Freudstração
de
Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br
Sexo. Essa é uma palavra complicada.
Há quem ache que Freud só via as coisas de maneira sexual.
Freud queria dar e tinha medo de doer. Freud queria comer a mãe
(a dele, a sua, a de todo mundo). Freud era gay. Tudo isso e muito mais
de diz sobre o psicanalista - pelo menos nas bocas de quem apenas "ouviu
falar" das teorias do homem.
Reinaldo era um desses. Não
fora um aluno dos mais brilhantes durante sua vida escolar (segundo grau
completo, duas repetências acumuladas). Trabalhava de auxiliar
administrativo em uma pequena instituição financeira, cuidando
de burocracia básica e estafante. Mas gostava de ler. Lia muitas
revistas, não gostava muito de livros ("letras muito pequenas me
enchem o saco").
Em algumas dessas revistas já
lera sobre Freud. E sua perplexidade aumentava a cada nova leitura. Como
podia ser considerado gênio um tarado desses? Ele não se conformava.
Achava o doutor muito vulgar, e expressava essa opinião sempre que
tinha a oportunidade. Uma simples conversa numa fila de banco poderia ser
uma desculpa para surgir o assunto. E ele começava a desfilar seus
argumentos. Seu preferido era o do charuto. "Freud sempre aparecia fumando
um charuto em fotos", dizia Reinaldo, "e, de acordo com ele, isso significa
tesão oral. O cara curtia um boquete e inventava essas teorias para
disfarçar, saca?" era seu achado mais constante. Mencionava essa
"descoberta" com prazer iconoclasta, para a surpresa do ouvinte aturdido.
Nem eventuais protestos ou argumentos
contrários o dissuadiam de sua idéia. Ele sabia ter percebido
algo que ninguém percebera, e azar dos ignorantes que não
querem ouvir e cultuam esse cara. Um dia eu escrevo um livro sobre isso
e fico famoso, aí ninguém mais duvida - convencia-se repetidamente.
Qual não foi sua surpresa ou
deparar-se com alguém que acreditou em suas idéias. Iolanda
era uma moça simples. Bonita, mas um tanto mal cuidada. Chegou a
cursar a Faculdade de Letras por seis meses, mas teve que trancar matrícula
por falta de condições financeiras. E tinha teorias parecidas.
E uma libido muito forte, o que não era o caso de Reinaldo. Reinaldo
era quase impotente, ereções eram raras e nunca surgiam nas
situações apropriadas. Os dois se enamoraram, mas a vida
sexual começou tumultuada, graças ao descompasso de suas
disposições.
Pouco a pouco, a relação
começou a estremecer e a atração que ele exercia sobre
ela já se tornara evidentemente menor. Reinaldo, que já estava
bastante incomodado com sua incapacidade, começou a desconfiar da
fidelidade de Iolanda. Um dia, após uma frustrada tentativa de coito
(que não foi muito além de mornas preliminares), Iolanda
impacientou-se e chamou Reinaldo de brocha, meia-bomba e pinto mole. Reinaldo
não gostou. Irritou-se e agarrou Iolanda pelo pescoço. De
tão irritado, sua força e voracidade foram suficientes para
sufocar sua namorada em menos de um minuto. Iolanda jazia morta, e Reinaldo
observava nu seu cadáver quando a camareira do motel bateu à
porta para entregar o vinho pedido instantes antes. O rapaz vestiu a calça
e saiu do quarto, disposto a se entregar.
Reinaldo foi condenado a três
anos de prisão, mas não cumpriu nem dois. Após dezenove
meses de vida miserável na cadeia, se enforcou com um cadarço
velho. Os jornais sensacionalistas noticiaram: "assassino brocha se enforca
na cadeia". Jornais menos afeitos ao escândalo detalharam o caso
e citaram as paranóicas teorias do moço. E fizeram questão
de lembrar que Freud dizia que a libido mal resolvida podia levar à
violência.
Leonardo
Vinhas, 22, é autor do livro “As Pérolas que Enriquecem os
Porcos”.
Leia, de Leonardo Vinhas
"Here
are the young men"
"Coisas"
"Sete
reais"
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