Confortável
ficava a sua mãe
Impaciência
- Vulgue Tostoi (Net Records)
de Fábio
Sooner
“Sempre
a cada dia/ alguém acaba/ a cada dia/ mudo”. Em clima paranóico-futurista,
Marcello H, vocalista e principal compositor do Vulgue Tostoi (junto ao
guitarrista Júnior), repete os versos acima com voz embargada, como
quem sussura na sede secreta de uma organização terrorista
clandestina. Um pouco antes, reclamava que “essas vozes/ são tantas
vozes/ vão me consumindo como podem”. Ainda há mais tempo
atrás, pedia, com vontade: “me deixa sair/ me deixa sair por aí”,
ao constatar que “tudo se vende/ nada se dignifica”.É,
o rapaz decididamente não se sente confortável. Pelo menos
quando assume o microfone de sua banda.
Apesar
de estar lançando seu primeiro registro, nem se trata de uma banda
tão nova assim; deve ter pelo menos uns quatro anos de existência,
se não falha a memória.Sendo
assim, chega a ser comovente a insistência temática no descontentamento,
ainda que os alvos dessa impaciência – não tinha como
o nome desse disco ser mais apropriado – variem de faixa a faixa. Se ali
em cima reclamava-se da frieza do mundo na virada do milênio e do
seu caráter mercantilista, em “Terrorismo feliz”, por exemplo, sobra
até pra quem glorifica a cara feia que eles mesmos fazem: “eu quis
cantar/ libertar/ mas aqui não se escuta/ terrorismo feliz”.
Não
é contraditório? Sim e não. O Vulgue, ainda que tenha
soterrado sua música em climas noir, é uma banda pop
feliz. Feliz no limite da esquizofrenia, claro – mais ou menos como o Portishead
parece estar a um passo do suicídio, e soa sensual ao mesmo tempo.
A referência não é gratuita, embora o Vulgue puxe mais
para o groove, em busca de um resultado que seja tão dançante
quanto forte. E na maioria das vezes conseguem. Como? Simples: faça
que seu guitarrista abuse dos pedais, que seu baterista escute muito trip-hop,
que seu baixista costure tudo sempre no limite do grave, e deite tudo isso
sobre uma cama constante de efeitos eletrônicos. Não se esqueça
de temperar com um certo gosto pelo lado mais obscuro do rock oitentista.
As letras completam o quadro.<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office"
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No
final das contas... Impaciência, em sua esquizofrenia de rock
feliz, suas reclamações dançantes, chega a ser curioso:
é preciso estar em sintonia para apreciá-lo. De bem com a
vida, o disco não faz sentido. Naquelas tardes sem rumo, manhãs
com vontade de socar o ar e noites enclausuradas em frente ao computador,
pode ser um estímulo e tanto. Só tome cuidado pra não
arranjar sarna pra se coçar – não nos responsabilizamos se
neuroses surgirem. E provavelmente a banda também não está
nem aí pra você. Vai encarar? (Fábio Sooner)
Fábio
Sooner, 27, é editor do site Pastilhas
Coloridas.
fabio.henrique@petrobras.com.br
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