Isa, a bela
parte II de não sei quantas
por Leonardo Barbosa Rossato 

Reserve ton priapisme pour le style, foutre ton encrier, calme-toi sur la viande... une once de sperme perdue fatigue plus que trois litre de sang *, eu dizia isso a minha mulher quando ela queria transar e eu escrever.

     - Você seria capaz de matar alguém?
     - Não sei. Já matei várias pessoas nos meus livros. Talvez seja a mesma coisa.
     - Você é um covarde, todo escritor é um covarde em potencial, e ria sentada na cama de calcinha e cigarro na mão, me provocando, tentando que eu deixasse de escrever para fazer amor com ela. Os seios médios, vistosos, eu adorava chupá-los, às vezes sentia que chupava a acidez e a doçura da minha ex-mulher.

Lembrei-me desse episódio ao ver a mãe de Isa entrando no meu quarto com um copo de vinho na mão, um cigarro na outra e Flaubert, é claro, na mão do cigarro. Eu e vocês sabemos o que ela queria, desde o momento que cheguei ao Brasil ela não parava de se insinuar a mim. Minha cueca se desavolumara-se com a decepção de que a pessoa a vir ao meu quarto fora a mão de Isa, e não a própria. Chegou meio bêbada (não escrevi totalmente porque prezo a minha amiga). Transei com ela por consideração. Como disse (melhor, escreveu) o Rubem Fonseca, a única contribuição do homem à humanidade é ter o pau duro, todo o resto, as artes, as ciências, o fogo, a roda, a agricultura, a moda, a culinária e o prazer foram as mulheres que inventaram.

O corpo da mãe de Isa estava cansado. Não velho cheio de rugas e pés-de-galinha típicos das mulheres dessa idade, mas poeticamente cansado. Ela ainda era bonita, com um corpo que deixaria qualquer rapaz mais novo excitado. Eu não. Custei a ficar excitado, tive que pensar em Isa. Quando tirei a camisola dela e beijei-lhe as costas, fechei os olhos: imaginei aquelas costas frágeis e sinceras, brancas e sapecas daquela menina que vi nascer. Beijei-lhe os ombros e tive medo de estar apaixonado por Isa.

Enquanto ela estava sobre mim, percebi alguém a minha porta. Apenas vi a sombra, distorcida e irrequieta, uma visão meio expressionista. Será que era Isa? Virei-me um pouco pra tentar enxergar mas a sombra sumira. Alguém estava ali, tinha certeza. Se fora Isa, com quais olhos eu a olharei pela manhã? e dormi a sonhar em nada.

Queria ser um defunto-autor como Brás Cubas, assim poderia destilar nessas palavras tudo o que sei e fiz, mas minha moral ou amoral, não importa, me impede. É como se algo me segurasse os dedos quando penso em escrever sobre tudo. Estou vivo e viver é muito perigoso.

Pensei sobre isso ao sentar à mesa do café. Odeio cafés-da-manhã burgueses. Pães de queijo, sucos de laranja, brioches e olhares insinuantes e pensativos sobre você de todos. A mãe de Isa sentou com um sorriso imenso e com um bom dia animador. O pai de Isa, que nem olhou direito pra mim, disse um bom dia rápido e foi trabalhar, 'como será que ele reagiria hoje com a nossa infidelidade?', 'deixa pra lá'. Isa veio, seus lábios sem batom como duas asas de borboleta me disseram, 'bom dia'.

Por um instante me senti um old dirty man, aqueles velhos escritores, como Bukowski que comiam menininhas. Foda-se... Meu deus, escrevi 'foda-se'. Em todos os meus livros nunca escrevi um palavrão por escrever. Eles (os palavrões) sempre tiveram sua função estética na frase e na estória. Percebi relendo esses manuscritos que meu texto vai perdendo o teor formal e vai se afundando em citações e vulgaridades. Talvez porque sempre os escrevi (meus livros) em sã consciência dos meus atos. Essa menina está me deixando perturbado, está transformando até a minha literatura. Mas eu me conheço, preciso possuí-la, acabar com essa angústia, para poder sobreviver. E melhor, escrever de novo.

O café foi tomado em silêncio e os olhos de nós três (eu Isa e a mãe) conversavam, brincando pude até ler os olhos delas: 'como foi bom ontem, meu amor, quero trepar com você o dia inteiro'; 'mamãe fez amor com ele, será que é bom?', 'queria que ele fosse meu primeiro homem'. 'o que será que essas duas tão pensando?'.

Depois do café, fomos todos para a sala. Ficamos eu e a Isa conversando sobre banalidades (descobri que ela não tem nenhum namoradinho) enquanto a mãe dela fora ao quarto. Isa tinha cruzado as pernas, nada sensual, como uma mulher
qualquer que senta e cruza as pernas porque está acostumada, mas eu imaginei-me descruzando-as e escrevendo poemas por todo o corpo dela, com a minha 'pena'.

A mãe de Isa lembrou de algo que eu tinha escrito e que mudaria minha vida. Mais do que qualquer livro ou qualquer poema. Ou qualquer amor.

Isa ficou exaltada, seus olhos brilhavam e eu percebi a calcinha dela, agora branca, ao levantar. Ela veio sentar perto de mim e disse como uma moleca me imitando a noite anterior, 'vem sentar-te comigo, Lídia' e sorriu pra mim. Perguntei se ela não gostava de Fernando Pessoa, ela disse que nunca tinha lido nada dele quando sua mãe chegou com um papel plastificado e antigo na mão. Era o poema que tinha feito para Isa. Ela tinha feito uma cópia.

A mãe de Isa começou a ler e percebi uma veia saltando no pescoço de Isa, uma veia energética...excitada...bela, depois de terminar, infantilmente me abraçou me beijou me agarrou e esperneou dizendo vários obrigados. O telefone tocara enquanto ela me agarrava (dentre todos os verbos, insisto nesse) e a mãe de Isa teve que sair. Trabalho. 'Nas férias, mãe?', 'É, você tá de férias, querida!', 'Não posso meus amores, vocês sabem como é o meu trabalho'.

Ela foi-se. Isa sentou no meu colo, como se eu fosse o avô dela e começou a ler em voz alta o poema. Eu ficara excitado desde o primeiro momento que ela lera e não sei ainda hoje como ela não percebeu meu pau. Ou não? Será que ela percebera? Isso até hoje me atormenta. Aquele protótipo de mulher, sentada no meu colo, as perninhas lisas, virgens, imaginei como deve ser a xotinha de uma menina de 15 anos, raspadinha, dócil, rosa, a rodelinha do bico do peito pequenita, a barriguinha cheia de pelinhos louros descendo até a xotinha. Ela percebeu, certeza, eu suava enquanto pensava nisso, ela era uma miragem. 'La très-chère était nue, et, connaissant mon coeur*'.

        - Só entendi o nue.
        - Baudelaire... Isa, você... foi ao meu quarto ontem à noite?
        - Sabe... eu queria saber mais sobre a sua mulher. Você fala tão pouco nela e a mamãe e o papai falam tanto. Ela era bonita?, e fez aquela cara de criança esperta.

Isa desconversara e fizera que não entendera minha pergunta. Ela agora perguntara sobre minha mulher. Desconversei, a imagem da minha mulher veio de repente na minha cabeça e aquilo me perturbara. Preciso esquecer tudo o que aconteceu.
 
Paris:
         - Então, querido? Hein? Assim como Verlaine a Rimbaud, você teria coragem de tentar me matar por amor?

continua na semana que vem

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