{"id":6106,"date":"2012-04-11T09:37:39","date_gmt":"2012-04-11T12:37:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/04\/11\/sobre-scorsese-e-filmes-que-salvam-vidas\/"},"modified":"2013-08-13T00:49:46","modified_gmt":"2013-08-13T03:49:46","slug":"sobre-scorsese-e-filmes-que-salvam-vidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2012\/04\/11\/sobre-scorsese-e-filmes-que-salvam-vidas\/","title":{"rendered":"Sobre Scorsese e filmes que salvam almas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/scorsese.jpg\" alt=\"scorsese.jpg\" \/><\/p>\n<p>\u00a0Terminei \u201cConversas com Scorsese\u201d, de Richard Schinkel (lan\u00e7ado pelo CosacNaify \u2013 <a href=\"http:\/\/editora.cosacnaify.com.br\/ObraSinopse\/11573\/Conversas-com-Scorsese.aspx\" target=\"_blank\">aqui<\/a>), na semana passada (meu quarto livro em 2012 \u2013 que o ritmo perdure), e fiquei bastante comovido e feliz com suas \u00faltimas 50 p\u00e1ginas (de mais de 500). Schinkel, que \u00e9 jornalista e documentarista, optou por um cap\u00edtulo sobre a inf\u00e2ncia de Scorsese para abrir o livro, e depois ele e Scorsese passaram a decupar filme a filme do cineasta em relatos interessantes que, por dezenas ou centenas de vezes, esbarravam em algum filme antigo, que Scorsese se inspirou ou citou em determinada passagem.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 cap\u00edtulos sobre cores, m\u00fasica, filmagem, est\u00fadios, cortes e \u00e2ngulos, mas no final, logo ap\u00f3s os dois falarem sobre \u201cIlha do Medo\u201d (2010), o \u00faltimo filme decupado (na \u00e9poca Scorsese filmava \u201cHugo Cabret\u201d e finalizava o document\u00e1rio sobre George Harrison), Schinkel questiona sobre a preocupa\u00e7\u00e3o do diretor com a restaura\u00e7\u00e3o e conversa\u00e7\u00e3o de filmes antigos (Scorsese \u00e9 dono de mais de 4 mil filmes em rolos) e seu trabalho com a Film Foundation (organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos dedicada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de filmes fundada pelo diretor em 1990 &#8211; <a href=\"http:\/\/www.film-foundation.org\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.film-foundation.org\/<\/a>), no que ele conclui: filmes (livros, quadros e\/ou m\u00fasicas) podem salvar vidas.<\/p>\n<p><strong>Os artefatos da hist\u00f3ria nos filmes s\u00e3o incrivelmente importantes. O pior filme do mundo conter\u00e1 pistas de como viv\u00edamos, como nos vest\u00edamos, como fal\u00e1vamos.<\/strong><br \/>\nEra isso que eu apontava em 1979. Havia um chamado \u201cThe Creeping Terror\u201d (de Vic Savage, 1964), um filme idiota de fic\u00e7\u00e3o cientifica filmado no Meio Oeste. Levaram todo mundo para alguma cidade para fazer. Ent\u00e3o se via realmente como as pessoas se vestiam. E via-se como se comportavam na vida cotidiana. Estavam \u201crepresentando\u201d, mas na verdade n\u00e3o estavam. A trama n\u00e3o interessava. O que me interessava era o que revelava sobre os Estados Unidos e sobre a nossa cultura. Era muito comovente.<\/p>\n<p><strong>Transformou-se num registro valioso<\/strong><br \/>\nRealmente.<\/p>\n<p><strong>No entanto, sinto que isso n\u00e3o basta para voc\u00ea. Por mais que voc\u00ea contribua com seu trabalho para a Film Foundation, est\u00e1 sempre dizendo que sente que n\u00e3o d\u00e1 tanto quanto deveria ou do jeito certo.<\/strong><br \/>\n\u00c9 o conflito entre abnega\u00e7\u00e3o e ego\u00edsmo. Voc\u00ea pode preencher um cheque para filantropia e se sentir melhor. Mas preencher um cheque n\u00e3o adianta nada. Voc\u00ea tinha de estar l\u00e1, se realmente se importa.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 muito severo.<\/strong><br \/>\nTem raz\u00e3o. E isso vindo de uma pessoa que foi um fracasso em dar durante muitos anos.<\/p>\n<p><strong>Espere um pouco: por tudo que voc\u00ea fez pela Film Foundation, a quantidade de trabalho que p\u00f5e nela&#8230; n\u00e3o deveria se sentir mal de apoiar a preserva\u00e7\u00e3o de filmes. \u00c9 uma coisa v\u00e1lida.<\/strong><br \/>\nEu acho que \u00e9 v\u00e1lida. Acho que alimenta a alma de alguma forma.<\/p>\n<p><strong>Sem d\u00favida alimenta a sua alma.<\/strong><br \/>\nUm amigo meu me disse recentemente: \u201cVamos vender a Capela Sistina para um empres\u00e1rio, assim os pobres podem comer por um dia com os lucros\u201d. Mas e depois? Eles comeriam por um dia, mas n\u00f3s ficar\u00edamos sem a Capela Sistina. E a Capela Sistina pode ser de maior valor para as pessoas ao longo dos pr\u00f3ximos dez s\u00e9culos.<\/p>\n<p><strong>Salvar um filme glorioso que corre o risco de se perder ou ser destru\u00eddo  tamb\u00e9m pode sustentar almas.<\/strong><br \/>\nEu sei que sim.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p><strong>Acredito num universo de acaso. Acredito que quando morrer estarei morto, n\u00e3o vou para nenhum lugar melhor \u2013 o que lamento amargamente, claro.<\/strong><br \/>\nVamos sentir falta, sabe? Vamos sentir muita falta. A n\u00e3o ser, seguindo a l\u00f3gica do nada, que a gente n\u00e3o saiba.<\/p>\n<p><strong>Tenho um amigo que diz: \u201cO que mais detesto nessa hist\u00f3ria (de morrer) \u00e9 que pedem para voc\u00ea ir embora da festa, mas a festa continua\u201d.<\/strong><br \/>\nE vai continuar sempre.<\/p>\n<p><strong>V\u00e3o estar fazendo filmes&#8230;<\/strong><br \/>\nV\u00e3o fazer filmes, escrever pe\u00e7as, livros. E eu vou sentir falta de tudo isso. N\u00e3o \u00e9 justo.<\/p>\n<p><strong>\u201cAcabou para o senhor, senhor Scorsese\u201d (imita a voz do ju\u00edzo final)<\/strong><br \/>\nAh, espere um pouco, tenho mais uma coisa a dizer.<\/p>\n<p><strong>Eu me pergunto: Qual o prop\u00f3sito do que fa\u00e7o? N\u00e3o tenho a menor ideia. Acho que \u00e9 assim para a maioria das pessoas.<\/strong><br \/>\nAs pessoas pensam de formas diferentes. Mas voc\u00ea abre portas. Essa \u00e9 a chave, acho. \u00c9 igual a influ\u00eancia que um padre teve sobre mim quando eu era crian\u00e7a e ele dizia: \u201cOlha esse livro. V\u00e1 ver esse filme. Escuta essa m\u00fasica\u201d. E de repente as pessoas tomam rumos que nunca pensamos. Faz alguma diferen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Faz com que pensem de jeito diferente, se comportem de jeito diferente, ent\u00e3o acho que cumprimos o nosso prop\u00f3sito. N\u00e3o sei por que estar\u00edamos aqui se n\u00e3o fosse por isso. Como voc\u00ea diz, todo o texto \u00e9 ego.<\/strong><br \/>\n\u00c9, o resto \u00e9 ego. \u201cSindicato dos Ladr\u00f5es\u201d, de Elia Kazan, significou muito pra mim. As pessoas efetivamente afetam outras pessoas. Tanta gente vai a Bob Dylan e diz: \u201cSeu trabalho mudou a minha vida\u201d. O que ele pode dizer para elas? N\u00e3o pode dizer: \u201cN\u00e3o foi minha inten\u00e7\u00e3o\u201d, porque voc\u00ea quer que isso aconte\u00e7a. Em meu trabalho, venho desenvolvendo ao longo dos \u00faltimos dez anos uma compaix\u00e3o alimentadora, acho. Algumas pessoas dizem que \u00e9 culpa cat\u00f3lica, nada mais. Mas culpa sempre. Parece que estou o tempo todo lidando com essa \u00e1rea. N\u00e3o falo de culpa por atrasar na missa ou por ter pensamentos sexuais. Falo da culpa que vem do simples fato de estar vivo.<\/p>\n<param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Uo7wvAq6VRY\"><\/param>\n<param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param>\n<param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param>\n<p align=\"center\"><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Uo7wvAq6VRY\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" height=\"300\" width=\"450\"><\/embed><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Martin Scorsese, eu e a morte, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/03\/20\/scorsese-eu-e-a-morte\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Terminei \u201cConversas com Scorsese\u201d, de Richard Schinkel (lan\u00e7ado pelo CosacNaify \u2013 aqui), na semana passada (meu quarto livro em 2012 \u2013 que o ritmo perdure), e fiquei bastante comovido e feliz com suas \u00faltimas 50 p\u00e1ginas (de mais de 500). 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