Quanto Mais Quente Melhor
por Marcelo Silva Costa

Uma das coisas que mais me incomodou nas décadas de 80 e 90 foi a propagação de superlativos. Tudo era maxi, mega, hiper, super sensacional. Com isso, palavras antes reservadas apenas a poucas situações, como "clássico" e "gênio", se transformaram em palavras corriqueiras como bom dia. A critica, tanto musical quanto cinematográfica, comprou a moda e até hoje tenta nos impingir a melhor banda de todos os tempos da última semana e o melhor filme desde não sei qual. Pego o meu dicionário, folheio até a página 484 (o novo Aurélio Século XXI) e procuro a palavra "clássico":

3 - "da mais alta qualidade, modelar, exemplar".

10 – "diz-se da obra ou autor que, pela originalidade, pureza de língua e forma perfeita, tornou-se modelo de imitação".
 

Com as duas definições acima tento encaixar alguns dos melhores filmes dos anos 90 na pecha de clássico e, uhmmm, talvez "Pulp Fiction", talvez "Magnólia", talvez "Clube da Luta". Todos talvez. 

Fiquei matutando essa introdução pensativa porque acabei de ver um clássico. CLÁSSICO, entendam. E tudo o mais pareceu menor. O que? o "Esse Você Precisa Ver" está invadindo a seção "Lançamentos"? Mais ou menos. 

Já há um mês, está em cartaz no Cinesesc em São Paulo uma cópia restaurada de "Quanto Mais Quente Melhor" ("Some Like It Hot", 1959) de Billy Wider, com Marilyn Monroe, Jack Lemmon e Tony Curtis. Considerada pela American Film Institute como a melhor comédia do século, "Quanto Mais Quente Melhor" é um amontoado de cenas geniais amarradas por um roteiro absolutamente coeso e ganhando destaque nas interpretações sensacionais de Marylin, Lemon e Curtis. O resultado é simplesmente arrebatador, de fazer o espectador sair de alma leve da sala do cinema. 

O filme começa e estamos em Chicago, 1929, acompanhando o carro de uma funerária que, instantes depois será alvejado por tiros da polícia. O problema? No lugar do defunto havia dezenas de garrafas de Bourbon que estavam sendo encaminhadas para um "velório" no auge da lei seca. Tudo fachada, claro, para a alegria gangster e dor de cabeça das autoridades. 

Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemon) são músicos, pobres e desesperados por trabalho. Estavam animando o "velório" mas conseguem fugir da batida policial. O problema é que a sorte de estar no lugar errado na hora errada acompanha os dois amigos e eles acabam presenciando uma chacina gangster. Como as duas únicas testemunhas, acabam sendo perseguidos pelos mafiosos. A saída? Travestir-se de mulher e sair do frio de Chicago para o verão da Flórida. No caminho, conhecem a vocalista e tocadora de ukalele Sugar-Kane (Marylin Monroe) e tudo que se desenvolve desde o começo do filme até a cena final em que o ricaço Osgood Fielding III (Joe E. Brown), apaixonado por Daphne (Jack Lemon travestido), retruca "ninguém é perfeito" (ao descobrir que ele não é mulher) é... perfeito. Clássico. 

Acredito que pela média de idade do público que acessa o S&Y (maioria de 15 a 25), muitos nunca tenham visto um filme com Marylin Monroe. Quer saber? Ela é gordinha (ok, fofinha) e tem seios fartos, mas sensualidade deve ter sido uma palavra criada especialmente para ela. Marylin transborda ingenuidade sensual. Quando fala nos passa vontade de acalentá-la no colo, depois trancá-la no quarto e não deixá-la sair mais. Durante muito tempo fui apaixonado por uma morena (Ingrid Bergman), mas, definitivamente, os homens preferem as loiras e eu não vou quebrar a regra.

Já Lemon e Curtis estão impagáveis em seus papeis, principalmente porque a troca de sexo os faz sofrer assédio e as "dificuldades" que toda mulher enfrenta. "Como elas conseguem se equilibrar nesta coisa" comenta Lemon sobre o tamanco, a certa altura. 

Os fatores extra obra também chamam muito a atenção. Quando rodou "Quanto Mais Quente Melhor", Marylin estava fragilizada, com o estúdio em seus pés assinalando uma demissão. Não bastasse a dificuldade da atriz em conter seus vícios, ainda tinha a dificuldade na atuação. Como exemplos, a cena em que Marylin diz a fala "It's me, Sugar" precisou de 47 tomadas para que ficasse pronta. A atriz sempre trocava a fala ou para "Sugar, it's me" ou para "It's Sugar, me". Após a trigésima tomada, o diretor Billy Wilder resolveu escrever em um quadro-negro a fala correta, para que Monroe não mais se confundisse. 

Em outra, apenas na 59ª tomada que Wilder conseguiu o resultado satisfatório. O empecilho? Na cena, a personagem de Marilyn procurava em várias gavetas e precisava dizer "Where's the bourbon?", mas a atriz trocava sempre a fala para "Where's the whiskey?", "Where's the bottle?" ou "Where's the bonbon?" e, após a 40ª tomada, o diretor Billy Wilder resolveu escrever dentro de uma das gavetas a frase correta. Como ainda assim Monroe se confundia, pois se esquecia em qual gaveta estava a fala que precisava dizer, Wilder escreveu "Where's the bourbon?" dentro de todas as gavetas as quais a atriz precisaria abrir. Mesmo com essas dificuldades, Marylin levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz - Comédia/Musical. Jack Lemon ficou Melhor Ator - Comédia/Musical e Billy Wider levou o prêmio de Melhor Filme - Comédia/Musical. O Oscar premiou a obra com apenas uma estatueta, a de Melhor Figurino, apesar das seis indicações (que incluíam Melhor Diretor, Melhor Ator (Jack Lemmon), Melhor Direção de Arte - Preto e Branco, Melhor Fotografia - Preto e Branco e Melhor Roteiro Adaptado.

"Quanto mais quente melhor" funciona como passatempo, diversão e entrenimento. É cinema da mais alta qualidade, modelar, exemplar. Um clássico. Um clássico. 

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR - Some Like It Hot. EUA, 1959. Direção: Billy Wilder. Com: Marilyn Monroe, Jack Lemmon e Tony Curtis. Cópia restaurada da comédia clássica sobre dois músicos desempregados que se vestem de mulher para fugir de mafiosos de Chicago. 119 min. Cinesesc - r. Augusta, 2.075, tel. 3082-0213. 14h30, 16h50, 19h10 e 21h30. 330 lugares. Ingr.: R$ 6 a R$ 10. Ar condicionado. Acesso a deficientes