Dez
Discos Para o Verão
por
Diego Fernandes
d13g0_freejazz@yahoo.com.br
A Revista
MTV publicou tempinho atrás uma lista entitulada 'O SOM DO VERÃO',
com vinte CDs que, supostamente, serviriam como uma trilha sonora perfeita
para a referida estação. Confesso que fiquei um pouco decepcionado
com a seleção -- em parte por achar que alguns dos CDs selecionados
tinham pouco ou nada a ver com o verão; em parte por achar que mesmo
os CDs que transmitiam o clima da estação eram por demais
óbvios e assimilados. Vasculhei então meu acervo e selecionei
dez álbuns que, na minha opinião, transmitissem o clima da
estação de maneira precisa. O verão tem odores próprios
(suor, cerveja, maresia), e talvez fosse melhor nomear a lista como:
DEZ CDs PARA O CALOR
Trilha Sonora # KIDS (1995)
Trilha indie clássica de um
já clássico filme indie. Com canções originais
e música incidental assinadas por ninguém menos que a dupla
Folk Implosion (projeto do genial Lou Barlow, do Sebadoh, com o multiinstru-mentista
John Davis), o disco transmite exatamente o clima ‘dia-mais-quente-do-ano’
do filme. As certeiras "Daddy Never Understood" (pauleira de abertura da
película), "Nothing Gonna Stop" (com perscussão hipnótica)
e o hit (só nos EUA) "Natural One" garantem o balanço com
climas sombrios e enfumaçados. Há de brinde, ainda, o folk
fantasmagórico de Daniel Johnston, o hip-hop trincado do Lo-Down
e o fecho de ouro com a dissonância pós-rockeira do Slint.
Sem esse disco, indubitavelmente, nunca teríamos ouvido falar no
Gorillaz.
Nação Zumbi # Rádio S.Amb.A
(2000)
Nunca (reitero: NUNCA) antes o instrumental
da Nação soou tão poderoso, coeso e exuberante como
neste disco. Já na abertura, com "Do Mote Do Dr. Charles Zambo Head",
dotada de um groove absurdo, a banda mostra que o cheiro de terra molhada
e o clima abafado das margens do Capibaribe dominam o disco, passan-do
pelo drum’n’bass orgânico de "O Carimbó" e pela delícia
pós-rock "Lo-Fi Dream". Para quem achava que a Nação
nunca voltaria a render um bom caldo após a partida de Chico Science,
os tambores guerreiros soltaram esta preciosidade: perfeita para qualquer
verão, tão complexa e rica quanto o próprio mangue.
Luscious Jackson # Fever In Fever Out (1996)
Enumeremos: 1) Era uma banda formada
só por garotas descoladas; 2) Lançavam seus discos pelo descolado
selo Grand Royal, dos Beastie Boys; 3) Cometiam versos descolados, do tipo
"Quem vai regar seu jardim/ Quando você se perder?/ Flores nunca
crescem / Na neve"; 4) Praticavam um funk lo-fi pra lá de cool,
o que, sem dúvida, é bem descolado; 5) O verão é
a estação mais descolada do ano; 6) 2 + 2 = 4.
U2 # Pop (1997)
Naquele que é, sem dúvida,
seu trabalho mais subestimado e incompreendido (e um dos melhores, diga-se
de passagem), nossos irlandeses preferidos utilizaram-se de todas as artimanhas
de estúdio possíveis e imagináveis para dar estofo
a suas baladas urgentes. O clima aqui é pesado e quente – sugerindo
longas tardes sem chuva --, mas o lirismo segue inabalado, como atestam
as indescritíveis "Wake Up Dead Man" (onde Bono leva um diálogo
nada comportado com Jesus) e "Please" (essa, uma das dez melhores músicas
que o U2 já fez).
Rumbora # 71 (1996)
Ao ouvir este disco, algumas pessoas
se perguntam como foi que o reggae, e não o ska, veio a se tornar
o 'ritmo oficial' do verão. Ao menos no Brasil. O quarteto
brasiliense distribui sua fúria e suingue, sob a forma de ska
pesado, envenenado, em 11 faixas que mal ultrapassam a meia hora de audição.
E ainda tiveram a manha de compor "O Ó Do Borogodó", polaroid
perfeita da exposição à poluição sonora
do carnaval ( "Sou um cara gente-boa, responsa e de família
/ Por ela eu danço até as músicas lá da Bahia")
e "Skaô", uma ode ao caô festivo. Feito chuva de verão:
rápido, mas extremamente oportuno.
Queens of the Stone Age # Queens of the Stone
Age (1998)
Certa vez, alguém escreveu
em um site que o Kyuss, assim como as melhores coisas da vida, era um segredo
muito bem guardado. O mesmo poderia ser dito em relação ao
Queens quando este seu primeiro disco foi lançado – principalmente
se levarmos em conta o fato de Josh Homme ser o cérebro por trás
das duas bandas. A indefectível ligação espiritual
do guitarrista com o deserto produziu mais uma obra-prima em tons graves.
A começar pela abertura (Regular John), onde uma massa noise é
conduzida pelo fiozinho de voz de Homme, passando pelo blues metálico
de "Walkin’ On The Side Sidewalks" e pela melodia de "If Only", onde Josh
– um grande fã de Stooges – atualiza a seu modo o riff de "I Wanna
Be Your Dog". Nunca a aridez e os coiotes estiveram tão próximos.
Ultramen # Olelê (2000)
Se a sabedoria poular está
certa, o verão é a estação das melhores festas
do ano. Então este disco se inscreve desde já como a melhor
trilha sonora de todos os tempos. Samba-rock que soa como se tivesse sido
composto por Jorge Ben em pessoa (Dívida, mais Jonnhy, de Tim Maia),
funkaços (Não Me Empurra, Preserve), hip-hop de primeira
(Ultramanos, Peleia), reggae ortodoxo (A Estrada Perdida) e a habitual
fusão de ritmos ja-maicanos com peso hard (General, Olelê
e a releitura dub meets stoner rock de Exodus, de Bob Marley, que já
valeria o disco). Do Rio Grande do Sul para – oxalá – o mundo.
Primal Scream # Vanishing Point (1997)
Se algum desavisado ouvir o começo
de "Burnig Wheel", vai achar que se trata de Black Uhuru ou Steel Pulse;
se acontecer o mesmo com "Get Duffy", vai achar que se trata de alguma
composição obscura de Issac Hayes. As coisas só vão
começar a clarear – ou nublar definitivamente, dependendo do seu
ponto de vista – lá pela terceira faixa, com a tórrida "Kowalski",
onde os escoceses detonam tudo com uma mistura de dub, techno e space rock.
Em "Vanishing Point", Bobby Gillespie e cia.
consolidaram a influência do dub sobre o som da banda, que, comparativamente,
era um mero aceno na época de "Screamadelica". O ritmo narcótico
de "Trainspotting" e a tensão de "If They Move Kill ‘Em" complementam
essa maravilhosa trilha sonora. Para um verão em baixo perfil.
Ben Harper # The Will To Live (1997)
Com seu timbre de Marvin Gaye beatnik,
Ben Harper arrebanhou uma legião de fãs entre surfistas e
skatistas graças a uma mistura perfeitamente dosada de reggae,
tosqueira bluesy, folk, ritmos latinos e hard-rock qua-dradão. Em
"The Will To Live", seu vocal anasalado emoldura perfeitamente canções
tão pungentes quanto o pôr-do-sol. O ideal talvez fosse definir
a obra com o título da faixa 5: ‘Jah Work’.
Sublime # Sublime (1996)
Esse disco corresponde à porção
‘ritmo-oficial’ da lista. O Sublime forjou um som único através
da fusão dos ritmos da mais famosa ilha do caribe com hardcore e
hip-hop. Nem adianta tentar achar traduções em forma de música
mais perfeitas para o verão californiano do que "What I Got, Doin’
Time" ou a guitarreira "Under My Voodoo", isso sem contar as jams beirando
a perfeição de "April 29, 1992" e "Pawn Shop". Mas vamos
combinar o seguinte: programe o player para deixar de fora "Santeria",
porque senão já é forçar a barra um pouquinho
demais, ok? |