Uma caixa acima de qualquer suspeita
Por Alexandre Petillo

"Poucas bandas na história do rock poderiam fazer uma caixa com músicas tão boas quanto a nossa", disse Ian McCulloch. Pode parecer arrogância, se essa frase tivesse saída da boca de qualquer um. Mas trata-se do cantor e líder do Echo & The Bunnymen, banda responsável pela trilha-sonora da vida de muitos adolescentes nos anos 80. 

"Crystal Days: 1979 - 1999", uma caixa com quatro cds com mais de 74 minutos cada, mapeia toda a carreira dos Bunnymen, além de resgatar preciosidades, lados b e gravações ao vivo só encontradas, até então, em disputados discos piratas. 

Formada em 1978 por McCulloch, Will Sergeant (guitarras), Les Pattinson (baixo) e Pete de Freitas (bateria), o Echo criou uma possante fusão de pós-punk e psicodelia sessentista à la Doors e Velvet Underground. Além de colocar Liverpool no mapa roqueiro mais uma vez (coisa que não acontecia desde os Beatles), os Bunnymen tornaram-se uma das mais influentes bandas surgidas nos últimos 20 anos. Existem ecos (sem trocadilho) do som deles em bandas distintas, como Pavement, The Flaming Lips e Oasis (estes, principalmente, na verborragia). 

Enquanto a música e a influência do Echo & The Bunnymen permaneceram modernas durante duas décadas, seus álbuns nunca receberam o tratamento digital merecido. 

"Crystal Days" pinça 72 músicas da carreira da banda, sendo 16 nunca lançadas oficialmente, mais 23 lados B. Acompanha um bonito livro com mais de 70 páginas, e muitas fotos, contando a história da banda, com afiados comentários faixa-a-faixa feitos pelos próprios Ian e Will. 

Definitivamente, um lançamento a ser louvado. Raridades de primeira. As primeiras quatro faixas são de 1979, gravadas quando a banda ainda era um trio acompanhado por uma bateria eletrônica que tinha apenas quatro ritmos: bossa nova, foxtrot, rock beat 1 e rock beat 2. 

"Monkeys", a gravação mais antiga do grupo, foi extraída de um curioso disco chamado "Street to Street: A Liverpool Album", lançado em 79 para divulgar alguns novos artistas da cidade. “Monkeys” ainda conta com a inusitada participação do parceiro Julian Cope nos teclados. 

A fase do disco "Ocean Rain", de 1984, que na época foi chamado pela imprensa inglesa como "o melhor LP já feito", ganhou maior ênfase. Influência de Ian, também, afinal, ele considera "Ocean Rain" o seu disco favorito da banda e a música-título, uma das suas melhores composições (e talvez uma das melhores já feitas no mundo, como ressaltou na entrevista para a RP). 

Aparecem registros de uma estranha turnê pelos bares obscuros da Escandinávia, esticando até Reykjavik, capital da Islândia e também conhecida como o fim do mundo. Também estão presentes algumas das lendárias músicas contidas no disco pirata "On Strike (Or Songs That Lord Taugh Us)". Esse vinil - que chegou a ser comercializado no mercado negro britânico a módicas 300 Libras - trazia um show do Echo na cidade de Gothenburg, lá pelos idos de 85. O grupo deixou suas composições de lado e desfilou versões matadoras de petardos como "Paint It Black" (Rolling Stones), "Soul Kitchen" (The Doors), "It's All Over Now, Baby Blue" (Bob Dylan), "Run, Run, Run" e "Heroin" (Velvet Underground), e "Friction" (Television). 

A caixa é obrigatória até para o fã completista. Como exemplos, "Crystal Days" traz a versão dos Bunnymen para "People are Strange" dos Doors, com um belo final adicional de mais de um minuto. "All You Need Is Love", a cover dos Beatles que havia saído apenas em um álbum de edição japonesa ("Live and Rare"), também veio modificada. Outra curiosidade é a cover de estúdio do clássico de Wilson Picket, "In The Midnight Hour". Nesta, as baquetas ficaram a cargo de Stephen Morris, do New Order (Pete De Freitas havia saído da banda pouco antes). 

Mesmo se não tivesse tudo isso, a arrepiante "all night version" de "Killing Moon" já vale o dinheiro empregado. A qualidade da banda fica explícita em esquecidos lados b, como "Angels And Devils", "Simple Stuff", "Rollercoaster" e "No Hands", que são melhores do que todos dos discos das novas bandas britânicas juntas. 

Infelizmente, a caixa é importada. A Warner, detentora do catálogo da Rhino no Brasil, ainda não sabe se vai lançá-la por aqui. Portanto, quebre seu porquinho, porque "Crystal Days" merece o emprego do batido clichê jornalístico compre, grave ou roube.


Ian McCulloch - Cabra Cega
Ian McCulloch - Entrevista Jardel Sebba
Crystal Days - Uma semana em São Paulo
Ian McCulloch - Entrevista S&Y
Ian McCulloch - Discotecagem no DJ Club (Fotos)
Ian McCulloch - Fotos da Entrevista