As Consolações
da Filosofia
(Editora
Rocco)
por
Alexandre Petillo
Alain de Botton traz as respostas para todos
os seus problemas
(ou como falar de Nietzche sem ser uma mala
total)
Um dos meus dois escritores brasileiros
favoritos atualmente atende pelo nome de Fábio Hernandez (o outro
chama-se José Roberto Torero). Hernandez assina uma imperdível
coluna na última página da revista VIP, chamada "O Homem
Sincero". Uma vez, ele escreveu que um sábio tio tinha lhe dito
que não adianta ler muitos livros na vida, e sim se prender a apenas
poucos autores, aqueles que lhe dão prazer na leitura.
Mesmo antes de ler esse conselho,
já era adepto a essa atitude. Procuro me concentrar e entender alguns
poucos, ao invés de vomitar conhecimento acadêmico. Um desses
poucos favoritos que freqüentam a minha cabeceira está o suíço,
radicado em Londres, Alain de Botton.
Alain de Botton escreveu um dos meus
cinco livros favoritos em todos os tempos: "Ensaios de Amor". No
livro, De Botton utiliza da matemática, da física, da química,
da filosofia, da numismática e de outras ciências para analisar
o cotidiano de seu namoro. E a conclusão? Nada dura eternamente.
E sempre há um começo.
O escritor é uma celebridade.
Não apenas no circuito intelectual, mas como um fenômeno popular.
Nas paredes dos adolescentes britânicos, além de fotos de
bandas de rock, freqüentemente pode se encontrar o rosto simpático
do escritor. Simplesmente porque Alain de Botton, 31 anos, em seus livros,
costuma sempre apresentar respostas para quase todos os problemas que afligem
os corações humanos, como amor e falta de dinheiro.
Seu último livro, "As Consolações
da Filosofia" (287 páginas, R$ 32), recém-lançado
no Brasil pela editora Rocco, foi eleito um dos melhores livros de 2000
pela crítica inglesa e o alçou de vez à qualidade
de mito, inaugurando a febre dos "cerebral celebrities", como eles dizem.
De Botton foi eleito o principal escritor da Inglaterra, e o canal de TV
Channel Four o convidou para apresentar uma série de programas sobre
como a filosofia pode auxiliar as pessoas no dia-a-dia.
"As Consolações da Filosofia"
sugere que a filosofia pode oferecer respostas para todas as mazelas humanas.
A partir das idéias de seis filósofos – Sócrates,
Epicuro, Sêneca, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche – Alain de Botton
apresenta exemplos de consolação para impopularidade, para
a insuficiência de dinheiro, frustração, inadequação,
coração partido e para dificuldades em geral. O escritor
abusa de seus estilo bem-humorado, quase confessional, fazendo uso de capítulos
curtos e lançando mão de muitas ilustrações.
O livro é dividido em seis
capítulos, um para cada filósofo. No capítulo "Consolação
para a impopularidade", a vida e a morte de Sócrates são
apresentadas como um convite ao ceticismo racional. O autor utiliza o método
socrático de raciocínio para estimular o leitor a desenvolver
as suas próprias opiniões. Segundo Sócrates, em diversas
ocasiões é necessário ter força para não
levar a sério as opiniões alheias.
Já segundo Epicuro, a busca
da felicidade pelo prazer é um alento para quem tem pouco dinheiro
e muita dívidas. De acordo com o epicurismo, a felicidade é
relativamente independente dos bens materiais. Em "Consolação
para frustração", a vida de Sêneca é abordada,
dando ênfase a sua única tese: a de que suportamos melhor
as frustrações para as quais nos preparamos e somos atingidos
principalmente por aquelas que menos esperamos. Segundo Sêneca, para
garantir uma vida sem grandes frustrações, espere sempre
por uma tragédia.
Montaigne é o responsável
em confortar quem sente inadequação sexual, cultural ou intelectual.
O escritor francês tinha reservas quanto à erudição
livresca, questionava a racionalidade humana e defendia o diálogo
franco sobre as atividades genitais. Os problemas amorosos são discutidos
por Schopenhauer em "Consolação para um coração
partido". O filósofo alemão garante que o amor nada mais
é do que a manifestação da descoberta do pai e da
mãe ideal para um prole inteligente e bonita. Segundo Schopenhauer,
o consolo para a rejeição amorosa é saber que esta
foi conseqüência de uma lei da natureza.
Já Nietzsche garante, em "Consolação
para as dificuldades", que é impossível atingir uma vida
plena sem passar por grandes períodos de dificuldade. Esse último
é o favorito de de Botton. "Ele é extremamente complexo e
diz muitas coisas ao mesmo tempo, em diferentes tópicos".
"As Consolações da Filosofia"
é o sexto romance de Alain de Botton, todos disponíveis no
Brasil. O autor estreou com o aclamado "Ensaios de Amor", em seguida vieram
"O Movimento Romântico", "Nos Mínimos Detalhes" e "Como Proust
Pode Mudar a Sua Vida". Nesse último, o autor mostra como o filósofo
Proust pode auxiliar as pessoas em todas as situações do
cotidiano. No entanto, é um livro totalmente diferente de "As Consolações...".
Além dos programas para o Channel
Four, de Botton prepara um novo livro, que deve sair em junho próximo.
"Até junho eu devo lançar um novo livro, acho que sai primeiro
aqui na Inglaterra, na Australia e nos Estados Unidos. Deve chamar a 'A
Arte de Viajar'. É uma meditação do por que nós
saímos em viagem", promete Alain de Botton, por telefone, de Londres.
Confira abaixo, a entrevista que o escritor deu com exclusividade ao Scream
& Yell.
Scream &
Yell – Alguns críticos britânicos classificaram “As Consolações
da Filosofia” como sendo um livro de auto-ajuda. Você se incomoda
com esse rótulo?
Alain de Botton - Atualmente, em todo
o mundo, a literatura de auto-ajuda tem uma reputação muito
ruim. Existem muitos livros no mercado chamados "Como Mudar a Sua Vida
em 5 Minutos", "Como Ser Feliz Para Sempre" e "Como Fazer Amigos e Influenciar
Pessoas". Muitos desses livros são mau escritos, piegas e pouco
confiáveis. No entanto, eu acho que não existe nada de errado
com a idéia de um livro que você possa ler e mudar a sua vida
de alguma forma. Eu acho que essa é uma idéia amável
e é a base dos trabalhos de muitos grandes filósofos da antigüidade,
como Seneca, Epicuro, Sócrates entre outros. E no meu livro, eu
tentei olhar para esse filósofos que fizeram uma espécie
de literatura de auto-ajuda. Eles fizeram trabalhos destinados a ajudar
as pessoas – uma idéia que hoje parece ser totalmente popular e
vulgar, graças aos picaretas dos escritores de hoje. Quem
sabe, talvez, com o meu livro, nós consigamos inventar uma nova
categoria de literatura de auto-ajuda. Pode ser: "literatura de auto-ajuda
de qualidade" (risos)
O que o levou
a escrever sobre filosofia? Quando você começou a trabalhar
nesse livro?
Eu sempre me interessei por filosofia,
porque é a área onde as grandes questões da vida residem:
qual é ponto da vida, o que devemos pensar sobre a morte, por que
o amor é triste e melancólico, se Deus existe, se sim, por
que existem pessoas muito ricas e outras muito pobres, coisas assim. Eu
comecei a escrever esse livro em outubro de 1997. Eu procurei analisar
seis filósofos que se interessaram nessas questões fundamentais
– e também pensaram em respostas fascinantes. Muitas dessas respostas,
a partir do que eu descobri, fizeram com que eu me reeducasse e aprendesse
como viver.
Sempre associam
o seu nome à onda de escritores pop, como Nick Hornby. Você
se considera um escritor pop?
Eu não saberia te dizer o que
é, exatamente, um escritor pop. Talvez seja um escritor que consegue
alcançar muitas pessoas, de diferentes idades e classes sociais.
Eu gosto da idéia de poder me comunicar com pessoas de idades variadas,
mas eu não gosto do trabalho do Nick Hornby ou do Irving Welch e
esses escritores. Talvez eu possa reinterpretar esse seu conceito de escritor
pop. Se nós definirmos um escritor pop como sendo uma pessoa que
atinge muitos, então Shakespeare e Cervantes eram escritores pop.
E eles eram verdadeiramente sábios e geniais.
Geralmente
rotulam como escritores pop aqueles que utilizam uma linguagem moderna,
apropriando-se de elementos da música e do cinema, por exemplo,
em suas narrativas. Talvez eles sejam taxados de pop por serem bem populares
entre os jovens, que os idolatram como ídolos, estampando-os em
pôsteres pelo quarto. Isso acontece com você, não?
(risos) Eu realmente já ouvi
dizerem por aí que andam estragando paredes com fotos minhas. Mas,
sinceramente, eu nunca conheci ninguém que tenha um pôster
meu em seu quarto. Acredito que seja uma brincadeira sua (risos). E eu
não utilizo de referências pop, eu procuro utilizar referências
antigas e torná-las mais acessíveis, fáceis de serem
entendidas e aplicadas no cotidiano.
Mas você
não pode negar a sua popularidade, certo? Isso aumenta a pressão
de fazer um bom trabalho quando começa um livro?
Definitivamente, sim. Cada novo livro
é como se eu voltasse à estaca zero, voltar ao passado, sendo
sempre aquele cheio de dúvidas e hesitações. É
impossível para um escritor genuíno ser arrogante ao ponto
de se achar genial e dono do poder de escrever um bom livro sempre que
se dispuser. Escrever é muito difícil.
Quando bateu
a idéia de fazer esse livro?
A idéia para um livro é
sempre o resultado de pequenas idéias que vão chegando juntas.
Então, existia uma primeira idéia de escrever sobre filosofia,
então um monte de idéias subsequentes sobre filósofos,
forma de escrever, abordagens, etc, foram chegando. Mas tudo isso estava
na minha mente entre 1987 e 1997.
Existe alguma
coisa de autobiográfico em seus livros?
Tem muito da minha vida nos meus livros.
Meus livros são sempre autobiográficos, mesmo se eu escrever
sobre Seneca ou Nietzsche, não vou deixar de ser pessoal. Eu acredito
que existem maneiras de ser pessoal, com a qual o escritor não precise
dizer, "hoje eu acordei e senti x". Isso é horrível. Você
pode ser bem pessoal e passional escrevendo sobre Nietzsche. Eu me inspiro
nos problemas, sempre que alguma coisa dá errado na minha vida,
eu sempre começo a pensar e escrever.
Este foi
o livro mais complicado que escreveu? Mais do que o do Proust?
Esse livro foi bem mais complicado
do que o Proust, porque eu tive seis filósofos para falar. Muito
mais difícil do que falar apenas de um. Esse livro quase me matou.
Quais dos
filósofos abordados no livro é o seu favorito?
Particularmente eu gosto do Nietzsche
– ele consegue ser extremamente complexo e diz muitas coisas em diferente
tópicos.
Muito obrigado.
Eu que agradeço. E comprem
meu livro no Brasil. |