The Way
I Feel Today – Six By Seven (Sum Records)
por
Diego Fernandes
d13g0_freejazz@yahoo.com.br
A era do código
binário cobrou um preço alto ao ser humano. Toda sua informalidade
e sofisticação contribuíram para que o homem desenvolvesse
uma mórbida propensão a se parecer cada vez mais com um invólucro
vazio e meramente funcional. P: como reverter isso?
O escritor americano
Chuck Palahniuk deu sua sugestão (um tanto extremada, diga-se) ao
escrever o romance niilista "Clube
Da Luta", o mais próximo de um "On The Road" que a Geração
X teve: retorno aos primórdios, menos é mais, honre seus
instintos. Soque. Grite. Corra. Arranque sangue. Essas coisas.
Embora "Clube
Da Luta" tenha sido lançado em 1995 (bem antes do surgimento do
termo 'neo-ativismo') e se tornado um dos grandes livros da década
passada, agora, nos anos 00, algumas bandas parecem estar oferecendo o
equivalente musical a essas práticas, fazendo uso de guitarras saturadíssimas
e uma carga emocional que, por si só, parece embebida em espessa
microfonia. McLusky
(do Pais de Gales), ...And
You Will Know Us By The Trail Of Dead (dos EUA), o quase-hype injustamente
esquecido Girls Against Boys (também dos EUA, uma "bass band", se
é que isso existe) são os nomes mais sintomáticos
desse movimento não organizado.
Agregando influências
homogeneamente (Fugazi, Sonic
Youth, My Bloody Valentine, Ride, Spiritualized mais a melancolia típica
do pós-punk britânico), o Six By Seven é mais um nome
a ser incluído na lista – talvez como cabeça-de-chave. Aliás,
coincidência ou não, o grupo chegou a se apresentar com Trail
Of Dead, Girls Against Boys e o não menos barulhento Mogwai.
Originária
de Notingham, Inglaterra, a banda lançou dois álbuns empolgantes
(o mezzo pós-rock "The Way I Feel Today", de 1998, e o mezzo-punk
"The Closer You Get", de 2000, ambos com edição nacional),
e atingiu ponto de fervura em seu terceiro e mais recente álbum,
"The Way I Feel Today" -- um dos álbuns lançados este ano
que efetivamente merece a classificação de DISCAÇO.
SEGUNDO A LENDA,
"The Way I Feel Today" foi gravado inteiramente ao vivo em estúdio,
todas as músicas em takes únicos, sem a inserção
de um mísero overdub na mixagem final – o que é apavorante,
dada a alta combustão alcançada pela banda. O vocalista/guitarrista/frontman
Chris Olley é um sujeito híbrido, seja no visual (um misto
de Andrew Beckham com Tyler Durden) seja em sua versátil vocalização
-- imagine algo como Thom Yorke tentando cantar feito Iggy Pop. E o desgraçado
parece ter uma alma amarga feito bile.
Antes de qualquer
outra coisa: "I. O. U. Love" é uma das músicas mais belas
e estupidamente emotivas do ano. Embalada por um órgão que
parece emular o trinado de uma flauta (aliás, é necessário
dizer que, desfalcados do guitarrista Sam Hempton, que abandonou a banda
durante a turnê de "The Closer You Get", o piano de James Flower
se destaca e confere um diferencial tocante às composições
da banda). "Você é o átomo que iniciou a vida, você
é a liga do universo, a cada mil anos tomo novo fôlego, você
é cósmica, e eu te amo", tudo isso numa moldura sonora que
remete ao melhor do som produzido nas ilhas no início da década
passada.
Abrindo o disco
com viradas de bateria deslocadas e um piano altamente emotivo, "So Close"
expele versos torturantes ("Noite passada achei ter ouvido você /
Caminhando porta adentro / Bem, você e eu parecíamos tão
belos / Que isso deve ter sido um sonho") antes de mergulhar em distorção
abissal.
"All My New
Best Friends", agridoce e acústica, lastima o cinismo de nosso tempo
com leve ironia, remetendo ao Radiohead
bem menos psicótico de outrora, ainda sem os pés fincados
no pós-rock. Mal a faixa acaba, Olley já chega se esgoelando
em "Flypaper For Freaks", um esporro virulento, caótico e traiçoeiro:
"Nunca te prometi merda nenhuma / Nunca te prometi nada / Nós nunca
celebramos meu velho coração negro [...] Nunca te prometi
que rock’n’roll alguma dia seria algo bom". Guitarras em profusão,
amplificadores trincados em fúria.
"Speed Is In,
Speed Is Out" cola em seguida, cadenciada, guitarraços da escola
80’s americana. "Karen O" parte de um seqüenciador primitivo e vai
adicionando camadas e camadas e camadas de guitarras e distorção
sobre o vocal algo perdido de Olley ("Doce Karen O, ainda te amo / Tudo
que
você quiser, tudo que você quiser / Olhe à sua volta
e me diga o que vê / Edifícios são só pilhas
de tijolos / Feito eu e você"). "American Beer" gravita sob o teto
baixo de alguma praia perpetuamente nublada, em uma tensão enervante.
A faixa-título
é shoegazer puro: lenta, pesada, guitarras alçando vôo
lentamente. Os versos entregam o sentimento de auto-repulsa que permeia
todo o disco: "Paz e amor pertencem a algum outro lugar / O modo que me
sinto hoje, é sua culpa / Estou me despedaçando, estou paranóico,
meio louco / E o modo que me sinto hoje / É por sua causa").
"Cafeteria Rats"
é excesso glorioso, um redemoinho de guitarras que faz o possível
para destruir o modern way of life em grande estilo ("HE’S A FUCKING DISGRACE").
"Bad Man" encerra tudo com Olley reduzindo sua auto-estima a escombros
("Tenho sido um homem mau, toda minha vida [...] Deixei um gosto especial
/ Em uma boca especial / Deixei uma irmã ir para o inferno / Deixei
uma mãe perder o filho / Tive todo tempo necessário para
nadar ao redor dos destroços"). Finito.
Querem uma
definição enxuta para o som da banda? Noise? Não,
o som tem passagens por demais melodiosas. New-shoegazer? Não, por
vezes o som é visceral demais. Anti-Oasis? Hmm...
Nah, vou com
os bretães mesmo: bloody brilliant.
Diego Fernandes,
21 anos, nunca tirou uma foto seis por sete. |