Um aceno
à Josué de Castro
de
Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br
Em casa continuam a reclamar de sua
demora. Era do costume daquele jovem recifense passar horas na praia, mas
ele nunca se atrasara para o almoço. Sim, sua responsabilidade era
maior do que nossos paradigmas sobre o povo nordestino podem supor. Numa
sociedade normal, ele seria jovem demais para trabalhar, mas não
existem sociedades normais. Sua vida nunca teve grandes atrativos, mas
era boa o suficiente para que ele a prezasse.
Ele não havia se perdido. De
fato, iria atrasar-se para chegar em casa, pois passara a manhã
toda admirando uma morena que nem Machado de Assis ou José de Alencar
poderiam idealizar. Mas ele partira no momento em que ela deixou a praia.
Em seu costumeiro trajeto de retorno aos sábados, ele resolvera
contemplar o mangue, algo que nunca fizera antes. Logo se sentiu enganado.
Os livros escolares falavam tanto das belezas desta formação
vegetal, contudo seu aspecto sugeria um esgoto a céu aberto cercado
por lama, com uns poucos caranguejos ao redor, sobrevivendo misteriosamente
e liberando aquela curiosa substância espumosa que lhes é
particular. Pensou então em seu pai, que resistiu às durezas
da vida para sustentar a esposa e sete filhos, um dos quais acabara morrendo
vitimado por alguma moléstia ignorada que não deveria existir
em um mundo moderno e urbanizado. A resistência do seu pai cedera
há alguns meses, mas não havia sido uma luta vã.
Dirigiu seu olhar a uma placa
de um monumento. Não conseguiu ler bem as inscrições,
mas como falava de pessoas batalhadoras, achou que ele e os seus eram homenageados
por aquele marco. Sentiu-se recompensado pela homenagem e rumou para sua
casa, amando verdadeiramente sua dura vida, e acenou para a estátua
de um escritor famoso que ele sequer sabia o nome, mas que havia tornado
sua terra natal famosa. Nesse momento, um automóvel impiedoso arremessou
seu corpo a uma longa distância, deixando-o no calçamento,
já sem a amada vida.
E na casa dele, sem saber, a família
apenas estranhava ele perder o costumeiro peixe assado do almoço
de todos os sábados, que ele tanto apreciava.
Leonardo
Vinhas, 22, é autor do livro “As Pérolas que Enriquecem os
Porcos”.
Leia, de Leonardo Vinhas
"Here
are the young men"
"Coisas"
"Sete
reais"
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