The Eminem Show - Eminem
por Victor Hugo Lopes
victorhugolopes@yahoo.com.br

Um linha de baixo sombria tenta acompanhar as pancadas da bateria. "Vim para liderar a marcha direto até as escadarias do Congresso e urinar nos gramados da Casa Branca/ ...e cuspir álcool na cara dessa democrácia hipócrita", vomita o rapper 

Eminem em seu mais novo disco, "The Eminem Show", lançado nesta semana no Brasil via Universal Music. O petardo politicamente incorreto (?!) custa R$ 28 em média.

O disco é o terceiro gravado pelo rapper. No primeiro dia nas lojas, vendeu 285 mil cópias nos EUA. Eminem desfila farpas cruéis contra Bush, Lynne Cheney, Moby, Mariah Carey e sua mãe, Debbie Mathers-Briggs. Em dez dias, atingiu a marca de 1,6 milhões de CD vendidos. Isso fora o fato do trabalho ter sido jogado em sites piratas uma semana antes de seu lançamento e chega com responsabilidade de superar os anteriores. Tem cacife para isso.

O disco deixa a homofobia dos outros discos um pouco de lado. O discurso político acentuou-se, embora destoe para um tipo de gangsta rap feito sob medida para a classe média norte-americana. A explicação é fácil. Quando estourou, Eminem trazia um componente extra. Ele é branco. Na segregacionista sociedade americana, foi um baque. E para os adolescentes bem nascidos, foi uma forma de consumir o rap através de um ídolo boca-suja.

O cara, no entanto, não é bom apenas por causa de sua polêmica. Tem jeito para a coisa. Senão, Dr Dre, um dos mais respeitados rappers da década de 90, não teria feito a produção do álbum. Ponto para ele. Eminem usa o cinismo para sacanear autoridades de forma bem humorada – e agressiva. Em "Without Me", ele prega que garotos ficam embaraçados porque seus parentes ainda ouvem Elvis Presley, com uma sutil analogia à prisão e falta de opção. E ele berra: "Sou a pior coisa desde Elvis Presley".

Exageros à parte, o humor ácido de Eminem sustenta-se em bases musicais seguras. Tem leve apelo dançante, ao mesmo tempo que os arranjos adquirem um ar sombrio. Seria um Body Count sem guitarras e desacelerado. Moby é retratado como "um gay careca de 36 anos", seguido de um pouco lisonjeiro convite para fazer uma sessão de sexo oral. Os discos anteriores, "The Slim Shady" e "The Marshall Mathers", são musicalmente menores em relação a "Eminem Show". O álbum segue o conceito de uma apresentação verborrágica, em que o rapper é o apresentador. Um tipo caótico de David Letterman
Show. A primeira faixa abre a farra. Emenda-se a paulada "White America". O sarcasmo soa ingênuo no início e cai no escatológico. Critica sem soluções, com linguagem ferina.

Se Eminem espanca a cara de socialites e boçais, mostra talvez um dos melhores discos de rap já desta década. Não traz nada de novo, verdade seja dita. Mas aponta o dedo com irônica e apresenta mais senso do que Britney Spears e Backstreet Boys juntos. Só que a piada não tem a mesma graça no Brasil, que pode levar o disco para o mero modismo. Mas, em caso de dúvida, vá ouvir um dos primeiros discos dos Racionais. É tão bacana quanto.