Rumbora
Sem vocação para ser cult
por Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br

O Brasil é um país que vive desafiando a lógica. As soluções mais simples para os problemas mais evidentes sempre são ignoradas, iniciando uma espiral abjeta de incongruências e abominações. Em qualquer esfera, essa nefasta tendência se repete, e o mercado fonográfico não dá indícios de ser exceção.

Examine-se o caso do Rumbora. Durante uma apresentação da banda em Taubaté (SP), parte de uma festa da rádio Jovem Pan onde o Rumbora tocaria antes de uma "atração internacional" (um playback de dance music que fez sucesso uns três anos atrás e agora ninguém mais se lembra), o desconhecimento e até espanto do público em relação ao grupo eram espantosos.

Essa reportagem acompanhou a passagem de som na casa noturna Estrutura, dialogando com o baterista Bacalhau e com o baixista (e eventual vocalista) Beto (os guitarristas Biu e Alf estavam dormindo na van) durante a montagem do equipamento. Primeira pergunta (que não teria sido feita caso a entrevista se realizasse após o show): como a banda se sente com essa projeção gradual que vem tendo? Afinal de contas, "Veste o Uniforme" e "O Mapa da Mina" têm sido bastante executadas nas FMs.

"É o que a gente sempre quis", diz Beto, "ir chegando aos poucos, conquistar um público fiel, desenvolver uma história". Que já poderia estar mais desenvolvida, na concepção de Bacalhau. "No primeiro disco (71, lançado em 1998), apesar de termos três músicas (Chapírous, Skaô e O Ó do Borogodó) bem executadas em rádios rock, não conseguíamos fazer tantos shows quanto seriam possíveis. Com esse segundo (Exército Positivo Operante), estava pior. O disco foi lançado no começo de 2000, ficamos quase um ano sem fazer shows. Estávamos mal empresariados, e acabamos perdendo o embalo que poderia ter vindo com o estouro de 'O Mapa da Mina'. Só agora que estamos fazendo mais shows". Então vocês estão decepcionados com... Nem termino a pergunta e os dois respondem "não!!!" quase ofendidos. "Pô, a gente conseguiu coisa pra caramba, saímos do underground e conseguimos nos manter só de música. Já é um puta começo", atesta Beto.

Aliás, nem é tão começo assim. Todos na banda têm uma estrada respeitável. Beto e Biu tocaram em várias bandas de Brasília (e Biu também nos EUA, onde morou por doze anos). Alf e Baca também militaram no underground do cerrado por uns tempos, até conseguirem projeção no rap invocado do Câmbio Negro e no rockabilly garageiro dos Little Quail And The Mad Birds, respectivamente. Essa projeção maior dos dois, contudo, nem chega a incomodar os outros dois, já que todos se conhecem desde crianças e a amizade foi o fator fundamental para montarem a banda.

"A amizade e a certeza de que tínhamos um som bom para ir para a frente, não ficar ralando no underground a vida toda", complementa Beto. Aproveito o ensejo para perguntar o que ele acha da cena independente atual. "Tem muita coisa boa, cara! Tem coisas do caralho que ficam de fora da rádio e do alcance do público, como Ultramen e Autoramas. Mas também tem muita porcaria. Toda essa galerinha que fica insistindo em hardcore melódico ou fazendo pose de guitar band gringa é muito igual, você não distingue uma da outra". "Quem corre atrás do seu próprio som geralmente faz coisa boa", opina Baca, que atualmente está mais para samba, jazz e bossa nova do que para novidades independentes.

Quando se mudaram de Brasília para São Paulo, os rapazes do Rumbora correram atrás de gravadoras e de espaços para mostrarem seu som. "Ficar tocando numa biboca achando que vai aparecer um executivo e contratar a peso de ouro não existe. Uma banda tem que trabalhar muito se quiser ir para frente", é a constatação de Bacalhau. O que nos leva de volta ao começo da entrevista: esse trabalho todo está dando resultados?

"Fazemos pelo menos dois shows por semana", discorre Baca, "e termos tocado na Tenda Brasil do Rock in Rio foi uma boa. Mas ainda falta muito. Quem escuta 'O Mapa da Mina' e 'Veste o Uniforme' nas rádios acha que a gente tá estourado. Que nada!". "Nosso cachê é menor que o de muita banda cover, e tem gente que nem ouviu falar da gente", completa Beto.

Não muitos minutos após o fim da entrevista, essas palavras fizeram bastante sentido. Um coleguinha da imprensa local apareceu para entrevistar a "diva" dance que atacou o playback. Perguntei a ele se ele também falaria com o Rumbora e a resposta foi "quem?!"
À noite, durante o show, isso ficou mais latente: uma multidão de mauricinhos e patricinhas de em média 15 anos lotaram a casa para paquerar, beber e fumar longe da vigilância paterna e ao som de muito poperô. Quando Alf, Beto, Baca e Biu entram no palco saltando e mandando os primeiros acordes distorcidos da pesadíssima "Tá Com Medo?", o apavoro se instala. O peso (mas não o pique) diminui com "O Passo do Azuílson" e "Criatura de Deus", mas o susto parece permanecer. A impressão que se tem é  que qualquer coisa que não seja facilmente assimilável de primeira não funciona com a juventude pós-Xuxa. Depois da execução (logo no início do show) de "Veste o Uniforme", boa parte do público rumou para a choperia do local para chamegar ao som do repertório de covers "Jovem Pan" e composições pífias da banda Gugle's - um compêndio do que o pop nacional tem de mais asqueroso. E os quatro candangos nem aí, atacando com peso uma apresentação impecável, que terminou por arrebatar novos fãs entre os menos acomodados.

O Rumbora não tem vocação para ser banda cult (nem querem ter, como se percebe na entrevista). Os caras têm composições boas o suficiente para caírem no gosto popular sem serem popularescas. E neguinho tem que ser surdo ou fã de Celine Dion para não perceber que "Chapírous" é a música, rock'n'roll fodão e desencanado; ou ser muito duro de coração para não admitir que "Na Paz" é a melodia pop perfeita para ser cantada desavergonhadamente por aí. É inegável que o excesso de gírias e auto-referências nas letras da banda torna a coisa às vezes meio chata para quem não faz parte da turma deles, e coisas como "A Mala" e "Coisas Lindas" não engrandecem em nada as biografias dos autores. Porém, isso são problemas menores em um repertório festivo e divertido, ideal para tirar o "roque" brasileiro dos bidês, baldes e cabeções pirados em que se encontra ultimamente. Pena que, como na maioria das coisas nesse país, a lógica parece realmente falhar no mercado fonográfico.

Leonardo Vinhas, 22, é professor de inglês e colaborador de fanzines e jornais diversos. Aproveita para avisar aos seguranças da Estrutura que pogo e stage dive não são crimes ou pecados, não merecendo serem punidos com sólidas surras...