O mártir corintiano
de Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br
dedicado ao Antonio Luis Carvalho,  pela inspiração. 
2000. Péssimo ano para o Sport Club Corinthians Paulista. Pior ainda para os fanáticos corintianos, devotos fiéis e fervorosos de uma égide nacional de poderio (dormente) igual ao das Forças Armadas da União. Já há meses que a equipe de futebol não vence uma partida. 

Antero era um dos membros dessa pátria alvinegra, de corações atormentados e tempestuosos. Desde a adolescência, quando apaixonara-se pelo futebol, era torcedor ferrenho do time do Parque São Jorge. "Vitimado" aos treze anos de idade pela emoção da final do Campeonato Paulista de 1977, Antero apaixonou-se pelo futebol e entregou-se totalmente à paixão pelo Corinthians, a qual proporcionou-lhe momentos de furor e intensidade maiores que o desejo sexual causaria ao longo dos anos, especialmente na década de 80. E a partida na qual o gol de Basílio causou possivelmente a maior comoção já vista nas arquibancadas de um estádio de futebol brasileiro permanece até hoje em sua lembrança mais vívida que o primeiro beijo - graças, em parte, ao cassete com a narração do jogo, pelo Osmar Santos, guardado até hoje como herança à descendência. 

Herança? Vamos reconsiderar essa observação. A única irmã lhe deu dois sobrinhos apalermados, indignos de receber o presente após seu falecimento (são-paulinos, ainda por cima). E Antero não tinha uma vida social agitada o suficiente para gerar uma descendência. O instinto reprodutor já clamava por um rebento, mas as aulas de Língua Portuguesa e de Literatura ministradas em três períodos durante cinco dias da semana tomavam-lhe o tempo em demasia, dificultando o envolvimento em relacionamentos. No pouco tempo vago que sobrava no final de semana, após as correções das provas, tarefas e exercícios, a dedicação do rotundo Antero era exclusiva ao Sport Club Corinthians Paulista. Noticiário esportivo, memorabilia alvinegra - nada que estivesse ligado ao clube passava desapercebido por Antero Monaro, austero (mas não antipático) professor que se transforma em adolescente empolgado ante o desempenho do time. 

Isso em outros tempos. Agora, Antero parecia mais um velho rabugento. A campanha medíocre do escrete corintiano nos gramados tirava-lhe progressivamente o bom humor (apesar de conservar a serenidade) e o entusiasmo. E isso dava-lhe uma sensação de vazio. Sua vida começava a se revelar definhada em objetivos. Sempre perseguiu as alegrias alvinegras, e agora os gaviões em campo mais pareciam pintinhos órfãos e desmemoriados - pareciam simplesmente não jogar futebol. E com isso, Antero já não podia mais tripudiar sobre os torcedores dos times adversários nem dormir o sono dos justos após sentir que colaborou para a vitória de seu time graças à sua torcida, ainda que em frente ao aparelho de televisão. Nem para se masturbar encontrava entusiasmo, já que o fazia após as vitórias e essas, rareando a ponto de adquirirem caráter celestial, não vinham à tona. E empate, pensava Antero, empate não rende punheta. 

Foi numa tarde de Sábado, após uma desmotivante derrota para a Portuguesa Santista, que Antero, em frente à televisão, determinou-se em sua resolução: 

- Não paro de comer enquanto o Corinthians não vencer um jogo! 

A notícia não tardou a se espalhar. Todos os conhecidos de Antero (em sua grande maioria, professores e porteiros das escolas onde trabalhava) logo estranharam o fato de ele circular sempre com um alimento à mão. De frutas a hambúrgueres, o sistema digestivo de Antero trabalhava horas ininterruptas para poder se adequar ao excesso de fontes energéticas recém-adquiridas em abundância. Lecionando, caminhando, corrigindo deveres dos alunos ou repousando, lá estava ele devorando um hambúrguer, um sanduíche, uma fruta, uma cenoura crua, o que estivesse à mão. 
Em princípio, a estranheza dos convivas era muda. Com o tempo, colegas de profissão e familiares começaram a inquietar-se: 

- Pôxa, Antero, você já não é mais criança para comer desse jeito. O que está acontecendo? -  era o mantra que a irmã repetia incessantemente. 
- Ô, Antero! Quié isso, rapaz? Você já não é magrinho, ainda fica com isso. Pode ser perigoso pro coração! Isso se o seu estômago não arrebentar! - diziam os colegas professores. 
- Vai comendo desse jeito, vai! Não demora muito e não consegue mais amarrar o tênis nem limpar a bunda! - era a atazanação diária do vizinho. 

Mas Antero não arredou pé de sua decisão. Apesar do mal-estar que vez por outra sentia, não desistiu de sua obstinada busca. Comia na esperança de seu sacrifício levar os apáticos jogadores corintianos a se redimir e levar o clube aos merecidos patamares da  glória. E não tardou alguém avisar a imprensa esportiva, sempre ávida por matérias estúpidas face a escassez de notícias em seu ramo. Numa tarde de quinta-feira, Antero (125  kg) recebia jornalistas do Globo Esporte para uma entrevista. 

- Estou sem nenhum prazer na vida desde que o Corinthians cessou de me dar alegrias. Então como para ter um mínimo de satisfação. 
- Mas, seu Antero, isso pode ser perigoso. O senhor pode ter problemas sérios. 
- Não me importo. Não ou deixar de viver com alegria por causa de um bando de pernas-de-pau que não honram a camisa que usam nem o salário que ganham. 

Evidentemente essa manchete gerou uma repercussão. Jogadores do Corinthians se dividiam entre sentir-se ofendidos com o depoimento daquele professor histriônico ou jurar que iam dar tantas alegrias que ele ia até passar fome, dispensando a comida. Técnicos e jogadores de outras equipes emitam também sua opinião, e até médicos gastroenterologistas e psiquiatras foram chamados para dar seu parecer sobre o caso - sempre condenando o torcedor, é claro. E realmente Antero já não sentia-se bem. E até a higiene pessoal, como previra o vizinho, já estava sendo comprometida por suas dimensões avantajadas. Antero transbordava de seu próprio invólucro. 

Até que, num chuvoso domingo no Pacaembu, o Corinthians desferia três gols contra um da Portuguesa de Desportos. Ricardinho, autor de dois gols (o outro fora contra), dedicou a vitória a Antero, que jazia em sua poltrona imóvel, mas feliz. Podia parar de comer. 

O problema é que ele já não se locomovia mais. Inerte, ficava esperando emagrecer para poder levantar seus 156 quilos mal distribuídos. Preocupados com sua ausência no trabalho, alguns conhecidos foram visitá-lo em sua casa. Não obtendo resposta e sentindo odores desagradáveis que a moradia emanava, chamaram o carro de resgate, cujos agentes  invadiram a casa. Encontraram Antero babando imóvel entre porções de urina e fezes ao longo do sofá e do assoalho. Recolhido, Antero foi levado ao hospital, do qual teve alta após duas semanas de internação. 

Sua situação causou comoção entre a nação. Até torcedores de outros clubes solidarizaram-se com Antero. Uma são-paulina, proprietária de um spa na cidade de Águas Negras, ofereceu a Antero um mês de estadia gratuita em seu estabelecimento. O professor aceitou e lá afeiçoou-se por ela, casando-se meses depois. Nesse meio tempo, a direção do Corinthians contratou Antero para um cargo burocrático qualquer, contato que ele sempre se apresentasse na torcida nos estádios. A partir daí, o clube atravessou sua fase de melhores resultados, conseguindo até chegar à disputa do Mundial de Clubes em Tóquio. A derrota do time deixou a todos preocupados, mas Antero, com as alegrias do casamento, não compensou suas frustrações com glutonia. 

Alguns anos depois, Antero faleceu. Enfarte. Tinha 80 quilos bem distribuídos e deixou para a filha toda a memorabilia corintiana, inclusive o querido cassete. Ela não gosta muito de futebol, mas não importa. Hoje, na bandeira da Gaviões da Fiel, o gavião-mascote divide espaço com um bonequinho gorducho e grisalho, novo mascote da nação corintiana. A nação anterina. 

Leonardo Vinhas, 22, é autor do livro “As Pérolas que Enriquecem os Porcos”.


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