Bidê
ou Balde (Interview)
Por
Alexandre Petillo
A
Bidê ou Balde, please.
Me apaixonei por Melissa à
primeira ouvida. Foi o tipo de atração que só o rock
desencanado dos pampas pode oferecer.
Porque o rock paulista é sério
demais. Porque o rock carioca é metido a malandro demais. E o incensado
rock de Brasília é Renato Russo demais. Então, só
mesmo a garotada gaúcha foi capaz de absorver a essência do
rock'n'roll: diversão é o que interessa!
Cascavelletes, Replicantes, De Falla
(que já foi muito, mas muito mais legal), Graforréia Xilarmônica,
TNT, Acústicos e Valvulados – só para citar alguns – proporcionaram
grandes momentos em disco ao rock nacional. Infelizmente, para poucos ouvidos.
Longe demais das capitais, as bandas gaúchas acabaram sofrendo com
a dificuldade em distribuir e promover seus discos além das fronteiras
do Rio Grande. Sorte dos gaúchos, que viram Porto Alegre se transformar
na cidade mais rock do país. E, de longe, a mais legal.
Ano 2000, e a cena roqueira porto-alegrense
está em ebulição, com excelentes bandas como Tom Bloch,
Groove James, Vídeo Hits, e, claro, os nossos heróis, a Bidê
Ou Balde.
Ponta de lança da invasão
gaúcha ao inconsciente coletivo nacional, a Bidê Ou Balde
odeia rótulos, mas como sou teimoso vou adiantar: a banda faz aquelas
rock songs redondinhas, que caem bem tanto a noite quanto de dia, antes,
durante e depois da balada, enquanto namora, almoça ou toma banho
e, ainda, também naquela manhã cinza de Segunda . E claro,
te faz estampar um sorriso no rosto. "Melissa", o carro-chefe da banda
já está estouradaça em Porto Alegre, e a Bidê
Ou Balde já é a alegria do povo por lá. Para escolherem
o título do novo disco - que sai em agosto, pela Abril - foram distribuídas
várias cédulas de votação contendo os pretensos
nomes. O eleito, foi a opção "a" : "Se Sexo é o que
importa, Só o Rock é sobre Amor!".
O disco deve sair com treze ou quatorze
faixas. Paira no ar uma dúvida sobre a liberação da
versão em português que os caras fizeram para "Buddy Holly"
do Weezer. Rivers Cuomo, o líder da banda americana, ouviu e adorou.
Restam agora os trâmites burocráticos. "Bem, se não
rolar tempo, nós vamos tentar liberar ela depois, e usar em alguma
coisa, tipo trilha de novela das 7", diz Carlinhos, vocalista e fundador
da banda.
Em uma entrevista exclusiva, com Carlinhos
e Rossatto (guitarra e co-fundador) "porque nós não vamos
ficar liberando as nossas mulheres pra ti, meu caro", as cabeças
pensantes da novíssima grande banda do rock nacional mostram a cara
. Mostram a cara da banda que insiste em vangloriar artistas que têm
no começo de seus sobrenomes a letra "b": Bacharach, para Burt;
Bowie, para David; Barret, para Sid; Bukovski, para Charles; Balzac, para
Honoré de; Barreto, para Lima; e Bond, para James.
Scream &
Yell - O que é rock Sukita ?
Carlinhos - Quando nós
estávamos entrando no mp3.com, o Flu disse que tinha posto no tipo
de música dele “som pra cumê mulher”, ou algo parecido. Daí
ele disse que a gente tinha que botar “som de quem toma Sukita”. Isso porque
quando eu parei de beber, no ano passado, eu só tomava sukita, porque
eu tinha certeza que me faria tanto mal quanto a bebida. Daí quando
a gente saía junto, eu e o Flu, ele ficava tirando sarro da minha
cara, quando eu não encontrava sukita pra beber. Quando o André
(nosso baixista) me perguntou o que botar no estilo musical do mp3.com,
eu disse “Rock Sukita”. E ele pôs. Os refrigerantes de laranja (principalmente
a Sukita) tem uma cor tri new wave, né?! Nós chamamos o nosso
som de rock, simplesmente rock. Não importam os outros sobrenomes,
pra gente é mais fácil falar Rock. A gente diz “Ame o Rock!”,
que é o nome da nossa empresa, por enquanto imaginária, que
só funciona, atualmente, como distribuidora de releases: é
o Escritório Ame o Rock! de Distribuição de Informações.
Há também a paixão do Rossatto por Fanta uva. Segundo
ele, o Flávio Basso e o Frank Jorge se conheceram por causa da Fanta
uva e montaram os Cascavelletes, maior banda gaúcha de todos os
tempos.
SY - Quanto
tempo você passou no estúdio para gravar o novo álbum?
C - É difícil
dizer porque eu faço coisas o tempo todo e só depois é
que sento para organizar o que vou usar num disco. É um caos. Este
álbum foi feito no decorrer de três anos. Eu não separo
a minha vida do meu trabalho.
SY - Mais
uma vez, é melhor ir se acostumando com a pergunta, mas, me fala
sobre o começo da banda.
C - No começo, éramos
quatro: Eu, Rossatto, André e o Vini – o primeiro baterista. Eu
queria fazer a trilha sonora de um filme em super8, que eu ia dirigir (mas
que nunca rolou, talvez role esse ano). Mas no primeiro ensaio saiu cerca
de cinco músicas razoavelmente pop. Então, a partir do segundo
ensaio, resolvemos ser uma banda pop, sem nada de fazer algo que soasse
alternativo. A nossa vontade é mostrar para os outros, que aquilo
que a gente ouve (Beck, Blur, Butter08, Butthole Surfers ...) é
pop. Passar para o maior número possível de pessoas a emoção
que a gente sente quando eles cantam perto do nosso ouvido. Mais tarde,
resolvemos explorar a imagem da mulher (brincadeira), e convidamos a Katia
para entrar na banda, tocando teclados e cantando. No mesmo dia que a Katia
veio, o Vini disse que não mais poderia tocar, pois já tinha
uma outra banda. Daí chegou o Sandro Cavera, que era batera da antiga
banda do Rossatto, a JkbaK, da qual eu e o André éramos fãs.
Com ele a coisa começou a ficar mais dançante, por causa
da sua vontade de ser o Steve Shelley. Depois entrou a Gi, que era nossa
amiga e ia nos ensaios, então nós pedimos para ela entrar
na banda, e cantar com a gente. Por último entrou o Sá, que
filmou o nosso segundo show, e ia nos ajudar na primeira gravação
de “Melissa”. Agora, os 7 são: Carlinhos, Rossatto, Viv, Katia,
Sá, André e Pedro. O Pedro era amigo do Sá e do Rossatto,
de infância, e já tinha tocado com eles em outras bandas.
A Viv é encantadora e criativa. Vocês não acreditariam
nas coisas que ela é capaz de fazer com canudinhos, discos de vinil,
e tampas de garrafa de cerveja! O Sandro saiu por causa do trabalho dele,
em um gigante conglomerado canadense de telecomunicações.
A Gisele vai morar na Itália, parece que para trabalhar na RAI,
e nós ainda os amamos.
SY - O que
aconteceu com o projeto ganância?
C - O “Projeto:Ganância”
era o nome provisório do nosso disco. Apenas um estímulo
para a gravação e para a mixagem. Algo tipo: Se isso se chama
Ganância, não tem porque gravar mal esse disco, baixar os
vocais ou não sair as letras no encarte. Queremos que todos cantem
junto e entendam as músicas, né!?
SY - Ouvi
dizer que vocês vão trocar os "tus" gaúchos por outros
pronomes. "Tu" não acha que perde um pouco do charme das músicas?
Não é melhor o rock nacional se adaptar à Bidê
Ou Balde do que a Bidê Ou Balde se adaptar ao rock nacional?
C - Bem, o disco ainda está
cheio de tús e outras gauchices. O Refrão de Melissa ainda
é “Se tu quiser que eu te leve, eu aprendo a dirigir”, assim mesmo,
cheio de charme! O que nós fizemos foi filtrar um pouco a nossa
linguagem. Tinha coisa que nem o pessoal da banda entendia, imagina o pessoal
que ouvisse o disco! Pra mim, que sou o autor das letras, elas apenas melhoraram.
SY - Quando
eu estive aí em Porto Alegre, conversei um tempão com o Wander
Wildner, e ele me falou de uma certa postura dos artistas do sul em renegar
o resto do país, já que não vale a pena ficar "jabazando"
os jornais e as mídias daqui. Para ele, o importante era estourar
em Porto Alegre, fazer shows no interior e tal. Você concorda com
isso? Não é prejudicial tanto para o rock gaúcho como
para o rock nacional, que deixa de conhecer as grandes bandas gaúchas
como o Graforréia Xilarmônica, por exemplo?
Rossato - Cara, esse papo de
tocar só no sul não achamos correto, é legal, mas
nós queremos tocar no maior número de lugares possíveis,
se tem cara que curte o nosso som aqui, porque não no sertão
ou na Bolívia? Nós achamos que se o nosso som for escutado
em outros lugares teremos a oportunidade de conhecer gente legal e lugares
preza, então tem muito lugar para tocar, e queremos tocar em todos.
No sul tu fica muito restrito e depois é chamado de rock gaúcho
e nós somos apenas rock, desde quando rock tem sobrenome? Rock é
rock, mambo é mambo e pagode é merda!
SY - Como
são os shows da banda? Muita gente anda me dizendo que são
antológicos ...
C - A gente quase se leva a
sério nos shows. A gente tem um banner escrito “Ame o Rock!” atrás
da gente, e isso é lindo! Para nós é um momento glamouroso,
e é para isso que ensaiamos. O rock é algo chique e especial,
um show é feito para a banda chamar a atenção de seu
público. O fato de usarmos ternos e pularmos tanto quanto cangurus
no cio, deve chamar a atenção. Quer dizer, eu nem sei se
canguru pula quando está no cio. E, apesar de muitas coisas que
acontecem nos nossos shows serem instintivas, nós realmente somos
felizes no palco, e transmitimos isso para a galera. Nosso livro de cabeceira
é o “Mate-me, por favor”, não tínhamos por que fazer
diferente do New York Dolls. Daí a gente viu na TV um show do Beck
e disse “wow, queremos ser iguais a ele”. Depois vimos um show do Pulp
e pensamos, “Wow, eles são muito elegantes”. Nós somos muito
emocionados, e não tem como não se emocionar quando tu toca
com o André. Ele pula muito, até em ensaios! Isso é
o Rock! Ele é uma dose inimaginável de auto-estima. Se os
roqueiro podem, você também pode. E essas coisas não
devem acontecer com muita freqüência em shows de música
Celta, por exemplo. Pode até ser bonito, mas não é
uma coisa pela qual você gritaria, pularia, e até mataria
alguém. E os Hell Angels mataram aquele cara no show dos Stones,
né?!
R - Nossos shows têm
tudo que gostamos, Cara! nós crescemos ouvindo Cascavelletes, Ultraje,
Blitz, o que que tu acha que faríamos? Rock com vigor, rock sem
frescura, simplesmente rock, mas nós gostamos, conhecida essa frase,
né?
SY - Inclusive
parece que teve um show histórico, um baile de formatura?
C - Nós já tocamos
em duas ou três formaturas. Numa delas eu quase morri, depois de
ter dado um pulo e cair de mal jeito (quase batendo com a cabeça
nuns lances de metal). Temos tudo filmado. O mais legal foi que eu logo
me levantei (e fiquei ajoelhado), peguei na mão de uma menina que
estava na platéia, e continuei cantando a música (“A-há”):
“Aí eu comecei a cometer loucuras! Estou Jogado no chão,
desesperado pelo teu amor! (...)”. Algumas pessoas pensaram que eu tinha
caído de propósito, mas não. O grande lance é
que não é qualquer banda que tocaria em formaturas. Mas se
nós não tocássemos naquelas formaturas, iam contratar
uma banda cover ou algum sub-produto-de-pagode-com-alguma-coisa-tipo-reggae-de-cego,
então nós nos dispomos, pela amizade que tínhamos
com alguns formandos. No momento que a gente disse que nunca tocaria no
Garagem Hermética (o lugar que melhor recebe bandas de rock, mas
é underground), fizemos um pacto com o diabo. Ele nos diria aonde
nós encontraríamos lugar para tocar. E nós fomos atrás.
Não queríamos ficar apenas no Garagem, como muita banda boa
acaba ficando. Agora, tem mais gente pensando em ir atrás do show,
do público. Assim, mais gente tá vendo o rock que é
feito aqui e as rádios falam mais das bandas daqui. Cagada nossa.
Nós devíamos ter ficado calados e não mostrar para
ninguém o que o Príncipe das Trevas havia nos ensinado.
SY - A Bidê
ou Balde está pronta para o sucesso?
C - Estamos preocupados com
a sedução das drogas, mas não cogitamos a hipótese
de sucesso imediato. Nós trabalhamos bastante até agora,
e acho ainda temos que trabalhar muito.
SY - E o
que vocês acham desse auê todo em cima da banda? Revistas,
fãs ...
C - Quanto a isso, nós
achamos o novo disco do Sonic Youth tri bom!
SY - Quando
sai o disco ? Já chegaram a um resultado final quanto ao título?
C - O disco vai sair só
em agosto e vai se chamar "Se Sexo é o que importa, só o
Rock é sobre amor!"
SY - Pensaram
em alguma coisa especial para os shows de lançamento do disco? Já
estão pintando shows em outras regiões do país?
R - Estamos pensando ainda,
nada definido sobre coisas especiais, mas vai ser a nossa cara, o neguinho
compra o disco e sabe que o vai ver, não terá surpresas como
muita banda armada por aí. E sobre shows no resto do país,
temos coisas para São Paulo e Rio de Janeiro, mas não sabemos
as datas, aguardem que será bacana com o B da palavra, Beijos e
Amem o Rock! |