Isa,
a bela
parte I
de não sei quantas
por
Leonardo Barbosa Rossato
Lembro-me de pouco, é verdade.
Talvez tudo esteja em minha cabeça e o ocorrido não seja
apenas um devaneio de um velho escritor. Quando li o "Lolita" do Nabokov
tinha adorado mas nunca imaginara que as lolitas existissem fora da literatura.
As lolitas de verdade.
Conheci Isa, como a chamavam, na barriga
da mãe dela. Eu, ela, o namorado dela e a minha namorada saíamos
sempre juntos, era raro alguém ver-nos sozinhos, ou apenas em dois
ou em três. Era um quadrado amoroso, me perdoem, não encontrei
expressão mais inteligente para o caso. Eu já tinha saído
com a mãe de Isa uns meses antes e a minha namorada já saíra
com o namorado dela. Não nos importávamos com isso. Aliás,
naquela época ninguém se importava muito. Éramos
felizes.
Um dia a mãe de Isa apareceu
grávida e fomos comemorar. Fiquei muito feliz e até escrevi
um poema pra Isa, pois a mão dela me prometera que se fosse menina,
esse seria seu nome. Todos gostaram, daí o tempo passou. Isa nasceu,
eu comecei
a ter uma considerável notoriedade
como escritor e fui morar na Europa com a minha mulher. O tempo passou
para todos.
Minha mulher morreu. Não quero
falar-lhes sobre isso. Também não me deixou filhos. Voltei
para o Brasil e depois da família as primeiras pessoas que fui visitar
foram os pais de Isa. A mãe de Isa continuara linda. Loira, alta
e seios grandes: uma perfeita descendente de alemães. Quando li
"Amar, verbo intransitivo" do Mário de Andrade, a imagem dela não
me saía da cabeça. Fraülein e a mãe de Isa, mesmo
Fraülein sendo descrita como uma mulher feia pelo Mário. O
pai de Isa foi um Apolo na juventude, hoje a idade já atingira os
cabelos e um pouco a barriga. Numa primeira conversa, tomando café
com ela, disse-me que há tempos o vigor sexual do marido se esvaíra.
Não percebi o olhar malicioso dela ao conversar comigo. Só
fui entender depois.
Conheci Isa. Linda como a mãe.
Adentrei a sala enquanto ela pintava as unhas do pé. A primeira
coisa que notei em Isa foi a delicadeza dos pés. As unhas pintadas
de vermelho vivo, moda na época, vulgar hoje. Os dedinhos fininhos,
harmoniosamente combinando com a perna que meus olhos subiam e encontravam.
A mãe de Isa logo nos apresentou
e contou brincando que eu poderia ser pai dela.
- Adoraria ter um pai escritor
e tão bonito...
Seus olhos invadiram-me e me senti
estuprado pela voraz olhada da menina. Loirinha como a mãe, mas
menor, mais frágil fisicamente, anda suave, fala devagar, mexe bem
os lábios ao falar. Usava um shorts curto que não escondiam
suas coxas ora magras de menina ora rígidas de mulher. Magrinha,
seios pequenos diferente dos da mãe que sempre os teve fartos. Quando
ela abaixou pra soprar as unhas pintadas, vi rapidamente os seios dela
e não me interessei. Eram normais, no entanto, acho até hoje
que ela mostrou-me de propósito.
Dormi lá aquela noite. Passamos
a madrugada, eu a mãe e o pai de Isa conversando e lembrando casos
da juventude. Bebemos, rimos e choramos pela perda da minha mulher. A noite
toda percebi olhos, claramente lascivos, da mãe de Isa,
que confirmaram minhas suposições
quando ela calmamente apoiou sua mão dentre minhas coxas. Estávamos
sentados próximos e o marido dela fora buscar um vinho português.
O ato dela coincidiu com a sua fala na conversa não menos maliciosa:
- Como era bom antigamente...não
é, querido?
No entanto Isa não me saía
da cabeça. Era uma menina e isso fazia com que eu censurasse qualquer
tipo de pensamento sexual. Deixei o casal na cozinha e fui buscar em minha
mala um livro que tinha comprado pra eles. Flaubert, em francês,
claro. Na juventude tínhamos
aula de francês e adorávamos literatura, principalmente minha
mulher. Eu fui gostar de ler por causa dela e de Flaubert. No caminho para
a cozinha, Isa saía do banho. Com certeza ela ouvira meus passos
pois nunca uma pessoa ia sair assim do banho com visita em casa ainda.
Saíra apenas de calcinha. Os bicos dos seios estavam rijos, talvez
pelo frio. Deslumbrado com a nudez poética da menina, deti-me na
calcinha. Era uma calcinha minúscula, amarelo-claro, e com uma flor
desenhada na frente. No mínimo, sugestiva.
- Perdão, não sabia
que estava saindo do banho.
- Quéisso, perdão eu.
- Queridoooo, você está
aí?
A mãe de Isa apareceu e ela
rapidamente entrou no banheiro. Estava com o livro na mão e ela
com o copo de vinho. Divertiu-se com o presente e começou a ler
ali mesmo algumas palavras em um francês meio capenga. Pensou, talvez,
que iria me excitar quando nós quatro recitávamos Baudelaire
e isso nos excitava na juventude a ponto de transarmos, eu e ela, recitando
Baudelaire entre os gemidos e depois fumando.
Fomos para a sala, atrás de
nós já saíra Isa com seu pijama de bichinos. Provocativo.
Começamos a conversar, Isa
bebeu uns goles de vinho português. Lembrei-me de Fernando Pessoa
e recitei Lídia olhando para ela. O pai de Isa nesse momento dormira
no sofá e a mãe dela fora levá-lo para o quarto. Isa
tomava vinho e eu
não conseguia tirar os olhos
da boca sem batom dela que tocava o cristal do copo e sugava o líquido
vermelho que ali continha. Ela sorriu. Vem sentar-te comigo, Lídia,
disse, ela levantou-se, mas sentou-se assim que viu a mãe voltando.
Ao chegar a mãe de Isa na sala,
eu decidi-me ir dormir. Elas reclamaram, Isa queria ouvir mais histórias
da juventude de seus pais, mas eu estava cansado da viagem. As mulheres
da casa me mostraram o quarto de hóspedes e eu me instalei
lá.
Saíram e eu me troquei. Colocava
uma cueca pra dormir quando Isa apareceu 'só pra dizer boa-noite'
e finalmente,'linda cuequinha'. Deixei a luz baixa e comecei a ler antes
de dormir. Estava lendo Breton no original também. Tinha já
grande fluência no francês, até com dificuldade de escrever
em português sem estrangeirismos. O silêncio era aflitante
e tenso na casa. Às vezes passos. Às vezes armários
se fechando. Às vezes portas gemendo. Às vezes vozes.
Ouvi no corredor perto do meu quarto
passos. Meu coração começou a bater rápido.
Comecei a delirar: 'será que ela estava vindo ao meu quarto', 'não,
não posso, é uma menina, uma criança quase', 'mas
a quero tanto, vê-la toda nua, lamber os dedinhos finos dos pés
dela', 'e se a mãe dela nos pegar', 'pior e se o pai', 'Isa.."
A porta do meu quarto se entreabrira
e eu ainda não conseguia vê-la. Meus nervos todos ficaram
em alerta. As mãos trêmulas, a cueca avolumara-se, como um
adolescente. Breton já se encontrara no chão, aberto, todo
aberto, literariamente aberto.
continua na semana que vem
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