Lançada a primeira revista sobre o nada
por Eduardo Fernandes

Você já leu a nova revista da MTV? Eu li. Mas foi como se não tivesse lido. É que depois de séculos de debates entre filósofos e cientistas, a MTV finalmente descobriu o que é o nada. E fez uma revista sobre isso.

Procurei algum assunto na revista por horas. Mas tudo o que via eram espécies de introduções. Quando pensava que iria começar o texto, já havia acabado. Uma revista de narizes de cera.

Em alguns momentos, pensei que se tratava de uma tentativa de criar uma concorrente para a Trip. Mas logo notei o absurdo da comparação.

A Trip, com todas as suas virtudes e defeitos, já fez matérias antológicas. E deu espaço para muita gente pensante falar, na sessão Páginas Negras. Fez até campanha solitária contra a indústria do tabaco. Tirando dinheiro do próprio bolso (isto é: não ficou só no discurso politicamente correto).

A revista da MTV é uma Capricho aditivada. Voltada para o povo que mora em Higienópolis (bairro extra cool e endinheirado de SP). Nada contra. Quer dizer, muitas coisas contra. Mas não sejamos radicais. O fato é que há uma incompatibilidade cósmica entre eu e a revista, como diria a Baby do Brasil.

Mas eu queria mesmo é chegar à Bizz. Embora a revista tenha melhorado muito nos últimos anos, ela tem um ponto em comum com a da MTV. Parece um catálogo de produtos. Ou melhor: cada vez mais as revistas se parecem com aqueles panfletos que recebemos nos domingos, junto com o jornal.

Você a lê e tem vontade de consumir desenfreadamente. Eu mesmo a leio amarrado ao pé da cama. Senão saio correndo, babando e com os olhos esbugalhados, gastando todo meu escasso dinheiro em cds. Que vou achar tediosos assim que os ouvir.

Muitas vezes, compro mais pelo hype do que pelo desejo de diversão. É a cultura das listas, que só servem mesmo como guias de compra. E o interessante é que se cria todo um comportamento, uma erudição, em volta do consumo de música (pra mim, consumir música é diferente de ouvir música).

Imagine se alguém decorasse esses panfletos de supermercado e ficasse discutindo apaixonadamente o assunto: "cara, comprei uma lingüiça Toscana em 4 vezes sem juros", "melhor é a oferta do Extra: você não precisa nem dar entrada". "Não. Em 1960 é que havia ofertas! As de hoje nem se comparam..."

Nada contra se informar sobre música. Muito pelo contrário. Mas a exibição de erudição musical é tão chata e pretensiosa quanto à erudição de acadêmicos isolados do mundo. Se forem vazias de reflexão, autocrítica e diversão, ambas são sacais.

Pior: conheço gente que só fala sobre música. E mais nada. Se perguntar sobre o que aconteceu na semana, ele falará sobre os lançamentos de uma gravadora indie do Sudão. Mas não saberá nada sobre quem cuida dos buracos da rua da sua casa.

Por isso é que a maioria das revistas sobre música do Brasil não tem colunistas, não fala sobre comportamento, não tem humor. Porque, muito mais do que provocação, reflexão, ou entretenimento, o importante para elas é enumerar, adiantar tendências etc. Vender cds.

Enfim: tédio, tédio, tédio.

Agora repita comigo: que falta faz a Revista General!

Forastieri, você está lendo isto? Venda aqueles seus dois iates e reedite a revista. Sei que não venderá trinta exemplares. Mas faça até parceria com o FMI, se for necessário. Porque se o máximo em cultura pop no Brasil for a revista da MTV, quero ficar velho. E logo.

Para escapar das leituras tediosas:

www.pastilhas.hpg.com.br (prestem atenção neste nome: Fábio Sooner)
http://rhizome.org
www.plastic.com
www.viceland.com
 

Edurado Fernandes é editor do site genial - www.eduf.com.br