The Private
Press – DJ Shadow (FNM)
por
Diego Fernandes
d13g0_freejazz@yahoo.com.br
Nos EUA, o sonho
da maioria dos garotos classe média é falar, usar as mesmas
roupas, se mover e agir como um negrão virulento, fichado e capaz
de arrancar a sua cabeça com os dentes sem esforço aparente.
Ou ao menos
é o que pode-se concluir pela popularidade de Eminem,
cujo satírico single "Without Me" já é um das músicas
mais tocadas – inclusive no Brasil – de 2002. Ou pelo surgimento exponencial
e potencialmente desastroso de clones do Limp Bizkit, uma banda cuja vontade
de soar negra e oprimida beira o ridículo (e que, perdoem-me os
mal-humorados, dentro de sua proposta caricata é uma banda das mais
divertidas). Ou pelas vendagens de gente como Jay-Z, Wu-Tang Clan, Dr.
Dre, Snoop Dog e de toda a absurda vertente gangsta cujos números
não seriam explicados por um público unicamente negro.
O hip-hop surgiu
como o método mais acabado e democrático de expressão
da oprimida classe negra norte-americana. Não requer grande extensão
vocal ou dotes literários imorredouros – requer, isso sim, alguma
credibilidade das ruas, o dom raro da rima, gingado, e aquele Q indefinível
que torna distinguível o malandro do mané. Algum traquejo
com o toca-discos. Scratches. O básico. Que tenha degringolado em
tiroteio e troca de insultos escabrosa é um desvio inesperado e
lamentável.
Com esse enrosco
todo, chegamos ao californiano Josh Davis, ou melhor, DJ Shadow, um branquelo
anódino e pacífico -- que faz hip-hop.
A bem da verdade,
Shadow é considerado o criador do trip-hop (uma bobagem), o gênero
que mais arrebanhou cabeças muderrnas na década de 90. O
fato de incorporar clima noir, samples malucos e um grau de obssessão
inédito à função de produtor não oculta
o fato de que o sujeito faz na verdade um rap semi-instrumental insano.
Lançou em 1996, pelo descolado selo britânico Mo’ Wax, "Endtroducing",
um dos álbuns definitivos dentro do BOOM da cena eletrônica
que se desenhava. Estava tudo lá: andamento arrastado, alguma coisa
surrupiada do dub jamaicano, batidas trinca-ossos de fazer corar muito
mano, vozes enfumaçados por sabe-se-lá-o-quê, uma sensualidade
que ficava por ali, arranhando sob a pele, esperando o momento apropriado.
"The Private
Press", o sucessor de "Endtroducing" dilapidado no decorrer de longos seis
anos, é dividido em duas partes: uma soberba e outra muito, mas
muito da meia boca.
Eu vou me ater
à parte soberba, obviamente, a parte que de fato interessa e que
desloca o cérebro do ouvinte para um reino de conforto e sorrisos
involuntários é constituída pelos arroubos verdadeiramente
trip-hópicos de Josh Davis. O título da obra trata-se de
uma referência às gravações caseiras de músicas
e mensagens populares realizadas pela consumista e ingênua população
americana dos anos 50 e 60, utilizadas por Shadow na confecção
do disco.
Após
uma vinheta recheada de sons vintage e estalos de vinil, entra "Fixed Income".
A música em si está além de uma descrição
adequada, mas eu vou tentar. Batidas orgânicas e sintetizadas se
fundem a freqüências de baixo demenciais num som macilento,
quente e levemente claustrofóbico, que te joga solto no espaço
em alguns preciosos minutos de delírio anti-gravitacional. Um desbunde,
apropiadíssimo para um embate a dois, se é que me entendem.
Cordas orientais discretas copulando com efeitos brincalhões dão
um toque classudo à coisa toda. Sexy.
"Giving Up The
Ghost" é de fato fantasmagórica, um thriller entre as orelhas.
Aliás: a sensação de que se está ouvindo uma
trilha sonora em tempo real para o que quer que se esteja fazendo permeia
todo o disco e pode causar leve paranóia. O clima é cinemático
ao limite, e as batidas implodem em algum ponto ignorado em meio a gritos
femininos fugidios e um inferno percussivo de cadências exageradas.
Imaginei ouvir tiros.
"Walkie Talkie"
joga pesado, com beats distorcidos e scratches frenéticos em meio
a uma algazarra que soa quase festiva.
Partindo da
abstrata premissa de fazer música se valendo de trechos da música
de terceiros, Shadow joga tudo o que acha conveniente no meio da massa
sonora, soando ardiloso e não raro cruel em sua jornada em busca
do beat perfeito. Algumas vezes chega bastante perto: "Six Days" (com seu
canto rhytm’n’blues sampleado de uma obscura banda setentista de Liverpool)
possui uma das letras mais dolorosamente belas que ouvi esse ano ("Tomorrow
never comes until it’s too late", diz). Batidas dopadas, percussão
celestial, baixo torturante e uma dose de melancolia que prova que Moby
não é o cara coisíssima nenhuma. Venham comigo: você
acorda, num domingo de manhã, após uma noite que resultou
em nada além de uma ressaca (que faz sua cabeça parecer cheia
de bolas de gude a cada movimento) e muita falta de sentido. Sentado na
cama, você observa o sol entrando pelas frestas da janela. Não
é um quadro particularmente bonito. Algo arranha a garganta por
dentro – não, não é vômito, quem dera fosse.
Você precisa de algo que lhe ajude a chorar. Vamos, isso é
catarse. E essa, amigo, é a música. Chore. Chore, seu fdp.
Apenas chore.
A dobradinha
"Mongrel"/"Meets His Maker" são variações sobre um
mesmo tema, uma espécie de acid jazz desacelerado e cerebral, com
tecladinhos que revelam um colapso nervoso à espreita. Infelizmente,
quando Shadow embesta de mexer com electro e pagar tributo unicamete à
sua vasta coleção de vinis, surgem troços como "Right
Thing / GDMFSOB", "Mashin On The Motorway", "Blood On The Motorway", ou
a maletosa "You Can´t Go Home Again".
Parte do disco
é composta por um tipo de música com a qual pode-se sonhar,
por mais idiota que isso soe. Parte é plenamente dispensável.
Se vale a pena? Bom, ouvir esse disco não dá a ninguém
nenhum respaldo nas ruas, mas, no momento, estou me divertindo bastante.
Diego Fernades
tem 21 anos e chora sempre que necessário. |