Poesias
Rui Werneck de Capristano
O perfeito

Pelo enviesado da hora
e pelo que capto de perto
de propósito desatento, semidesperto,
pelo que deixo de lado,
nem imagino dentro
e declino de ver por fora –
sendo tudo um só agora
porque não soube ontem
nem tive durante,
só vejo e desejo desse jeito
– me parece perfeito
para hoje, depois e outrora.

amorfabeto

a gosta de b
que c adora
mas que d odeia

e matou f
por causa de g
que fugiu com h

i caiu por j
que k esnobou
pra ficar com l

m engravidou de n
que amava o
mas casou com p

q largou de r
porque s a vizinha
dedurou pra t

u queria v
que w repelia
por não curtir x

y não amava de a a z,
nem transava nada

Arco-Íris Noturno

Ela olhou azul-celeste
Eu saí do cinza-chumbo
Ela deu sinal verde-mar
Eu parei vermelho-pimentão

Ela acenou azul-piscina
Eu mergulhei ultravioleta
Ela se abriu magenta-poente
Eu azedei verde-limão

Ela despiu azul-calcinha
Eu virei branco-gelo
Ela mostrou pele canela
Eu avancei vermelho-vinho

Ela jogou azul-turquesa
Eu derramei verde-garrafa
Ela bebeu vermelho-sangue
Eu afundei azul-marinho

Ela jorrou azul-petróleo
Eu provei cor-de-abóbora
Ela comeu verde-abacate
Eu pirei branco-marfim

Ela pintou azul-cobalto
Eu bebi amarelo-champanhe
Ela dançou rosa-choque
Eu beijei puro carmim

Ela sorriu azul-anil
Eu apalpei cor-de-carne
Ela voou infravermelho
Eu pesquei rosa-salmão

Ela cantou dourado-sol
Eu desafinei chuva de prata
Ela brilhou verde-esmeralda
Eu apaguei preto-carvão

Rui Werneck de Capristano, idade dos Direitos Humanos, artista prático, nove livros, duas peças, ganhador do Concurso Nacional de Contos do Paraná, 1988, com o livro Máquina de Escrever. É fissurado pelas multíplas faces da escrita:"lutar com palavras é a luta mais sã!"