{"id":6441,"date":"2012-06-14T01:13:46","date_gmt":"2012-06-14T04:13:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/06\/14\/a-saga-do-computador-perdido\/"},"modified":"2012-06-14T08:07:54","modified_gmt":"2012-06-14T11:07:54","slug":"a-saga-do-computador-perdido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2012\/06\/14\/a-saga-do-computador-perdido\/","title":{"rendered":"Europa: A saga do computador perdido"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/paris4.jpg\" alt=\"paris4.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Ou, como diria o Capit\u00e3o Moreira, chef\u00e3o da Companhia de Infantaria do BAVEX, no ano em que servi: \u201cSe a cabe\u00e7a n\u00e3o pensa, o corpo padece\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Ao lado da pista, vaquinhas pastam e patos t\u00e3o brancos quanto leite nadam. As cidades com nomes estranhos v\u00e3o passando pela janela. S\u00e3o 7h30 da manh\u00e3 e estou indo de Amsterd\u00e3 para Paria via Eurolines, companhia de \u00f4nibus que liga v\u00e1rias capitais da Europa via \u00f4nibus. Os pre\u00e7os s\u00e3o sempre convidativos, mas o tempo \u00e9 longo. At\u00e9 onde eu previa, essa viagem deveria durar cinco horas. Deveria.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma hora e meia, o motorista para em um posto de beira de estrada que oferece uma promo\u00e7\u00e3o de diesel pra caminhoneiros: mil litros por 15 euros. Lembro-me de ter lido que Amsterd\u00e3 tem 740 mil habitantes, 600 mil bicicletas e 8 caminh\u00f5es. Humm. Des\u00e7o e compro um energ\u00e9tico (n\u00e3o espero que ele me de asas, apenas que me mantenha em p\u00e9), chicletes e uma barra de bala de goma, a pior que j\u00e1 provei na vida, uma borrachinha sem gra\u00e7a que solta uma referencia de sabor e parece com o dia l\u00e1 fora: p\u00e1lido.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que coloco os fones de ouvido e dou play no iPod, surge a voz de Roddy Woomble e um solzinho t\u00edmido, mas que me arranca um sorriso. Uma placa na estrada avisa que estamos a 19 km da Antu\u00e9rpia e come\u00e7o a ter uma ideia do trajeto que estamos fazendo. Logo mais surgem placas para Gent, Brugge e Brussels. A estrada \u00e9 um tapete persa. Rumst. Mechelen. Leuven.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/paris5.jpg\" alt=\"paris5.jpg\" \/><\/p>\n<p>As 10h entramos em Bruxelas e passamos por alguns pontos tur\u00edsticos da cidade (o trajeto s\u00f3 n\u00e3o passou pela Grande Pra\u00e7a porque n\u00e3o tem como, sen\u00e3o com certeza ter\u00edamos invadido a pra\u00e7a mais bonita do mundo, segundo Victor Hugo \u2013 foi ele mesmo quem disse isso? D\u00favida). O \u00f4nibus para em Brussels Noord e troca de motorista. Na parada, que dura uns 25 minutos, presto aten\u00e7\u00e3o na r\u00e1dio, que vai de Jacque Bruel e David Bowie (\u201cThis Is Not America\u201d, e n\u00e3o \u00e9 mesmo) at\u00e9 Chico Buarque (Essa Mo\u00e7a T\u00e1 Diferente\u201d) e ABBA (\u201cMamma Mia\u201d).<\/p>\n<p>Demoramos quase uma hora dentro de Bruxelas e, na sa\u00edda, passamos por dois restaurantes de comida brasileira: Exotic Afro e Pantanal Bar. Ruisbruk. Beersel. Bergen. Halle. Nesse trecho, a estrada continua excelente, apesar de exibir algumas ondula\u00e7\u00f5es (mas fico na d\u00favida se o problema \u00e9 a estrada ou a condu\u00e7\u00e3o do novo motorista). Liege. Namur. Mons. Chove e aproveito para tirar um cochilo.<\/p>\n<p>Na fronteira com a Fran\u00e7a o \u00f4nibus para (nem vi quando terminou a Holanda e come\u00e7ou a B\u00e9lgica, mas os franceses demarcam bem seu territ\u00f3rio) e tr\u00eas guardas da Police Nationale conferem passaportes. Sou o primeiro, ele olha durante uns 10 segundos, folheia as p\u00e1ginas e diz ok. &#8220;Quem estiver ok pode ir na cafeteria enquanto conferimos&#8221;, \u00e9 o que entendo do franc\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/paris3.jpg\" alt=\"paris3.jpg\" \/><\/p>\n<p>Parto decidido a pegar uma cerveja, e na geladeira tr\u00eas tipos de Leffe me namoram (Blonde, Trippel e a nova Ruby), mas opto por um caf\u00e9. S\u00e3o 11h40 e s\u00f3 dormi tr\u00eas horas nesta noite. Os cubos de a\u00e7\u00facar me fazem lembrar-se de &#8220;A Liberdade \u00e9 Azul&#8221; (no making of, Kieslowiski d\u00e1 uma aula sobre quanto tempo um espectador pode suportar uma cena e conta sobre a busca do cubo de a\u00e7\u00facar perfeito que consumiria o caf\u00e9 em 8 segundos) e voltamos pra estrada.<\/p>\n<p>Aires des Enclosis. Vallenciennes. Solesmes Le Cateau. Reimes. No lado franc\u00eas, tudo \u00e9 mais exagerado. A grama entra na estrada (lembra a estrada pra Parati quando passamos da divisa S\u00e3o Paulo \/ Rio) e dezenas de placas de informa\u00e7\u00e3o transformam o canteiro num shopping. Eles fazem quest\u00e3o de dizer a cada cinco quil\u00f4metros em qual \u00e1rea do pa\u00eds voc\u00ea est\u00e1, e no que ela \u00e9 especializada (brocados, apicultura, desenhos, aves).<\/p>\n<p>A chuva aperta novamente, o cansa\u00e7o me vence (mesmo ap\u00f3s caf\u00e9 e energ\u00e9tico) e quando percebo j\u00e1 estamos nos aproximando de Paris. Estamos chegando a 7 horas de viagem, e come\u00e7o a ter receio se vou conseguir pegar o setor de Achados e Perdidos do aeroporto Charles De Gaule aberto. O \u00f4nibus para em Galiani \u00e0s 14h30 (ap\u00f3s passar cerca de 10 quil\u00f4metros antes pelo Charles De Gaule), fa\u00e7o tr\u00eas baldea\u00e7\u00f5es para chegar a Gare du Nord, e pegar o trem para o aeroporto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/paris6.jpg\" alt=\"paris6.jpg\" \/><\/p>\n<p>Dou sorte e pego um trem direto. Chego ao balc\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, e sou desinformado. \u201cVoc\u00ea tem que ir ao Terminal 3\u201d. Chego l\u00e1, mostro o email pra outro cara de informa\u00e7\u00f5es, que liga para o setor de Achados e Perdidos. \u201cVoc\u00ea tem que ir ao Terminal 1\u201d. Quando chego ao setor, um velhinho simp\u00e1tico j\u00e1 est\u00e1 me esperando. Digo em ingl\u00eas que eles encontraram meu computador. \u201cEu n\u00e3o falo ingl\u00eas, pardon\u201d, ele responde em franc\u00eas. N\u00e3o perco a deixa: \u201cEu n\u00e3o falo franc\u00eas. No problem\u201d.<\/p>\n<p>E dai em diante todas as frases ser\u00e3o seguidas por \u201cno problem\u201d: \u201cAssine aqui: no problem\u201d. \u201cOlha o seu laptop: no problem\u201d. \u201cTem que assinar aqui tamb\u00e9m: no problem\u201d. \u201cObrigado: no problem\u201d. Miss\u00e3o cumprida? Quase&#8230; agora \u00e9 preciso voltar para Amsterd\u00e3. Decido abandonar a ideia do \u00f4nibus e gastar uma grana em um trem r\u00e1pido, Thalys, que far\u00e1 o mesmo trajeto de 7 horas do \u00f4nibus em 3 horas. Compro o ticket e parto para a Gare du Nord. O cara ainda me fala no guich\u00ea: \u201cEle vai direto\u201d.<\/p>\n<p>Ainda assim, na plataforma, sei l\u00e1 o motivo, olho na placa de informa\u00e7\u00f5es: \u201cParis, Bruxelles Midi, Brugge, Gent, Oostende\u201d. E entro no trem. N\u00e3o encontro meu vag\u00e3o, e mesmo assim sento em uma cadeira como se estivesse tudo bem. Quando para em Bruxelles Midi, percebo que algo est\u00e1 errado. \u201cN\u00e3o era direto?\u201d, a raz\u00e3o diz para o Tico (o Teco devia estar dormindo). Pergunto para um dos cobradores, e ele confirma: \u201cTrem errado\u201d. E me orienta. \u201cDesce em Gent, e tenta ver se passa um trem para Amsterd\u00e3 l\u00e1\u201d. \u00c9 o que fa\u00e7o. E n\u00e3o passa. S\u00f3 em Antu\u00e9rpia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/paris1.jpg\" alt=\"paris1.jpg\" \/><\/p>\n<p>Tenho 20 minutos e dou um rol\u00ea pela pra\u00e7a da cidade, e a primeira impress\u00e3o \u00e9 \u00f3tima. Volto e entro no trem para Antu\u00e9rpia. Cada cidadezinha belga que passa pela janela me conquista, e fico impressionado com o tamanho da esta\u00e7\u00e3o central de Antu\u00e9rpia. Ainda tenho 10 minutos para o trem para Amsterd\u00e3 (todos os cobradores foram bem compreensivos com meu vacilo), e n\u00e3o arrisco.<\/p>\n<p>Chego a Amsterd\u00e3 duas horas depois do hor\u00e1rio que eu deveria ter chego realmente, e tenho que arrumar as malas porque meu voo para Verona \u00e9 \u00e0s 7 da manh\u00e3, e o primeiro trem para o aeroporto \u00e0s 5h. Estou el\u00e9trico e, ao mesmo tempo, cansado. A luz do quarto se apaga \u00e0s 2h13 e coloco o rel\u00f3gio para despertar \u00e1s 4h26, mas a muvuca na rua (a noite em Amsterd\u00e3 \u00e9 bem agitada, voc\u00ea pode imaginar) e a preocupa\u00e7\u00e3o com o voo n\u00e3o me deixam dormir. Devo ter cochilado alguns minutos durante a noite, mas saio a toda para Amsterda Centraal. Penso em fotografar o lago em frente a pra\u00e7a, ou mesmo a esta\u00e7\u00e3o, lindos a essa hora da manh\u00e3, mas a precau\u00e7\u00e3o vence. Entro no trem um minuto antes da porta fechar.<\/p>\n<p>Agora, Veneza. A viagem (felizmente) est\u00e1 terminando&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ps. Entre hoje e domingo coloco em dia as hist\u00f3rias e os shows&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ou, como diria o Capit\u00e3o Moreira, chef\u00e3o da Companhia de Infantaria do BAVEX, no ano em que servi: \u201cSe a cabe\u00e7a n\u00e3o pensa, o corpo padece\u201d. Ao lado da pista, vaquinhas pastam e patos t\u00e3o brancos quanto leite nadam. As cidades com nomes estranhos v\u00e3o passando pela janela. S\u00e3o 7h30 da manh\u00e3 e estou indo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6441"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6441"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6441\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}