A estratégia
de Lilith - Alex Antunes
( Editora
Conrad - 222 pág.)
por Marcelo
Silva Costa
Literatura
fast-food
Eu sempre vi a arte de escrever como
algo intocável, mais para pessoas que tem o dom, o jeitinho, do
que para pessoas comuns. Dúvida? Pegue O
Chão Que Ela Pisa, de Salman Rushdie e veja se uma pessoa comum
pode escrever aquilo. De um tempo para cá, junto com a popularização
da internet, uma literatura urbana, desencanada e, principalmente, honesta,
surgiu e vem conquistando um público maior. São livros que
mais parecem páginas arrancadas de diário,
blogs, muito embora eu ainda desconfie de homens que escrevem diários,
mas, vá lá, tem coisas que não se explicam.
O grande culpado pela popularização
dessa literatura/diário é o inglês Nick Hornby. Sim,
o cara bacana que escreveu o diário Febre da Bola e a ficção
pop realista Alta Fidelidade (além de About
a boy e How to be a good) instaurou o punk, o faça você
mesmo, na literatura mundial, o que, uhmmmm, é plenamente
questionável. Com isso, o ato de escrever deixa de ser algo de gênio
para adentrar o território das pessoas comuns. Com isso, saem perdendo
os leitores.
Milan Kundera me ensinou a entender
o amor em A insustentável leveza do ser. Aprendi a entender
a religião (principalmente a católica) lendo os livros de
Morris West. Aldous Huxley encheu minha cabeça de coisas com livros
como O Macaco e a Essência, As Portas da Percepção
e, zuzu bem, Admirável Mundo Novo. E eu não me imagino
a pessoa que sou hoje em dia se não tivesse lido Hermann Hesse,
Vinicius de Moraes, Lygia Fagundes Telles e Rainer Maria Rilke. No caso
de Hornby, Febre da Bola e, principalmente, Alta Fidelidade,
não trazem nada de novo, apenas retratam a atualidade de maneira
sublime. Não desenham o passado e nem rascunham o futuro, apenas
desnudam o presente.
O que tudo isso tem a ver com A
estratégia de Lilith de Alex Antunes? Uhmmmm, muita coisa. A
estratégia de Lilith faz parte dessa nova literatura fast-food,
"leia e esqueça". Condensa em suas 222 páginas, reportagem,
ficção pop e páginas de diário (ou fotografias
de memória, como queiram). Como um big-mac, é gostoso quando
está sendo devorado, mas logo logo a gente esquece (principalmente
se alguém aparecer com uma lasanha, ou um feijão/bife/arroz
na nossa frente).
O livro conta a história de
um jornalista, Alex Antunes (sim, um ego-alter-ego), e suas desventuras
amorosas e profissionais. Soa divertido, machista e sincero. Adentra o
território do neo-xamânismo e atualiza Uma Linda Mulher
(na ótica de um homem, aqui) com histórias de amor com prostitutas.
O que complica, e muito, é que as histórias de A Estratégia
de Lilith acabam sendo contos de turma, e um leitor menos antenado
vai acabar não entendendo nada (é o que da ler diários
alheios). Na mão inversa, quem conhece um pouco do meio jornalístico
nacional, é fã da finada Bizz e anda pelas ruas do centro
de São Paulo, A estratégia de Lilith será interessante
e até divertido, nada além disso.
Ah, a Sish? Sish é a "condutora
de mistérios", um espírito desencarnado e, melhor deixar
pra lá. A literatura pop, assim como todo movimento musical, tem
seus mártires e também seus diluidores. É tudo entretenimento,
mas, no fim, você só lembrará da comida da sua mãe
e daquela comida maravilhosa que você comeu em um belo restaurante.
Big-Mac mata a fome, mas não sustenta. Literatura fast-food, também. |