Mensagem
de Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br

- Você ligou para o Ricardo, mas ele está morto. É, eu me matei. Só estou deixando essa mensagem devido ao meu pérfido senso de humor e à minha desatinada obsessão com a originalidade. Se gostou, comunique aos jornais.

"Muito pedante", Ricardo pensou. "Vão pensar que me matei porque queria notoriedade. Bem, vamos tentar de novo".

- Oi. Você ligou para o Ricardo mas ele já não está mais no mundo dos vivos. Dele só sobrou a voz nesta gravação. Não adianta deixar recado.

"Vão achar que é brincadeira e ninguém vai ligar para a Polícia. Meu corpo vai entrar em decomposição e ninguém vai notar minha ausência, não quero terminar fedendo para os vizinhos. Quem sabe:"

- Aqui é o Ricardo falando. Adoraria contar se existe vida após a morte, mas isso é só uma gravação. Você terá que fazer o que eu fiz se quiser antecipar sua descoberta.

"Muito sutil. Tenho que ser mais claro".

- É o Ricardo. Estou morto. Por favor, tente entrar no meu apartamento para salvar meu corpo da putrefação ao léu. Cometi suicídio. Venha depressa!

"De todos, este foi o pior! Pareço desesperado".

- Ricardo Bernardes. Nascido a 13 de julho de 1961, falecido às 20 horas e 59 minutos do dia 28 de setembro de 2001. Se já passa das 21 horas do referido dia, estou morto. Esqueça o recado.

"Razoável, mas exige muita precisão. Não posso falhar em um ato tão solene como esse. E a reputação, como fica? O legista pode se enganar ao determinar a hora da morte, mas eu pelo menos terei feito tudo certo. Melhor tirar o horário".

Ricardo havia se dado por satisfeito. Lustrou o 38 com um lenço, empunhou-o com decisão, porém...

"Por que estou querendo ser cortês ou engraçadinho? Quero que esses filhos da puta sofram sabendo que me levaram a isso. Não estou me matando por sofrimento, e sim por vingança. Para castigar esses vermes! Vamos mudar isso já!"

- Aqui é o Ricardo. Sua ligação chegou tarde demais, já estou morto. Se tivesse sido mais presente durante o tempo em que nos conhecemos...

"Parece coisa de corno. Melhor mudar".

- Você sabe para quem ligou. Só não imaginou que eu estaria morto, né? A morte chega para todo mundo, mas eu quis antecipar a minha. Se tem algum problema com isso, foda-se! Quero ver fazer alguma coisa agora!

"Tão infantil... Será que não consigo fazer melhor que isso?"

- Ricardo Bernardes. Morto, com toda a dor do mundo.

"Horrível! Quem sabe, se eu diminuir o melodrama, resolva isso de vez!"

- Você está ligando para alguém que já morreu. Se queria me dizer alguma coisa...

Ricardo se deteve no meio da frase. A bateria do celular tinha acabado. "Deixa pra lá", decidiu. "Ponho pra recarregar e logo pela madrugada resolvo isso".

Não teve tempo. Durante a noite, sua vida de solitárias bebedeiras, sedentarismo e consolos gastronômicos custou-lhe um enfarte fulminante. Seu corpo, em estado de decomposição, foi encontrado três dias depois pelo zelador do prédio. Os vizinhos, que nunca falavam com ele devido ao seu temperamento recluso e intratável, reclamaram do mau cheiro que provinha do apartamento. Ligaram para seu celular, mas ninguém atendia e o correio de voz não funcionava.


Leonardo Vinhas, 22, é autor do livro “As Pérolas que Enriquecem os Porcos”.



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