Festival Eletronika 2002
16 a 19 de maio - Belo Horizonte
por Rodrigo James e Ludmila Azevedo

Com apenas três anos de idade, o Festival Eletronika já conseguiu se tornar a principal referência da cena brasileira, ao lado do Skol Beats, mas com um grande diferencial : a reflexão. Além de fazer um panorama do que de melhor existe no gênero, no Brasil e no mundo, o Eletronika ainda arruma tempo para discutir e experimentar sobre o tema. 

Este ano, o festival mudou de lugar e de tamanho. Foram quatro noites, ocupando parte das dependências do complexo do Palácio das Artes e do Teatro Francisco Nunes – dois dos locais de maior prestígio da cena cultural belorizontina. Seguindo uma tendência que já vinha da edição passada, de oferecer várias atrações simultaneamente, este ano ele conseguiu fazer com que fosse absolutamente impossível para um ser humano acompanhar tudo. Daí a necessidade de se dividir até esta cobertura jornalística. A seguir, um relato do que Rodrigo James e Ludmila Azevedo conseguiram ver.


Otto
Dia 16 – TURISTAS ACIDENTAIS

A primeira impressão que se tem do Eletronika é mesmo muito boa. As grades que cercam o Parque Municipal, onde está localizado o Teatro Francisco Nunes foram cobertas por tapumes e iluminadas com holofotes de diferentes cores, causando um belo efeito visual. O Teatro, espaço para peças teatrais, recitais e apresentações de artistas da MPB virou Eletronika Clube. O DJ Léo Mille abriu a noite, mandando bem com a house music, embora a pista ainda estivesse vazia. O visual "Professor Pardal" caiu bem, mas quem surpreendeu mesmo foi o DJ Roger Moore, que dividiu o palco com Décio Ramos, do Uakti, e Lênis Rino, do grupo de percussão Elefante Groove. O DJ já foi um dos residentes da Broaday – lendário inferninho belorizontino – onde seu repertório passeava pela Black Music. Depois, Roger mudou para o Drum n´Bass. Agora, a apresentação do DJ Roger Moore, sempre competente, chegou a maturidade. Aprovada com louvores.

A multidão que lotou as dependências do Parque neste dia era nitidamente um público diferenciado que estava ali mais para conhecer do que para ouvir e dançar. Tanto que a parte externa do teatro ficou lotada durante o show de Otto, a principal atração da noite, enquanto seu interior não chegou à lotação máxima. Uma pena, porque os que ficaram lá fora perderam uma apresentação memorável de um artista que sempre tem muito a dizer, embora um pouco curta. Otto era, depois da dupla Kruder and Dorfmeister, a atração mais esperada da noite. As músicas apresentadas pelo pernambucano foram tiradas dos discos "Samba Pra Burro" e "Condom Black". Ferveção na platéia que fez coro nos "hits" e muita gente, por pouco – lembrando Mundo Livre S/a – foi abaixo na homenagem a Chico Science. Com "Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão”", ele cantou a ciranda mais famosa de Lia de Itamaracá. Na banda, o destaque foi o DJ Zé Gonzales.

Uma pequena pausa e o dj Rainer Truby subiu ao palco do Teatro para mostrar que conhece algo de música brasileira. Mas não empolgou muito. Parecia que o público estava guardando as energias da quinta-feira para as últimas atrações da noite. Os austríacos Kruder & Dorfmeister conseguiram o que parecia impossível : levantar até quem não estava ali interessado no som deles. Primeiro veio Dorfmeister, que também colocou algumas pitadas de música brasileira em seu som, depois veio Kruder, não deixando a peteca cair. Um belo final de noite e um presságio de que coisa boa estav por vir.


Mogwai
Dia 17 – SURDEZ

Jornalista que se preza acaba sempre achando um tempinho para discutir um pouco o assunto que está cobrindo. Portanto, nada melhor do que começar a segunda noite do festival num debate com Camilo Rocha, Cláudia Assef (Folha de São Paulo), Marcelo Ferla (Frente)e Carlos Albuquerque (O Globo) sobre o jornalismo e a cena eletrônica. Pena que não deu pra ficar até o final, porque quase simultaneamente, o National + A' estava mostrando no Laboratório Eletronika – espaço destinado ao experimentalismo – o seu projeto.....bem.....experimental, é claro. Muita gente não entendeu, não gostou das misturas simples e desconexas de sons, aliadas a imagens líricas, um pouco dadaístas, mas o resultado final deixou um outro tanto de gente arrepiada.

Do lado de fora da sala onde acontecia o Laboratório, o pontapé inicial era dado para a Plataforma Eletronika – dedicada a novos talentos -  com o Dj Kowalsky e seu drum n’ bass com pitadas de electro. Mas a expectativa nesta plataforma era grande para a próxima atração. Ninguém menos que Rogério Flausino. Sim, ele mesmo, do Jota Quest. Para quem não sabe, Rogério tem feito, em Belo Horizonte, algumas apresentações como dj e tem agradado com seu house e deep house. Pena que pouca gente passou por lá para ver o rapaz. Quem estava ali pela região do Palácio das Artes preferiu conferir o Objeto Amarelo e o Golden Shower, as duas atrações que encerraram a primeira noite do Laboratório, antes de seguirem para o Francisco Nunes. O Golden Shower agradou. Quanto ao Objeto Amarelo... Bom, embora a reação em geral fosse positiva, ficou um pouco daquela sensação de "já vi isso antes". Guitarra distorcida, baixo impreciso, bateria descompassado, vocal esganiçado e letras dadaístas (de novo ?)...Há quem goste...

Do outro lado do parque, no complexo Francisco Nunes, o herói local Robinho dava o pontapé inicial em outra tenda, a Eletronika Parque. Ninguém é o dj mais requisitado de BH à toa. Robinho encheu a pista e regeu a multidão com maestria com doses cavalares de house. Ponto pra ele.

Desde o início da noite já dava para sentir, pela cara do público, que ele seria mesmo do Mogwai. O show dos escoceses começou com meia casa, mas como acontece nos grandes momentos da música, uma espécie de boca-a-boca imediato correu pelo festival e logo o Teatro Francisco Nunes estava lotado. Difícil dizer o que aconteceu ali, já que a maior parte do público estava em transe, proporcionado pela música hipnótica do Mogwai. À medida em que o tempo passava e a banda ia aumentando os decibéis tocados, o Chico Nunes ia provando que é mesmo um excepcional teatro. Suas estruturas foram seriamente abaladas e não cederam. Nem quando, na última música, a banda radicalizou e aumentou tudo, deixando o engenheiro de som louco com a impossível equalização, e as caixas um pouco danificadas ( chegaram a estalar ! ). O final, quando a banda desliga tudo subitamente, deixou muita gente com a sensação de surdez repentina. Um experiência incrível e inigualável.

Depois do Mogwai, qualquer coisa seria lucro. E o lucro veio com Olaf Hund e seu live set, que de live mesmo só tinha uma espécie de trapezista fazendo acrobacias num pano enquanto o francês se esforçava para agradar. Competente, porém pouco empolgante. Kid Loco encerraria a noite, mas o cansaço nos venceu. Afinal, o dia seguinte prometia e muito.


Patricia Marx
Dia 18 – BOMBOU

Nada melhor do que esta gíria típica da cena eletrônica para definir o que foi o terceiro dia do Eletronika. Os ingressos se esgotaram antecipadamente e um público mais interessado em festas do que em música invadiu as dependências do Parque Municipal para se esbaldar ao som dos maiores djs brasileiros.

Mas antes das atrações principais, uma passadinha pela sala de palestras para participar de um interessante debate sobre a produção de vinil no Brasil, com as presenças de Carlos Eduardo Miranda, Anderson Noise, Xerxes de Oliveira, Renato Cohen, Dudu Marote e Luciana Resende,  representante da única fábrica de vinis do país, a Polysom. Mais uma vez não dava pra ficar muito tempo ali porque o pexbaA estava iniciando mais uma de suas inusitadas apresentações no Laboratório Eletronika. As influências do pexbaA vão de jazz a house, mas tudo de uma forma bem peculiar. A anarquia aliada ao dadaísmo ( de novo ? ) de seu som deixou quem não conhecia surpreso, e quem já era familiarizado, embasbacado com a evolução da banda desde sua lendária aparição na primeira edição do Festival, em 99. 

Depois do pexbaA, era hora de ir para o outro lado do Parque, porque o melhor ainda estava por vir. Uma passada rápida na tenda Eletronika Parque para conferir as sensações locais LP e Daniel Maia fazerem uma verdadeira multidão pular com o melhor do drum n’ bass e o palco principal, no Teatro Francisco Nunes nos esperava. Patrícia Marx abriu a noite mostrando o repertório de seu último disco, "Respirar". É bonita a garota, canta bem, mas o repertório não passa de um sub produto da chamada "turma da Trama". Durei apenas quatro músicas e preferi voltar para a Eletronika Parque e conferir Xerxes de Oliveira injetar um pouco de bossa nova, ritmos brasileiros e novidades recém-saídas do forno em seu set. Quase no final, voltei para o teatro, e lá estava Renato Lopes botando todo mundo pra dançar. A esta altura do campeonato, o local já estava intransitável e parecia que não caberia mais ninguém ali. Lopes teve uma ajudinha extra de um maravilhoso video que mostrava sua vasta coleção de vinis, talvez querendo mostrar de onde veio sua inspiração. Quando todo mundo achava que aquilo seria o auge, veio o furacão.

Mal deu pra se recuperar do set arrasa-quarteirão de Lopes e o terremoto começou. O “pastor” Marky subiu ao palco e comandou um set de quase duas horas, levando a multidão ao delírio. As ovelhas do rebanho de Marky respondiam com urros a cada gesto do simpático pastor, que retribuía com hits e mais hits do seu já famoso repertório. O máximo ouvir "Crioula", do Trio Mocotó na melhor proposta Drum n´Bass. "Tudo!" gritava um grupo de moderninhos. No fim das contas as cotoveladas, pisadas, apalpadas,  o calor e os odores insuportáveis valeram a pena. Marky provou porque é o melhor dj brasileiro e deixou saudade nos corações dos mineiros.

A noite acelerou um pouco com Renato Cohen, quase lenhando as pickups. O cansaço batia em todos, mas ninguém demonstrava vontade em sair dali. Mesmo porque o encerramento seria com a lenda belorizontina Anderson Noise, que voltava à cidade depois de alguns meses no circuito Londres-São Paulo. Só deu para conferir o início do set de Anderson, às quatro e meia da manhã porque o cansaço era maior que nós. Fim da linha e uma sensação de missão cumprida.


Renato Lopes
Dia 19 – C’EST FINI

O último dia seria dedicado a debates e performances no Laboratório. O Semisericórdia e o ABX encerraram o palco do Laboratório, enquanto na sala ao lado, Terence Machado, Jodele Larcher, Jimmy Leroy e Eduardo de Jesus discutiam os rumos do videoclip no Brasil. A esta altura do campeonato, a sensação era a melhor possível ao fazer um balanço do festival. A opinião foi meio unânime : o Eletronika está consolidado na cena belorizontina e se tornou parte dela. Agora é só esperar o do ano que vem


Confira como foi a edição de 2001 do Festival Eletronika