Falange Canibal - Lenine(BMG)
por Diego Fernandes
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Já tem algum tempo que a idéia de música pop desarraigada de conceito não existe, e, a exemplo de tantas outras coisas, podemos atribuir a culpa disso aos Beatles. Especificamente após o lançamento de "Sargeant Pepper’s" (ô álbum!), o disco que transformou os quatro cabelos-de-tigela em hippies sujos, nada nunca mais pôde ser interpretado como 'música boba e despretensiosa'. Por conta disso, até mesmo quando ouço um CD do Lenine, não posso deixar de pensar em termos de 'qual é a desse cara?' 

A crítica brasileira se divide de maneira apaixonada em relação a Lenine (e também à maioria de seus contemporâneos e equivalentes estilísticos, como Zeca Baleiro, Chico César e Paulinho Moska, só pra citar alguns). Já li resenhas que elevavam o sujeito à condição de salvação da MPB, bem como resenhas que o xingavam de coisas que não quero reproduzir neste curto espaço.

Não consigo enxergar em Lenine um sujeito com pretensões de reescrever a MPB e injetar ainda mais caetanismo na dita cuja. Indícios de sua intenção despojada existem. Exemplo: no encarte de seu terceiro e mais recente disco, "Falange Canibal", há um texto introdutório ridículo que parece mais uma redação colegial entrecortada por pontos de exclamação, reticências e lugares-comuns. Algo que certamente não figuraria num disco de um pretenso medalhão de aura megalômana. Ok. Risque isso. Reserve, deixe de lado. Boa parte da MPB também se acha no direito de falar merda sem se esforçar pra oferecer nada nem ao menos audível em troca, o que certamente não é o caso de Lenine. O cara ao menos se puxa.

"Ecos do Ão" tem uma letra crítica que não soa ingênua. O vocal de Lenine sussurra e oscila criando tensão legítima, que é levemente expurgada no refrão esquisito. As programações e intervenções dos convidados do Vulgue Tostoi são previsíveis e agem exatamente conforme o esperado -- mas no fundo era o que a música pedia mesmo. Gostaria de ouvir no rádio – de preferência sem jabá de gravadora.

"Sonhei" soa como uma música da Marina sem o vocal da Marina. A letra ("Sonhei / E fui...") e a dinâmica vocal de Lenine só fazem reforçar essa impressão, e vai adquirindo ares de trip-hop praieiro (isso existe?) lá pela metade. E vai. No tranco, mas vai. 

Já em "Umbigo" a coisa muda de figura. A letra vai naquelas de poesia concreta – dê um desconto. O baixo come solto e a bateria de Will Calhoun, do Living Color faz um estrago daqueles. O vocal de Lenine vaivaivai, e, quando se supõe que não passaria de uma musiquinha legal, entra o vocal afrodisíaco da musa lesbo/folkie Ani Difranco. A coisa toda se perde num labirinto com respingos de tecladeira dub: a música fica tão sexy que calafrios inerciais percorrem seu pescoço e você sai uivando por aí. Aprovada com louvor.

"Lavadeira Do Rio" é pop, tão pop que até parece saída do último CD do Skank. Mas espere aí. Olhe o encarte: Haroldo Ferretti, Henrique Portugal e Lelo Zanetti participam da música. Ou seja: um Skank sem cabeça (Samuel Rosa). Rende um caldo legal, pop, redondinha e bem brasileira (com todas as implicações passíveis de serem embutidas no termo).
"Encantamento" é uma montagem sonora com várias músicas que soa orgânica e indiscutivelmente bela, contando com a participação de, entre outros, Frejat, numa canja bem resumida.

Essas cinco músicas dão a tônica do que seria um 'disco ideal' no pop brasileiro: ao mesmo tempo em que é auto-referente, busca fusões inusitadas fora de sua esfera e tem à disposição uma produção esmerada. A partir daí, todavia, alguns pequenos problemas se instauram.

"Nem O Sol, Nem A Lua, Nem eu" é pseudo-bossa com letra clichêzona. Um pouquino mais de criatividade e poderia ser uma música legal. Mas agora é tarde. "Caribantu" tem uma lista de convidados maior do que a própria letra, mas na verdade não dispõe de muito pique – talvez por isso mesmo seja a música mais curta do disco. "Quadro-Negro" parece Seal, o que não é ruim, mas também não é nada demais. 

"O Silêncio Das Estrelas" não se salva nem que você queira muito. É uma seresta xaroposa que poderia muito bem estar algum trabalho da Fafá de Belém (Obs.: meu Deus!), com um arranjo orquestral que se estende por excruciantes 4min17seg. Pule. "No Pano Da Jangada" é uma cantilena de ares folclóricos conduzida só por um tambor e pelo arrastar dos pés de Lenine sobre a areia, produzindo um efeito interessante, mas que soa deslocado no conjunto do disco. 

Aí vem "Rosebud (O Verbo E A Verba)" e, de repente, estamos em Cuba. Ou ao menos essa é a intenção de Lenine ao apostar nesse som latino e climático. Se alguém entender a citação a "Cidadão Kane" no título, por favor escreva me explicando. Me sinto inferiorizado. Mas, ah, sim, a música: tem uma letra chata e que compromete o ritmo até mais ou menos metade da música. Quando realmente engrena, bom, daí já era. 

Na finaleira, "O Homem Dos Olhos De Raio X", a tão comentada faixa com participação do ressucitado Living Color. Inegavelmente, uma das melhores do disco -- levada calma, quase jazzy, e a voz de Lenine soa segura como em nenhuma outra faixa do disco, com uma letra lírica e urbana a um só tempo ("Meus olhos de raio X cegaram de medo / Pois tua alma é de chumbo e segredo"). 

Saldo final: Lenine tenta estofar a MPB com gêneros díspares apostando em uma orientação pop cosmopolita, mas peca pelo bom-mocismo e intenções veladas em algumas faixas. Produção fraca? Mão da gravadora? Ou Lenine simplesmente é um artista meia-boca? Se tivesse que apostar, seria mais ou menos o seguinte: Lenine é isso aí mesmo -- pop, com pretensões que não vão além de chamar os amigos para esculpir algumas belas peças. Se isso bastar, se atire. Se não, aprecie com moderação que fica tudo certo. Bom, quase.

Diego Fernandes, 21 anos, acreditou até os 12 anos que MPB era a sigla de algum tipo de encargo tributário. 




Falange Canibal, faixa a faixa por Lenine

Ecos do ão 

Uma declaração de amor à Língua Portuguesa e a sua sonoridade ímpar. Nenhuma língua, latina ou não, possui o som do ão. Nem no português de Portugal encontramos esse som anasalado e aberto... A textura de timbres a que o Vulgue conseguiu chegar é instigada. 

Sonhei

É um cinco com jeitão de dez, portanto, tem, lá no fundo, um sentimento binário que torna quase que irreconhecível o compasso quebrado. Nas mãos de Kassin e Berna, a canção ganhou intuição e desceu redondo... 

Umbigo

O texto fala por si, qualquer tentativa de explicar é chover no molhado. Todos que lidam com a exibição me entenderão. Talvez por causa da minha formação socialista, essa canção funciona como um auto-exorcismo, um mapa para não me permitir o distanciamento das coisas que são realmente importantes. Dois grandes amigos nos ajudaram a dar forma à canção: Eumir Deodato e Ani Difranco 

Lavadeira do rio

Da série de canções de rua tipo levada-e-gogó, dessas que são compostas sem o auxílio luxuoso de instrumentos, música crua. Seguem uma tradição do universo da canção espontânea de bloco: Suvaco, Simpatia, Monobloco etc... O Henrique e o Haroldo realçaram ainda mais essas características. Um banho de sonoridade pop. 

Encantamento

Fruto direto do arrebatamento que nos causou a descoberta da banda russa Farlanders. Foi um encantamento só desvendar no som vindo de terras tão distantes coisas tão próximas a nós. Eu vi o Brasil, eu me vi no som dos caras... Aí Maurão comprou a briga e montou de forma magistral a canção. 

Nem o Sol, nem a Lua, nem eu

Originalmente composta pra Bethânia, é uma ciranda cyberpunk que tem a especialíssima participação do Steve e suas divinas conchas, que transportaram a canção até as areias de uma praia remota... em Saturno! 

Caribantu 

Outra do tipo rua, meio coco rústico-radical, meio samba-de-roda pós-naif... Mas é principalmente o encontro de duas gerações, com 40 anos de diferença, o elenco de "Cambaio" e a Velha Guarda da Mangueira, nunca vi nada tão parecido... 

Quadro-Negro 

Segue a linha canção-crônica, um retrato, bastante fiel, a meu ver, do mundo de hoje. "O último a sair do breu, acenda a luz...", é o mote que usamos para falar dos paradoxos, injustiças e contradições que povoam o nosso planeta. A harmonia do Lobatinho no Theremin deu aquele ar de filme noir. 

O silêncio das estrelas

Originalmente um blues, esta canção se transformou, com as cordas do Glauco e a sanfona do Régis, numa épico-clássica balada existencial... É, das canções que compõem o CD, a mais antiga, e, portanto, ao meu ver, a que mais se metamorfoseou. 

No pano da jangada

É a terceira da seqüência de músicas de rua, deu vontade de radicalizar: joguei areia em todo o estúdio, espalhei microfones pela sala, gravei os grooves com os pés e percussão de boca, e daí pra uma ego-faixa foi um pulo. 

Rosebud (o verbo e a verba)

É uma história de amor entre dois personagens muito conhecidos de todos nós, "Dolores e Dólares". Além de uma discreta homenagem ao visionário cidadão Orson. A banda do Andres, o Yerba Buena, foi uma puta descoberta e tocar com "El Negro", coração da percussão afro-caribenha, foi um luxo... 
 

O homem dos olhos de raio X

Evidentemente teve o título tirado do clássico de Roger Corman, do início dos 60. O track foi gravado de primeira, e sem overdubs, e capturou fielmente a levada de som que foi o encontro com (salve, Jorge!) a "Banda do Zé Pretinho" Living Colour