Falange
Canibal - Lenine(BMG)
por
Diego Fernandes
d13g0_freejazz@yahoo.com.br
Já tem algum tempo que a idéia
de música pop desarraigada de conceito não existe, e, a exemplo
de tantas outras coisas, podemos atribuir a culpa disso aos Beatles. Especificamente
após o lançamento de "Sargeant Pepper’s" (ô álbum!),
o disco que transformou os quatro cabelos-de-tigela em hippies sujos, nada
nunca mais pôde ser interpretado como 'música boba e despretensiosa'.
Por conta disso, até mesmo quando ouço um CD do Lenine, não
posso deixar de pensar em termos de 'qual é a desse cara?'
A crítica brasileira se divide
de maneira apaixonada em relação a Lenine (e também
à maioria de seus contemporâneos e equivalentes estilísticos,
como Zeca Baleiro, Chico César e Paulinho Moska, só pra citar
alguns). Já li resenhas que elevavam o sujeito à condição
de salvação da MPB, bem como resenhas que o xingavam de coisas
que não quero reproduzir neste curto espaço.
Não consigo enxergar em Lenine
um sujeito com pretensões de reescrever a MPB e injetar ainda mais
caetanismo na dita cuja. Indícios de sua intenção
despojada existem. Exemplo: no encarte de seu terceiro e mais recente disco,
"Falange Canibal", há um texto introdutório ridículo
que parece mais uma redação colegial entrecortada por pontos
de exclamação, reticências e lugares-comuns. Algo que
certamente não figuraria num disco de um pretenso medalhão
de aura megalômana. Ok. Risque isso. Reserve, deixe de lado. Boa
parte da MPB também se acha no direito de falar merda sem se esforçar
pra oferecer nada nem ao menos audível em troca, o que certamente
não é o caso de Lenine. O cara ao menos se puxa.
"Ecos do Ão" tem uma letra
crítica que não soa ingênua. O vocal de Lenine sussurra
e oscila criando tensão legítima, que é levemente
expurgada no refrão esquisito. As programações e intervenções
dos convidados do Vulgue
Tostoi são previsíveis e agem exatamente conforme o esperado
-- mas no fundo era o que a música pedia mesmo. Gostaria de ouvir
no rádio – de preferência sem jabá de gravadora.
"Sonhei" soa como uma música
da Marina sem o vocal da Marina. A letra ("Sonhei / E fui...") e a dinâmica
vocal de Lenine só fazem reforçar essa impressão,
e vai adquirindo ares de trip-hop praieiro (isso existe?) lá pela
metade. E vai. No tranco, mas vai.
Já em "Umbigo" a coisa muda
de figura. A letra vai naquelas de poesia concreta – dê um desconto.
O baixo come solto e a bateria de Will Calhoun, do Living Color faz um
estrago daqueles. O vocal de Lenine vaivaivai, e, quando se supõe
que não passaria de uma musiquinha legal, entra o vocal afrodisíaco
da musa lesbo/folkie Ani Difranco. A coisa toda se perde num labirinto
com respingos de tecladeira dub: a música fica tão sexy que
calafrios inerciais percorrem seu pescoço e você sai uivando
por aí. Aprovada com louvor.
"Lavadeira Do Rio" é pop, tão
pop que até parece saída do último CD do Skank. Mas
espere aí. Olhe o encarte: Haroldo Ferretti, Henrique Portugal e
Lelo Zanetti participam da música. Ou seja: um Skank sem cabeça
(Samuel Rosa). Rende um caldo legal, pop, redondinha e bem brasileira (com
todas as implicações passíveis de serem embutidas
no termo).
"Encantamento" é uma montagem
sonora com várias músicas que soa orgânica e indiscutivelmente
bela, contando com a participação de, entre outros, Frejat,
numa canja bem resumida.
Essas cinco músicas dão
a tônica do que seria um 'disco ideal' no pop brasileiro: ao mesmo
tempo em que é auto-referente, busca fusões inusitadas fora
de sua esfera e tem à disposição uma produção
esmerada. A partir daí, todavia, alguns pequenos problemas se instauram.
"Nem
O Sol, Nem A Lua, Nem eu" é pseudo-bossa com letra clichêzona.
Um pouquino mais de criatividade e poderia ser uma música legal.
Mas agora é tarde. "Caribantu" tem uma lista de convidados maior
do que a própria letra, mas na verdade não dispõe
de muito pique – talvez por isso mesmo seja a música mais curta
do disco. "Quadro-Negro" parece Seal, o que não é ruim, mas
também não é nada demais.
"O Silêncio Das Estrelas" não
se salva nem que você queira muito. É uma seresta xaroposa
que poderia muito bem estar algum trabalho da Fafá de Belém
(Obs.: meu Deus!), com um arranjo orquestral que se estende por excruciantes
4min17seg. Pule. "No Pano Da Jangada" é uma cantilena de ares folclóricos
conduzida só por um tambor e pelo arrastar dos pés de Lenine
sobre a areia, produzindo um efeito interessante, mas que soa deslocado
no conjunto do disco.
Aí vem "Rosebud (O Verbo E
A Verba)" e, de repente, estamos em Cuba. Ou ao menos essa é a intenção
de Lenine ao apostar nesse som latino e climático. Se alguém
entender a citação a "Cidadão Kane" no título,
por favor escreva me explicando. Me sinto inferiorizado. Mas, ah, sim,
a música: tem uma letra chata e que compromete o ritmo até
mais ou menos metade da música. Quando realmente engrena, bom, daí
já era.
Na finaleira, "O Homem Dos Olhos De
Raio X", a tão comentada faixa com participação do
ressucitado Living Color. Inegavelmente, uma das melhores do disco -- levada
calma, quase jazzy, e a voz de Lenine soa segura como em nenhuma outra
faixa do disco, com uma letra lírica e urbana a um só tempo
("Meus olhos de raio X cegaram de medo / Pois tua alma é de chumbo
e segredo").
Saldo final: Lenine tenta estofar
a MPB com gêneros díspares apostando em uma orientação
pop cosmopolita, mas peca pelo bom-mocismo e intenções veladas
em algumas faixas. Produção fraca? Mão da gravadora?
Ou Lenine simplesmente é um artista meia-boca? Se tivesse que apostar,
seria mais ou menos o seguinte: Lenine é isso aí mesmo --
pop, com pretensões que não vão além de chamar
os amigos para esculpir algumas belas peças. Se isso bastar, se
atire. Se não, aprecie com moderação que fica tudo
certo. Bom, quase.
Diego Fernandes,
21 anos, acreditou até os 12 anos que MPB era a sigla de algum tipo
de encargo tributário.
Falange
Canibal, faixa a faixa por Lenine
Ecos do ão
Uma declaração
de amor à Língua Portuguesa e a sua sonoridade ímpar.
Nenhuma língua, latina ou não, possui o som do ão.
Nem no português de Portugal encontramos esse som anasalado e aberto...
A textura de timbres a que o Vulgue conseguiu chegar é instigada.
Sonhei
É um
cinco com jeitão de dez, portanto, tem, lá no fundo, um sentimento
binário que torna quase que irreconhecível o compasso quebrado.
Nas mãos de Kassin e Berna, a canção ganhou intuição
e desceu redondo...
Umbigo
O texto fala
por si, qualquer tentativa de explicar é chover no molhado. Todos
que lidam com a exibição me entenderão. Talvez por
causa da minha formação socialista, essa canção
funciona como um auto-exorcismo, um mapa para não me permitir o
distanciamento das coisas que são realmente importantes. Dois grandes
amigos nos ajudaram a dar forma à canção: Eumir Deodato
e Ani Difranco
Lavadeira do rio
Da série
de canções de rua tipo levada-e-gogó, dessas que são
compostas sem o auxílio luxuoso de instrumentos, música crua.
Seguem uma tradição do universo da canção espontânea
de bloco: Suvaco, Simpatia, Monobloco etc... O Henrique e o Haroldo realçaram
ainda mais essas características. Um banho de sonoridade pop.
Encantamento
Fruto direto
do arrebatamento que nos causou a descoberta da banda russa Farlanders.
Foi um encantamento só desvendar no som vindo de terras tão
distantes coisas tão próximas a nós. Eu vi o Brasil,
eu me vi no som dos caras... Aí Maurão comprou a briga e
montou de forma magistral a canção.
Nem o Sol, nem a Lua, nem
eu
Originalmente
composta pra Bethânia, é uma ciranda cyberpunk que tem a especialíssima
participação do Steve e suas divinas conchas, que transportaram
a canção até as areias de uma praia remota... em Saturno!
Caribantu
Outra do tipo
rua, meio coco rústico-radical, meio samba-de-roda pós-naif...
Mas é principalmente o encontro de duas gerações,
com 40 anos de diferença, o elenco de "Cambaio" e a Velha Guarda
da Mangueira, nunca vi nada tão parecido...
Quadro-Negro
Segue a linha
canção-crônica, um retrato, bastante fiel, a meu ver,
do mundo de hoje. "O último a sair do breu, acenda a luz...", é
o mote que usamos para falar dos paradoxos, injustiças e contradições
que povoam o nosso planeta. A harmonia do Lobatinho no Theremin deu aquele
ar de filme noir.
O silêncio das estrelas
Originalmente
um blues, esta canção se transformou, com as cordas do Glauco
e a sanfona do Régis, numa épico-clássica balada existencial...
É, das canções que compõem o CD, a mais antiga,
e, portanto, ao meu ver, a que mais se metamorfoseou.
No pano da jangada
É a terceira
da seqüência de músicas de rua, deu vontade de radicalizar:
joguei areia em todo o estúdio, espalhei microfones pela sala, gravei
os grooves com os pés e percussão de boca, e daí pra
uma ego-faixa foi um pulo.
Rosebud (o verbo e a verba)
É uma
história de amor entre dois personagens muito conhecidos de todos
nós, "Dolores e Dólares". Além de uma discreta homenagem
ao visionário cidadão Orson. A banda do Andres, o Yerba Buena,
foi uma puta descoberta e tocar com "El Negro", coração da
percussão afro-caribenha, foi um luxo...
O homem dos olhos de raio
X
Evidentemente
teve o título tirado do clássico de Roger Corman, do início
dos 60. O track foi gravado de primeira, e sem overdubs, e capturou fielmente
a levada de som que foi o encontro com (salve, Jorge!) a "Banda do Zé
Pretinho" Living Colour
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