Morphine
Bootleg Detroit

de Fábio Sooner

No motel da vergonha

Antes de mais nada, informação: Bootleg Detroit é o álbum mais recente do Morphine na discografia completa editada pela Trama há pouco. Entre relançamentos e até então inéditos no país, são sete discos para saciar o vício de consumidores habituados e neófitos na substância. Este é o primeiro e único – até então – álbum ao vivo oficial do trio, gravado da maneira mais coerente possível com a carreira pregressa do Morphine: direto da platéia por um fã de gravador na mão. E por mais incrível que pareça, com boa qualidade técnica de som. 

Mais informação: para quem não conhece, o Morphine acabou em 1999 com a morte prematura de seu líder Mark Sandman, vítima aos 37 anos de um ataque cardíaco em pleno palco. Sandman era baixista, vocalista e principal compositor no trio, que se complementava com o saxofonista Dana Colley e o baterista Billy Conway. Tratava-se de uma banda de rock que não tinha guitarrista. Ou seria uma banda de jazz?

Passando aos comentários: pouco importava. A graça do Morphine estava justamente em evitar obviedades. Nem mesmo dava para chamá-los de fusion; as canções de Sandman eram enxutas demais para tanto. Os temas não primavam pela novidade: relacionamentos, crises pessoais, uma boa festa. Ao mesmo tempo, as letras dificilmente pediam para ela – aquela - voltar, nem clamavam pelo suicídio ou por mulheres peitudas jogando cerveja em seus corpos. Por conta desses fatores, a banda estava sempre um passo além dos puristas – fossem os do rock ou os do jazz. 

Nesse show gravado em 94, quando o Morphine já tinha dois discos e desfrutava um certo status cult, há um momento crucial, logo após a segunda música executada (a saber, Mary won’t you call my name). Sandman dirige-se ao microfone para anunciar o repertório seguinte de maneira bem peculiar: "Acabamos de dizer ‘alô’ a Mary, e nas próximas canções vamos visitar Candy, vamos visitar Sheila, vamos visitar Claire... e então depois acho melhor pararmos no Motel da Vergonha, e caminhar direto à piscina escondida..."  Não há nenhuma faixa chamada "Motel of Shame", mas as intenções de Sandman com seu trabalho ficam claras a partir daí – e o rumo do show também. O Morphine existiu para isso mesmo: música sofisticada ao alcance de todos, uma panacéia para os pecados comuns que cometemos, um reflexo dos desejos que, por mais simples que sejam, não precisam ser banalizados. Um som, digamos, desavergonhado.

E desavergonhadas são as versões ao vivo, onde o clima noir que permeia as canções da banda faz mais sentido ainda. A fidelidade às versões de estúdio não diminui a sensação de proximidade, de sentir a banda tocando no canto da sua sala em uma festinha privê. Não à toa, cada fala de Sandman com mais de cinco segundos foi transformada em faixa separada, reforçando a intimidade da banda com seu público. Basta ouvir outro trecho crucial, quando Sandman elogia a sofisticação do público que o aplaude efusivamente após My Brain

Justo My Brain – um solo constante de sax com letra declamada que teria tudo para ser apenas mais uma punhetagem jazzística misturada com spoken word, se não tivesse os seguintes versos: "meu cérebro estava fora de tom/ eu não sei como afinar um cérebro, vocês sabem?/ então eu o levei a uma loja de cérebros/ e eles disseram/ ‘bem, vamos ter que reconstruir a cabeça inteira’/ e eu disse/ ‘bem, façam o que deve ser feito’/ e quando peguei meu cérebro de volta/ ele não funcionava direito/ eu não tive uma única idéia boa desde que o consertaram". E o show prossegue com A Head with wings ("Uma Cabeça com Asas"). Precisa dizer mais alguma coisa?

Fábio Sooner, 27, é editor do site Pastilhas Coloridas.
fabio.henrique@petrobras.com.br