Entrevista
- Finis Africae
por
Evandro Marques
marquesb@ig.com.br
Colaboração
de: Mônica Hortolan
monikasp@terra.com.br
Brasília, o ano é 1984.
Enquanto outras bandas já faziam algum sucesso fora da Capital do
país, Finis Africae surgia. Com um som que diferia de todo o movimento
que por lá percorria, misturando um som mais dançante e melódico.
Um ano mais tarde, em 1985, o grupo já emplacava hits como "Van
Gogh" e "Ética" despertando interesse da crítica no eixo
Rio-São Paulo, e logo em seguida o disco independente pelo selo
Sebo do Disco, o homônimo Finis Africae é lançado.
Logo um outro grande hit estoura: "Armadilha".
Em 1989 a banda se dissolveu e cada
um seguiu seu caminho...
Dez anos depois a saudade era imensa
e o grupo resolveu reunir-se novamente para um show em comemoração
aos 15 anos de formação do Finis Africae. O resultado do
show surpreendeu até mesmo os integrantes do grupo, que viam meninos
e meninas de 15 a 20 anos pedindo e cantando os sucessos da banda como
"Deus Ateu" e "Ética" e o resultado foi a gravação
de um CD ao vivo, resgatando os maiores sucessos da banda mesclando também
algumas novas canções.
O S&Y entrevistou o sempre atencioso
Eduardo de Moraes, vocalista do grupo, que nos contou histórias
da Turma de Brasília, o relacionamento da banda com os fãs,
os planos do Finis Africae para o futuro e é claro, tudo sobre o
novíssimo CD. Confira abaixo a entrevista completa:
S&Y
- Quando o Finis Africae surgiu, a "Turma" de Brasília já
estava praticamente dissolvida, a Legião Urbana já estava
gravando seu primeiro disco e outras bandas já tocavam fora de Brasília.
Qual foi o contato de vocês com a Turma?
Eduardo Moraes - É verdade,
mas nós já andávamos com o pessoal antes da banda
surgir, aliás andar com eles e ir aos shows foi, entre outras coisas,
o que motivou a formação do grupo. Eu é que era mais
próximo da "turma", o resto do grupo os encontrava mais esporadicamente.
No livro "O
diário da turma" do Paulo Marcheti aparecem algumas fotos e
diversos depoimentos contando as estórias dessa época. Eu
assisti muitos ensaios do Capital
Inicial na casa do Fé lá no Lago Norte, cheguei até
a substituir o Dinho num ensaio, uma vez que ele ficou gripado. Loro Jones
era meu vizinho e eu costumava a dar carona para ele voltando das baladas.
Um dia ele falou: 'Vou montar um grupo para você cantar' e surgiu
Os Virgens, que contava também com o José Flores do Finis.
Nesse tempo o vocalista do Finis era o Rodrigo Leitão. Nessa época
havia um sentimento de comunidade muito grande. As pessoas gostavam de
tocar com as outras. Tinha gente que tocava em três grupos diferentes.
Era muito legal.
Ainda existe
algum relacionamento com as bandas brasilienses ou com a Turma?
Aqui no Rio eu encontro freqüentemente
o Felipe Seabra da Plebe Rude, aliás chegamos a dividir um apartamento
por um curto período depois que ele voltou dos EUA. Negrete (Legião
Urbana), tocou conosco dois meses. No ano passado desenvolvemos o projeto
Rock Federal, exatamente homenageando as bandas de Brasília, fizemos
uma temporada de 1 mês no Ballroom no Humaitá. Foi ótimo!
Todos os shows tinham no mínimo dois músicos convidados.
Tocaram conosco o Ameba (Plebe Rude), Arnaldo Brandão (ex Hanói
Hanói), Cascão & Babu (Detrito Federal), Marcelo
Hayena (Uns & Outros) e outros.
Mas hoje em dia não rola mais
aquela estória de ter um point da turma ou coisa parecida. Pelo
menos não aqui no Rio.
E como surgiu
e como foi essa parceria com o Negrete?
Pois é, o Renato Rocha (Negrete),
morava em Barra de Guaratiba e eu me amarro em comer caranguejo. Um dia
fui até lá e quando saí do carro dei de cara com ele.
Foi simplesmente inacreditável. Antes dos Virgens eu tive um grupo
com ele: "Hosbond Kama", era um power trio, que também contava com
o Totone na bateria. Fazia doze anos que eu não via nem tinha nenhuma
notícia sobre o Renato. É claro depois de alguns minutos
de papo pintou aquele: e aí vamos levar um som? Fui na casa dele
ele me mostrou o novo trabalho dele, Cartilagem, e ficamos de se ligar.
Nós íamos fazer um show no Meli Melo na Lagoa Rodrigo de
Freitas e o nosso empresário tomou a liberdade de passar essa nota
para imprensa. Conclusão: uma semana antes do show saiu uma matéria
no jornal com a foto dele (Renato) e a notícia da participação
dele no show. Fui correndo na mesma hora até a casa dele e no outro
dia já estávamos ensaiando. Renato é um super músico
e uma pessoa maravilhosa, mas estava muito magoado com os outros ex-integrantes
da Legião e freqüentemente em entrevistas dava suas alfinetadas
nos ex-companheiros. Ficou uma situação delicada para nós
do Finis que não comungávamos das mesmas opiniões
dele à esse respeito.
Quando se
reuniram novamente para a realização do show em comemoração
aos 15 anos da Banda, já estavam em mente que iriam voltar a batalhar
novamente juntos, ou isso surgiu devido ao perceberem ainda o imenso sucesso
que fazem?
Quando nos reunimos a idéia
era matar as saudades, somos muito amigos e havia essa vontade. Os shows
eram muito divertidos. Mas demorou um ano de constantes telefonemas meus
para o Ronaldo Pereira (baterista) que tem um estúdio (Groove) para
rolar um ensaio. Todos estavam envolvidos em outros projetos musicais.
Ronaldo estava empresariando o Planet Hemp, Cezar Ninne (guitarrista) estava
tocando no Soul Brasil e era complicado arrumar tempo. Mas pintou a proposta
de um produtor de shows que fazia festas no estilo anos 80 e aí
tocamos nós, o Black Future e o Hojerizah na Fundição
Progresso. O que mais nos impressionou nesse show foi ver gente nas primeiras
filas na faixa etária de 15 à 20 anos pedindo e cantando
as músicas. Foi emocionante e gratificante. Ficamos intrigados porque
esse pessoal nunca tinha visto um show nosso.
Quando surgiu
a idéia de transformar o show em um CD?
Foi à partir desse show que
resolvemos fazer um CD que resgatasse esse material que até então
só era disponível em vinil. Aí entramos em contato
com um técnico de som que tinha o equipamento para fazer essa produção
de gravação ao vivo e acabou rolando no show lá nas
margens do Lago Paranoá em Brasília. Aliás um show
que comemorava o aniversário da cidade.
O que os
fãs vão encontrar neste CD?
Quase todas as músicas do disco
da EMI, "Deus Ateu", "Círculos", "Mentiras", "Máquinas",
"Armadilha", etc. E também algumas inéditas: "Acrobata",
"O Homem" e "Jovens", além de algumas surpresas que estão
escondidas no final do disco.
Qual é
o relacionamento do Finis Africae com os fãs, que mesmo sem vê-los
na mídia continuam acompanhando e ouvindo as canções
da banda?
Nós temos por hábito
abrir o camarim depois do show e conversar com as pessoas. Muita gente
traz discos para autografar e outros querem tirar fotos conosco. Exatamente
por não sermos um grupo popular dá para administrar isso
e é prazeroso.
Agora que estamos vendendo o disco
nos shows, quase todo mundo que compra quer levar autografado. No disco
consta o endereço do site (http://www.finisafricae.com.br)
e recebo uma média de 7 emails por dia com comentários sobre
os shows e o disco. É bem legal ter esse contato tão próximo.
O que é
que falta ainda para a entrada definitiva do Finis Africae na mídia?
São notórios a qualidade sonora, o excelente trabalho e os
anos de estrada e mesmo assim qual fator cria essa barreira com a mídia
(rádios e TV)?
Essa é uma questão difícil
de responder. O mercado fonográfico está passando por um
período bom para os alternativos e independentes, mas sair desse
esquema e entrar no grande circuito só se dá com uma gravadora
de grande porte e essas gravadoras não nos consideram um produto
comercial. Por outro lado sempre há exceções,
taí o Capital Inicial, que voltou com toda a força. O fato
é que não há coisa mais enigmática do que as
idéias que passam pela cabeça de um diretor artístico
de uma grande gravadora.
Qual foi
o pior momento da banda em toda carreira?
Foi em 1989, quando resolvemos terminar.
As coisas não iam bem, já estávamos há dois
anos sem gravadora, as músicas tocavam muito pouco nas rádios,
os shows foram rareando e o grupo entrou num processo lento de desativação.
Os músicos foram se envolvendo em outras atividades e nós
nos víamos pouco. Quando fizemos o show despedida no Circo Voador
com o Violeta de Outono, já estávamos seis meses sem tocar.
Isso para não falar da "via crucis" de percorrer as gravadoras e
mostrar fitas demos e esperar respostas que na maioria das vezes
não vinham.
Vocês
entrariam na moda dos discos acústicos, fórmula que ajudou
a alavancar muitas bandas que andavam esquecidas mas que também
derrubaram algumas outras?
“Não por modismo. Houve um
empresário que fez essa proposta e discutimos como seria a melhor
forma de fazê-lo. Eu tenho dificuldade de cantar suavemente e as
vezes soa estranho e até feio cantar com muito volume de voz com
o acompanhamento acústico. Depois de muita discussão chegamos
a conclusão de que a única forma viável para fazermos
um acústico legal seria com uma orquestra. Isso implicaria em contratar
um maestro para escrever arranjos e pagar horas de ensaio de diversos músicos.
É claro que o cidadão desistiu da idéia. Na Suécia
eu cantei duas vezes com orquestra e simplesmente adorei. Fiquei triste
quando o cara falou que não ia rolar.
E quais são
os planos daqui para frente?
Vamos fazer essa turnê e ver
a repercussão. Se o disco vender bem e pintarem propostas atraentes
para se gravar é provável que continuemos. Caso contrário,
cada um partirá para um lado, mesmo porque todos no grupo tem projetos
musicais paralelos em andamento.
Fale-nos
mais sobre esses projetos paralelos?
“Eu tenho um repertório na
linha grande na linha MPB/POP, que gostaria muito de gravar. Parte dele
foi composto em Estocolmo e parte aqui depois que voltei. Cezar Ninne já
está mixando um disco solo que tem um estilo black music moderna.
É muito elegante o som dele. Ronaldo faz músicas difíceis
de serem classificadas, mas de uma forma geral se vale muito de programações
eletrônicas. Roberto toca música experimental num grupo chamado
Rami.”
Qual a opinião
de vocês sobre a pirataria e a mp3?
Literalmente não é legal.
Nós como músicos/compositores somos diretamente lesados.
Mas entendo o lado do consumidor que baixa músicas na Internet.
É caro comprar disco. Nem sempre você encontra o que quer.
Os discos saem de catálogo e param de ser fabricados, então
nesse caso eu entendo a situação do cara que se vê
privado de ter um prazer, mas daí a queimar Cds em série
e sair vendendo pela rua há uma distância enorme.
Como vocês
vêem o cenário do rock nacional?
Eu noto uma carência grande
de grupos que contenham uma mensagem consistente e um estilo refinado nos
textos. Ouço na rádio grupos que falam de maconha, sexo e
violência de uma forma plana e fútil. Acho infantil e triste
que a juventude consuma isso e considere bom. Grupos com um som mais elaborado
e textos mais profundos encontram dificuldade de penetração
no mercado. Mas acho que temos a obrigação de lutar e defender
as coisas que gostamos. Só assim será possível a existência
de uma mudança.
Finis Africae
por Finis Africae?
Um grupo
que conseguiu criar uma identidade musical própria graças
a muito trabalho, respeito e admiração mútua, honestidade
ideológica e paciência.
E para finalizar,
fiquem à vontade para deixarem um recado.
Por favor tenham uma postura crítica.
É preciso participar nossas opiniões publicamente. Elogiar
o que é bom e menosprezar o que é ruim para que se eleve
o nível da produção cultural desse país.
"Ao Vivo" - Finis Africae (Independente)
por
Marcelo Costa
O Finis Africae surgiu na segunda
leva de bandas de Brasília, lançou um ep independente em
1986 para, no ano seguinte, assinar contrato com a EMI (casa de Legião,
Plebe Rude e Paralamas) e lançar a estréia, homônina.
O disco vendeu "apenas" 20 mil cópias, a banda emplacou um hit (a
bela balada "Armadilha") e tinha pique para mais, mas a gravadora os dispensou.
Quinze anos se passaram e a banda volta com "Ao Vivo", registro independente
de um excelente show feito no Anfiteatro do Lago Sul, em Brasília,
em 1999. Compilando as melhores canções dos dois álbuns
de carreira ("Van Gogh" e "Ética" do primeiro ep mais a leve e deliciosa
"Máquinas" do primeiro álbum, além de "Ask The Dust"
e "Mentiras") com três inéditas (uma ao vivo, "Acrobata",
e outras duas registradas em estúdio, "O Homem" e "Jovens"), "Ao
Vivo" corrige o descaso absurdo de uma grande gravadora resgatando o som
sofisticado de levada pós punk da Finis Africae que estava restringido
ao vinil. O destaque bacana é uma linda versão remix de "Armadilha"
em estúdio (1999) e "Pânico", ainda com o primeiro vocalista
Rodrigo Leitão nos vocais, que surgem não creditadas, pouco
mais de um minuto após a última faixa, "Jovens". |