A Carta
de Fábio
Bianchini
Capítulo 1
Arnaldo irritou-se
quando apanhou a correspondência naquela tarde de 3 de abril de 2002.
Não havia nada de diferente: conta do cartão de crédito,
corrente do tipo "passe essa mensagem para dezoito pessoas e tenha cinco
anos de sorte", uma carta da gravadora, esse tipo de coisa. O que mais
incomodou foi a carta da gravadora. Não que ela trouxesse notícias
ruins ou algo assim. Era apenas uma carta de felicitações,
informando que Bolacha, seu último disco, chegara às
cem mil cópias vendidas.
E era esse o
problema. Não as cem mil cópias, mas a carta. Se fosse uma
carta demitindo-o da gravadora, ou acusando de qualquer espécie
de crime, seria igual. O mesmo formato, a mesma cara. Só saberia
lendo. "Uma carta de felicitações", pensou Arnaldo, "só
se diferencia dum calhamaço de ofensas quando é bem de perto".
Isso não fazia sentido. Por que a circular do colégio informando
sobre mudança do uniforme, as felicitações da gravadora
e a uma carta avisando do fim do mundo são iguais? Só muda
o texto e nem tanto assim.
Passou a mão
no telefone e ligou pra gravadora.
"Alô.
Aqui é o Arnaldo Antunes."
"Olá,
boa tarde. Tony falando."
"Peraí.
Eu conheço essa voz."
"Claro que
conhece. A gente tinha uma banda juntos, lembra? Quer dizer, até
que tu resolveu sair."
"E como é
que tu foi parar aí? Tá trabalhando de telefonista?"
"Pois é.
As Quinze Mais não vendeu nada e ainda por cima acusaram
a gente de oportunismo, olha que absurdo. Só porque regravamos o
disco em italiano do Renato Russo com bases de drum’n’bass e forró.
Aí foi tão feio o negócio que eu vim parar aqui. Até
que não me dei tão mal. Pior foi o Nando, que foi reprovado
nos testes pra entrar no Nativus e no Cidade Negra."
"Ah, certo.
Bom, o negócio é o seguinte: eu quero reclamar dessas cartas
padrão da gravadora. Por que elas são todas iguais?"
"Como assim,
iguais?"
"Porra. É
tudo igual. A morte do dono e um disco de platina seriam informados numa
carta igual, só mudando o texto. Graficamente falando, são
iguais. E isso é um absurdo".
"Mas é
evidente que são iguais. Por isso é que o nome é carta
padrão."
"Padrão,
ora, padrão. Meu pai, meu padrão. Eu sou artista, cacete,
não tô aqui pra ficar indo atrás de padrão."
"Mas nós
estamos. E se estiver achando ruim, telefona pra ABNT. Eles é que
estabelecem essas coisas".
Arnaldo sentiu
o deboche e irritou-se ainda mais. ABNT, é? Pois Tony e a gravadora
que aguardassem. Não perderiam por esperar.
Capítulo 2
"Associação
Brasileira de Normas Técnicas, bom dia"
"Eu tenho uma
reclamação a fazer"
"Reclamação?
De que espécie?"
"É que
hoje eu recebi uma carta da minha gravadora e..."
"Gravadora?
Quem está falando?"
"É o
Arnaldo Antunes"
"Ah, bom. Escute,
se os seus discos não vendem direito, reclame com o produtor, não
com a gente"
"Meu disco
tá vendendo bem! Era uma carta de felicitações. E
esse é que o problema. Poderia muito bem ter sido uma carta de demissão"
"Como assim?
O senhor esperava que seus discos não vendessem nada e está
reclamando agora que venderam? Queria sacanear a gravadora e não
conseguiu? Por acaso a gente parece consultoria de sabotagem?"
"Não
é isso. Eu tô feliz que meu disco venda bem"
"Então
por que tá reclamando da carta? Artista é tudo assim ingrato?"
"Ingrato?"
"É.
Eles te mandam uma carta de felicitação e fica revoltadinho.
E ainda vem ligar pra nós, que não temos nada com isso. Aposto
que você quer é sair por aí dizendo que o disco tá
vendendo bem, aí finge que é reclamação só
pra ter como tocar no assunto"
"Escuta, minha
reclamação é outra. Meu disco vendeu bem, o que me
deixa feliz. E deixa a gravadora feliz também, tanto que eles me
mandaram uma carta de felicitação. Receber cartas de felicitação
me deixa feliz, a princípio. E nesse caso também. O que me
incomodou foi a forma em que a carta tava escrita. Não essa, mas
todas as cartas. Por que tudo tem que ser assim padronizado? A carta transmitiria
muito melhor seu conteúdo se não fosse tão fria graficamente
falando. Olhando de longe, o monte de letrinhas espalhados no papel é
sempre igual. Seja pra uma carta de felicitações, seja pra
um obituário. Isso é um absurdo. Deveria mudar"
"Ah, então
o senhor quer dar sugestões? Sinto muito, mas só as aceitamos
de sócios"
"Sócios?"
"Sim, sócios"
"Vocês
têm sócios?"
"Escuta, pra
onde o senhor ligou?"
"Pra ABNT"
"E o que essas
iniciais significam?"
"Associação
Brasileira de Normas Técnicas"
"Então.
Associação. Associação tem sócios, qual
o mistério?"
"E como eu
faço pra ser um sócio?"
"É só
passar na nossa sede social, leva três fotos 3X4, preenche os formulários
e paga a taxa de inscrição, de duzentos reais. Depois a mensalidade
é de cem reais por mês. Ah, mais uma coisa: se eu fosse o
senhor, viria numa terça ou quinta de manhã. São os
dias em que o Dr. Monteiro está aqui, para fazer o exame médico
da carteirinha da piscina. Além de dar sugestões sobre normas
técnicas, o senhor poderá utilizar da nossa piscina olímpica,
da quadra polivalente, da cancha de bocha e das churrasqueiras, que ficam
na sede campestre. Poderá freqüentar na sede social o salão
de baile, a boate, o cabeleireiro e, claro, a sauna relax, que ninguém
é de ferro"
Capítulo 3
Na manhã
da quinta-feira seguinte, lá estava Arnaldo. Pagou todas as taxas,
preencheu os formulários e foi pra fila do exame médico.
De sunga, já que tinha vergonha de ficar de cueca ou pelado. Sem
maiores problemas ou frieiras, foi admitido na ABNT, com sauna relax e
tudo.
Logo nas primeiras
reuniões e eventos sociais, começou a reclamar da carta.
Aquela, a carta padrão da gravadora. Além de alguns tapinhas
nas costas por ter vendido tanto disco, não conseguiu muita coisa.
Como o período eleitoral estava chegando, resolveu partir para uma
ação mais drástica: candidatou-se a presidente da
ABNT.
Com o slogan
"contra o vício do ofício", a campanha tomou proporções
inesperadas. Arnaldo queria apenas chamar a atenção para
sua maior reivindicação, mas em pouco tempo viu que suas
pretensões eleitoreiras poderiam levá-lo à presidência
da casa. Não foi tão simples assim: Monteiro, o candidato
conservador, cansou de acusá-lo de ser uma anarquista que enlouqueceria
as regras e aboa conduta dos textos oficiais. Mas não teve jeito,
já que o status de artista de Arnaldo fez toda a diferença
e ele foi o vencedor.
No dia da posse,
secretárias e estagiários de todo o país esperavam
ansiosos pelo que poderia estar por vir. Pela primeira vez, a cerimônia
era transmitida pela TV. Arnaldo subiu ao púlpito de posse e anunciou:
"a hora da mudança chegou. Os textos preguiçosos têm
os dias contados".
Capítulo 4
As mudanças
de Arnaldo causaram polvorosa nos meios escritoriais. Foram introduzidos
4517 estilos de texto, formatação, documentação,
tamanho e formato de papel e grafia, que variavam de acordo com o teor
do escrito, a personalidade do autor, a urgência do assunto, a reação
esperada e o estado emocional. E cada texto deveria conter pelo menos um
anagrama da palavra-chave do ofício.
Por exemplo,
supondo-se (só supondo-se, ninguém tá afirmando nada,
é só ficção) que Caetano não tivesse
talento algum e alguém fosse escrever uma carta notificando-o disso:
as letras L teriam que ser escritas ao contrário (para indicar aviso),
as linhas pares teriam que ser alinhadas à esquerda e as ímpares
à direita (pra indicar autor sincero), as linhas múltiplas
de 3 deveriam ser em corpo muito maior que as outras (pra indicar urgência
máxima), a cada oito palavras deveria ser intercalado um POFT! desenhado
em amarelo, (indica que espera-se um piti lamentável) e papel em
forma de losango (pra indicar saco cheio). E, claro a expressão
"fudera", por mais feia que pudesse ser, deveria constar, pelo menos uma
vez.
No começo,
tanto detalhismo alegrou as secretárias, pois aumentou bastante
a oferta de empregos. O trabalho que antes era feito sem emoção,
de modo frio, tornava-se artesanal e levava um tempão. "Todos são
um pouco artistas", comentava Arnaldo, orgulhoso de sua obra. Mas aos poucos,
a comunicação nas empresas e até mesmo entre pessoas
e empresas, sem contar os trabalhos escolares e acadêmicos, tudo
tornou-se um caos. Ler uma simples notificação era mais complicado
do que entender Ulysses. E escrever era ter que elaborar um poema concreto
a cada vez. Os patrões começaram a preferir transmitir suas
ordens por telefone. A revolta contra as normas de Arnaldo começava
a tomar conta do país. Só que ninguém podia fazer
nada contra ele, que se elegera legalmente e criara as modificações
com a melhor intenção possível.
Pra complicar
ainda mais, as novas eleições já chegavam (é,
o tempo passa rápido) e a oposição prometia chegar
forte ao páreo.
Capítulo 5
No dia da eleição,
Arnaldo surpreendeu a todos. Alegou que as campanhas eleitorais tornavam-se
agressivas demais e que não havia segurança para os eleitores.
E suspendeu a votação, prometendo organizar outra assim que
houvesse normalidade. A ABNT nunca vira nada igual. Os candidatos da oposição
indignaram-se e saíram recrutando gente para a revolução
que armavam e que mais tarde ficou conhecida como o Levante do Secretariado.
A sede da Associação
estava caótica. Clipes, grampos e toda espécie de material
de escritório eram arremessados pelas guerrilhas e pela contra-revolução,
com o auxílio de elásticos e réguas. Era quase impossível
transitar ali sem levar pelo menos uma bolinha de papel na cabeça.
Grupos terroristas prendiam rabos de clipes nas calças de quem passava
por ali e torturavam office-boys, mandando-os apanhar tinta xadrez, máquinas
de escrever em inglês, carbono pautado e papel redondo pra ofício
circular.
Quando a situação
parecia mais insustentável, Arnaldo convocou uma entrevista coletiva.
A intenção era anunciar as novas datas da eleição,
à qual não concorreria. Mas não houve tempo. Antes
que começasse seu pronunciamento, um contínuo entregou-lhe
um envelope. Dentro, a carta que anunciava sua deposição
e a formação de uma comissão de gestão transitória,
com plenos poderes e cujo primeiro ato era fechar o parlamento da ABNT.
Nada disso chocou
tanto Arnaldo quanto o formato da epístola: uma carta padrão.
Daquelas que só de muito perto dá pra ver se é o anúncio
da vitória ou a notificação da deposição
de um presidente.
FIM
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