Stage
Dive
de
Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br
Das quatro maiores sensações
físicas de prazer imediato que alguém pode sentir, o mosh
ou
stage dive é uma das mais difíceis de se obter, e
também é a mais recompensatória. As outras três
são o orgasmo, o ato de tirar sapatos apertados e o fim da sensação
de plenitude vesical.
Aquela coreografia livre em que se
sobe em um palco, toma-se três ou quatro passos para poder dar o
impulso e projetar o corpo no ar para fazê-lo aterrissar sobre mãos
tão ávidas por ampará-lo quanto livrar-se dele, proporciona
um gozo singular, relaxante como uma overdose de endorfina e extasiante
como o princípio da embriaguez. O melhor momento são aqueles
dois segundos (às vezes, apenas um ou menos) em que o corpo está
suspenso no ar, tornando-se parte integrante do questionamento inexpugnável
do universo. A queda pode provocar fraturas, lacerações,
até morte. Porém, se bem sucedida, proporciona a realização
de um sonho, uma torrente de júbilo. Mas... e se ninguém
amparar a queda? E se no amparo eu for agredido? E se a segurança
me expulsar do recinto? As dúvidas ocupam a mente do destemido que
se lança a esse desafio - o desafio de tomar sua vida para si e
desafiar as convenções, as próprias normas de auto-preservação.
Simultaneamente, essas questões tornam-se irrelevantes ante a aparente
iminência do êxtase. E, findo esse balé aéreo
com sucesso, onde o oceano de mãos impede o corpo de ser jogado
no abismo da dor, o homem que volta ao chão é um homem novo,
dotado de uma experiência que permitirá a ele enxergar e ir
mais longe que os demais mortais que não o fizeram, que se recolheram
à sua estúpida insignificância por temerosidade e comodismo.
Infelizmente, esse é um prazer
que tem suas limitações para ser obtido. As mulheres raramente
se aventuram em um mosh. O medo das bolinações agressivas
é maior até que o medo dos ferimentos, tornando a prática
quase exclusivamente masculina. A possível presença de um
pederasta que ouse valer-se da situação para tocar as partes
pudendas do saltante não assusta nem mesmo o mais machista dos homens,
que se esquece de seus preconceitos quando se aventura em um stage dive,
comprovando seu caráter lúdico e libertador.
Leônidas era um dos muitos jovens
que, mesmo cientes de tudo isso, ainda não havia passado por essa
experiência. Não que não houvesse tentado; pelo contrário,
já há uns três anos criara a disposição
necessária para fazê-lo. Porém, não o ousava
entre desconhecidos, preferindo saltar nos braços de amigos. E seus
amigos não o acompanhavam a shows de rock, somente a apresentações
mais amenas. E ficava difícil, certamente, efetuar um stage dive
em um concerto de, digamos, Marisa Monte. Toda vez que aparecia uma apresentação
de um artista remotamente pesado na região, seus amigos, afeitos
a Roxette e Caetano Veloso, passavam ao largo, deixando-o sozinho, a pogar
isoladamente em um canto do clube ou da casa noturna.
Em um show do Ira! em sua cidade,
ele chegara perto de completar o stage dive, mas foi violentamente detido
pela segurança e expulso do recinto logo que subiu no palco. Noutras
vezes, havia se divertido naquela pálida cópia improvisada
de mosh, quando várias pessoas fazem uma "cama" de braços
para que outro venha e pule sobre eles, tendo então seu corpo arremessado
ao ar três ou quatro vezes pelo movimentos ondulantes daquele emaranhado
de membros. Contudo, aquela era uma imitação pálida,
um xerox ínfimo, um patético arremedo do prazer que somente
a coisa autêntica pode proporcionar.
Entretanto, a grande oportunidade
estava formada: no fim de semana, a banda norte-americana Down By Law faria
uma apresentação em um pequeno bar de uma cidade vizinha.
Conhecidos seus de uma terceira cidade haviam confirmado sua presença
no show, e eis que ele decidiu que também iria. Eles poderiam ampará-lo
no stage dive, ser o leito que o receberia na sua passagem por um novo
mundo.
Leônidas não conhecia
muito bem a música do Down By Law, é verdade. Sabia que era
ligada ao hardcore, gênero que nunca fez muito sua cabeça.
A ele eram mais caras as eminências mod dos anos 60, The Who e The
Kinks, e todos aqueles que destes derivavam sua música, do Clash
ao Ira!. Porém, isso pouco importava. O que realmente contava era
que o som energético e barulhento do quarteto estadunidense era
o pretexto ideal para realizar seus sonho.
No dia do show, Leônidas chegou
ao bar com duas horas de antecedência. Ficou tentando se distrair
assistindo alguns vídeos que passavam no "telão" (um lençol
que recebia as imagens de um projetor ultrapassado, adquirido pelo dono
do estabelecimento na Copa de 86) e bebericava nervosamente algumas latas
de cerveja. Assim que seus colegas chegaram, durante o show da primeira
banda (nacional) que tocaria como "abertura" para os americanos, logo ele
se ajuntou a eles para passar o tempo e garantir, através da proximidade,
que eles cumpririam a função que o destino, no entender de
Leônidas, havia lhes reservado: o de sustentá-lo em seu stage
dive. Imediatamente, jogou no lixo sua lata de cerveja, ainda com cerca
de um terço de seu conteúdo, para evitar que o álcool
nublasse seus sentidos para o momento que transformaria sua vida.
Passadas outras duas bandas vulgares
e sem graça, o Down By Law subia no palco. Assim como os quatro
cavaleiros do Apocalipse prenunciavam um momento portentoso na Bíblia,
para Leônidas os quatro eram os arautos de seu renascimento. Nenhum
homem é o mesmo após passar por seu primeiro stage dive.
Para sempre ele será lembrado como um ousado desbravador da existência,
um rebelde que expressou suas dúvidas e seus questionamentos em
um salto. E ele nunca mais enxergará a vida com os mesmos olhos.
Essa glória além da
compreensão era o que Leônidas tinha vindo buscar, e que ele
estava determinado a conseguir. Na primeira canção tocada
pelos músicos, o frenesi da platéia foi tamanho que Leônidas,
mesmo estando perto do palco, não conseguiu se aproximar dele o
suficiente para subir.
Na segunda música, contudo,
levada em um andamento extremamente acelerado e temperada com uma potente
distorção de guitarra, ele apoiou suas mãos na beirada
do palco, tomou impulso e, num pequeno salto, estava lá, ao lado
do vocalista Dave Smalley. Olhou em direção dos seguranças:
nenhum gesto deles indicava a intenção de dissuadi-lo do
salto. Olhou para seus colegas e viu o gesto implorante de seus braços
e lábios para que saltasse. Estava feito o altar para sua consagração.
Mal se contendo de felicidade, ele passou por trás do segundo guitarrista,
e, antes de dar os passos para o impulso, ouviu a platéia berrar
rápida e repetidamente:
- Mosh! Mosh! Mosh! Mosh! Mosh!
O povo pedia mais um deus! Mais um
entre os poucos que vencem o medo, os preconceitos, o universo! Motivado
pela malta, ele deu três passos em corrida, apoiou um pé no
amplificador Marshall à beira do palco e, com o impulso e com a
graciosidade e impulso que os anos de natação lhe conferiram,
lançou-se no ar com o rodopio que é mundialmente conhecido
como "salto mortal". Fizera do momento de sua consagração
uma obra de arte, conferindo-lhe ainda rara beleza. O turbilhão
de sensações e pensamentos que experimentou enquanto pairava
no ar não poderia ser resumido nem em milhares de páginas
impressas com caracteres em fontes minúsculas. Era o surgimento
de uma nova vida e quem, senão Deus, poderia descrever o que acontece
nesse momento?
Quando as mãos de seus colegas,
escoraram seus 75 quilos, distribuídos quase igualmente em 1 metro
e 75 centímetros, já não era mais o mesmo Lêonidas
que estivera junto deles, segundos antes. Nem era mais um homem comum,
e sim uma entidade, divinizada, que ousara ir mais longe que qualquer outro
homem e agora partia para um novo estágio de existência. Nada,
em seus 20 anos de vida, se comparava a isso. Toda a sua vida anterior
tornou-se ridícula e desnecessária. Agora começaria
a viver de fato, e quem pode prever o que se sucederá?
Quando aterrissou de costas nos braços
dos colegas, porém, Leônidas atingiu com seus dois pés
a cabeça de um garoto que assistia quase inerte o show, um pouco
mais atrás do grupo. Tendo percebido que o ferira, Leônidas,
humanizou-se novamente para pedir desculpas ao adolescente que, com as
mãos na cabeça, disse estar tudo bem. Enquanto o jovem foi
recostar-se à uma parede, esperando a dor de cabeça passar,
Leônidas sentou-se um pouco mais longe da multidão, ao fundo
do bar, para sorver o júbilo daquele momento inigualável.
Enquanto ele sorria incessantemente (sorriso que não o abandonou
até que fosse dormir, mais tarde, em sua casa), o garoto permaneceu
junto à parede, até o final do espetáculo.
Na manhã seguinte, o garoto
não despertou. O golpe que sofrerá com os pés de Leônidas
provocaram nele uma concussão que custara-lhe a vida, de nada adiantando
as muitas gotas de Novalgina que tomara antes de dormir.
Alheio àquilo, Leônidas
considerava-se agora um homem livre. Os anos se passaram, e hoje, casado
e com dois filhos, Leônidas (que agora não suporta qualquer
modalidade de rock) lembra com galhardia de suas estúpidas reflexões
juvenis.
Leonardo
Vinhas, 22, é autor do livro “As Pérolas que Enriquecem os
Porcos”.
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