Sete
reais
de
Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br
O golpe da foice se faz ouvir
(seus pés se desequilibram)
O cabo da foice range alto
(cai em seus pés um grosso
pingo de suor)
Cai mais um pé de cana
(ele diz - "Sete!")
Seus ombros se esforçam para
erguer seus braços
(uma planta rude perfura a sola do
pé descalço)
Seus braços se esforçam
para erguer a foice
(o pé sangra. Ele não
vê ou sente coisa alguma)
Outro golpe. Outro pé-de-cana
cai
(o pé anestesiado não
sente a planta se unir a sua carne, seu ser. Ele é o homem-planta)
E outro golpe. O calor aumenta, o
suor também
(ele diz - "Sete!")
A foice atinge seu pé. Um
corte. Sangue.
(ele nada sente e repete - "Sete!
Sete! Sete!")
É o sexto dia sem descanso
(o sangue cobre a unha e a planta
do pé por inteiro)
Meio-dia. Ainda falta um quarto do
campo
("vai ter que dar tempo. Sete, sete!")
Sete reais prometeram em pagamento
(suas mãos se abrem lentamente,
feridas pelo cabo de madeira)
Sete reais se derrubasse o canavial
todo em seis dias
(um novo golpe lhe decepa o dedão
do pé direito)
Sete reais - nunca ninguém
ganhara tanto na região
("Tem que dar tempo!" Ele não
percebe que a cana cai com respingos de sangue)
Sete reais - mais do que lhe pagam
por mês
(o sol aumenta. As feridas também.
Começa a dor até então nublada)
Ele tem filhos - nunca viram tanto
dinheiro.
("São sete real, precisa!")
O trabalho continua obsessivo, são
seis dias
("É muito dinheiro, tudo ou
nada")
O dia se aproxima do final. Restam
uns poucos pés-de-cana.
("se eu conseguir, ele pode até
me dar dez")
Seis horas. Restam três pés.
Ele cai
(o sangue mancha o chão. Ele
vê o rosto do patrão)
O Dono do Campo diz: "Faltaram três.
Vou descontar três reais"
Ele tira a camisa, enfaixa o pé,
pega o dinheiro e segue, em silêncio.
(Mas quem dele se aproximar dele
vai ouvir, entre ganidos e um choro baixinho: "era pra ser sete! SETE!")
Este
é o poema que abre o livro “As Pérolas que Enriquecem os
Porcos”, de Leonardo Vinhas.