Mini Lee 
de Fábio Bianchini

Capítulo 1

Mini acordou cedo, mais até do que esperava. Telefone tocando. Seis da manhã lá é hora de ligar pros outros? De qualquer jeito, não fazia grande diferença. Dali a pouco era hora de trabalhar, então não custava nada largar esse tipo de reflexão matinal e ir logo atender o dito, mesmo porque a história tem que ir pra frente duma vez.

- "Parabéns, guri. Eu sabia que vocês iam chegar lá. Sempre coloquei fé nos Walverdes"
- "Puxa... obrigado. Nem sei o que dizer. Obrigado mesmo"
 
Quem é esse cara? Parabéns a uma hora dessas? Por que? Bah, que se foda. Foi pro banho. Ah, sim. Já mencionei que era dia 24 de julho de 2001? Levando em conta o tempo do telefonema-despertador e mais uns preparativos, eram seis e quatorze quando ele entrou no chuveiro. Seis e dezessete toca o telefone de novo.
 
- "Parabéns, guri."
- "Errr... obrigado."
- "Os Walverdes não deixam de me dar orgulho"
- "Cara, obrigado mesmo, mas agora eu tô encharcado, tenho que desligar”"
- "Tudo bem. Mas saiba que eu fico contente de ser o primeiro a dar os parabéns"

Lógico, Mini não discutiu. Ninguém naquela situação pararia pra explicar que não, porra, ele não era o primeiro a dar os parabéns. Não era preciso sapiência budista pra perceber que seria uma péssima idéia.

Parabéns por que? O entusiasmo do segundo parabenizante era ainda maior que o do galo madrugador. Bom, fazia sentido. Roqueiro velho de guerra, pra não dizer dinossauro setentista, o cara devia estar ainda acordado, não já. Aliás, no caso dele, sempre era ainda e nunca já. Mas o que podia ser? Será que ele tinha levado a sério quando Mini falou, só pra aparecer, que Led Zeppelin era legal? Mas e o primeiro telefonema?

Foi pro trabalho matutando tudo isso. E os cumprimentos não paravam. Até o ascensorista do prédio da agência. Já tinha recebido mais elogios do que quando recebera o prêmio pelo anúncio do café com leite em pó.

Chegou na sua mesa e foi ler seu 1999, como todo dia. Reclamou da entrevista da Rita Lee na página central, mas acabou lendo. Foi aí que viu, não no título nem no olho, mas no meio duma daquelas declarações que ficam em destaque pelo meio da página: "a minha banda brasileira preferida são os Walverdes". 

Caralho. Só faltava essa.

Capítulo 2

Mini ficou cinco minutos olhando inerte praquilo. Não conseguia mais nem ouvir os cumprimentos. Banda preferida da Rita Lee. Os Walverdes, banda preferida da Rita Lee. No passado, jurara que a banda terminaria se isso acontecesse. Mas estava de brincadeira, tinha dito isso vendo a balzaca elogiar os Raimundos, não imaginava nem de longe que pudesse acontecer com ele. Elogio da Rita Lee é que nem assalto ou câncer: a gente sempre acha que é só com os outros, até que nossa hora chega.

Que horror. Começou a passar mal e pediu pra voltar pra casa. O chefe riu, fez uma piadinha sobre ser coisa de rockstar e liberou. Depois, Mini passou o resto do dia tentando dormir, mas era impossível. Quando, a muito custo, conseguia fechar os olhos, via centenas de Ritas Lees de várias fases, cercadas por Robertos de Carvalho, Carlinis, Cássias Ellers e Gilberto Gis, todos cobrindo-o de bajulações.

Pensou em correr para o templo, mas estava com medo de sair na rua. Mais um cumprimento ou elogio causaria um colapso nervoso. Preferiu ficar meditando em casa, tentando acalmar-se e obter um mínimo de autocontrole.

Ao fim da tarde, bem mais tranqüilo, conseguiu comer e ir assistir televisão. Estava tão disposto que até tirou o volume do zero quando viu a cara do Caetano Veloso, só pra ouvir o que ele dizia.

"... e depois que Rita me mostrou o disco dos Walverdes, eu me senti revigorado. Fazia tempo que eu não ouvia uma banda ser tão verdadeira, moderna, sincera, antenada e revigorante. E o vocalista é de uma sensualidade ímpar. Eles são o que há de melhor na jovem música popular brasileira. Amei."

Capítulo 3

Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Caetano não. Tudo menos Caetano. Mil vezes não. Mini começou a sentir-se enjoado. Caetano Veloso fazendo loas aos Walverdes na TV. Foi pra isso que ele passou tanto tempo tocando? Todos aqueles discos do Who e do Mudhoney... pra acabar nisso?

Não sabia o que fazer. Pior, sabia. Só a idéia já lhe dava enjôos, mas era a única saída. Ia acabar com os Walverdes. Telefonou para Guaramirim, onde Gian, Marcos e Bruno - os outros integrantes da banda - estavam tocando com Wander Wildner. Tinha que comunicar-lhes imediatamente sua decisão. Sabia que a angústia seria ainda pior se esperasse. A recepcionista do hotel atendeu e explicou a Mini que “os rapazes da banda saíram pra procurar umas torradas”. Nosso herói achou aquilo meio esquisito, mas deixou recado pedindo que eles retornassem a ligação.

Vinte longos minutos depois, toca o telefone. Antes de atender, Mini segura o fone, criando coragem para dizer o que deve ser dito. De repente, levou o fone para perto do ouvido. Respirou fundo, fechou os olhos e despejou:

"Gian," - sempre era Gian que retornava as ligações de Mini – "não dá. Vamos ter que acabar com isso. Eu sei que é terrível, mas.."
"Gian? Que Gian? Aqui é a Regina Casé"
"Regina Casé? Escuta, é convenção de malas? Tu também vai sair dizendo por aí que Walverdes é tua banda preferida?"
"Que banda preferida o que, garoto. Pelo menos, ainda não é. Eu nunca ouvi, mas Caê falou que é bom, então resolvemos incluir vocês no Muvuca."
"Como?"
"É, vocês estão muito bem cotados. Vai ser um quadro superbacana. Vocês e a Daúde tocando uma música de vocês debaixo duma varanda, pra Rita Lee, que vai estar lá em cima. Como uma serenata."
"Como é que é?"
"É. Aí é que vem a melhor parte. Vocês tocam aquela música que fizeram pra Cláudia Liz quando ela ficou em coma, só que com a letra modificada. Fica assim, ó: ‘Rita Lee, Rita Lee, o mundo é logo ali com Rita Lee’. Ou então ‘o mundo é mais feli com Rita Lee’. Esse erro fica superbacana, dá aquela coisa povão. A coisa da mistura cultural."

Clic

Capítulo 4

Mini juntou todos seus contatos na imprensa porto-alegrense e deu um jeito de marcar uma entrevista coletiva. Já tinha tudo decidido: não ia tocar no nome da Rita Lee em momento algum. Não daria a ela essa satisfação, essa sensação de poder. O álibi perfeito para o fim dos Walverdes seria o sucesso de sua música solo, "Odissey". Era só dizer que preferia dedicar-se às gravações caseiras, já que os compromissos com Wander tomavam quase todo o tempo de Gian, Marcos e Bruno, que ainda por cima tocavam a Chulé de Coturno. Nada melhor que atribuir as coisas ao tempo. Ou à falta dele.

No dia da famigerada coletiva, Mini precisou passar horas se concentrando e meditando. Sabia que estaria mentindo, não apenas nos motivos para o fim da banda. A própria idéia de acabar com os Walverdes lhe parecia tão absurda que sentia-se um farsante nisso também. Mas era só lembrar da Rita Lee que tudo ficaria mais fácil. “Se não conseguir, pense na Rita Lee”. Entrou na sala de imprensa.

Ficou pasmo com o que viu. Não havia repórteres. Apenas garotos e garotas, muitos deles. Suas roupas eram esquisitas: um misto de bicho-grilice com camisetas dos Walverdes.

"Mas o que está acontecendo aqui?"
"Ah", respondeu um deles, "é que a gente viu aquele pessoal falando bem dos Walverdes e fomos ouvir. Achei legal. Bem mais até do que Caetano e Rita Lee. Aliás, pra te falar a verdade nem agüento mais ouvir Caetano e Rita Lee. Meu negócio agora é Mudhoney, Gas Huffer, Pavement, Teenage Fanclub e Nirvana. Até queimei as fitas dos filmes do Glauber que tinha lá em casa."
"E que filmes tu vê agora?"
"Só Hal Hartley, Kevin Smith e James Cameron".

Mini achou tudo aquilo esquisitíssimo. Muito esquisito mesmo. Mas gostou. De um jeito esquisito, mas gostou. Acabou dizendo que a entrevista era pra anunciar a volta dos Walverdes aos palcos. E nem mencionou a possibilidade, agora já afastada, do fim da banda.

Hal Hartley e James Cameron? Que coisa.

Capítulo 5


Os shows seguintes dos Walverdes foram um sucesso que eles nunca tinham conhecido. Sempre lotação esgotada e público ensandecido. Até as matérias nos jornais eram mais freqüentes.

Até que Rita Lee foi tocar em Porto Alegre e chamou os Walverdes pra abertura do show. A primeira reação foi agir como no episódio da Regina Casé e bater o telefone na cara. Mas não. Resolveram fazer piada. Pediram um cachê absurdo, que daria pra finalizarem as gravações do seu novo disco e fabricar o CD, já com a capa. A produção da Rita Lee aceitou. 

Os Walverdes não esperavam por isso. Era pra ser uma piada, diabos. Era pra produção ter soltado impropérios cobertos por dezenas de ponto de exclamação, fornecendo assunto pra horas de piadinhas. E aí a Rita Lee vai lá e diz que paga o que eles pedem.

Toparam. Afinal, o dinheiro viria a calhar e poderia ser divertido.

Quando chegou o grande dia, passaram as duas horas anteriores ao show ouvindo o Acústico MTV da Rita Lee, só pra aumentar a raiva. E entraram em cena loucos pra tocar mais alto do que nunca, loucos pra espantar o público. Não conseguiram. O público já começou nas mãos deles e adorou. Foi o melhor show da carreira dos Walverdes. Todo mundo sabia as letras. Todo mundo pediu bis.

Mas a surpresa maior veio depois: assim que os Walverdes deixaram o palco, a maioria da platéia começou a ir embora. Quinze minutos depois, restava meia-dúzia de gatos pingados pra ver Rita Lee, que ficou furiosa. Acusou os Walverdes de conspirarem contra ela e esbravejou: "são uns garotos irresponsáveis que não merecem fazer parte da MPB".

Mini era um cara que disfarçava, mas gostava de finais felizes.

FIM



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