O AUTÊNTICO
"DOMINGO LEGAL"
Domingo
Alternative Voices - Jerks, Elegia, College, Wonkavision e Blemish
Chopp do
Poeta - Taubaté (SP) - 14/07/2002
por
Leonardo Vinhas
Pré-escrito importante:
isso não é uma resenha. Essa é uma quase crônica
sobre um amor pouco comum e de desenlaces surpreendentes.
O Alternative
Voices é uma publicação sem periodicidade muito
definida que congrega características de fanzine, jornal e revista,
circulante principalmente no Vale do Paraíba, mas que graças
aos contatos estabelecidos pela sua equipe também atinge outras
cidades em outros Estados. A proposta inicial dele era documentar e incentivar
uma cena alternativa na região, especialmente em sua cidade-sede,
Taubaté. E para concretizar esse intento, foi organizado o Domingo
Alternative Voices, séries de shows em quatro domingos consecutivos
no Chopp do Poeta, um espaço estruturalmente ideal para shows de
rock.
A quarta e última série
de shows realizou-se na tarde fria de 14 de julho. E eu fui para lá
bastante desapontado com o que chamam de "cena independente". A postura
elitista, panfletária e incoerente de boa parte do público
presente nos dias anteriores (se não está claro de que tipo
de pessoa estou falando, tente entender lendo a crônica "Alternativo
a quê?") era um fator de desânimo, porém o mais
deprê era a atitude de algumas bandas. Seus componentes só
faziam emular artistas estrangeiros com uma palidez insípida, afetando
trejeitos de rock stars e deixando qualquer profissionalismo de lado. E
as tolas discussões decorrentes desses shows, somadas a alguns acontecimentos
pessoais, me tornaram convicto para dizer para algumas pessoas: "o rock'n'roll
é só música, e nada mais. Para mim, é algo
falido". Melodramático, não? Mas qualquer pessoa que já
tenha tido momentos na vida para os quais o rock foi trilha sonora, combustível
e estímulo, sabe o quanto essa simples "música" pode
ser entorpecente, ilusória, enlouquecedora e marcante. E sabe também
o quão frustrante é se desanimar com ela e com o que ela
envolve.

Todavia, às 16h30, André,
Selma e Dáphine subiram no palco, e aos acordes de "Intermissão",
os Jerks começavam
a provar que os elogios que freqüentemente recebem não são
desmedidos. Na metade da segunda música, o quase-hit "Fora de Mim",
eu já havia deixado de lado qualquer desânimo ou reflexão
para me esgoelar aos versos "Não sei mais quem está contra
mim / Não me importa / Eu qero viver fora daqui". "Todo Dia", presente
na coletânea Grammophone Multimídia Vol. 1, teve seu refrão
cantado em coro por boa parte dos presentes, e as inéditas causavam
pena - mas pena de não ter dinheiro sobrando para investir num disco
do trio. Canções pesadas, memorizáveis, pop. Se antes
eles eram admiradores dos Autoramas, agora parece que eles se tornarão
uma "banda-irmã" destes, na sonoridade e no pique de palco.

E nem houve muito intervalo para comentários
positivos. Em menos de dez minutos, o Elegia ocupava o palco. Ou melhor,
sua música ocupava o lugar todo. Texturas densas e enevoadas abrindo
espaço para um peso mesmerizante... os músicos pareciam não
estar lá, tamanha a imponência de seu som. Porém, em
um tema instrumental inédito, o baterista Escobar revelou-se um
monstro golpeando surdos e bumbo com precisão e violência,
enquanto o violino de Emerson Deniz duelava com a guitarra cheia de arranjos
inusitados de Marcelo Dangelo. Nenhum dos presentes ousaria chamar a banda
de gótica, como costumam fazer os desavisados, depois de presenciar
a assombrosa e marcante apresentação. Nunca o clichê
"se tivessem nascido em qualquer buraco da Inglaterra, seriam idolatrados"
aplicou-se tanto a uma banda quanto eles. Não plagiam ninguém,
obtiveram o que todo artista deveria buscar: um som pessoal e intransferível.

Alguns espectadores, impressionados com
o que viram, disseram que não gostariam de subir no palco depois
de um espetáculo desse porte. E o College, normalmente taxado de
"emocore" e dado a viadagens de palco, não parecia ser a melhor
escolha, principalmente depois de embaçarem demais para montar seu
equipamento. Minha ranhetice e minha cara caíram no chão
quando os garotos (entre 17 e 21 anos) começaram a tocar. Suas composições
fortes, cheias de breques, mudanças de andamento, passagens jazzísticas
e backing vocals chorados/berrados, remeteram aos ousados Hurtmold e Diagonal,
bandas desafiadoras que permanecem desconhecidas até do público
indie, louco por gente obscura. Com a diferença que o quinteto de
Pinda sabe fazer refrãos também. Pena que seu registro em
CD, um split com a banda paulistana Polara, só traga canções
antigas. Mas quem viu o show (veja bem: SHOW) em questão não
deixará de comprar álbuns vindouros. Pop de louco? Rock jazzístico?
A melhor definição para eles é nenhuma.

A
"atração internacional" Wonkavision
(a distância entre Porto Alegre e Taubaté não é
apenas geográfica) veio desfalcada da voz da baixista Grazi, quase
afônica. Em razão disso, limitaram seu set list a seis músicas,
já que a garota canta muitas delas, inclusive a apreciada "Nanana".
Mas se você acha que foi ruim, é apenas porque você
não estava lá. Quem estava, vai poder arrotar aquele orgulho
besta de ter visto uma apresentação em condições
adversas (o moog também falhou em alguns momentos) cujos obstáculos
foram superados. Como? Com carisma, talento, tesão de palco e amor
pela música - características que abundaram neste dia e que
o College e os Wonkas exibiram em doses maciças. A audiência
- da qual uns 80% sequer tinham uvido falar da banda - ficou com aquele
sorrisinho de felicidade no rosto. Eu? Fiquei sem voz e com dor de cabeça
de tanto pular, pogar e dançar. "O Plano Mudou" encerrava o show
e também minhas dúvidas sobre a validade do rock'n'roll.
Observação interessante:
até as garotas na platéia comentavam com positiva inveja
a sensualidade de Grazi.

Entretanto, ainda tinha o Blemish,
uma ótima banda ao vivo, mas cujas viagens instrumentais não
pareciam propícias para o dia. Porém, o dia pertencia mesmo
ao inesperado: na segunda apresentação com a nova formação,
o quarteto mostrou que realmente tem o coração e a mente
fincados no começo da década passada, combinando influências
de grunge e Helmet ("eles influenciam pra caralho a fase atual", disse-me
o vocalista e guitarrista Clóvis Tito) e carregando no peso. Se
antes suas apresentações eram psicodélicas e dissonantes,
agora elas são ROCK'N'ROLL... com psicodelismo e dissonância,
claro. Resumindo: é o Blemish que todos gostamos, mas ainda mais
intenso e visceral. As aguardadas "Falling Star" e "Silver Box Son" vieram
intensas, avassaladoras. E as novas deixaram a sensação que
os rapazes ainda nem exploraram todo seu potencial, tamanhas as possibilidades
de cada canção. Menção mais que especial vai
para o baterista Danilo "o Ogro" Sanefuji. Quem vê aquele garoto
magro e com cara de espantado não acredita na garra e violência
que ele esbanja entre viradas e marcações que ditam a dinâmica
das músicas recentes. E fica mais incrédulo ao presenciá-lo
modesto após o show, dizendo timidamente que estava pegando leve
pelo medo de estragar a bateria alugada...
Já eram 22h quando o evento
acabou e eu lamentava que o dia estivesse acabando. A diversão havia
sido em altíssimo grau, a cerveja estava bem gelada e as mulheres
presentes, no palco e na platéia, eram lindas (isso é sexismo?
Desculpe, não sabia que gostar de e admirar mulheres era errado.
Mas continuarei amando-as assim mesmo). Um grande dia, sem dúvida.
E melhor ainda a conseqüente constatação de que, ilusão
ou fato, o rock não muda mesmo o mundo, mas pode virar a vida de
qualquer um no avesso. Qualquer um que queira efetivamente viver, e não
apenas existir. Poseurs, arrogantes, queixosos e bandas vazias não
importam - creio que minha vida mudou nesse excelente domingo. Um dia marcado
pelo poder da música - música de bandas que amam o que fazem,
presenciada por outros que compartilham desse amor/tesão/paixão.
Música rock, gerando atitude genuinamente roqueira. Obrigado! Encontro
vocês em algum show por aí.
Leonardo Vinhas
já disse o suficiente nesse texto.
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