Infidelidade
por
Alessandra Marucci
No primeiro capítulo de seu
livro "Ensaios de Amor", Alain
de Botton mostra qual a probabilidade de ele ter conhecido o suposto
amor de sua vida da forma como conheceu, ou seja, em um vôo com destino
a Londres. Através de cálculos e análises, ele chega
a um número que mostra que era mais fácil ter, por exemplo,
ganhado sozinho na Mega Sena. Pensando nisso, qual seria a probabilidade
de uma mulher casada com um homem lindo e carinhoso esbarrar na rua, em
meio a uma ventania, em um deus grego (ops... francês) que se torna
seu amante? Provavelmente seria mais fácil ver a Arábia Saudita
campeã da Copa Coréia/Japão. Mas em Hollywood, fábrica
de sonhos e pesadelos, algo assim não só é possível
como é o enredo do novo filme de Adrian Lyne, "Infidelidade" (Unfaithful,
EUA, 2002).
Connie Sumner (Diane Lane, de "A
Casa de Vidro") é uma mulher que tem uma vida que muitas mulheres
pediram a Santo Antônio no último dia 12. É casada
com Edward (Richard Gere, de "Dr. T e as Mulheres" e "Uma Linda Mulher"),
homem que além de lindo, charmoso e bem sucedido, é carinhoso,
apaixonado e ótimo pai. Juntos há 11 anos, eles formam uma
típica família feliz. Moram em uma bela casa e têm
um filho, Charlie (Erik Per Sullivan, de "Regras da Vida"), que é
uma graça. Para completar o quadro, têm também um cachorro,
claro.
Nos primeiros minutos do filme é
enfatizada a felicidade da família, ao mesmo tempo em que fica visível
que nela já se estabeleceu uma certa rotina. Connie acorda cedo
para poder despachar marido e filho para o trabalho e para a escola. Entre
muita correria e falatório, ela alimenta o cachorro, prepara o café
da manhã, arruma o filho e ainda ouve o marido falar de seus investimentos.
E é num desses dias comuns,
depois de cumprida a missão da manhã, que Connie sai para
comprar um presente para o filho, prestes a completar 9 anos. Uma ventania
varre o Soho e, enquanto tenta se proteger dos objetos atirados pelo vento,
Connie esbarra em um rapaz e acaba se machucando. Nesse momento ela se
vê diante de uma escolha: pega um táxi imediatamente e volta
para casa ou aceita o convite do belo jovem para subir ao seu apartamento
e limpar os ferimentos?
O jovem em questão é
Paul Martel (Olivier Martinez, de "Antes do Anoitecer"), um francês
comerciante de livros. Bem mais novo que Connie, Martel vive a vida da
forma como ela se apresenta e é deliciosamente sedutor.
Connie aceita o convite do belo francês
e eles passam a viver um tórrido caso, que reflete em mudanças
no comportamento de Connie. Edward, desconfiado, contrata um investigador
e acaba descobrindo a traição, o que faz com que o romance
termine em tragédia.
Um dos aspectos que chama a atenção
nesse longa é o fato de não haver uma preocupação
em apresentar vilões e mocinhos. Na verdade, todos os personagens
acabam atraindo a simpatia do público. Connie, que poderia ser crucificada
por trocar uma família feliz por um caso com um estranho, tem toda
a sua culpa e dúvida mostradas de forma angustiante. Isso é
bem exemplificado na cena que sucede a primeira transa com Martel, quando
ela aparece rindo e chorando ao mesmo tempo, de maneira meio enlouquecida.
Mesmo Martel, que usa e abusa de seu charme, parece até certo ponto
um ingênuo, o que faz com que não o julguemos um canalha.
Se em um primeiro momento o foco
é a culpa e a dúvida de Connie, quando Edward descobre a
infidelidade da mulher o foco passa a ser o que se pode fazer para enfrentar
uma realidade dessas. É possível esquecer e recomeçar?
É possível fingir que nada aconteceu? Quais os caminhos a
seguir? A única certeza é que não é possível
voltar atrás. Embora em uma cena Connie se veja entrando no táxi
e recusando o convite de Martel, ela sabe que o passado não pode
ser revertido.
"Infidelidade" é uma refilmagem
de La Femme Infidèle, do diretor francês Claude Chabrol. Por
pertencer à grife Adrian Lyne, diretor de filmes como "9 ½
Semanas de Amor" e "Atração Fatal", esse remake tem cenas
de sexo de tirar o fôlego. E, embora a certa altura fique a impressão
de que o diretor se perdeu e de que a fita já poderia ter terminado,
Adrian Lyne nos leva a um desfecho que não é genial, mas
que também não decepciona. No final, o recado é que
nem sempre há culpa ou inocência, e sim circunstâncias
e escolhas com as quais lidamos ao longo da vida.
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