{"id":4079,"date":"2011-03-14T23:49:01","date_gmt":"2011-03-15T02:49:01","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/03\/14\/dia-da-poesia\/"},"modified":"2011-03-15T01:17:56","modified_gmt":"2011-03-15T04:17:56","slug":"dia-da-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2011\/03\/14\/dia-da-poesia\/","title":{"rendered":"Dia da Poesia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/davi_mac.jpg\" alt=\"davi_mac.jpg\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 uma caixa em algum lugar no \u201carm\u00e1rio da bagun\u00e7a\u201d com mais ou menos tr\u00eas mil p\u00e1ginas datilografadas (em m\u00e1quina de escrever) de poesias que escrevi entre os 13 e os 30 anos. Era pra ser mais. Aos 15 perdi um caderno que continha umas duzentas tentativas de poemas. Foi \u2013 felizmente. Naquele in\u00edcio, meus textos eram inocentemente piegas. Terr\u00edveis. Coro s\u00f3 de lembrar.<\/p>\n<p>N\u00e3o que os textos da caixa do \u201carm\u00e1rio da bagun\u00e7a\u201d sejam l\u00e1 relevantes, mas gosto de olhar o desenvolvimento da escrita e do pensamento. S\u00e3o todos poemas numerados, e os primeiros, terrivelmente ruins, s\u00f3 persistiram durante tanto tempo para servir de contraponto de amadurecimento (pessoal e liter\u00e1rio) com alguns poemas ali pelo meio que, humildemente, ficaram razoavelmente bons.<\/p>\n<p>Enviei alguns poucos para concursos (animado por leituras de Rainer Maria Rilke), e um deles ficou entre os dez finalistas de um em Ubatuba. \u00c9 uma das noites inesquec\u00edveis da minha vida. Era uma igreja antiga na orla da cidade, e todos os poemas estavam expostos para um bom p\u00fablico que comentava entre si. Li todos, e at\u00e9 achei que eu tivesse chance (e eu devia realmente ter \u2013 meu poema era bom).<\/p>\n<p>Cada finalista deveria ler (ou indicar algu\u00e9m) seu poema. Lembro que fiz uma encena\u00e7\u00e3ozinha para valorizar muito da ironia que aqueles versos continham, mas fui atropelado por uma senhora, uns 60 anos, que leu seu poema (que na parede parecia t\u00e3o sem gra\u00e7a) de maneira t\u00e3o desoladora que foi imposs\u00edvel n\u00e3o chorar. No entanto, o vencedor foi um portugu\u00eas, que por algum motivo estava preso, e foi defender seu poema acompanhado de alguns policiais.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro palavras de seu poema, mas ele falava sobre as saudades que ele sentia de sua terra natal. Nunca vou esquecer que ele come\u00e7ou sua declama\u00e7\u00e3o assoviando o hino portugu\u00eas. Naquela igreja, naquele sil\u00eancio, n\u00e3o precisou muito para fazer quase todo mundo chorar. Ele ganhou o primeiro pr\u00eamio. Eu fiquei em quinto (acho). Dormi na praia admirando o mar e o barulho das ondas.<\/p>\n<p>Outra lembran\u00e7a boa. Numa Semana da Comunica\u00e7\u00e3o, na Universidade de Taubat\u00e9, decidimos montar uma sala com varais de poesia, e quem quisesse poderia colocar textos seus ali. Para incentivar, eu e mais alguns estendemos poemas aqui e ali. Haviam cartolinas em branco presas pela sala, caso algu\u00e9m quisesse deixar algum recado. Numa delas algu\u00e9m que assinava apenas com as iniciais dizia que tinha \u201croubado\u201d um poema meu do varal, porque&#8230; precisava dele. Tenho a cartolina em algum lugar&#8230;<\/p>\n<p>\u00daltima. 1999 ou 2000 (a foto que abre o post). Mostra de Cultura Independente, em S\u00e3o Paulo, um evento grande que movimentou a Funarte. O pessoal do Cardosonline estava por aqui. O Thee Butchers&#8217; Orchestra fez um show foda\u00e7o no teatro. Eu \u2013 ao lado da Alessandra (uma amiga com quem troquei poesias durante muuuito tempo) e do Davi (que, se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, estava dividido entre tocar viol\u00e3o e um copo) \u2013 declamei uma sele\u00e7\u00e3o de poemas meus intercalados com alguns da Ale e outros escolhidos a dedo (com \u201cAtmosphere\u201d, do Joy Division).<\/p>\n<p>Para o trecho final, separei um cavalo de batalha que eu j\u00e1 tinha usado em um trabalho da faculdade: \u201cOs Prov\u00e9rbios do Inferno\u201d, de William Blake. Um amigo, Cezar Zanin, estava filmando, e ao final da declama\u00e7\u00e3o, quando ele veio me cumprimentar, seu filho pequeno, assustado e cabisbaixo, dizia ao pai: \u201cEle mata criancinhas\u201d (em alus\u00e3o ao verso de Blake que diz: \u201cMelhor matar uma crian\u00e7a no ber\u00e7o do que acalentar desejos insatisfeitos\u201d). Rimos e o acalmamos, mas ele ficou olhando suspeito para mim toda a tarde.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro ao certo qual foi a \u00faltima vez que escrevi uma poesia. Deve fazer uns oito ou dez anos, e alguns textos sobre discos e filmes at\u00e9 se aproximaram de um verniz po\u00e9tico. Da mesma forma, parei de ler poesia. Amo Ana Cristina Cesar, os primeiros anos de Vinicius, Guilherme de Almeida, v\u00e1rios sonetos de Shakespeare, Rainer Maria Rilke, Drummond, Blake e Maiakovski. Tenho um Borges que comprei uns seis anos atr\u00e1s, e nunca li. E tentei Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, mas faltava algo. Talvez sangue. Sei l\u00e1.<\/p>\n<p>De qualquer forma, n\u00e3o me vejo escrevendo poesia hoje em dia. Talvez, um dia, quem sabe, eu invista minha loucura em um romance, mas \u00e9 imposs\u00edvel garantir qualquer coisa sobre esse prop\u00f3sito. No entanto, vez em quando, volto aos meus poemas antigos, e eles me consolam. H\u00e1 dias em que os odeio ferozmente. Detesto as cita\u00e7\u00f5es, as rimas, tudo. Em outros aceito grande parte deles com carinho (e respeito por seus &#8211; e meus &#8211; prov\u00e1veis defeitos). \u00c9 quase certo que, um dia, eu fa\u00e7a um ritual e coloque fogo em cada p\u00e1gina (acalanto esta id\u00e9ia desde os 15 anos).<\/p>\n<p>Por enquanto, meus mais terr\u00edveis escritos permanecem escondidos na caixa no arm\u00e1rio aguardando o ju\u00edzo final. Alguns sortudos \u2013 menos piores \u2013 foram publicados <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/pms_cnts\/outrospoemasmarcelo.html\">aqui<\/a>. Outros circularam por diversos fanzines (n\u00e3o lembro quais e muitos vezes me surpreendo quando esbarro sem querer em um). E um deles virou m\u00fasica. Essa <a href=\"http:\/\/tramavirtual.uol.com.br\/musica\/tocar\/297989\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>. Indiferente aos seus destinos, todos eles tiveram uma fun\u00e7\u00e3o bastante importante em minha hist\u00f3ria: mantiveram-me vivo.<\/p>\n<p>Um bom motivo para brindar ao Dia da Poesia.<\/p>\n<p>E para ler Manoel de Barros&#8230; afinal&#8230; &#8220;<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/pms_cnts\/manoeldebarros.htm\">por pudor sou impuro<\/a>&#8220;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma caixa em algum lugar no \u201carm\u00e1rio da bagun\u00e7a\u201d com mais ou menos tr\u00eas mil p\u00e1ginas datilografadas (em m\u00e1quina de escrever) de poesias que escrevi entre os 13 e os 30 anos. Era pra ser mais. Aos 15 perdi um caderno que continha umas duzentas tentativas de poemas. Foi \u2013 felizmente. Naquele in\u00edcio, meus [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4079"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4079"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4079\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4079"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4079"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}