Coisas Antigas
de Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br

Este desordenado texto é sobre coisas antigas. Sobre discretas alisadas no queixo que constituem um momento inesquecível, sobre fé em relacionamentos, sobre textos de amor e sobre mais um monte de coisas tidas por muitos como ultrapassadas.
Tenho o hábito (nefasto, diriam alguns) de escrever sobre algumas coisas que sinto e vivo. Escrevi vários poemas e crônicas para duas pessoas especiais que significa(ra)m muito para mim, embora a relação tenha sido estritamente platônica. Sempre achei que esses foram os meus melhores escritos, o que levava àquela ordinária indagação: só se compõe algo de qualidade na miséria emocional?

Recentemente, escrevi um poema para alguém com quem vivia um romance (palavra estranha, não?). Compus o poema enquanto ainda nos relacionávamos e - surpresa! - fiquei feliz com o resultado. Hoje, passado algum tempo e não havendo mais o romance (termo estranho mesmo!), ainda gosto do que fiz. Então a pergunta do parágrafo acima tem uma resposta negativa?

Em termos. A qualidade de uma obra independe do estado emocional de seu autor, e é possível criar na alegria. O problema é que esse simulacro de felicidade (ou ela em estado puro, quem pode dizer?) nos rouba parte do senso crítico e algumas coisas acabam saindo estúpidas. Por outro lado, no platonismo amoroso há a necessidade de resolver em palavras, acordes ou cores o que não se consome em atos.

Certo data não muito distante, estando na companhia de alguém especial cuja relação comigo ainda não compreendi se é platônica ou não, vivi uma noite muito agradável. Creio até ser apropriado conjugar o verbo na primeira pessoa do plural: vivemos (apesar da intromissão de um terceiro elemento incomodamente figurativo - ele que me desculpe). Se não ocorreu tudo que eu desejava, a atenção e a candura dispensada me surpreenderam - além da tensão sexual que parece haver entre nós. Porém, ao me despedir dela, ganhei uma discreta alisada no queixo e um olhar que desafia qualquer pálida descrição literária. E eis-me de volta a um questionamento sobre o que é platônico ou não, e porque isso vive acontecendo em minha vida.

Depois de certo tempo pensando, essas questões me pareceram comezinhas. Parece-me ser mais importante preservar as possibilidades da dúvida que ela me deixou e fazer outro texto sobre meus sentimentos, independente das motivações que o produziram. Por quê? Porque ainda acredito em uma série de coisas que são encaradas com desgraçada ironia hoje em dia: amor, felicidade a dois, Deus, completitude sexual (hein?), etc.

Completando o que eu havia escrito no início, este texto é sobre coisas consideradas ultrapassadas ou desnecessárias. E que ainda fazem alguém crer que a felicidade vai além de um simulacro, graças a um olhar singular e uma alisada no queixo.

Leonardo Vinhas tem 23 anos, adora estar vivo e perdeu completamente a autocrítica para escrever este texto.



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"Here are the young men"
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