10 discos
para se ouvir durante a ressaca
por
Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br
Antes de mais nada, é bom definir
de que tipo de ressaca estamos falando. Certamente, não daquela
que produz uma buzina intermitente dentro de nossas (aparentemente inchadas)
cabeças. Em situações como essa, a última coisa
que o pinguço arrependido cogita é ouvir qualquer ruído.
A ressaca em questão é aquela que apresenta os sintomas "clássicos"
(tontura, gosto de presunto velho na boca, lapsos de memória), cujo
day after o faz perguntar-se "mas o que foi que aconteceu mesmo"?
Para ajudar a responder essa e outras
perguntas - por exemplo: vale a pena repetir a dose outro dia? - eis aqui
dez discos selecionados com todo o cuidado etílico do mundo. Ou
seja, sem um critério muito definido. Porém, dá para
explicar que não tem nenhum disco de blues porque isso seria muito
deprê - algo certamente desaconselhável em ressacas. Só
não venha nos culpar pela dor de cabeça e pela azia depois.
KING FOR A DAY... FOOL FOR A LIFETIME
- Faith No More
O que dizer de um álbum praticamente
conceitual sobre os efeitos do "dia seguinte"? Mike Patton e companhia
cometeram seu melhor disco (que poderia figurar em várias listas)
comentando os efeitos colaterais de noites intensas. A obsessiva "Ugly
In The Morning" é um marco, com seus primeiros versos: "Você
fez uma coisa errada / Você acordou". Na mesma linha, a paulada punk
"What A Day", o soul de maluco "Evidence" e a irônica "King For A
Day" reforçam a sensação de que não tem nada
mais desagradável que o nó que você está sentindo
em todas as suas entranhas. O sarcasmo das outras letras atinge em cheio
o lado mais panaca da humanidade (relacionamentos inclusos) e provoca um
efeito devastador. De brinde, um convite ao "poder redentor" (entenda-se
esquecimento) do álcool, a balada "Take This Bottle".
CHURRASKADA - Skuba
"Hoje acordei tentando lembrar / o
que me abateu lá no bar do Amadeu / Sinto um gosto amargo / a cabeça
em pedaços / Não sei se foi fermentado ou destilado". E isso
são apenas alguns versos da faixa de abertura, o hit "Triado"(detonado,
em dialeto paranaense). O disco de estréia desses curitibanos é
como o slogan daquele anti-ácido: um antes e um depois. Vale tanto
para começar como para encerrar a bebedeira. Camisinhas furadas,
bocas-livres, churrascões e outras circunstâncias que envolvem
álcool estão aqui, numa deliciosa embalagem ska.
INDEPENDENT WORM SALOON - Butthole
Surfers
A última faixa, "Clean It Up",
é elucidativa: uma melodia singela e um canto de passarinho introduzem
um pesadelo conduzido por um riff de vômito e distorções
apavorantes. Além disso, o embaço country "The Ballad Of
The Naked Man" ("a balada do homem nu"), o ódio a disco music de
"Dancin' Fool" e a exata "Who Was In My Room Last Night" se encaixam com
categoria nesse conceito de "faara + intensidade máxima + culpa
+ farra de novo". E em "Alcohol" ele definem: "o álcool é
um filho da puta".
PLAY THIS YA BASTARD - Bloco Vomit
Os escoceses manguaça do Bloco
Vomit souberam tornar sua improvável fusão de samba e punk
muito mais divertida nesse segundo disco. A profanação de
clássicos como "Califórnia Über Alles" ou "Something
Else" cura qualquer mau humor e ainda te incentiva a tomar pelo menos mais
uma cerveja para dar o tom certo no coro de "Do They Owe Us a Living?"
COHEN LIVE - Leonard Cohen
A voz embargada pelo álcool
de Cohen e os arranjos de cabaré de suas canções se
adequam como nenhuma outra combinação ao espírito
"fiz merda ontem" inerente à maioria das ressacas. Esse álbum
ao vivo, com vocais femininos e arranjos mais intensamente cafonas, é
o mais recomendável dos álbuns do canadense para se curtir
uma dor de cotovelo etílica.
RATED R - Queens of the Stone
Age
O ritmo intenso da faixa de abertura
(a famigerada "Feel Good hit Of The Summer") estimula qualquer um a largar
o bode e partir para outra. Mas as alternâncias psicodélicas
que vêm na seqüência ajudam qualquer um a balancear os
extremos e repensar os fatos. Ou, ao menos, a sossegar um pouco e pensar
antes de detonar outra vez. A não ser que você saiba inglês
bem e leve a sério o clima junkie das letras. Nesse caso, pode considerar
a perda total.
KICKING AGAINST THE PRICKS - Nick
Cave And The Bad Seeds
Que o australiano
fala de criaturas miseráveis e perfídias da alma humana confrontados
com sentimentos nobres, todos sabem. Mas e quando ele faz covers? Fala
das mesmas coisas, mas com um grande senso de diversão. Descontando
a descida ao inferno em "Hey Joe" (você nunca ouviu uma versão
como essa), baladas country fossentas, blues e baladões canastrões
inundam esse álbum, numa vocalização ainda mais empostada
que o habitual embalando a precisão dos Bad Seeds. Conseguem a proeza
de superar um original do Velvet Underground ("All Tomorrow's Parties",
adequadíssima ao conceito desse texto) e combinar doo-wop religioso
("Jesus Met The Woman At The Well") lado a lado com Johnny Rivers ("By
The Time I Get To Phoenix"), enumerando pecados, abandono, desespero e
redenção com um insuspeito senso de humor.
STONED AND DETHRONED - Jesus And
Mary Chain
Os irmãos
Reid em projeto acústico? Deve ser coisa de bêbado...
O fato é que em 1992 os escoceses (ô terrinha de cachaceiro!)
largaram as microfonias e quase "desplugaram" os instrumentos (tem uma
guitarrinha elétrica aqui e ali). O resultado foi um álbum
excelente, para ser ouvido enquanto o sol se levanta e o seu corpo permanece
em repouso, se recompondo. A união da dupla com Shane McGowan (ex-Pogues)
em "God Help Me" pede forças para aguentar o tranco, enquanto "Dirty
Water" fala dos "encontros casuais" entre dois ébrios de sexos opostos.
DE VOLTA AO OESTE - 3 Hombres
Seguindo a tradição
do boogie e bluegrass americanos, esse quarteto paulista com vocais travados
e guitarras que remetem a paisagens longínquas lançou apenas
este álbum, em que somente o alto astral de "Um Tónel Na
Estrebaria" já a qualifica para figurar nessa lista. Entretanto,
a majestosa "Canção" (para se ouvir a qualquer hora, em qualquer
lugar, linda!), a versão lisérgica de "Dia 36" dos Mutantes
(escondida após a última faixa) e os climas interioranos
das demais canções são como bom whisky: melhor a cada
dia se tomado em doses exatas.
THE NIGHT - Morphine
A banda de Mark
Sandman é presença mais que recomendável em qualquer
situação que envolva álcool. Esse último álbum
(concluído pouco antes da morte de Sandman) é o mais lento
e melódico da carreira da banda, criando camas perfeitas para se
reconstruir um espírito esfacelado por uma(s) noitada(s) podre(s).
Desde a ironia de "A Good Woman Is Hard To Find" (a única com um
balanço mais agitado) à pungência de "Take Me With
You", uma obra-prima que cura e redime. Como aditivo, a maior canção
de amor dos anos 90 logo na abertura: "The Night".
Leonardo Vinhas
não bebe destilados desde 11 de julho de 2000, data de seu último
porre. |