nova página na história do rock independente? Um novo festival para os nossos calendários?Talvez, mas pelo menos eu estava lá.


Ah! Eu sou gaúcho!

Upload – Dia 02

Por Alexandre Petillo


Casa cheia, expectativa nas alturas. Sábado, grande dia, a maior atração do festival ia se apresentar: o tal (único) retorno da lendária Graforréia Xilarmônica. A banda que moldou todo o conceito do rock brasileiro do fim dos anos 90, iria voltar a tocar junta, especialmente para o Upload.

Não se falava muito mais além disso. E muita gente assistiu as primeiras bandas apenas para passar o tempo, esperando os gaúchos. Uma emissora de TV de Porto Alegre registrava o evento histórico, acompanhando-os desde o hotel. 

Graças a um churrasco na casa da Bidê Ou Balde e da tentação de assistir a um capítulo de "Casa Dos Artistas" (o melhor programa da história da TV brasileira), acabei perdendo a primeira banda (Brau, do Rio de Janeiro, escalada nas últimas horas) e só peguei o final do show dos camaradas do Blemish. Sempre competente, o quarteto de São José vem melhorando a cada show e pelas músicas novas, promete lançar um disco em tanto. Confesso que fiquei um pouco assustado com as declarações do guitarrista Daniel, que ficou na minha casa, poucas horas antes do show: "Tenho gostado bastante do Sigur Rós e O Cordel do Fogo Encantado é uma influência no nosso som" e "Acho que vamos tocar umas 4 músicas em 40 minutos...". Ojeriza adquirida no show dos supracitados islandeses no Free Jazz começou a me atacar, mas graças aos deuses da música, não se confirmou no Upload. E eles ainda tocaram o hit "Silverbox Song" que não estava no set list. Valeu.

Em seguida veio a Pelvs, ícone do rock indie brasileiro. Acabei me empolgando em uma conversa com amigos do lado de fora do teatro (ah, os dois últimos dias do festival foram no teatro do Sesc Pompéia. Horrível. Som péssimo e só dá para ver as bandas de lado) e perdi. Nunca fui fã da banda, e não me sinto mal por isso. Mas foi um show curtíssimo e passou quase batido.

Em seguida veio um dos melhores shows do festival: os gaúchos do Wonkavision. Grata surpresa. Não que eu duvidasse do potencial da banda, sou fã dos caras e fiz questão de distribuir a ótima demo do grupo por aqui, mas estão cada vez mais maduros e competentes no palco. O vocalista e guitarrista Will, que segundo o meu irmão gaúcho, André "Cardoso" Czarnobai, é "o começo de uma cadeia evolutiva que termina no vocalista da Autoramas, Gabriel. O elo perdido entre os dois é o Alexandre Petillo (...)", mostrou-se um excelente frontman. Aproveitei para falar dessa história de elo perdido com o Gabriel e resolvemos montar uma banda, nós três, uma coisa meio Hanson. Aguardem.

Canções pop perfeitas como "A Garota Mais" e "O Plano Mudou" conquistaram a platéia. O Wonkavision já deveria estar tocando no rádio o tempo todo. Outro momento altíssimo da noite aconteceu quando a baixista, musa e miss simpatia Grazi deixou seu instrumento de lado e cantou uma versão bacaníssima da linda "Be My Baby", com um vestidinho vermelho fantástico. "Eu sabia que a Grazi cantando 'Be My Baby' tinha o seu apelo", disse Will depois do show. Canalha!
 
Grenade, de Londrina, em seguida. Com o ótimo "Out Of Body Experience", a banda desfilou belas canções na noite paulistana. O Grenade é outro que merece o já batidíssimo clichê: se tivessem nascido em Londres seriam uma das maiores bandas do mundo. Acho que não precisa dizer muito mais.

Com a responsa de abrir para um dos seus maiores conterrâneos, veio a Vídeo Hits. Estava com um ponta de ressentimento com o show da banda no Orbital. Como eu descobri que do alto do teatro, o vocal poderia ser ouvido, fiquei em um dos primeiros degraus. Show quase perfeito, com as backing cantando bem, com todos os integrantes tocando com tesão. O vocalista Diego Medina as vezes exagera demais no gritos, mas "Sentido Anti-Horário", "Cozinha Oriental", "O Basset Azul", e "Vo(c)" são excelentes canções pop. Divertem. 

E, para encerrar, a Graforréia Xilarmônica. Formada em meados dos anos 80 por Marcelo Birck, Carlo Pianta, Alexandre Ograndi e Frank Jorge, a banda se dissolveu em 96 porque estava com o saco cheio de ser queridinha de poucos quando na verdade mereciam ser ídolos das multidões. A volta foi apenas para o Upload, dando oportunidade para o público paulista de ver ao vivo um dos maiores nomes do rock independente. Fizeram tudo que não prometeram: tocaram os hits, pularam no chão, se divertiram, botaram a casa abaixo. Clássicos atrás de clássicos: "Amigo Punk", "Eu", “Nunca Diga", "Hare", "Grito de Tarzã", "Eu Gostaria de Matar Os Dois", "A Empregada"... Pelo menos nas três fileiras em frente ao palco todos estavam ensandecidos, com os olhos vermelhos. Fotógrafos não sabiam se cantavam ou batiam fotos.

Sem o consentimento da banda, a produção do Sesc desligou o som, porque já tinha passado do horário. Mas tinha faltado o clássico "Colégio Interno". Com os instrumentos desligados, a banda pediu silêncio total e mandou assim mesmo, quase que sussurrando. Final antológico. Pela primeira vez na minha vida, vi todos os presentes fazerem questão de organizar uma fila para abraçar os músicos. Existem relatos de pessoas que choraram compulsivamente. 



Tchu-ru-ru-ru e Sha-la-la-las

Upload – Dia 03

Por Alexandre Petillo


O terceiro dia prometia ter um bom público. Duas bandas consagradas de São Paulo, o Astromato e o Maybees tocariam. Os gaúchos da Bidê Ou Balde já radicados na capital paulista finalizariam a noite. No entanto graças à uma tempestade que desabou em São Paulo, pouca gente saiu de casa rumo ao Sesc Pompéia. 

Para variar eu cheguei atrasado. Mas por um bom motivo: preguiça. Dia chuvoso, domingo, pô, levantar da cama é trabalho de Hércules. 

Como a banda Noos não tocou, a programação foi antecipada e quando cheguei os veteranos do Kongo já estavam no palco. Pouca gente se dispôs a ver e confesso que o skazinho dos caras não me conquistou. Podem até terem anos de estrada, mas com a vulgarização dos filhotes de Skank e Cidade Negra, a banda não empolga nenhum pouco e à primeira orelhada parece banda de quiosque em beira de praia. 

 Em busca de uma cerveja, encontro o amigo Fernando Rosa, enciclopédia do rock e dono/editor do ótimo Senhor F (www.senhorf.com). Fernando me falou que o show do Faichecleres foi espetacular. Segundo ele, a banda passeia com desenvoltura pelo mod sessentista com toques de surf music. Se o Fernando falou, assino embaixo.

Mas já fiquei a postos na primeira fila para ver a sensacional Hang The Superstars. MC5 ressuscitou e renasceu em Goiânia, na casa do amigo Maurício Mota. O cara, aliás, roubou uma garota do colegial e a botou para cantar na banda. Rock furioso, empolgante, com os dois pés nas bandas de garagem dos anos 60. As músicas raramente passam de três minutos e a energia dos integrantes vem do que melhor pode sair de uma banda realmente autêntica e apaixonada por rock. Como o próprio Maurício define, "ao vivo, o Hang The Superstars seria uma pretensiosa mistura de Cramps, Motorhead e B-52's". E com muita competência, diga-se. No final, o onipresente Fabrício Nobre deu uma canja, cantando/gritando/rebolando. Sensacional. 

Em contraponto, o Astromato, de Campinas, saudou o público com as suas emocionantes rock-songs. Poucos na música nacional conseguem escrever boas canções tipicamente jovens como esses quatro caras. Conjunção perfeita e emocionante de música e letra, em pérolas como "Cadeialimentar", que não tocavam há muito, e para a minha alegria, tocaram no domingo. Fernando Rosa também delirou com "Através da Chuva", outra que há tempos estava afastada do repertório dos shows. Emocionante. O Astromato é outra banda que merecia, ao menos, ser alçada ao grande escalão do rock brasileiro. 
 
O Maybees entrou em seguida fazendo um show todo particular. Misturando músicas do primeiro álbum, homônimo, do segundo, Picture Perfect, e algumas inéditas, em português, o comentário nos bastidores é de que esse seria o último show da banda com músicas em inglês. Se foi, quem não viu, perdeu. Eles são ainda melhores ao vivo, aditivando as doces canções pop. O carisma da vocalista Vanessa conquista o público e a banda mostra-se cada vez mais entrosada no palco. Se existe uma banda que pode fazer com que grupos brasileiros cantando em inglês toquem no rádio, essa banda é o Maybees. Ou era o Maybees...
 
Para fechar, com chave de ouro, claro, um das preferidas da casa, sim, Bidê Ou Balde. Uma das maiores e melhores revelações do pop-rock brasileiro, queiram os chatos ou não. Energia, alegria, refrões poderosos e boas músicas. A Bidê tem um dos melhores shows, não adianta. A cada apresentação a banda expande o número de fãs e adeptos ao "Ame O Rock"

Começando com a já tradicional e instrumental "Lighting Bolt", os gaúchos atacam com "Vamos Para Uma Excursão", dona de um dos melhores refrões do rock nacional. Claro, cantada em coro pelos presentes. Sem se fazer de rogados, já emendaram seus maiores sucessos, na dobradinha "Melissa"  e "Buddy Holly". Loucura, loucura. 

Dedicada a este que vos escreve, "Matelassê" pede passagem. Pop dos melhores e hit certo se for gravada no próximo disco. Confesso que fiquei emocionado. "Private Idaho", dos B-52’s enche os alto-falantes precários do lugar e ninguém se cansa de pular. 

Para fechar, a potente "K-7", atiçando o pogo, com o vocalista Carlinhos abrindo caminho no meio da galera. Os "tchu-ru-ru-rus" e "sha-la-las" puxados pelas backings Vivi e Kátia demoraram a sair da cabeça. Banda impecável. 

Fim perfeito para três dias de boa música. Longa vida ao Upload! Com certeza, já vencedor. Se depender da gente aqui, será o Juntatribo do século 21. Até!