{"id":6015,"date":"2012-03-20T08:36:36","date_gmt":"2012-03-20T11:36:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/03\/20\/scorsese-eu-e-a-morte\/"},"modified":"2012-04-11T09:39:30","modified_gmt":"2012-04-11T12:39:30","slug":"scorsese-eu-e-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2012\/03\/20\/scorsese-eu-e-a-morte\/","title":{"rendered":"Martin Scorsese, eu e a morte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/scorsese.jpg\" alt=\"scorsese.jpg\" \/><br \/>\n<em>Foto: Marcos Pacheco<\/em><\/p>\n<p>Comecei nesta semana a ler o quarto livro do ano, o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 um recorde de muitos anos. Ok, estou roubando um bocadinho na conta. Terminei o obrigat\u00f3rio \u201cO Resto \u00e9 Ru\u00eddo\u201d, do Alex Ross, em janeiro, mas comecei a ler mesmo em setembro ou outubro, quando voltei a pegar metr\u00f4 e trem para o trabalho, o que trouxe a leitura de volta ao meu cotidiano (fa\u00e7o parte do grupo de pessoas que n\u00e3o pode ler em \u00f4nibus nem carro \u2013 enjoo na certa).<\/p>\n<p>O segundo livro foi \u201cA Visita Cruel do Tempo\u201d, romance magnifico de Jennifer Egan. Agrade\u00e7o imensamente \u00e0 Ana Carolina, da Intrinseca, por ter me enviado o livro. O Gabriel j\u00e1 tinha recebido um para resenhar para o site (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/02\/a-visita-cruel-do-tempo-jennifer-egan\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>), mas a Ana mandou assim mesmo um para mim. Nas entrelinhas, um \u201cvoc\u00ea precisa ler isso\u201d. Obrigado, Ana. Egan me pegou de jeito. No meio da correria n\u00e3o calculei todo o impacto do livro sobre mim, mas foi forte, beeeem forte.<\/p>\n<p>Sobre o terceiro, \u201cSexo na Lua\u201d, de Ben Mezrich (o mesmo autor de \u201cBilion\u00e1rios por Acaso\u201d, que originou o filme \u201cA Rede Social\u201d), falo um pouquinho mais em resenha (curta, mas direta) para uma revista (quando sair aviso aqui). E, ent\u00e3o, comecei o meu quarto livro de 2012, \u201cConversas com Scorsese\u201d, do cr\u00edtico e documentarista Richard Schinkel, edi\u00e7\u00e3o da Cosac Naify que segue o modelo do \u00f3timo \u201cConversas com Woody Allen\u201d, de Eric Lax.<\/p>\n<p>Assim como Lax, Schinkel conheceu seu \u201cobjeto de estudo\u201d no come\u00e7o dos anos 70. Eric Lax conheceu Woody em 1971 (e as entrevistas come\u00e7aram em 1973) enquanto Richard Schinkel convidou um amigo para uma proje\u00e7\u00e3o em casa de \u201cJejum do Amor\u201d (1940), de Howard Hawks (\u201cUma das melhores de todas as com\u00e9dias rom\u00e2nticas\u201d, grifa o cr\u00edtico), e esse amigo trouxe Marty. A amizade seguiu, mas as entrevistas do livro come\u00e7aram a ser feitas apenas em 2004.<\/p>\n<p>\u201cAcredito, de fato, que a coisa mais importante que descobri sobre Marty foi o poder que o passado exerce em seu trabalho\u201d, conta Schinkel no pref\u00e1cio. \u201cEstou falando, por exemplo, da forma como a viol\u00eancia se apresenta em seus filmes. Ela aparece t\u00e3o de repente. Raramente existe uma prepara\u00e7\u00e3o para ela. Ele quer que fiquemos t\u00e3o chocados \u2013 e t\u00e3o atentos \u2013 como ele foi um dia (em Little Italy). \u00c9 a assinatura gravada de sua sensibilidade\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Estou apenas no come\u00e7o do livro (p\u00e1gina 60 de quase 500), mas me impressionou como o medo era um integrante vivo da rotina de Scorsese quando crian\u00e7a, uma crian\u00e7a asm\u00e1tica, o ca\u00e7ula de uma fam\u00edlia numerosa que vivia em um apartamento de dois c\u00f4modos e meio numa rua do bairro italiano (e mafioso) de Nova York \u2013 e que conseguia um pouco de paz apenas dentro de um cinema e da igreja (ele foi coroinha e cogitou ser padre).<\/p>\n<p>Impressionado com a quantidade de vezes que Marty usa a palavra \u201cmedo\u201d (ou equivalentes) em 30 p\u00e1ginas (as que tratam de sua inf\u00e2ncia em Little Italy), comecei a rememorar minha pr\u00f3pria inf\u00e2ncia, olhar para tr\u00e1s para identificar algum sentimento, algo que tenha ficado para tr\u00e1s (an\u00e1lises, ahh, a idade &#8211; risos). N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de comparar, apenas uma curiosidade sobre si mesmo, mas \u00f3bvio que a minha inf\u00e2ncia foi bem mais calma que a do cineasta.<\/p>\n<p>Ainda assim me lembrei de algo que tomou boa parte dos meus primeiros anos \u2013 n\u00e3o sei ao certo de quando a quando, mas me parece algo entre os quatro at\u00e9 os seis (talvez mais tarde, n\u00e3o sei). Mas durante meses (ou anos) eu deitava na cama e me via&#8230; morto. Ok, n\u00e3o me via, mas via o caix\u00e3o, e sabia que eu estava l\u00e1. E sabia que era um eu velhinho, ou seja, n\u00e3o era uma preocupa\u00e7\u00e3o de \u201cposso dormir e n\u00e3o acordar\u201d, mas sim uma preocupa\u00e7\u00e3o&#8230; futura.<\/p>\n<p>A vida era leve nessa \u00e9poca (pais exigentes e carinhosos, futebol com a molecada na rua, n\u00e3o tenho l\u00e1 tantas mem\u00f3rias at\u00e9 a primeira s\u00e9rie, aos 6 anos, quando a vida realmente \u201ccome\u00e7a\u201d), e n\u00e3o sei de onde esse sonho surgiu, e porque me acompanhou tanto tempo, mas um dia do nada ele foi embora (provavelmente trocado pela paix\u00e3o pelo futebol, ou por uma das meninas da sala de primeiro ano, ou, claro, por uma das professoras de catecismo \u2013 t\u00e3o \u00f3bvio). Dos sonhos estranhos&#8230;<\/p>\n<p>Voltando a Scorsese (e 2012), j\u00e1 estou fazendo um planejamento mental de filmes para ver nos pr\u00f3ximos dias. Amo o trist\u00edssimo e dolorido \u201cA \u00c9poca da Inoc\u00eancia\u201d (1993), embora n\u00e3o o veja desde os anos 90. Marty fala muito de \u201cOs Infiltrados\u201d (2006) no come\u00e7o do livro, e deu vontade de rev\u00ea-lo, assim como alguns do come\u00e7o da sua carreira que nunca vi \u2013 &#8220;Quem Bate \u00e0 Minha Porta?&#8221; (1968), \u201cCaminhos Perigosos\u201d (1973) e \u201cAlice N\u00e3o Mora Mais Aqui\u201d (1974).<\/p>\n<p>Outro que at\u00e9 tenho na estante e nunca assisti \u00e9 \u201cO Rei da Com\u00e9dia\u201d (1983), mas quero mesmo rever \u201cGangues de Nova York\u201d (2002 \u2013 na \u00e9poca gostei tanto que escrevi isso <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/outros\/macoito.htm\" target=\"_blank\">aqui<\/a>). Revi \u201cGoodfellas\u201d m\u00eas passado, e \u201cA Cor do Dinheiro\u201d (1986), \u201cTaxi Driver\u201d (1976) e \u201cCassino\u201d (1995) est\u00e3o fresquinhos na mem\u00f3ria (revi os tr\u00eas em 2011). J\u00e1 \u201cA \u00daltima Tenta\u00e7\u00e3o de Cristo\u201d (1988) me venceu duas ou tr\u00eas vezes&#8230;<\/p>\n<p>A leitura est\u00e1 rendendo como h\u00e1 tempos n\u00e3o rendia. Mas ainda tenho os dois Jonathan Safran Foer na fila (e a Nicole Krauss tamb\u00e9m), comprei a cole\u00e7\u00e3o \u201cO Tempo e o Vento\u201d, do \u00c9rico Verissimo, para reler (um dos meus livros preferidos desde sempre) e ainda tenho \u201cEscuta S\u00f3\u201d, do Alex Ross e muitos outros me olhando na estante (Shakespeare e Oscar Wilde pedem aten\u00e7\u00e3o e ainda tem os quatro volumes do&#8230; Marcel Proust). Devagar e sempre.<\/p>\n<param value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/NaXMdr-G5pI\" name=\"movie\"><\/param>\n<param value=\"true\" name=\"allowFullScreen\"><\/param>\n<param value=\"always\" name=\"allowscriptaccess\"><\/param><\/p>\n<p align=\"center\"><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/NaXMdr-G5pI\" allowfullscreen=\"true\" allowscriptaccess=\"always\" height=\"300\" width=\"450\"><\/embed><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Leia o 1\u00ba cap\u00edtulo de &#8220;A Visita Cruel do Tempo&#8221;, de Jennifer Egan (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/02\/14\/primeiro-capitulo-a-visita-cruel-do-tempo\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;O minimalismo e o rock and roll&#8221;, trecho de &#8220;O Resto \u00e9 Ru\u00eddo&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/02\/05\/o-minimalismo-e-o-rock-and-roll\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; De Luis Bu\u00f1uel para Erasmo Carlos (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/03\/25\/de-luis-bunuel-para-erasmo-carlos\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; De volta ao mundo de Rob Fleming (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2009\/11\/23\/de-volta-ao-mundo-de-rob-fleming\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Os filmes prediletos de Woody Allen: 15 americanos, 12 europeus (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2009\/09\/03\/os-filmes-prediletos-de-woody-allen\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2008\/11\/04\/woody-allen-de-0-a-10-atualizado\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cQuem precisa pensar sobre tamanhas bobagens\u201d, Woody Allen (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2009\/09\/15\/quem-precisa-pensar-sobre-tamanhas-bobagens\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Marcos Pacheco Comecei nesta semana a ler o quarto livro do ano, o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 um recorde de muitos anos. 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